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Full text of "A ilustre casa de Ramires"

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/r^ 


A    ILLUSTRE 


CASA    DE    RAMIRES 


Obras  do  mesmo  auctor; 


Revista  de  Portugal.  4  grossos  volumes 12s000 

As  Minas  de  Salomão.  1  volume ^     .     .     .  600 

Os  Maias,  i  grossos  volumes 2$000 

O  Crime  do  Padre  Amaro.  Terceira  edição  inteira-mente  re- 
fundida, recomposta,  e  differente  na  forma  e  na  acção 

da  edição  primitiva.  1  grosso  volume 1S200 

O  Primo  Bazilio.  Terceira  edição.  1  grosso  volume  .     .     .  1$000 

A  Relíquia.  1  grosso  volume líOOO 

O  Mandarim.  Quarta  edição.  1  volume 500 

Correspondência  de  Fradique  Mendes.  1  volume 600 

Xo  prelo: 
A  Cidade  e  as  Serras. 


Eça   de  Queiroz 


A  ILLUSTRE 


Casa  de  Ramires 


PORTO 
LIVRARIA   CHARDRON 

De  Lello  d  Irniãn,  editores 
1900 


Pertence  no  Brazil  o  direito  ce  propriedade  d'esta  obra  ao 
cidadão  Francisco  Alves,  livreiro  editor  no  Rio  de  Janeiro,  que, 
para  a  garantia  que  lhe  offerece  a  lei  n.°  496  de  1  d"  A  gosto  de 
1898,  fez  o  competente  deposito  na  Bibliotheca  nacional,  segun- 
do a  determinação  do  art.  13. ""  da  mesma- Lei. 


Porto  —  1  mprensa  Moderna 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Desde  as  quatro  horas  da  tarde,  no  calor  e  si- 
lencio do  domingo  de  Junho,  o  Fidalgo  da  Torre,  em 
chinellos,  com  uma  quinzena  de  linho  envergada  so- 
bre a  camisa  de  chita  còr  de  rosa,  trabalhava.  Gon- 
çalo !Mendes  Ramires  (que  n'aquella  sua  velha  aldèa 
de  Santa  Ireneia,  e  na  villa  visinha,  a  aceada  e  vis- 
tosa Villa-Clara,  e  mesmo  na  cidade,  em  Oliveira, 
todos  conheciam  pelo  «Fidalgo  da  Torre»)  trabalhava 
n"uma  Novella  Histórica,  A  Torre  de  D.  RamireS; 
destinada  ao  primeiro  numero  dos  Annaes  de  Lit- 
teratura  e  de  Historia,  Revista  nova,  fundada  por 
José  Lúcio  Castanheiro,  seu  antigo  camarada  de  Coim- 
bra, nos  tempos  do  Cenáculo  Patriótico,  em  casa  das 
Severinas. 


A    ILUSTRE   CASA    DE   HAMIRES 


A  livraria,  clara  e  larga,  cscaiolada  d'azul,  com 
pesadas  estantes  de  pau  preto  onde  repousavam,  no 
pó  e  na  gravidade  das  lombadas  de  carneira,  grossos 
fólios  de  convento  e  de  íòro,  respirava  para  o  pomar 
por  duas  janellas,  uma  de  peitoril  e  poiaes  de  pedra 
almofadados  de  velludo,  outra  mais  rasgada,  de  va- 
randa, frescamente  perfumada  pela  madresilva  que  se 
enroscava  nas  grades.  Deante  d'essa  varanda,  na 
claridade  forte,  pousava  a  mesa  —  mesa  imniensa  de 
p(''s  torneados,  coberta  com  uma  colcha  desbotada 
de  damasco  vermelho,  e  atravancada  n'essa  tarde 
pelos  rijos  volumes  da  Historia  Genealógica,  todo  o 
Vocabulário  de  Rluteau,  tomos  soltos  do  Panorama, 
o  ao  canto,  em  pilha,  as  obras  de  Walter  Scott  sus- 
tentando um  copo  cheio  de  cravos  amarellos.  E  d*ahi, 
da  sua  cadeira  de  couro,  ílonçalo  Mendes  Kamires, 
pensativo  deante  das  tiras  de  papel  almaço,  roçando 
pela  testa  a  rama  da  penna  de  pato,  avistava  sempre 
a  inspiradora  da  sua  Novella,  —  a  Torre,  a  antiquis- 
sima  Torre,  quadrada  e  negra  sobre  os  limoeiros  do 
pomar  que  era  redor  crescera,  com  uma  pouca  d*hera 
no  cunhal  rachado,  as  fundas  frestas  gradeadas  de 
ferro,  as  ameias  e  a  miradoira  bem  cortadas  no  azul 
de  .lunho,  robusta  sobrevivência  do  Paço  acastellado. 
(la  fallada  Honra  de  8anta  Ireneia.  solar  dos  Mendes 
riamires  desde  os  melados  do  século  X. 

(V)nçal()  Mendes  liamlros  (como  confessava  esse 


A   IIJ.rSTHE   C.VS.V   DE   RAMIRES 


severo  genealogista,  o  morgado  de  Cidadelhe)  era 
certamente  o  mais  genuino  e  antigo  fidalgo  de  Por- 
tugal. Raras  lamilias,  mesmo  coevas,  poderiam  traçar 
a  sua  ascendência,  por  linha  varonil  e  sempre  pura, 
até  aos  vagos  Senhores  que  entre  Douro  e  Minho 
mantinham  castello  e  terra  murada  quando  os  barões 
francos  desceram,  com  pendão  e  caldeira,  na  hoste 
do  Borguinhâo.  E  os  Ramires  entroncavam  limpida- 
mente a  sua  casa.  por  linha  pura  e  sempre  varonil, 
no  filho  do  Conde  Nuno  :\íendes,  aquelle  agigantado 
Ordonho  Mendes,  senhor  de  Treixedo  e  de  Santa 
Ireneia,  que  casou  em  967  com  Dona  Elduara,  Con- 
dessa de  Carrion,  filha  de  Bermudo  o  Gotto^o,  Rei 
de  Leão. 

Mais  antigo  na  Hespanha  que  o  Condado  Portu- 
calense, rijamente,  como  elle,  crescera  e  se  afamara 
o  Solar  de  Santa  Ireneia — resistente  como  elle  ás  for- 
tunas e  aos  tempos.  E  depois,  em  cada  lance  forte  da 
Historia  de  Portugal,  sempre  um  ^lendes  Ramires 
avultou  grandiosamente  pelo  heroísmo,  pela  lealdade, 
pelos  nobres  espíritos.  Um  dos  mais  esforçados  da  li- 
nhagem, Lourenço,  por  alcunha  o  Cortador,  collaço  de 
Affonso  Henriques  (com  quem  na  mesma  noite,  para 
receber  a  pranchada  de  cavalleiro,  vellára  as  armas 
na  Sé  de  Zamora),  apparece  logo  na  batalha  d'Ou- 
rique,  onde  também  avista  Jesus-Christo  sobre  finas 
nuvens  d"ouro,  pregado  numa  cruz  de  dez  covados. 


I.r.lSTUK    CASA   DE   RA.MIliKS 


No  cerco  de  Ta^■i^a,  !Maitim  Ramires,  íreire  de  San- 
ThiagO;  arromba  a  golpes  de  acha  um  postigo  da 
Couraça,  rompe  por  entre  as  cimitarras  que  lhe  de- 
cepam as  duas  mãos,  e  surde  na  quadrella  da  torre 
albarran,  com  os  dous  pulsos  a  esguichar  sangue, 
bradando  alegremente  ao  IMestre: — «D.  Payo  Peres, 
Tavira  é  nossa !  Real,  Real  por  Portugal ! »  O  velho 
Egas  Ramires,  fechado  na  sua  Torre,  com  a  levadiça 
erguida,  as  barbacans  erriçadas  de  frecheiros,  nega 
acolhida  a  El-Rei  D.  Fernando  e  Leonor  Telles  que 
corriam  o  Norte  em  folgares  e  caçadas — para  que  a 
presença  da  adultera  nâo  macule  a  pureza  extreme 
do  seu  solar!  Em  Aljubarrota,  Diogo  Ramires  o  Tro- 
vador desbarata  um  troço  de  besteiros,  mata  o  Adian- 
tado-mór  de  Galliza,  e.por  elle.  nâo  por  outro,  cahe 
derribado  o  pendão  real  de  Castella,  em  que  ao  fim 
da  lide  seu  irmão  d'armas,  D.  Antão  d' Almada,  se 
embrulhou  para  o  levar,  dançando  e  cantando,  ao 
Mestre  d"Aviz.  Sob  os  muros  d'Arzilla  combatem 
magnificamente  dois  Ramires,  o  edoso  Sueiro  e  seu 
neto  Fernão,  e  deante  do  cadáver  do  velho,  trespas- 
sado por  quatro  virotes,  estirado  no  pateo  da  Alcá- 
çova ao  lado  do  corpo  do  Conde  de  Marialva  —  Af- 
tbnso  V  arma  juntamente  cavalleiros  o  Príncipe  seu 
filho  e  Fernão  Ramires,  murmurando  entre  lagrimas: 
«Deus  vos  queira  tão  bons  como  esses  que  ahi  ja- 
zem!...») ;Mas  eis  que  Portugal  se  faz  aos  mares!  E 


A  ir.i.i  sTíiK  CASA  ni-:  r>\.\imF.s 


raras  são  então  as  armadas  e  os  combates  de  Oriente 
em  que  se  não  estorce  um  Ramires  —  ficando  na  len- 
da tragico-maritima  aquelle  nobre  capitão  do  Golpho 
Pérsico,  Ralthazar  Ramires,  que,  no  naufrágio  da 
Santa  Barbara,  reveste  a  sua  pesada  armadura,  e  no 
castello  de  proa,  hirto,  se  afunda  em  silencio  cora  a 
náu  que  se  afunda,  encostado  á  sua  grande  espada. 
Em  AIcacer-Kebir,  onde  dous  Ramires  sempre  ao 
lado  d'El-Rei  encontram  morte  soberba,  o  mais  no- 
vo, Paulo  Ramires,  pagem  do  Guião,  nem  lezo  nem 
ferido,  mas  não  querendo  mais  vida  pois  que  El-Rei 
não  vivia,  colhe  um  ginete  solto,  apanha  uma  acha 
d'armas,  e  gritando:— «Vai-te,  alma,  que  já  tar- 
das, servir  a  de  teu  senhor!»  —  entra  na  chusma 
mourisca  e  para  sempre  desapparece.  Sob  os  Phi- 
lippes,  os  Ramires,  amuados,  bebem  e  caçam  nas 
suas  terras.  Reapparecendo  com  os  Braganças,  ura 
Ramires,  Vicente,  Governador  das  Armas  d'Entre- 
Douro  e  Minho  por  D.  João  IV,  raette  a  Castella, 
destroça  os  Hespanhoes  do  Conde  de  Venavente,  e 
toma  Fuente-Guifial.  a  cujo  furioso  saque  preside 
da  varanda  d" um  Convento  de  Franciscanos,  em 
mangas  de  camisa,  comendo  talhadas  de  melancia. 
Já.  porém,  como  a  nação,  degenera  a  nobre  raça... 
Álvaro  Ramires,  valido  de  D.  Pedro  lí;  brigão  faça- 
nhudo,  atordoa  Lisboa  cora  arruaças,  íurta  a  mulher 
d'um  Vedor  da  Fazenda  que  mandara  matar  a  pau- 


A   ILLISTHE    CASA   DE   RAMIRES 


ladas  por  pretos,  incendeia  em  Sevilha  depois  de  per- 
der cem  dobrões  uma  casa  de  tavolagem,  e  termina 
por  commandar  uma  urca  de  piratas  na  frota  de 
Murad  o  Multraptllio.  No  reinado  do  Sr.  D.  João  ^' 
Nuno  Ramires  brilha  na  Corte,  ferra  as  suas  mulas 
de  prata,  e  arruina  a  casa  celebrando  sumptuosas 
festas  de  Egreja,  em  que  canta  no  coro  vestido  com 
o  habito  de  Irmão  Terceiro  de  S.  Francisco.  Outro 
Ramires,  Christovam,  Presidente  da  Mesa  de  Con- 
sciência e  Ordem,  alcovita  os  amores  d'el-rei  D.  José  I 
com  a  filha,  do  prior  de  Sacavém.  Pedro  Ramires, 
Provedor  e  Feitor-mór  das  Alfandegas,  ganha  fama 
em  todo  o  Reino  pela  sua  obesidade,  a  sua  chalaça, 
as  suas  proezas  de  glutão  no  Paço  da  Bemposta  com 
o  arcebispo  de  Thessalonica.  ígnacio  Ramires  acom- 
panha D.  João  VI  ao  Brazil  como  Reposteiro-IVIór. 
negoceia  em  negros,  volta  com  um  bahíi  carregado 
de  peças  d'ouro  que  lhe  rouba  um  administra- 
dor, antigo  frade  capuchinho,  e  morre  na  seu  solar 
da  cornada  de  um  boi.  O  avô  de  Gonçalo,  Damião, 
doutor  liberal  dado  ás  Musas,  desembarca  com 
1).  Pedro  no  Mindello,  compõe  as  empoladas  procla- 
mações do  Partido,  funda  um  jornal,  o  Anti-Frade, 
e  depois  das  Guerras  Civis  arrasta  uma  existência 
rheumatica  em  Santa  Ireneia,  embrulhado  no  seu 
capotão  de  briche,  traduzindo  para  vernáculo,  com 
um  lexicon  e  um  pacote  de  simonte,  as  obras  de  Va- 


A    ILI.[  STliK    CASA    DK   IJAMIRES 


lerius  Flaccus.  O  pae  de  Gonçalo,  ora  Regenerador, 
ora  Histórico,  vivia  em  Lisijoa  no  Hotel  Universal, 
gastando  as  solas  pelas  escadarias  do  Banco  Hypo- 
thecario  e  pelo  lagedo  da  Arcada,  até  que  um  Mi- 
nistro do  Iieino,  cuja  concubina,  corista  de  S.  Carlos, 
elle  fascinara,  o  nomeou,  (para  o  afastar  da  Capital) 
Governador  Civil  de  Oliveira.  Gonçalo,  esse,  era  l)a- 
charel  formado  com  um  li  no  terceiro  anno. 

E  n'esse  anno  justamente  se  estreou  nas  Lettras 
Gonçalo  Mendes  Ramires.  Um  seu  companheiro  de 
casa,  José  Lúcio  Castanheiro,  algarvio  muito  magro, 
muito  macilento,  de  enormes  óculos  azues,  a  quem 
Simão  Craveiro  ''chamava  o  « Castanheiro  Patrioti- 
nheiro»,  fundara  um  Semanário,  a  Pátria  —  «com 
o  alevantado  intento  (affh-mava  sonoramente  o  Pros- 
pecto) de  despertar,  não  só  na  mocidade  Académica, 
mas  em  todo  o  paiz,  do  cabo  Silleiro  ao  cabo  de 
Santa  Maria,  o  amor  tão  arrefecido  das  bellezas, 
das  grandezas  e  das  glorias  de  Portugal!»  Devorado 
por  essa  idéa,  «a  sua  Idéa»,  sentindo  n'ella  uma 
carreira,  quasi  uma  missão.  Castanheiro  incessan- 
temente, com  ardor  teimoso  de  Apostolo,  clamava 
pelos  botequins  da  Sophia,  pelos  claustros  da  Uni- 
versidade, pelos  quartos  dos  amigos  entre  a  fumaça 
dos  cigarros,— «a  necessidade,  caramba,  de  reatara 
tradição!  de  desatulhar,  caramba,  Portugal  da  allu- 
vião  do  estrangeirismo!»  —  Como  o  Semanário  ap- 


.V   ILLISTRE   CASA   DE   RAMIRES 


pareceu  regularmente  durante  três  Domingos,  e  pu- 
blicou realmente  estudos  recheiados  de  griphos  e  ci- 
tações sobre  as  Capellas  da  Batalha,  a  Tomada  d'Or- 
inuz,  a  Embaixada  de  Trintão  da  Cunha,  começou 
logo  a  ser  considerado  uma  aurora,  ainda  pallida  mas 
segura,  de  Renascimento  Nacional.  E  alguns  bons  es- 
píritos da  Academia,  sobretudo  os  companheiros  de 
casa  do  Castanheiro,  os  três  que  se  occupavam  das 
cousas  do  saber  e  da  intelligencia  (porque  dos  três 
restantes  um  era  homem  de  cacete  e  forças,  o  outro 
guitarrista,  e  o  outro  «premiado»),  passaram,  aqueci- 
dos por  aquella  chamma  patriótica,  a  esquadrinhar  na 
Bibliotheca,  nos  grossos  tomos  nunca  d'antes  visi- 
tados de  Fernam  Lopes,  de  Ruy  de  Pina,  dWz.urara. 
proezas  e  lendas — «só  portuguezas,  só  nossas  (como 
supplicava  o  Castanheiro),  que  refizessem  á  nação 
abatida  uma  consciência  da  sua  heroicidade!»  As- 
sim crescia  o  Cenáculo  Patriótico  da  casa  das  Seve- 

1^  rinas.  E  fòi  então  que  Gonçalo  Mendes  Ramires,  moço 
muito  affavel,  esvelto  e  loiro,  d'uma  brancura  sâ  de 
porcelana,  com  uns  finos  e  risonhos  olhos  que  fa- 
cilmente se  enterneciam,  sempre  elegante  e  apurado 
na  batina  e  no  verniz  dos  sapatos — apresentou  ao 
Castanheiro,  n'um  domingo  depois  do  almoço,  onze  ti- 

t  ras  de  papel  intituladas  D.  Guiomar.  N'ellas  se  con- 
tava a  velhíssima  historia  da  castellâ,  que,  emquanto 
longe  nas  guerras  do  Ultra-mar  o  castellâo  barbudo 


A   ILLISTRK    CASA   1)K   UAMIUKS 


('  cingido  de  ferro  atira  a  acha-d'armas  ás  portas  de 
.Icriisalom,  recebe  ella  na  sua  camará,  com  os  braços 
nús.  por  noite  de  Maio  e  de  lua,  o  pagem  de  annel- 
lados  cabellos...  Depois  ruge  o  inverno,  o  castellâo 
\olta,  mais  ])arbudo,  com  um  bordão  de  romeiro. 
Pelo  villico  do  Castello,  homem  espreitador  e  de  amar- 
gos  sorrisos,  conhece  a  traição,  a  macula  no  seu  nome 
lâa  puro,  honrado  em  todas  as  Hespanhas!  E  ai  do 
pagem !  ai  da  dama !  Logo  os  sinos  tangem  a  finados, 
.lá  no  patim  da  Alcáçova  o  verdugo,  de  capuz  escar- 
late, espera,  encostado  ao  machado,  entre  dous  cepos 
cobertos  de  pannos  de  dó...  E  no  final  choroso  da 
If.  Cufo/nai-j  como  em  todas  essas  historias  do  Ro- 
manceiro d'Amor,  também  brotavam  rente  ás  duas 
sepulturas,  escavadas  no  ermo,  duas  roseiras  brancas 
a  que  o  vento  enlaçava  os  aromas  e  as  rosas.  Ue  sorte 
que  (como  notou  José  Lúcio  Castanheiro,  coçando  pen- 
sativamente o  queixo)  não  resaltava  n'esta  D.  Guio- 
nmr  nada  que  íosse  «só  portuguez,  só  nosso,  abro- 
lhando do  solo  e  da  raça!»  Mas  esses  amores  lamen- 
tosos passavam  n*um  solar  de  Riba-Côa:  os  nomes  dos 
cavalleiros,  Remarigues,  Ordonho,  Froylas,  Gutierres, 
tinham  um  delicioso  sabor  godo :  em  cada  tira  resoa- 
vam  bravamente  os  genuínos :  «  Bofú ! ...  Mentes  pela 
iiorja ! ...  Pagem,  o  meu  murzello .'...»:  e  através  de 
ioda  esta  vernaculidade  circulava  uma  sufficiente 
lurba  de  cavallaricos  com  saios  alvadios,  beguinos 


10  A   ILLlSTlíE    CASA   DE   RAMIUES 


sumidos  na  sombra  das  engulas,  ovençaes  sopezando 
fartas  bolsas  de  couro,  uchòes  espostejando  nédios 
lombos  de  cerdo ...  A  Novella  portanto  marcava  um 
salutar  retrocesso  ao  sentimento  nacional. 

—  E  depois  (accrescentava  o  Castanheiro)  este 
velhaco  do  Gonçalinho  surde  com  um  estylo  terso, 
másculo,  de  boa  côr  archaica...  l)"optima  cor  ar- 
chaica!  Lembra  até  o  Bobo,  o  Monge  de  Cister!... 
A  Guiomar,  realmente,  é  uma  castellã  vaga.  da  Bre- 
tanha ou  da  Aquitania.  !IMas  no  villico,  mesmo  no 
castellâo,  já  transparecem  portuguezes,  bons  portu- 
guezes  de  fibra  e  d'alma,  d"entre  Douro  e  Cavado . . . 
Sim  senhor !  Quando  o  Gonçalinho  se  enfronhar  den- 
tro do  nosso  passado,  das  nossas  chronicas,  temos  em- 
fim  nas  Lettras  um  hoiiiem  que  sente  biun  o  torrão, 
sente  bem  a  raça ! 

D.  Guiomar  encheu  três  paginas  da  Pátria. 
N'esse  Domingo,  para  celebrar  a  sua  entrada  na  Litte- 
ratura,  Gonçalo  Mendes  Tiamires  pagou  aos  camara- 
das do  Cenáculo  e  a  outros  amigos  uma  ceia  —  ondr 
íoi  acclaraado,  logo  depois  do  frango  com  ervilhas. 
quando  os  moços  do  Camolino,  esbaforidos,  renova- 
vam as  garrafas  de  Collarcs,  como  «o  nosso  Walter 
Scott ! »  Elle,  de  resto,  annunciára  já  com  simplici- 
dade um  Romance  em  dois  volumes,  fundado  nos 
annaes  da  sua  Casa,  n'um  rude  fcíito  de  sublime  or- 
gulho de  Tructesindo  ^lendes  Ramires,   o  amigo  e 


A   ILUSTRE    CASA   DK   RAMIRES  11 


Alfores-mór  de  D.  Sancho  I.  Por  temperamento,  por 
aquelle  saber  especial  de  trajes  e  alfaias  que  reve- 
lara na  D.  Guiomar,  até  pela  antiguidade  da  sua 
linhagem,  Gonçalinho  parecia  gloriosamente  votado  a 
restaurar  em  Portugal  o  Piomance  Histórico.  Possuía 
uma  missão  —  e  começou  logo  a  passear  pela  Calçada, 
pensativo,  com  o  gorro  sobre  os  olhos,  como  quem 
anda  reconstruindo  um  mundo.  No  acto  d"esse  anno 
levou  o  Pi. 

Quando  regressou  das  ferias  para  o  Quarto-Anno 
já  não  refervia  na  rua  da  Mathematica  o  Cenáculo  ar- 
dente dos  Patriotas.  O  Castanheiro,  formado,  vegetava 
em  Villa  Real  de  Santo  António :  com  elle  desappa- 
recera  a  Pátria :  e  os  moços  zelosos  que  na  Biblio- 
theea  esquadrinhavam  as  Chronicas  de  Fernam  Lo- 
pes e  de  Azurara,  desamparados  por  aquelle  Apostolo 
que  os  levantava,  recahiram  nos  romances  de  Georges 
Ohnet  e  retomaram  á  noite  o  taco  nos  bilhares  da 
Sophia.  Gonçalo  voltava  também  mudado,  de  luto 
pelo  pae  que  morrera  em  Agosto,  com  a  barba  cres- 
cida, sempre  affavel  e  suave,  porém  mais  grave, 
averso  a  ceias  e  a  noites  errantes.  Tomou  um  quarto 
no  Hotel  Mondego,  onde  o  servia,  de  gravata  branca, 
um  velho  creado  de  Santa  Ireneia,  o  Bento: — e  os 
seus  companheiros  preferidos  foram  três  ou  quatro 
rapazes  que  se  preparavam  para  a  Politica,  folhea- 
vam attentamente  o  Diário  das  Camarás,  conheciam 


lá  ■       A   II.LrSTIÍí:    CASA    DK   RAMIRES 


alguns  enredos  da  Corte,  proclamavam  a  necessidade 
d'iima  «Orientação  positiva»  e  d'um  «largo  fomento 
rural»,  consideravam  como  leviandade  reles  e  ja- 
cobina a  irreverência  da  Academia  pelos  Dogmas,  e, 
mesmo  passeando  ao  luar  no  Choupal  ou  no  Penedo 
da  Saudade,  discorriam  com  ardor  sobre  os  dous 
Chefes  de  Partido  —  o  Braz  Victorino,  o  homem  novo 
dos  Regeneradores,  e  o  velho  Barão  de  S.  Fulgençio, 
chefe  clássico  dos  Históricos,  inclinado  para  os  Re- 
generadores, por  que  a  Regeneração  lhe  representava 
tradicionalmente  idéas  de  conservantismo,  de  elegância 
culta  e  de  generosidade,  Gonçalo  frequentou  então  o 
Centro  Regenerador  da  Couraça,  onde  aconselhava  á 
noite,  tomando  chá  preto,  «o  fortalecimento  da  aucto- 
ridade  da  Coroa»,  e  «uma  forte  expansão  colonial!» 
Depois,  logo  na  Primavera,  desmanchou  alegremente 
esta  gravidade  politica:  e  ainda  tresnoitou,  na  taberna 
do  Camolino,  em  bacalhoadas  festivas,  entre  o  estridor 
das  guitarras.  ^las  não  alludio  mais  ao  seu  grande 
Romance  em  dous  volumes  :  e  ou  recuara  ou  se  es- 
quecera da  sua  missão  d"Arte  Histórica.  Realmente 
só  na  Paschoa  do  Quinto-Anno  retomou  a  penna  — 
para  lançar,  na  Gazeta  do  Porto,  contra  um  seu  pa- 
trício, o  Dr.  André  Cavalleiro.  que  o  [Ministério  do 
S.  Fulgençio  nomeara  Governador  civil  de  Oliveira, 
duas  correspondências  muito  acerbas,  d'um  rancor 
intenso   e  pessoal,  (a  ponto  de  chasquear  « a  feroz 


A   ILLlSTlíK    CASA    DE   UAMlllES  l.'í 


l)igodeira  ne<?ra  de  S.  Ex.'* » ).  Assignara  Juvenal, 
como  outr'ora  o  pae,  quando  publicava  commiini- 
cados  políticos  d'01iveira  n"essa  mesma  Gazeta  do 
Povlo,  jornal  amigo,  onde  um  Vlllar  Mondes,  seu 
remoto  parente,  redigia  a  Revinta  Estrangeira.  Mas 
Irra  aos  amigos  no  Centro— ^( os  dous  botes  decisivos 
que  atirariam  o  Sr.  Cavalleiro  abaixo  do  seu  Cavai- 
lo ! »  E  um  d'esses  moços  sérios,  sobrinho  do  Bispo 
de  Oliveira,  não  disfarçou  o  seu  assombro: 

—  Oli  Gonçalo,  eu  sempre  pensei  que  você  e  o 
Cavalleiro  eram  Íntimos!  Se  bem  me  lembro  quando 
voct''  chegou  a  Coimbra,  para  os  Preparatórios,  viveu 
na  casa  do  Cavalleiro,  na  rua  de  S.  João...  Pois  não 
ha  uma  amizade  tradicional,  quasi  histórica,  entro 
Kamires  e  Cavalleiros  ? . . .  Pai  pouco  conheço  Oliveira, 
nunca  andei  para  os  vossos  sitios;  mas  até  creio  que 
Corinde.  a  quinta  do  Cavalleiro.  pega  com  Santa 
íreneia ! 

E  Conçalo  enrugou  a  face,  a  sua  risonha  e  lisa 
face,  para  declarar  seccamente  que  Corinde  não  pe- 
gava com  Santa  Íreneia  :  que  entre  as  duas  terras 
corria  muito  justificadamente  a  ribeira  do  Coice:  e 
que  o  Sr.  André  Cavalleiro.  e  sobre  tudo  Cavallo, 
era  um  anima!  detestável  que  pastava  na  outra 
margem!  —  O  sobrinho  do  Bispo  saudou  e  exclamou : 

—  Sim  senhor,  boa  piada! 

Um  anno  depois  da  Formatura,   Gonçalo  íoi  a 


14  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Lisl)oa  por  causa  da  hypotheca  da  sua  quinta  de 
Praga,  junto  a  Lamego,  que  certo  foro  annual  de  dez 
réis  e  meia  gallinha,  devido  ao  Abbade  de  Praga, 
andava  empecendo  terrivelmente  nos  Conselhos  do 
Banco  Ilypotíiecario : — e  também  para  conhecer  mais 
estreitamente  o  seu  Cheíe,  o  Braz  Victorino,  mostrar 
lealdade  e  submissão  partidária,  colher  algum  fino 
conselho  de  conducta  Politica.  Ora  uma  noite,  vol- 
tando de  jantar  em  casa  da  velha  Marqueza  de  Lou- 
redo,  a  «tia  Louredo»,  que  morava  a  Santa  Clara, 
esbarrou  no  Rocio  com  José  Lúcio  Castanheiro,  en- 
tão empregado  no  Ministério  da  Fazenda,  na  repar- 
tição dos  Próprios  Nacionaes.  Mais  defecado,  mais 
macilento,  com  uns  óculos  mais  largos  e  mais  tene- 
brosos, o  Castanheiro  ardia  todo,  como  em  Coimbra, 
ha  cliamma  da  sua  ídéa  — «a  resurrciçâo  do  senti- 
mento portuguez!»  E  agora,  alariíando  a  proporções 
condignas  da  Capital  o  plano  da  Pátria,  labutava 
devoradoramente  na  creação  d'unia  ilevista  quinze- 
nal, de  setenta  paginas,  com  capa  azul,  os  Annaes 
de  Litteratura  e  de  Historia.  Era  uma  noite  de 
Maio,  macia  e  quente.  E,  passeando  ambos  em  torno 
das  fontes  seccas  do  Rocio,  Castanlieiro,  que  sobra- 
çava um  rolo  de  papel  e  um  gordo  folio  encaderna- 
do em  bezerro,  depois  de  recordar  as  cavaqueiras 
geniaes  da  rua  da  IMisericordia,  de  maldizer  a  falta 
de  intellectualidade  de  Villa  Real  de  Santo  António 


V  Il.l.rSTHK  CASA  DE  HAMIliKS 


—  voltou  sofregamente  ;i  sua  Idéa,  e  supplicou  a 
Oonçalo  !Mendes  Ramires  que  lhe  cedesse  para  os 
Annaes  esse  Romance  que  elle  annunciára  em  Coim- 
bra, sobre  o  seu  avoengo  Tructesindo  Ramires,  Âl- 
feres-mór  de  Sancho  í. 

Gonçalo,  rindo,  confessou  que  ainda  não  come- 
çara essa  grande  obra ! 

—  Ah!  murmurou  o  Castanheiro,  estacando,  com 
os  negros  óculos  sobre  elle,  duros  e  desconsolados. 
Então  voct'  não  persistio?...  Não  permaneceu  íiel  d 
Idéa?... 

Encolheu  -os  hombros,  resignadamente,  já  acos- 
tumado, atravez  da  sua  missão,  a  estes  desfallecimen- 
tos  do  Patriotismo.  Nem  consentio  que  Gonçalo,  hu- 
milhado perante  aquella  Fé  que  se  mantivera  tão 
pura  e  servidora  —  alludisse,  como  desculpa,  ao  in- 
ventario laborioso  da  Casa,  d(>pois  da  morte  do  papá... 

—  Bem.  bem!  Acabou!  Proscratinare  luzitanum 
esl.  Trabalha  agora  no  verão...  Para  Portuguezes, 
menino,  o  verão  é  o  tempo  das  bellas  fortunas  e  dos 
rijos  leitos.  Xo  verão  nasce  Nun' Alvares  no  Bomjar- 
dim !  No  verão  se  vence  em  Aljubarrota!  No  verão 
chega  o  Gama  á  índia!...  E  no  verão  vae  o  nosso 
Gonçalo  escrever  uma  novellasinha  sublime!...  De 
resto  os  Animes  só  apparecem  em  Dezembro,  cara- 
cteristicamente no  Primeiro  de  Dezembro.  E  você  em 
três  mezes  resuscita  um  mundo.  Serio,  Gonçalo  Men- 


16  A  ILLl  STKK  CASA  DK  KAMIKES 


des  ! . . .  É  um  dever,  um  santo  dever,  sobretudo  para 
os  novos,  collaborar  nos  Aniiaes.  Portugal  menino, 
morre  por  falta  de  sentimento  nacional !  Nós  estamos 
immundameute  morrendo  do  mal  de  não  ser  Porta- 
guezes  i 

Parou — -ondeou  o  braço  magro,  como  a  correia 
d'um  látego,  n'um  gesto  que  açoutava  o  Rocio,  a 
Cidade,  toda  a  Nação.  Sabia  o  amigo  Gonçalinho  o 
segredo  d'esta  borracheira  sinistra?  É  que,  dos  Por- 
tuguezes,  os  peores  despresavam  a  Pátria  —  e  os 
melhores  ignoravam  a  Pátria.  O  remédio?...  Re- 
velar Portugal,  vulgarisar  Portugal.  Sim,  amigui- 
nho! Organizar,  com  estrondo,  o  reclamo  de  Portu- 
gal, de  modo  que  todos  o  conheçam— ao  menos  como 
se  conhece  o  Xarope  Peitoral  de  James,  hein  ?  Ê  quo 
todos  o  adoptem  —  ao  menos  como  se  adoptou  o  sa- 
bão do  Congo,  hein?  E  conhecido,  adoptado,  que  to- 
dos o  amem  emíim,  nos  seus  heróes,  nos  seus  feitos, 
mesmo  nos  seus  defeitos,  em  todos  os  seus  padrões, 
e  até  nas  veras  pedrinhas  das  suas  calçadas!  l*ara  esse 
íim.  o  maior  a  emprehender  n'este  apagado  século 
da  nossa  Historia,  fundava  (dle  os  Aiinaes.  Para  ber- 
rar! Para  atroar  Portugal,  aos  bramidos  sobre  os 
telhados,  com  a  noticia  inesperada  da  sua  grande- 
za! E  aos  descendentes  dos  que  outr'ora  lizeram  o 
licino  incumbia,  mais  que  aos  outros,  o  cuidado  pie- 
doso de  o  refazer...  Como?  Reatando  a  tradição,  ca- 
ramba ! 


A  ILUSTRE  CASA  DE  IIAMIUES  17 


—  Assim,  vocês!  Por  essa  historia  de  Portugal 
lóra,  vocês  são  uma  enfiada  de  Ramires  de  toda  a 
belleza.  Mesmo  o  desembargador,  o  que  comeu  n'uma 
ceia  de  Natal  dois  leitões!...  É  apenas  uma  barriga. 
-Mas  que  barriga!^ Ha  n  ella  uma  pujança  heróica  que 
prova  raça,  a  raça  mais  forte  do  que  prometle  a  força 
humana,  como  diz  Camões.  Dois  leitões,  caramba  I 
Ate  enternece ! . . .  E  os  outros  Ramires,  o  de  Silves, 
o  de  Aljubarrota,  os  de  Arzilla,  os  da  índia!  E  os 
cinco  valentes,  de  quem  você  talvez  nem  saiba,  que 
morreram  no  Salado !  Pois  bem,  resuscitar  estes  va- 
rões, e  mostrar  n*elles  a  alma  íaçanhuda,  o  querer 
sublime  que  nada  verga,  é  uma  soberba  lição  aos 
novos...  Tonifica,  caramba!  Pela  consciência  que 
renova  de  termos  sido  tão  grandes  sacode  este  cho- 
cho consentimento  nosso  em  permanecermos  peque- 
nos !  É  o  que  eu  chamo  reatar  a  tradição...  E  de- 
pois feito  por  você  próprio,  Piamires,  que  chie !  Ca- 
ramba, que  c/iic!  É  um  fidalgo,  o  maior  fidalgo  de 
Portugal,  que,  para  mostrar  a  heroicidade  da  Pátria, 
abre  simplesmente,  sem  sahir  do  seu  solar,  os  ar- 
chivos  da  sua  Casa,  velha  de  mais  de  mil  annos. 
K  de  rachar ! . . .  E  você  não  precisa  fazer  um  grosso 
romance...  Nem  um  romance  muito  desenvolvido 
está  na  Índole  militante  dii  Revista.  Basta  um  conto, 
de  vinte  ou  trinta  paginas...  Está  claro,  os  Ainiaes 
por  ora  não  podem  pagar.  Também,  você  não  pre- 


18  A  ILUSTKE  CASA  DE  RAMIRKS 


cisa!  E  que  diabo!  não  se  trata  do  pccunia,  mas 
d' ama  grande  renovação  social...  E  depois,  menino, 
a  littoratura  leva  a  tudo  em  Portugal.  Eu  sei  que  o 
Gonçalo  em  Coimbra,  ultimamente,  frequentava  o 
Centro  Regenerador.  Pois,  amigo^  de  folhetim  em 
folhetim,  se  chega  a  S.  Bento !  A  penna  agora,  como 
a  espada  outr'ora,  edifica  reinos . . .  Pense  você  n'isto  1 
E  adeus!  que  ainda  hoje  tenho  de  copiar,  para  lettra 
christâ,  este  estudo  do  Henriques  sobre  Ceylâo . . . 
Você  não  conhece  o  Henriques  ? . . .  Não  conhece. 
Ninguém  conhece.  Pois  quando  na  Europa,  n'essas 
grandes  Academias  da  Europa,  ha  uma  duvida  sobre 
a  Historia  ou  a  Litteratura  cingaleza,  gritam  para  cá, 
para  o  Henriques! 

Abalou,  agarrado  ao  seu  rolo  e  ao  sou  tomo  — 
e- Gonçalo  ainda  o  avistou,  na  porta  e  claridade  da 
tabacaria  Nunes,  agitando  o  braço  esguio  d'Apostolo 
deante  d'um  sujeito  obeso,  de  vasto  colletí^  branco, 
que  recuava,  com  espanto,  assim  perturbado  no 
quieto  gozo  do  seu  grosso  charuto  e  da  doce  noite 
de  IMaio. 

O  F^idalgo  da  Torre  recolheu  para  o  Bragança, 
iaiprossionado,  ruminando  a  idéa  do  Patriota.  Tudo 
n"ella  o  seduzia  —  e  lhe  convinha:  a  sua  collabora- 
çâo  n*unia  Revista  considerável,  de  setenta  paginas, 
oin  companhia  de  Escriptores  doutos,  lentes  das  Es- 
colas, antigos  Ministros,  até  Conselheiros  (TEstado: 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  «AMIRES  IO 


a  antiguidade  da  sua  raça,  mais  antiga  que  o  Reino, 
popularisada  por  uma  historia  d'heroica  belleza,  -em 
que  com  tanto  fulgor  resaltavam  a  bravura  e  a  so- 
berba d"ahiia  dos  Ramires ;  e  emfim  a  seriedade  aca- 
démica do  seu  espirito,  o  seu  nobre  gosto  pelas  in- 
vestigações eruditas,  apparecendo  no  momento  em 
que  tentava  a  carreira  do  Parlamento  e  da  Po- 
litica!... E  o  trabalho,  a  composição  moral  dos  ve- 
tustos Ramires,  a  resurreiçâo  archeologica  do  viver 
Affonsino,  as  cem  tiras  de  almaço  a  atulhar  de  prosa 
forte  —  não  o  assustavam...  Não!  porque  felizmente 
já  possuia  a  «sua  obra»  —  e  cortada  em  bom  panno, 
alinhavada  com  linha  hábil.  Seu  tio  Duarte,  irmão  de 
sua  mãe  (uma  senhora  de  Guimarães,  da  casa  das 
Balsas),  nos  seus  annos  de  ociosidade  e  imaginação, 
de  184Ó  a  i850,  entre  a  sua  carta  de  Bacharel  e  o 
seu  Alvará  de  Delegado,  fora  poeta — e  publicara  no 
Bardo,  semanário  de  Guimarães,  um  Poemeto  em 
verso  solto,  o  Casfello  de  Santa  Ireneia,  que  assignára 
com  duas  iniciaes  D.  B.  Esse  castello  era  o  seu,  o  Paço 
antiquíssimo  de  que  restava  a  negra  torre  entre  os  li- 
moeiros da  horta.  E  o  Poemeto  cantava,  com  romântico 
garbo,  um  lance  de  altivez  feudal  em  que  se  subli- 
mara Tructesindo  Ramires,  Alferes-mór  de  Sancho  I, 
durante  as  contendas  de  Aífonso  11  e  das  senhoras 
Infantas.  Esse  volume  do  Bardo,  encadernado  em 
marroquim,  com  o  brazâo  dos  Ramires,  o  açor  negro 


âO  A  IJXISTIÍE  CASA  DE  P.A.MIRES 


'  em  campo  escarlate,  ficara  no  Archi^'0  da  Casa  como 
um  trecho  da  Chronica  heróica  dos  Ramires.  E  mui- 
tas vezes  em  pequeno  Gonçalo  recitara,  ensinados 
pela  mamã,  os  primeiros  versos  do  Poema,  de  tão 
harmoniosa  melancolia : 

Na  pallidez  da  tarde,  entre  a  folhagem 
Que  o  outomno  amarellece. .. 

Era  com  esse  sombrio  íeito  do  seu  vago  avoongo 
que  Gonçalo  Mendes  Ramires  decidira  em  Coimbra, 
quando  os  camaradas  da  Pátria  e  das  ceias  o  accla- 
mavam  «o  nosso  Walter  Scott»,  compor  mn  Roman- 
ce moderno,  d"  um  realismo  épico,  em  dous  robustos 
volumes,  formando  um  estudo  ricamente  colorido  da 
Meia-Eidade  Portugueza...  E  agora  lhe  servia,  e  com 
deliciosa  facilidade,  para  essa  Novella  curta  e  sóbria, 
*  de  trinta  paginas,  que  convinha  aos  Aiinaes. 

No  seu  quarto  do  Bragança  abrio  a  varanda.  E 
debruçado,  acabando  o  charuto,  na  dormente  suavi- 
dade da  noite  de  Maio,  ante  a  magestade  silenciosa 
do  rio  e  da  lua,  pensava  regaladamente  que  nem  te- 
ria a  canceira  d'esmiuçar  as  chronicas  e  os  íolios 
massudos...  Com  ef feito!  toda  a  reconstrucçâo  His- 
tórica a  realisára,  e  solidamente,  com  um  saber  des- 
tro, o  tio  Duarte.  O  Paço  acastellado  de  Santa  íre- 
neia,  com  as  fundas  carcovas,  a  torre  albarran,  a 


A  ILLI  STUK  (1ASA   DE  líA.MIIíKS  '21 


alcáçova,  a  masmorra,  o  pharol  e  o  balsâo:  o  velho 
Triictesindo,  enorme,  e  os  seus  flocos  de  cabellos  e 
barbas  ancestraes  derramados  sobre  a  loriga  de  ma- 
lha; os  servos  mouriscos,  de  surrões  de  couro,  ca- 
vando os  regueiros  da  horta;  os  oblatos  resmungan- 
do á  lareira  as  Vidas  dos  Santos;  os  pagens  jo- 
gando no  campo  do  tavolado  —  tudo  resurgia,  com 
verídico  realce,  no  Poemeto  do  tio  Duarte!  Ainda 
recordava  mesmo  certos  lances:  o  truâo  açoutado; 
o  íestim  e  os  uchôes  que  arrombavam  as  cubas  de 
cerveja;  a  jornada  de  Violante  Ramires  para  o  Mos- 
teiro de  Lorvão... 

Junto  á  fonte  mourisca,  entre  os  ulmeiros, 
A  cavalgada  pára , . . 

O  enredo  todo  com  a  sua  paixão  de  grandeza 
barbara,  os  recontros  bravios  em  que  se  saciam  a 
punhal  os  rancores  de  raça,  o  heróico  íallar  despe- 
dido de  lábios  de  ferro  — lá  estavam  nos  versos  do 
titi,  sonoros  e  bem  balançados... 


Monge,  escuta  !  O  solar  de  D.  Ramires 
Por  si,  e  pedra  a  pedra  se  aluirá, 
Se  jamais  um  bastardo  lhe  pisasse, 
Com  sapato  aviltado,  as  lages  puras ! 


i2 


A  ILLISTHE  CASA  DE  RAMIRES 


Na  realidade  só  lhe  restava  transpor  as  formas 
fluidas  do  Roniantismo  de  1846  para  a  sua  prosa  tersa 
e  máscula  (como  confessava  o  Castanheiro),  de  ópti- 
ma côr  archaica,  lemhrando  o  Bobo.  E  era  um  pla- 
gio ?  Não !  A  quem,  com  mais  seguro  direito  do  que 
a  elle,  Raniir^s.  pertencia  a  memoria  dos  Ramires 
históricos  ?  A  resurreição  do  velho  Portugal,  tão  bella 
no  Castello  de  Sanfa  Ireneni,  não  era  obra  indivi- 
dual do  tio  Duarte — mas  dos  Herculanos,  dos  Re- 
bellos,  das  Academias,  da  erudição  esparsa.  E,  de 
resto,  quem  conhecia  hoje  esse  Poemeto,  e  mesmo  o 
Bardo,  delgado  semanário  que  perpassara,  durante 
cinco  mezes,  ha  cincoenta  annos,  n'uma  villa  de  Pro- 
víncia?...! Não  hesitou  mais,  seduzido.  E  em  quanto 
se  despia,  depois  de  beber  aos  goles  um  copo  d*agua 
com  bicarbonato  de  soda,  já  martellava  a  primeira 
linha  do  conto,  á  maneira  lapidaria  da  Sfdammbô : 
—  «Era  nos  Paços  de  Santa  Ireneia,  por  uma  noite 
d'inverno,  na  sala  alta  da  Alcáçova...» 

Ao  outro  dia,  procurou  .Tose  Lúcio  Castanheiro 
na  repartição  dos  Próprios  Nacionaes,  á  pressa, —  por 
que,  depois  d'uma  conferencia  no  Banco  Hypotheca- 
rio,  ainda  promettera  acompanhar  as  primas  Chellas 
a  uma  Exposição  de  Bordados  na  livraria  Gomes.  E 
annunciou  ao  Patriota  que,  positivamente,  lhe  asse- 
gurava para  o  primeiro  numero  dos  Annaes  a  No- 


A  ILLlSTilE  CASA  DE  IIAMIRES  2.'} 


vella,  a  ijae  já  decidira  o  titulo  —  a  Torre  de  D.  Ra- 
jiiires : 

—  Que  lhe  parece? 

Deslumbrado.  José  Castanheiro  atirou  os  ma- 
grissimos  braços,  resguardados  pelas  mangas  d"alpa- 
ca,  até  á  abobada  do  esguio  corredor  em  que  o  re- 
cebera : 

—  Sublime ! . . .  A  Torre  de  D.  Ramires ! ...  O 
grande  feito  de  Tructesindo  ^lendes  Ramires  con- 
tado por  Gonçalo  Mendes  Ramires!...  E  tudo  na  mes- 
ma Torre!  Na  Torre  o  velho  Tructesindo  pratica  o 
íeito;  e  setecentos  annos  depois,  na  mesma  Torre, 
o  nosso  Gonçalo  conta  o  feito!  Caramba,  menino, 
carambissima !  isso  é  que  é  reatar  a  tradição ! 

Duas  semanas  depois,  de  volta  a  Santa  Ireneia, 
Gonçalo  mandou  um  creado  da  quinta,  com  uma  car- 
roça, a  Oliveira,  a  casa  de  seu  cunhado  José  Barrôlo, 
casado  com  Gracinha  Ramires,  para  lhe  trazer  da 
rica  livraria  clássica  que  o  Barròlo  herdara  do  tio 
Deão  da  Sé  todos  os  volumes  da  Historia  Genealo- 
[jica — «e  (accrescentava  n'uma  carta)  todos  os  car- 
tapacios  que  por  lá  encontrares  com  o  titulo  de 
ccChronicas  do  Rei  Fulano...»  Depois,  do  pó  das 
suas  estantes,  desenterrou  as  obras  de  Walter  Scott, 
volumes  desirmanados  do  Panorama,  a  Historia  de 
Herculano,   o   Bobo,    o   Monrje  de    Cister.   E    assim 


24  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


abastecido,  com  uma  íarta  resma  de  tiras  dahnaço 
sobre  a  banca,  começou  a  repassar  o  Poemeto  do  tio 
Duarte,  inclinado  ainda  a  transpor  para  a  aspereza 
d'uma  manhã  de  Dezembro,  como  mais  congénere 
com  a  rudeza  íeudal  dos  seus  avós,  aquella  lusida 
cavalgada  de  donas,  monges  e  homens  d*armas 
que  o  tio  Duarte  estendera,-  atravez  d'uma  suave 
melancolia  outomnal,  pelas  veigas  do  Mondego... 

Na  pallidez  da  tarde,  entre  a  folhagem 
Que  o  outomno  aniarellece. . . 

Mas,  como  era  então  Junho  e  a  lua  crescia,  Gon- 
çalo determinou  por  fim  aproveitar  as  sensações  de 
calor,  luar  e  arvoredos,  que  lhe  fornecia  a  aldeia  — 
para  levantar,  logo  á  entrada  da  sua  Noveila,  o  ne- 
gro e  immenso  Paço  de  Santa  Ireneia,  no  silencio 
d'uma  noite  d' Agosto,  sob  o  resplendor  da  lua  cheia. 

E  já  enchera  desembaraçadamente,  ajudado  pelo 
Bardo,  duas  tiras,  quando  uma  desavença  com  o  seu 
caseiro,  o  Manoel  Relho,  que  amanhava  a  quinta  por 
oitocentos  mil  reis  de  renda,  veio  perturbar,  na  fresca 
e  noviça  inspiração  do  seu  trabalho,  o  Fidalgo  da 
Torre.  Desde  o  Natal  o  Relho,  que  durante  annos  de 
compostura  e  ordem  se  emborrachava  sempre  aos 
domingos  com  alegria  e  com  pachorra,  começara  a 
tomar,  três  e  quatro  vezes  por  semana,  bebedeiras 


A  ILUSTRI-:  CASA  OK  UAMIltKS  23 


desabridas,  escandalosas,  em  ([iie  espancava  a  mu- 
lher, atroava  a  quinta  de  berros,  e  saltava  para  a 
estrada,  estruedelhado,  de  varapau,  desafiando  a  quieta 
aldeia.  Por  fim,  uma  noite  em  que  Gonçalo,  á  banca, 
depois  do  chá,  laboriosamente  escavava  os  íossos  do 
Paço  de  Santa  Ireneia  —  de  repente  a  Rosa  cozinhei- 
ra rompeu  a  gritar  «Aqui  d'El-rei  contra  o  Relho!» 
E,  atravez  dos  seus  brados  e  dos  latidos  dos  cães, 
uma  pedra,  depois  outra,  baterajn  na  varanda  vene- 
rável da  livraria !  Enfiado,  Gonçalo  Mendes  Ramires 
pensou  no  revólver...  Mas  justamente  n'essa  tarde  o 
creado,  o  Bento,  descera  aquella  sua  velha  e  única 
arma  á  cozinha  para  a  desenferrujar  e  arear!  Então, 
atarantado,  correu  ao  quarto,  que  fechou  á  chave,  g 
empurrando  contra  a  porta  a  commoda  com  tão  de-  # 
sesperada  anciedade  que  frascos  de  crystal,  um  coíre 
de  tartaruga,  até  um  crucifixo,  tombaram  e  se  par- 
tiram. Depois  gritos  e  latidos  findaram  no  pateo  — 
mas  Gonçalo  não  se  arredou  n'essa  noite  d'aquelle 
refugio  bem  defendido,  fumando  cigarros,  ruminan- 
do um  furor  sentimental  contra  o  Relho,  a  quem 
tanto  perdoara,  sempre  tão  aífavelmente  tratara,  e 
que  apedrejava  as  vidraças  da  Torre!  Cedo,  de  ma- 
nhã convocou  o  Regedor;  a  Rosa,  ainda  tremula, 
mostrou  no  braço  as  marcas  roxas  dos  dedos  do 
Relho;  e  o  homem,  cujo  arrendamento  findava  em 
Outubro,  foi  despedido  da  quinta  com  a  mulher,  a 


26  A  ILLrSTUE  f.ASA  DE  R.VMIP.ES 


arca  e  o  catre.  Immediatamente  appareceu  um  la- 
vrador dos  Bravaes,  o  José  Casco,  respeitado  em 
toda  a  fregaezia  pela  sua  seriedade  e  forca  espan- 
tosa, propondo  ao  fidalgo  arrendar  a  Torre.  Gon- 
çalo Mendes  Ramires  porém,  já  desde  a  morte  do 
pae,  decidira  elevar  a  renda  a  novecentos  e  cin- 
coenta  mil  réis: — e  o  Casco  desceu  as  escadas,  de 
cabeça  descahida.  Voltou  logo  ao  outro  dia,  reper- 
correu  miudamente  toda  a  quinta,  esfarellou  a  terra 
entre  os  dedos,  esquadrinhou  o  curral  e  a  adega, 
contou  as  oliveiras  e  as  cepas:  e  n"um  esforço,  em 
que  lhe  arfaram  todas  as  costellas,  oílereceu  nove- 
centos e  dez  mil  réis!  Gonçalo  não  cedia,  certo  da 
sua  equidade.  O  José  Casco  ^'oltou  ainda  com  a  mu- 
lher; depois,  n"um  domingo,  com  a  mulher  e'  ura 
compadre,  —  e  era  uni  coçar  lento  do  queixo  rapado, 
umas  voltas  desconfiadas  em  torno  da  eira  e  da  horta, 
umas  demoras  sumidas  dentro  da  tulha,  que  torna- 
vam aquella  manhã  de  Junho  intoleravelmente  longa 
ao  Fidalgo,  sentado  n"um  banco  de  pedra  do  jardim, 
debaixo  d' uma  mimosa,  com  a  Gazeta  do  Porto. 
Quando  o  Casco,  pallido,  lhe  veio  ofíerecer  novecen- 
tos e  trinta  mil  réis  —  Gonçalo  Mendes  Ramires  ar- 
remessou o  jornal,  declarou  que  ia  elle,  por  sua 
conta,  amanhar  a  propriedade,  mostrar  o  que  era 
um  torrão  rico,  tratado  pelo  saber  moderno,  com 
phosphatos,   com  machinas!  O  homem  de  Bravaes, 


A  ILLISTRE  CASA  DE  r.A.MUiES  27 


então,  arrancou  um  fundo  suspiro,  acceitou  os  no- 
vecentos e  cincoenta  mil  reis.  Á  maneira  antiga  o 
Fidalgo  apertou  a  mão  ao  lavrador  —  que  entrou  na 
cozinha  a  enxugar  um  largo  copo  de  vinho,  espon- 
jando na  testa,  nas  cordoveias  rijas  do  pescoço,  o 
suor  anciado  que  o  alagava. 

Mas,  como  entulhada  por  estes  cuidados,  a  veia 
abundante  de  Gonçalo  estancou  —  nâo  foi  mais  que 
um  fio  arrastado  e  turvo.  Quando  n'essa  tarde  se 
accomodou  á  banca,  para  contar  a  sala  d'armas>  do 
Paço  de  Santa  Ireneia  por  uma  noite  de  lua  —  só 
conseguiu  converter  servilmente  n'uma  prosa  agua- 
da os  versos  lisos  do  tio  Duarte,  sem  relevo  que 
os  modernisasse,  desse  magestade  senhorial  ou  bel- 
lesa  saudosa  áquelles  macissos  muros  onde  o  luar, 
deslisando  atravez  das  rexas,  salpicava  scentelhas 
pelas  pontas  das  lanças  altas,  e  pela  cimeira  dos 
raorriões . . .  E  desde  as  quatro  horas,  no  calor  e 
silencio  do  domingo  de  .Junho,  labutava,  empur- 
rando a  penna  como  lento  arado  em  chão  pedrego- 
so, riscando  logo  rancorosamente  a  linha  que  sen- 
,tia  deselegante  e  molle,  ora  n'um  reboliço,  a  sacudir 
e  reenfiar  sob  a  mesa  os  chinellos  de  marroquim, 
ora  immovel  e  abandonado  á  esterilidade  que  o  tra- 
vava, com  os  olhos  esquecidos  na  Torre,  na  sua  dif- 
íicillima  Torre,  negra  entre  os  limoeiros  e  o  azul, 
toda  envolta  no  piar  e  esvoaçar  das  andorinhas. 


28  A   ILLISTHE  CASA  DE  HAMIUES 


Por  fim,  descorçoado,  arrojou  a  peima  que  tão 
desastrosamente  emperrara.  E  íechando  na  gaveta, 
com  uma  pancada,  o  volume  precioso  do  Bardo: 

—  Irra!  Estou  perfeitamente  entupido!  É  este  ca- 
lor! E  depois  aquelle  animal  do  Casco,  toda  a  ma- 
nhã ! . . . 

Ainda  releu,,  coçando  sombriamente  a  nuca,  a 
derradeira  linha  rabiscada  e  suja: 

— «  ...  Na  sala  altaneira  e  larga,  onde  os  lar- 
gos e  pallidos  raios  da  lua...  »  Larga,  largos!...  E 
os  pallidos  raios,  os  eternos  pai/idos  raios!...  Tam- 
bém este  maldito  castelio,  tão  complicado!...  E  este 
D.  Tructesindo,  que  eu  não  apanho,  tão  antigo!... 
Emfim,  um  horror! 

Atirou,  n'um  repellâo,  a  cadeira  de  couro;  cra- 
vou, com  furor,  um  charuto  nos  dentes; — e  abalou 
da  livraria,  batendo  desesperadamente  a  porta,  n'um 
tédio  immenso  da  sua  obra,  d'aquelles  confusos  e 
enredados  Paços  de  Santa  Ireneia,  e  dos  seus  avós, 
enormes,  resoantes,  chapeados  de  íerro,  e  mais  va- 
gos que  fumos. 


II 


Bocejando,  apertando  os  cordões  das  largas  pan- 
talonas  de  seda  que  lhe  escorregavam  da  cinta,  Gon- 
çalo, que  durante  todo  o  dia  preguiçara,  estirado  no 
divan  de  damasco  azul,  com  uma  vaga  dòr  nos  rins, 
atravessou  languidamente  o  quarto  para  espreitar, 
no  corredor,  o  antigo  relógio  de  cliarâo.  Cinco  ho- 
ras e  meia  !  . . .  Para  desannuviar,  pensou  n'uma 
caminhada  pela  fresca  estrada  dos  Bravaes.  Depois 
numa  visita  (devida  já  desde  a  Paschoa!)  ao  velho 
Sanches  Lucena,  eleito  novamente  deputado,  nas 
Kleições  Geraes  de  Abril,  pelo  circulo  de  Villa  Cla- 
ra. Mas  a  jornada  á  Feifnsa.  á  quinta  do  Sanches 
Lucena,  demanda^■a  uma  hora  a  cavallo,  desagradá- 
vel com  aquella  teimosa  dòr  nos  rins  que  o  filara 
na  véspera  á  noite,  depois  do  chá,  na  Assembleia  da 
Villa.  E.   indeciso,  arrastava  os  passos  no  corredor, 


30  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


para  gritar  ao  Bento  ou  á  Rosa  que  lhe  subissem 
uma  limonada,  quando,  atravez  das  varandas  aber- 
tas, resooLi,  um  vozeirão  de  grosso  metal,  que  gra- 
cejando mais  se  engrossava,  rolava  pelo  pateo,  n'uma 
cadencia  cava  de  malho  malhando: 

—  Oh  sò  Gonçalo!  Oh  sô  Gonçalâo !  Oh  sô  Gon- 
çalissimo  iMendes  Piamires ! . . . 

Reconheceu  logo  o  Tito,  o  António  Villalobos, 
seu  vago  parente,  e  seu  companheiro  de  Villa  Clara, 
onde  aquelle  homenzarrão  excellente,  de  velha  raça 
Alemtejana,  se  estabelecera  sem  motivo,  só  por  af- 
feiçâo  bucólica  á  villa.  E  havia  onze  annos  que  a  atu- 
lhava com  os  seus  possantes  membros,  o  lento  re- 
bombo  do  seu  vozeirão,  e  a  sua  ociosidade  espalhada 
pelos  bancos,  pelas  esquinas,  pelas  ombreiras  das 
lojas,  pelos  balcões  das  tabernas,  pelas  sachristias  a 
caturrar  com  os  padres,  até  pelo  cemitério  a  philo- 
sophar  com  o  coveiro.  Era  um  irmão  do  velho  mor- 
gado de  Cidadelhe  (o  genealogista),  que  lhe  estabe- 
lect^ra  uma  mesada  de  oito  moedas  para  o  conser- 
var longe  de  Cidadelhe — e  do  seu  sujo  serralho  de 
moças  do  campo,  e  da  obra  tenebrosa  a  que  agora 
se  atrellára,  a  Verídica  Inquirição,  uma  Inquirição 
sobre  as  bastardias,  crimes  e  titulos  illegitimos  das 
famílias  fidalgas  de  Portugal.  E  Gonçalo,  desde  estu- 
dante, amura  sempre  aquelle  Hercules  bonacheirão, 
que  o  seduzia  pela  prodigiosa  íorça,  a  incomparável 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  31 


potencia  em  beber  todo  um  pipo  e  em  comer  todo 
um  anho,  e  sobretudo  pela  independência,  uma  su- 
prema independência,  que,  apoiada  ao  bengalão  ter- 
riíico  e  com  as  suas  oito  moedas  dentro  da  algi- 
beira, nada  temia  e  nada  desejava  nem  da  Terra 
nem  do  Céo.  —  Logo  debruçado  na  varanda,  gritou: 

—  Oh  Tito,  sobe!...  Sobe  emquanto  eu  me  visto. 
Tomas  um  cálice  de  genebra...  Vamos  depois  pas- 
sear até  aos  Bravaes... 

Sentado  no  rebordo  do  tanque  redondo  e  sem 
agua  que  ornava  o  pateo,  erguendo  para  o  casarão  a 
sua  franca  e  larga  face  requeimada,  cheia  de  barba 
ruiva,  o  Tito  movia  lentamente  como  um  leque  um 
velho  chapéo  de  palha: 

—  Não  posso...  Ouve  lá!  Tu  queres  hoje  á  noite 
cear  no  Gago,  commigo  e  com  o  João  Gouveia?  Vae 
também  o  Videirinha  e  o  violão.  Temos  uma  tainha 
assada,  uma  famosa.  E  enorme,  que  eu  comprei 
esta  manhã  a  uma  mulher  da  Costa  por  cinco  tos- 
tões. Assada  pelo  Gago!...  Entendido,  hein?  O  Gago 
abre  pipa  nova  de  vinho,  do  Abbade  de  Chandim.  Eu 
conheço  o  vinho.  É  d"aqui,  da  ponta  fina. 

E  Tito,  com  dous  dedos,  delicadamente,  sacudio 
a  ponta  molle  da  orelha.  Mas  Gonçalo,  repuxando  as 
pantalonas,  hesitava: 

—  Homem,  eu  ando  com  o  estômago  arrazado... 
E  desde  hontem  á  noite  uma  dôr  nos  rins.  ou  no 


32  A  ILI.rSTKK  CASA  DE  RAMIRES 


fígado,  ou  no  baço,  Dão  sei  bem,  n'uma  d'essas  en- 
tranhas! . ..  Até  hoje,  para  o  jantar,  só  caldo  de  gal- 
linha  e  gallinha  cosida . . .  Emfim !  vá  !  Mas,  á  cautela, 
recommenda  ao  Gago  que  me  prepare  para  mim  um 
franguinho  assado  . . .  Onde  nos  encontramos  ?  Na  As- 
sembléa  ? 

O  Tito  despegara  logo  do  tanque,  pousando  na 
nuca  o  chapéo  de  palha: 

— Hoje  não  me  gasto  pela  Assembléa.  Tenho 
senhora.  Das  dez  para  as  dez  e  meia,  no  Chafariz... 
Vae  também  o  Videirinha  com  a  viola.  Viva!...  Das 
dez  para  as  dez  e  meia !  Entendido . . .  E  franguinho 
assado  para  S.  Ex.'\  que  se  queixa  do  rim  ! 

E  atravessou  o  pateo,  com  lentidão  bovina,  pa- 
rando a  colher  n'uma  roseira,  junto  ao  portão,  uma 
rosa  com  que  florio  a  quinzena  de  velludilho  còr 
d'azeitona. 

Immediatamente  Gonçalo  decidira  não  jantar, 
certo  dos  benefícios  d'aquelle  jejum  até  ás  dez  ho- 
ras, depois  de  um  passeio  pelos  Bravaes  e  pelo  valle 
da  Riosa.  E,  antes  de  entrar  no  quarto  para  se  ves- 
tir, empurrou  a  porta  envidraçada  sobre  a  escura 
escada  da  cozinha,  gritou  pela  Rosa  cozinheira.  Mas 
nem  a  boa  velha,  nem  o  Bento  por  quem  também 
berrou  furiosamente,  responderam,  no  pesado  silen- 
cio em  que  jaziam,  como  abandonados,  esses  som- 
brios tundos  de  grande  lage  e  de  grande  abobada 


A  ILLlSTItK  CASA  I)K  liAMIRES  '.VA 


que  restavam  do  antigo  Palácio,  restaurado  por  Vi- 
t-entc  Ramires  depois  da  sua  campanha  em  Castella, 
incendiado  no  tempo  de  El-Rei  D.  José  1.  Então 
Oonçalo  desceu  dous,.  degráos  da  gasta  escadaria  de 
pedra  e  atirou  outro  dos  longos  brados  com  que 
atroava  a  T.orre  -  desde  que  as  campainhas  andavam 
desmanchadas.  E  descia  ainda  para  invadir  a  cozi- 
nha quando  a  Rosa  acudio.  Sahira  para  o  pateo  da 
horta  com  a  filha  da  Crispola!  não  sentira  o  Snr. 
í)outor!.. . 

—  Pois  estou  a  berrar  ha  uma  hora!  E  nem 
você  nem  Bento!...  E  por  que  não  janto,  ^'ou  cear 
a  \'illa  Clara  com  os  amigos. 

A  Rosa,  do  sonoro  fundo  do  corredor,  protestou, 
desolada.  Pois  o  Sr.  Doutor  ficava  assim  em  je- 
jum até  horas  da  noite? — Filha  d"um  antigo  hortelão 
da  Torre,  crescida  na  Torre,  já  cozinheira  da  Torre 
quando  Gonçalo  nascera,  sempre  o  tratara  por  «  me- 
nino »,  e  mesmo  por  « seu  riquinho »  até  que  elle 
partio  para  Coimbra  e  começou  a  ser,  para  ella  e 
para  o  Bento,  o  «Sr.  Doutor». — E  o  Sr.  Doutor, 
ao  menos,  devia  tomar  o  caldinho  de  gallinha,  que 
apurara  desde  o  meio  dia,  cheirava  que  nem  feito 
no  céo! 

Gonçalo,  que  nunca  discordava  da  Piosa  ou  do 
Bento,  consentio  — e  já  subia,  quando  reclamou  ainda 
a  Rosa  para  se  informar  da  Crispola,  uma  desgra- 


34  A  li.l.rSTIiK  CASA   I)K  li.VMIMES 


cada  viuva  f[ue,  com  um  rancho  faminto  de  crian- 
ças, adoecera  pela  Pasclioa  de  febres  perniciosas. 

— A  Crispola  vae  melhor,  Sr.  Doutor.  Já  se  le- 
vanta. Diz  a  pequena  que  já  se  levanta...  Mas  muito 
derreadinha . . . 

Gonçalo  desceu  loi^o  outro  degráO;  debruçada 
na  escada,  para  mergulhar  mais  confidencialmento 
n*aquellas  tristezas : 

—  (Jlhe,  oh  llosa,  então  se  a  pequena  ahi  está. 
coitada,  que  leve  para  casa  á  mãe  a  gallinha  que  eu 
tinha  para  jantar.  E  o  caldo...  Que  leve  a  panella! 
Eu  tomo  uma  chávena  de  chá  com  biscoitos.  E  olhe! 
Mande  também  dez  tostões  á  Crispola...  Mande  dois 
mil  réis.  Escute !  Mas  não  lhe  mande  a  gallinha  e  o 
dinheiro  assim  seccamente . . .  Diga  que  estimo  as 
melhoras,  e  que  hi  passarei  por  casa  para  saber.  E 
esse  animal  do  líento  que  me  suba  agua  quente! 

No  quarto,  em  mangas  de  camisa,  deante  do  es- 
pelho, um  immenso  espelho  rolando  entre  columnas 
douradas,  estudou  a  lingua  que  lhe  parecia  saburro- 
sa,  depois  o  branco  dos  olhos,  receiando  a  amarelli- 
dâo  de  bilis  solta.  E  terminou  por  se  contemplar 
na  sua  feição  nova.  agora  que  rapara  a  barba  em 
Lisboa,  conservando  o  bigodinho  castanho,  frisado  o 
leve,  e  uma  mosca  um  pouco  longa,  (jue  lhe  alon- 
gava mais  a  face  aquilina  e  fina,  sempre  d'uma 
f    brancura  ác  nata.  O  seu   desconsolo  era  o  cabello. 


A  ILIJSTHE  CASA   DE  UAMIUKS  35 


bem  ondeado,  mas  ténue  e  fraco,  e,  apezar  de  todas 
as  aguas  e  pomadas,  necessitando  já  risca  mais 
elevada,  quasi  ao  meio  da  testa  clara. 

—  È  internai!  Aos  trinta  annos  estou  calvo...  ' 
R  todavia  nâo  se  despegava  do  espelho,  n"uma 
contemplação  agradada,  recordando  mesmo  a  re- 
commendaçâo  da  tia  Louredo,  em  Lisboa:— «Oh 
sobrinho !  o  menino,  assim  galante  e  esperto,  nâo  se 
enterre  na  província!  Lisboa  está  sem  rapazes.  Pre- 
cisamos cá  um  bom  Ramires!»  —  Nâo!  nâo  se  en- 
terraria na  província,  iminovel  sob  a  hera  e  a  poei- 
ra melancólica  das  cousas  immoveis,  como  a  sua 
Torre ! . . .  Mas  vida  elegante  em  Lisboa,  entre  a  sua 
parentella  histórica,  como  a  aguentaria  com  o  conto 
e  oitocentos  mil  reis  de  renda  (lue  lhe  restava,  pa- 
gas as  dividas  do  papá?  E  depois  realmente  vida 
em  Lisboa  só  a  desejava  com  uma  posição  politica, 
—  cadeira  em  S.  Bento,  influencia  intellectual  no  seu 
Partido,  lentas  e  seguras  avançadas  para  o  Poder. 
E  essa,  tão  docemente  sonhada  em  Coimbra,  nas  fá- 
ceis cavaqueiras  do  Hotel  Mondego, —  muito  remota 
a  entrevia!  Ouasi  inconquistavel,  para  além  de  um 
muro  alto  e  áspero,  sem  porta  e  sem  fenda!...  De- 
putado—como? Agora,  com  o  horrendo  S,  Fulgencio 
e  os  Históricos  no  Ministério  durante  três  gordos  an- 
nos, nâo  voltariam  Eleições  Geraes.  E  mesmo  n'al- 
guma  Eleição  Supplementar  que  possibilidade  logra- 


36  A  II.U  STI;K  casa  DV.  RAMIHK- 


ria  elle.  que,  desde  Coimbra.  ]>em  levianamente,  ar- 
rastado por  uma  elegância  de  tradições,  se  mani- 
festara sempre  Regenerador,  no  «Centro»  da  Couraça, 
nas  correspondências  para  a  Gazeta  do  Porto,  nas 
verrinas  ardentes  contra  o  cheíe  do  Districto,  o  Ca- 
valleiro  detestável?...  Agora  só  lho  restava  espe- 
rar. Esperar,  trabalhando;  ganhando  em  consistência 
social;  edificando  com  sagacidade,  sobre  a  base  do 
seu  immenso  nome  histórico,  uma  pequenina  nomea- 
da politica ;  tecendo  e  estendendo  a  malha  preciosa 
das  amizades  partidárias  desde  Santa  Ireneia  até  ao 
Terreiro  do  Paço  . . .  Sim!  eis  a  theoria  explendida:  — 
mas  consistência,  nomeada,  aíTeiçôes  politicas,  como 
se  conquistam?  «Advogue,  escreva  nos  jornaes!»  fora 
o  conselho  distrahido  e  risonho  do  seu  cheíe,  o  liraz 
Victorino.  Advogar  em  Oliveira,  mesmo  era  íáslioa? 
Não  podia,  com  aquelle  seu  horror  ingenito.  quasi 
physiologico,  a  autos  e  papelada  forense.  Fundar  um 
jornal  em  Lisboa  como  o  Ernesto  Rangel,  seu  com- 
panheiro de  Coimbra  no  Hotel  Mondego?  Era  façanha 
fácil  para  o  neto  adorado  da  Snr.''  D.  Joaquina  Ran- 
gel que  armazenava  dez  mil  pipas  de  vinho  nos  bar- 
racões do  Gala.  Batalhar  n'um  jornal  de  Lisboa?  N'es- 
sas  semanas  de  Capital,  sempre  pelo  Ranço  Hypothe- 
cario,  sempre  com  as  «primas»,  nem  formara  relações 
duráveis  e  úteis  nos  dous  grandes  Diários  Regenera- 
dores, a  Manha  e  a   Verdafle ...  De. sorte  que.  real- 


A   ILUSTRE    CASA    1)1-:    KA.MIUES 


mente,  n"esse  muro  que  o  separava  da  fortuna  só 
descobria  um  buraquinho,  bem  apertado  mas  servi- 
çal—  os  Annaes  de  Villeratiiva  e  d'Histoi'ia,  com 
a  sua  collaboração  de  Professores,  de  Politicos,  até 
d" um  Ministro,  até  de  um  Almirante,  o  Guerreiro 
Araújo,  esse  tocante  massador.  Appareceria  pois  nos 
Annaes  com  a  sua  Torre,  rc\elando  imaginação  e 
um  saber  rico.  Depois,  trepando  da  invenção  para  o 
terreno  mais  respeitável  da  Erudição,  daria  um  es- 
tudo (que  até  lhe  lembrara  no  comboio,  ao  voltar  de 
Lisboa!)  sobre  as  «Origens  Visigothicas  do  Direito 
Publico  em  Portugal...»  Oh,  nada  conhecia,  é  certo, 
d'essas  Origens,  d'esses  ^'isigodos.  Mas,  com  a  bella 
historia  da  Aãniitúsl ração  Publica  em  Portugal  que 
lhe  emprestara  o  Castanheiro,  comporia  corrediamente 
um  resumo  elegante...  Depois,  saltando  da  Erudição 
ás  Sciencias  Sociaes  e  Pedagógicas  —  por  que  não 
amassaria  uma  boa  « Reforma  do  Ensino  Jurídico  em 
Portugal»  em  dous  artigos  massudos,  de  Homem 
d'Estado?...  Assim  avançava,  bem  chegado  aos  Re- 
generadores, construindo  e  cinzelando  o  seu  pedestal 
litterario,  até  que  os  Regeneradores  voltassem  ao  Mi- 
nistério, e  no  muro  se  escancarasse  a  desejada  porta 
triumphal.  —  E  no  meio  do  quarto,  em  ceroulas,  com 
as  mãos  nas  ilhargas,  Gonçalo  Mendes  Ramires  con- 
cluio  pela  necessidade  de  apressar  a  sua  Novella. 

—  Mas,  quando  acabarei  eu  essa  Torre?  assim 
emperrado,  sem  veia,  com  o  fígado  combalido?... 


38  A   ILLISTI!!-:    CASA    DE    liAMIRES 


O  Bento,  velho  de  face  rapada  e  morena,  com 
um  lindo  cabello  branco  todo  encarapinhado,  muito 
limpo,  muito  íresco  na  sua  jaqueta  de  ganga,  en- 
trara vagarosamente,  segurando  a  intusa  d'agua 
quente. 

—  Oh  Bento,  ouve  lá!  Ta  não  encontraste  na 
mala  que  eu  trouxe  de  Lisboa,  ou  no  caixote,  ura 
írasco  de  vidro  com  um  pó  branco  ?  É  um  remédio 
inglez  que  me  deu  o  Sr.  Dr.  Mattos . . .  Tem  um  ro- 
tulo em  inglez,  com  um  nome  inglez,  não  sei  quê, 
frua  salt . . .  Quer  dizer  sal  de  fructas... 

O  Bento  cravou  no  soalho  os  olhos,  que  depois 
cerrou,  meditando.  Sim,  no  quarto  de  lavar,  em  cima 
do  bahú  vermelho,  ficara  um  írasco  com  pó,  embru- 
lhado num  pergaminho  antigo  como  os  do  Archivo. 

—  É  esse!  declarou  C.onçalo.  Eu  precisava  em 
Lisboa  uns  documentos  por  causa  d'aquelle  uialvado 
foro  de  Praga.  E  por  engano,  na  balbúrdia,  lev(» 
do  Archivo  um  periíaminho  perfeitamente  inútil ! 
Vae  buscar  o  rolo...  -Mas  tem  cuidado  com  o  frasco! 

O  Bento,  cuidadoso,  sempre  lento,  ainda  enfiou 
os  botões  d"agatha  nos  punhos  da  camisa  do  Sr. 
Doutor,  e  desdobrou  sobre  a  cama,  para  elle  vestir, 
a  quinzena.  a§  calças  bem  vincadas,  de  cheviote  leve. 
E  Gonçalo,  retomado  pela  idéa  de  artigos  para  os 
Annaes,  folheava,  rente  á  janella.  a  Historia  da 
Adniinistraçào  Publica  em  l'orlufjal,  quando  Bento 


A    ILlASTliK   CASV    UK    UAMIliKS  39 


\oltou  com  um  rolo  de  pergaminho.  (i"oude  pendia, 
por  fitas  roídas,  um  sello  de  chumbo. 

—  Esse  mesmo!  exclamou  o  Fidalgo  atirando  o 
volume  para  o  poial  da  janella.  É  esse  mesmo  que 
eu  enrolei  no  pergaminho  para  se  não  quebrar.  Des- 
embrulha, deixa  em  cima  da  commoda. ..  O  Sr.  Dr. 
Mattos  aconselhou  que  o  tomasse  com  agua  tépida. 
em  jejum.  Parece  que  ferve.  K  limpa  o  sangue,  des- 
annuvia  a  cabeça. . .  Pois  eu  muito  necessitado  ando 
de  desannuviar  a  cabeça!...  Toma  tu  também,  Ben- 
to. E  dize  á  Rosa  que  tome.  Todos  tomam  agora,  até 
o  Papa! 

Com  cuidado,  o  Bento  desenrolara  o  frasco,  esten- 
dendo sobre  o  mármore  da  commoda  o  pergaminho 
(luro,  onde  a  lettra  do  século  xvt  se  encarquilhava 
amarella  e  morta.  E  Gonçalo,  abotoando  o  colarinho : 

—  Ora  ahi  está  o  que  eu  levo  preciosamente  para 
deslindar  o  foro  de  Praga!  Um  pergaminho  do  tempo 
de  ]).  Sebastião. . .  E  só  percebo  mesmo  a  data,  mil 
quatrocentos. ..  Não,  mil  quinhentos  e  setenta  e  sete. 
rsas  vésperas  da  jornada  d"Africa. ..  Emfim!  serviu 
para  embrulhar  o  frasco. 

O  Bento,  que  escolhera  no  gavetão  um  collete 
branco,  relanceou  de  lado  o  pergaminho  venerável : 

—  Naturalmente  foi  carta  que  El-rei  D.  Sebas- 
tião escreveu  a  algum  avosinho  do  Sr.  Doutor... 

— Naturalmente,  murmurava  o  Fidalgo,  deante 


40  A    ILUSTRE    CASA    1)K    RAMIRES 


do  espelho.  E  para  lhe  dar  alguma  cousa  boa,  alguma 
cousa  gorda...  Antigamente  ter  rei  era  ter  renda. 
Agora...  Não  apertes  tanto  essa  tivella,  homem!  Tra- 
go ha  dias  o  estômago  inchado...  Agora,  com  efíei- 
to,  esta  instituição  de  Rei  anda  muito  safada,  Bento  t 

—  Parece  que  anda,  observou  gravemente  o  Ben- 
to. Também,  o  Século  affiança  que  os  Beis  estão  a 
acabar,  e  por  dias.  Ainda  hontem  affiançava.  E  o 
Século  é  jornal  bem  informado. . .  No  de  hoje,  não 
sei  se  o  Sr.  Doutor  leu,  lá  vem  a  grande  festa  dos 
annos  do  Sr.  Sanches  Lucena,  e  o  fogo  do  vistas,  e 
o  bródio  que  deram  na  Feitosa. . . 

Enterrado  no  divan  de  damasco,  Gonçalo  esten- 
dera os  pés  ao  Bento  que  lhe  laçava  as  botas  bran- 
cas: 

—  Esse  Sanches  Lucena  é  um  idiota!  Ora  que 
arranjo  fará  a  esse  homem,  aos  sessenta  annos,  ser 
deputado,  passar  mezes  em  Lisboa  no  Francfort, 
abandonar  as  propriedades,  deixar  aquella  linda 
quinta...  E  para  qui^?  Para  rosnar  de  vez  em  quan- 
do «apoiado!»  Antes  elle  me  cedesse  a  cadeira,  a 
mim,  que  sou  mais  esperto,  não  possuo  grandes 
terras,  e  gosto  do  Hotel  Bragança.  E  por  Sanches 
Lucena. . .  O  Joaquim  amanhã  que  me  tenha  a  egoa 
prompta,  a  esta  hora,  para  eu  ir  á  Feitosa  visitar  esse 
animal. . .  E  ponho  então  o  fato  novo  de  montar  que 
trouxe  de  Lisboa,  com  as  polainas  altas. . .  Ha  mais  de 


A    IM.I  STltK    CASA    1)K    liAMIUKS  M 


dois  annos  que  não  vojo  a  1).  Anna  Lucena.  É  uma 
linda  mulher! 

— Pois  quando  o  Sr.  Doutor  estava  em  Lisboa 
elles  passaram  ahi,  na  caleche.  Até  pararam,  e  o 
Sr.  Sanches  Lucena  apontou  para  a  Torre,  a  mostrar 
á  senhora. . .  IMulher  muito  perfeita !  E  traz  uma 
íírande  luneta,  com  um  grande  cabo,  e  um  grande 
grilhão,  tudo  d'oiro. . . 

—  Bravo! . . .  Encharca  bem  esse  leneo  com  agoa 
de  Colónia,  que  tenho  a  cabeça  tão  pesada!...  Essa 
1).  Anna  era  uma  jornaleira,  uma  moça  do  campo, 
de  Corinde? 

Bento  protestou,  com  o  frasco  suspenso,  espan- 
tado para  o  Fidalgo: 

—  Não  senhor!  A  Snr."  D.  Anna  Lucena  é  de 
gente  muito  baixa!  Filha  d'um  carniceiro  d'Ovar, . , 
E  o  irmão  andou  a  monte  por  ter  morto  o  ferrador 
d"  Ílhavo. 

—  Emfmi,  resumiu  Gonçalo,  fdha  de  carniceiro, 
iniião  a  monte,  bella  mulher,  luneta  d'oiro...  Me- 
rece fato  novo! 


Em  Villa-Clara,  ás  dez  horas,  sentado  n"um  dos 
bancos  de  pedra  do  Chafariz,  sob  as  olaias,  o  Tito 
esperava  com  o  amigo  João  Couveia  —  que  era  o 
Administrador  do  Concelho  da  Mlla.  Ambos  se  aba- 


A  IMASTmc  C.ASA  DE  P.AM1I!K> 


navam  com  os  chapéus,  em  silencio,  gozando  a  Ires- 
cura  e  o  sussurro  da  agua  lenta  na  sombra.  E  a 
«meia»  batia  no  relógio  da  Camará,  quando  Gonçalo, 
que  se  retardara  na  Assembléa  n'um  \oltarete  enre- 
missado,  appareceu  annunciando  uma  fome  terrível, 
«a  fome  histórica  dos  Ramires»,  e  apressando  a  mar- 
cha para  o  Gago  —  sem  mesmo  consentir  que  o  Tito 
descesse  á  tabacaria  do  Brito,  a  buscar  uma  garrafa 
de  aguardente  de  canna  da  fiadeira,  velha  e  «da 
ponta  fina. . . » 

—  Não  ha  tempo!  Ao  Gago!  Ao  Gago!...  Senão 
devoro  um  de  Vocês,  com  esta  furiosa  fome  Jiami- 
rica ! 

.Mas,  logo  ao  subirem  a  Calçadinha.  parou  elle 
cruzando  os  braços,  interpellando  divertidamente  o 
Sr.  Aministrador  do  Concelho  pelo  estupendo  íeito 
do  seu  Governo . . .  Então  o  seu  Governo,  os  seus 
amigos  Históricos,  o  seu  honradíssimo  S.  Fulgencio  — 
nomeavam,  para  Governador  Civil  de  Monforte,  o 
António  Moreno!  O  António  Moreno,  tão  justamente 
chamado  em  Coimbra  Antoninha  Morena !  Não,  real- 
mente, era  a  derradeira  degradação  a  que  podia  ro- 
lar um  paiz!  Depois  d"esta,  para  harmonia  perfeita 
dos  serviços,  só  outra  nomeação,  e  urgente — a  da 
.loanna  Salgadeira,  Procuradora  Geral  da  CorO)a! 

E  o  João  Gouveia,  um  homem  pequeno,  muito  es- 
curo, muito  secco.  de  bigode  mais  duro  que  piassaba. 


A   ILLLSTIÍE    CAS.V   DK   UA.MIUES  4.'{ 


esticado  n'uma  sobrecasaca  curta,  com  o  chapéu  de 
coco  atirado  para  a  orelha,  não  discordava.  Empre- 
gado imparcial,  servindo  os  Históricos  como  servira 
os  Iiegeneradores,  sempre  acolhia  com  imparcial  iro- 
nia as  riomeaçues  de  bacharéis  novos,  Históricos  o  li 
Regeneradores,  para  os  gordos  logares  Administra- 
tivos. Mas.  n"este  caso,  sinceramente,  qiiasi  vomi- 
tara, rapazes!  Governador  Civil,  e  de  Monforte,  o 
António  Moreno,  que  elle  tantas  vezes  encontrara  no 
quarto,  em  Coimbra,  vestido  de  mulher,  de  roupão 
aberto,  e  a  carinha  l)onita  coberta  de  pó  de  arroz!... 
— E,  travando  do  braço  do  Fidalgo,  recordava  a  noite 
em  que  o  José  Gorjâo,  muito  bêbedo,  de  cartola  e 
com  um  revólver,  exigia  furiosamente  que  o  padre 
Justino,  também  bêbedo,  o  casasse  com  o  Antoninho 
deante  d'um  nicho  da  Senhora  da  Boa  Morte!  Mas 
o  Tito,  que  esperava,  íloreando  o  bengalão,  declarou 
áquelles  senhores  que  se  o  tempo  sobejava  para  ar- 
rastarem assim  na  rua,  a  conversar  de  Politica  e 
d'indecencias  —  então  voltava  elle  ao  Brito,  buscar  a 
aguardentesinha. . .  Immediatamente  o  Fidalgo  da 
Torre,  sempre  brincalhão,  sacudiu  o  braço  do  Admi- 
nistrador, e  galgou  pela  Calçadinha,  aos  corcovos, 
com  as  mãos  fortemente  juntas,  como  colhendo  uma 
rédea,  contendo  um  cavallo  que  se  desboca.    • 

E  na  sala  alta  do  Gago.  ao  cimo  da  escada  es- 
guia e  Íngreme  que  subia  da  taberna,  a  um  canto 


A    lUJSTUE    CASA    Dl-:   IIAMIRES 


da  comprida  mesa  allumiada  por  dois  candieiros  do 
petróleo,  a  ceia  foi  muito  alegre,  muito  sajjoreada. 
Gonçalo,  que  se  declarava  miraculosamente  curado 
pelo  passeio  até  aos  Bravaes  e  pelas  emoções  do  vol- 
tarete em  que  ganhara  desenove  tostões  ao  Manoel 
Duarte — começou  por  uma  pratada  d'ovos  com  chou- 
riço, devorou  metade  da  tainha,  devastou  o  seu  «fran- 
go de  doente»,  clareou  o  prato  da  salada  de  pepino, 
lindou  por  um  montão  de  ladrilhos  de  marmellada: 
c  atravez  d"este  nobre  trabalho,  sem  que  a  fina 
Itrancura  da  sua  pelle  se  afogueasse,  esvasiou  uma 
ca.neca  vidrada  de  Alvaralhâo,  porque  logo  ao  pri- 
meiro trago,  e  com  desgosto  do  Tito,  amaldiçoara  o 
vinho  no\o  do  Abbade.  Á  sobremeaa  appareceu  o  Vi- 
deirinha,  «o  Videirinha  do  violão»,  tocador  afamado 
de  Villa  Clara,  ajudante  da  Pharmacia,  e  poeta  com 
versos  de  amor  e  de  patriotismo  já  impressos  no 
Independente  d' Oliveira.  Jantara  n'essa  tarde,  com 
o  violão,  em  casa  do  commendador  Barros,  que  cele- 
brava o  anniversario  da  sua  commenda:  e  só  accei- 
tou  um  copo  d'Alvaralhâo,  em  que  esmagou  um  la- 
drilho do  marmellada  «para  adocicar  a  goella».  De- 
pois, á  meia  noite,  Oonçalo  obrigou  o  Oago  -i  esper- 
tar o  lume,  ferver  um  café  «muito  forte,  um  café 
terrível,  Gago  amigo!  um  café  capaz  de  abrir  talento 
no  Sr.  Commendador  Barros!»  Era  essa  a  hora  di- 
vina do  violão  e  do  «fadinho».    E  já  o  Videirinha 


A    ILI.LSTI-.r:    CAS\   1)K    liAMIllKS 


recuara  para  a  sombra  da  sala,  pigarreanilo.  atíinan- 
do  os  bordões,  pousado  com  melancolia  á  borda  d"am 
l)anco  alto. 

—  A  Soleãdd.  Videirinha!  pediu  o  bom  Tito.  pen- 
sativo, enrolando  um  grosso  cigarro. 

Nideirinha  gemeu  deliciosamente  a  Soledad: 

Ouando  lores  ao  cemitério 
Ai  Soleílail,  Sol<>(];td  ! . . . 

Depois,  apenas  elle  lindou,  acclamado.  e  emquantu 
acertava  as  cravelhas,  o  Fidalgo  da  Torre  e  João 
Gouveia,  com  os  cotovellos  na  mesa,  os  charutos 
lumegando,  conversaram  sobre  essa  venda  de  Lou- 
renço  Marques  aos  Inglezes,  preparada  surrateira- 
inente  (conforme  clamavam,  arripiados  de  horror, 
os  jornaes  da  Opposiçâo)  pelo  Governo  do  S.  Ful- 
gencio.  E  Gonçalo  também  se  arripiava!  Não  com  a 
alienação  da  Colónia  —  mas  com  a  impudência  do  S. 
Fulgencio!  <jue  aquelle  careca  obeso,  tilho  sacrilego 
d'um  írade  que  depois  se  fizera  mercidro  em  Cabe- 
celhos,  trocasse  a  libras,  para  se  manter  mais  dois 
annos  no  Poder,  um  pedaço  de  Portugal,  torrão  au- 
gusto, trilhado  heroicamente  pelos  Gamas,  os  Athay- 
des,  os  Castros,  os  seus  próprios  avós  —  era  para  elle 
uma  abominação  que  justificava  todas  as  violências, 
mesmo  uma  revolta,  e  a  casa  do  Iiraçranea  enterrada 


46  A   II-LISTRE    CASA   DE   UAMIRES 


no  lodo  do  Tejo!  Trincando,  sem  parar,  amêndoas 
torradas,  João  Gouveia  observou: 

— Sejamos  justos,  Gonçalo  Mendes!  Olhe  que  os 
Regeneradores . .  . 

O  Fidalgo  sorrio  superiormente.  Ah!  se  os  Re- 
generadores realisassem  essa  grandiosa  operação  — 
bem!  Esses,  primeiramente,  nunca  commetteriam  a 
indecencia  de  vender  a  ínglezes  terra  de  Portugue- 
zes!  Negociariam  com  Francezes,  com  Italianos,  po- 
vos latinos,  raças  fraternas  ...  E  depois  os  bons  mi- 

•  Ihões  soantes  seriam  applicados  ao  fomento  do  Paiz, 
com  saber,  com  probidade,  com  experiência.  Mas 
esse  horrendo  careca  do  S.  Fulgencio!...  —  E  no  seu 
furor,  engasgado,  gritou  por  genebra,  por  que  real- 
mente aquelle  cognac  do  Gago  era  uma  peçonha 
torpe ! 

O  Tito  encolheu  os  hombros,  resignado: 
—  Não  me  deixaste  ir  buscar  a  aguardentesinha. 
agora   aguenta ...   E  a  genebra  é  ainda  mais  p(!ço- 
nhenta.  Nem  para  os  negros  d'esse  Lourenço  Mar- 
ques que  tu  queres  vender.,.  Portuguezes  indecen- 

•  tes,  a  vender  Portugal !  Até  o  Sr.  Administrador  do 
Concelho  devia  jjrohibir  estas  conversas... 

Mas  o  Sr.  Administrador  do  Concelho  afíirmou 
que  as  consentia,  e  rasgadamente  .  . .  Por  que  tam- 
bém elle,  como  Governo,  venderia  Lourenço  Mar- 
ques, e  Moçambique,  e  toda  a  Costa  Oriental!  E  ás 


A   ILUSTRE   CAS.V    I)K    HAMIlUíS 


talhadas !  Em  leilão !  VIU,  toda  a  Africa,  posta  em 
praça,  apresroada  no  Terreiro  do  Paço!  E  sabiam  os 
amigos  porqiK'?  Pelo  são  principio  de  forte  adminis- 
tração—  (estendia  o  braço,  meio  alçado  do  banco, 
como  n"um  Parlamento). . .  Pelo  são  principio  de  que 
todo  o  proprietário  de  terras  distantes,  que  não  pô- 
de valorisar  por  íalta  de  dinheiro  ou  gente,  as  deve  ^ 
vender  para  concertar  o  seu  telhado,  estrumar  a  sua 
horta,  povoar  o  seu  curral,  fomentar  todo  o  bom 
torrão  que  pisa  com  os  pés  . .  .  Ora  a  Portugal  res- 
tava toda  uma  riquíssima  |)rovincia  a  amanhar,  a 
regar,  a  lavrar,  a  semear  — o  Alemtejo! 

'J  Tito  lançou  o  vozeirão,  desdenhando  o  Alem- 
tejo como  uma  pellicula  de  terra  de  má  qualidade, 
que,  fora  umas  legoas  de  campos  em  torno  de  Beja 
e  de  Serpa,  por  um  grão  só  dava  dois,  e,  apenas 
esgaravetada,  logo  mostrava  o  granito  .  . . 

—  O  mano  João  tein  lá  uma  herdade  immensa. 
immensissima,  que  rende  trezentos  mil  réis! 

O  Administrador,  que  advogara  em  Mertola,  pro- 
testou, encristado.  O  Alemtejo!  Província  abandona- 
da, sim !  Abandonada  miseravelmente,  desde  séculos, 
pela  imbecilidade  dos  governos  . .  .  Mas  riquissima,    a 
fertilissima ! 

—  Pois    então    os    Árabes...    E   qual   Árabes!  # 
Ainda  ha  dias  o  Freitas  (}alvão  me  contava  .  .  . 

Mas   Gonçalo    Mendes,   que  cuspira  também  a 


'l-8  A   ILUSTliE   CASA   DE   RAMIRES 


genebra  cora  uma  carantonlia.  acudiu,  n'ura  resumo 
varredor,  condemnando  todo  o  Alemtejo  como  uma 
desgraçada  illusão ! 

Estirado  por  sobre  a  mesa,  o  Administrador 
gritava : 

—  Você  já  esteve  no  Alemtejo? 

—  Também  nunca  estive  na  China,  e  . .  . 

— ^  Então  não  íalle !  Só  a  vinha  espantosa  que 
plantou  o  João  ÍMaria  . .  . 

—  Quê!  Umas  cem  pipas  de  zurrapa!  Mas,  n"ou- 
tros  sitios,  legoas  c  legoas  sem  . .  . 

—  Um  celleiro ! 

—  Uma  charneca! 

E  atravez  do  tumulto  o  Videirinha,  repenican- 
do com  solitário  ardor,  le^  ado  na  torrente  d'ais  do 
«fado»  da  Ariosa,  soluçava  contra  uns  olhos  negros, 
donos  do  seu  coração : 

Ai  1  que  (los  teus  iie.uros  olhos 
Mc  vem  hoje  a  perdição... 

(.)  petróleo  dos  candieiros  lindava :  o  o  Gago. 
reclamado  para  trazer  castiçaes,  surdio  em  mangas 
de  camisa,  detraz  d'uma  cortina  de  chita,  com  a  sua 
esperta  humildade  banhada  em  riso,  lembrando  a 
suas  Excellencias  que  passava  da  uma  horasinha  da 
noite ...   U  Administrador,   que  detestava  noitadas. 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  49 


nocivas  á  sua  garganta  (de  amygdalas  loucamente 
ínílamniaveis),  puxou  o  relógio  com  terror.  E  rapi- 
damente roabotoado  na  sobrecasa,  de  chapéo  coco 
mais  tombado  ú  banda,  apressou  o  lento  Tito,  por 
que  ambos  moravam  no  alto  da  Villa — elle  deíron- 
te  do  Correio,  o  outro  na  viella  das  Therezas,  n'uma 
casa  onde  outr'ora  habitara  e  apparecera  apunha- 
lado o  antigo  carrasco  do  Porto. 

O  Tito  porém  não  se  aviava.  Com  o  bengalão 
debaixo  do  braço,  ainda  chamou  o  Gago  ao  íundo 
sombrio  da  sala  estreita,  para  cochichar  sobre  o  em- 
brulhado negocio  d'uma  compra  de  espingarda,  so- 
berba espingarda  Winchester,  empenhada  ao  Gago 
pelo  filho  do  tabellião  Guedes  d'01iveira.  E,  quando 
desceu  a  escadaria,  encontrou  á  porta  da  taberna, 
no  estendido  luar  que  orlava  a  rua  adormecida,  o 
Fidalgo  da  Torre  e  o  João  Gouveia  bruscamente  en- 
galfinhados na  costumada  contenda  sobre  o  Gover- 
nador Civil  de  Oliveira — o  André  Cavalleiro! 

Era  sempre  a  mesma  briga,  pessoal,  furiosa  e 
vaga.  Gonçalo  clamando  que  não  alludissem  deante 
d'elle,  pelas  cinco  chagas  de  Christo,  a  esse  bandi- 
do, esse  Snr.  Cavalleiro  e  sobretudo  Cavallo,  man- 
dão burlesco  que  desorganizava  o  Districto  !  E  João 
Gouveia  muito  teso,  muito  secco,  com  o  coco  mais 
cabido  na  orelha,  assegurando  a  intelligencia  supe- 
rior do  amigo  Cavalleiro,  que  estabelecera  limpeza  e 


.'iO  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAINIIRES 


ordem,  como  Hercules,  nas  cavallariças  d"01iveira! 
O  Fidalgo  rugia.  E  Videirinha,  com  o  violão  resguar- 
dado atraz  das  costas,  supplicava  aos  amigos  que 
recolhessem  á  taberna,  para  não  alvorotar  a  rua... 

—  Tanto  mais  que  defronte,  coitada,  a  sogra  do 
Dr.  Venâncio  está  desde  hontem  com  a  pontada! 

— Pois  então,  berrou  Gonçalo,  não  venham  com 
disparates  que  revoltam!  Dizer  você,  Gouveia,  que 
(31iveira  nunca  teve  Governador  Civil  como  o  Caval- 
leiro !  . .  .  rsâo  é  por  meu  pae!  O  papá  já  lá  vae  ha 
trez  annos,  infelizmente.  E  concordo  que  não  fos- 
se boa  auctoridade.  Era  írou.vo,  andava  doente  . .  . 
Mas  depois  tivemos  o  Visconde  de  Freixomil.  Ti- 
vemos o  Bernardino.  Você  serviu  com  elles.  Eram 
dois  homens!...  Mas  este  cavallo  d*este  Cavallei- 
ro!  A  primeira  condição  para  a  auctoridade  su- 
perior d'um  Districto  é  não  ser  burlesca.  E  o  Caval- 
leiro  é  d"entremez!  Aquella  guedelha  de  trovador,  e 
a  horrenda  bigodeira  negra,  &  o  olho  languinhento 
a  pingar  namoro,  e  o  papo  empinado,  e  o  pó-pó- 
po/t !  É  d'entremez!  E  estúpido,  d"uma  estupidez 
fundamental,  que  lhe  começa  nas  patas,  vem  su- 
bindo, vem  crescendo.  Uh  senhores,  que  animal !  .  . 
Sem  contar  que  é  malandro. 

Teso  na  sombra  do  immenso  Tito,  como  uma 
estaca  junto  d"uma  torre,  o  Administrador  mordia 
o  charuto.  Depois,  de  dedo  espetado,  com  uma  sere- 
nidade cortante: 


A   ILUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


—  N'oct'  acabou?..  .  Pois,  Gonçalinho,  agora  es- 
cuto! Em  todo  o  districto  d'01iveira,  note  bem,  em 
todo  elle!  não  ha  ninguém,  absolutamente  ninguém, 
que  de  longe,  muito  de  longe,  se  compare  ao  Ca- 
valleiro  em  intelligencia.  caracter,  maneiras,  saber, 
e  finura  politica! 

O  Fidalgo  da  Torre  emmudeceu,  varado.  Por 
fim  sacudindo  o  braço,  n'um  desabrido,  arrogante 
desprezo : 

—  Isso  são  as  opiniões  d'um  subalterno!      v 

—  E  isso  são  as  expressões  d'um  malcreado!  ui- 
vou o  outro,  crescendo  todo,  com  os  olhinhos  esbu- 
galhados a  fuzilar. 

ímmediatamente  entre  os  dois,  mais  grosso  que 
um  barrote,  avançou  o  braço  do  Tito,  estendendo 
uma  sombra  na  calçada: 

—  Olá!  Oh  rapazes!  Que  desconchavo  é  este? 
^'ocès  estão  borrachos  ?  . . .  Pois  tu,  Gonçalo  . . . 

Mas  já  Gonçalo,  n'um  d'esses  seus  impulsos  ge- 
nerosos e  amoraveis  que  tão  finamente  seduziam. 
se  humilhava,  confessava  a  sua  brutalidade,  sensibi- 
iisado: 

—  Perdoe  você,  João  Gouveia!  Sei  perfeitamen- 
te que  você  defende  o  Cavalleiro  por  amizade,  nâo 
por  dependência  .  .  .  Mas  que  quer,  homem?  Guan- 
do me  faliam  n'esse  Cavallo  .  . .  Nâo  sei,  é  por  con- 
tagio da  besta,  orneio,  atiro  coice! 


A   ILUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


O  Gouveia,  sem  rancor,  logo  reconciliado  (por- 
([ue  admirava  carinhosamente  o  Fidalgo  da  Torre), 
deu  um  puxão  forte  á  sobrecasaca  e  apenas  obser- 
vou «que  o  Gonçalinho  era  uma  ílôr,  mas  pica- 
va... »  Depois,  aproveitando  a  emoção  submissa  de 
Gonçalo,  recomeçou  a  glorificação  do  Cavalleiro, 
mais  sóbria.  Recouhecia  certas  fraquezas.  Sim,  com 
effeito,  aquelle  modo  impertigado  .  . .  Mas  que  cora- 
ção!— E  o  Gonçalinho  devia  considerar..  . 

O  Fidalgo,  de  novo  revoltado,  recuou,  espal- 
mando as  mãos: 

— Escute  você,  oh  João  Gouveia !  Por  que  é 
que  você  lá  em  cima,  á  ceia,  não  comeu  a  salada 
de  pepino?  Estava  divina,  até  o  Videirinha  a  ap- 
peteceu!  Eu  repeti,  acabei  a  travessa...  For  que 
foi?  Por  que  você  tem  horror  physiologico,  hor- 
ror visceral  ao  pepino.  A  sua  natureza  e  o  pepino 
são  incompatíveis.  Não  ha  raciocínios,  não  ha  subti- 
lezas, que  o  persuadam  a  admittir  lá  dentro  o  pepi- 
no. Você  não  duvida  que  elle  seja  cxcellente,  desde 
i]ue  tanta  gente  de  bem  o  adora:  mas  você  não 
pôde...  Pois  eu  estou  para  o  Cavalleiro  como  vo- 
cê para  o  pepino.  Não  posso!  Não  ha  molhos,  nem 
razoes,  que  m'o  disfarcem.  Para  mim  c  ascoroso. 
Não  vae!  Vomito! . . .  E  agora  ouça  . . . 

Então  Tito,  que  bocejava,  interveio,  já  farto: 

— Bem!  Parcce-me  que  apanhamos  a  nossa  dose 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIIIES  !i'\ 


(le  Cavai  lei  ro,  e  valente!  Somos  todos  muito  boas  pes- 
soas e  só  nos  resta  debandar.  Eu  tive  senhora,  tive 
tainha. . .  Estou  derreado.  E  não  tarda  a  madrugada, 
([ue  vergonha! 

O  Administrador  pulou.  Oh  Diabo!  E  elle,  ás  nove 
horas  da  manhã,  com  commissão  de  recenseamen- 
to!... Para  esmagar  bem  o  anu'io,  cingiu  Gonçalo 
n'um  rijo  abraço.  E,  quando  o  Fidalgo  descia  para 
o  Chafariz  com  o  Videirinha  (que  n'estas  noites 
festivas  de  Villa  Clara  o  acompanhava  sempre  pela 
estrada  até  ao  portão  da  Torre),  João  Gouveia  ainda 
se  voltou,  pendurado  do  braço  do  Tito  no  meio  da 
Calçadinha,  para  lhe  lembrar  um  preceito  moral 
«de  não  sei  que  philosopho»: 

— «Não  vale  a  pena  estragar  boa  ceia  por  causa 
de  má  politica. . .»  Creio  que  é  d'Aristoteles! 

E  até  Videirinha,  que  de  novo  afinava  a  viola, 
se  preparava  para  um  solto  descante  ao  luar,  mur- 
murou respeitosamente  por  entre  abafados  harpejos: 

—  Não  vale  a  pena,  Sr.  Doutor. , .  Realmente  não 
vale  a  pena,  por  que  em  Politica  hoje  c  branco,  ama- 
nhã é  negro,  e  depois,  zás,  tudo  é  nada ! 

O  fidalgo  encolhera  os  hombros.  A  Politica !  Como 
se  elle  pensasse  na  Auctoridade,  no  Sr.  Governador 
civil  d'01iveira  —  quando  injuriava  o  Sr.  André  Ca- 
valleiro,   de  Corinde!  Não!   o   que  detestava  era  o 


A   ILUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


homem — o  falso  homem  cVolho  langoroso!  Por  que 
entre  elles  existia  um  d"esses  fundos  aggravos  que 
outrora,  no  tempo  dos  Tructesindos,  armavam  um 
contra  o  outro,  em  dura  arrancada  de  lanças,  dois 
bandos  senhoriaes. . .  —  E  pela  estrada,  com  a  lua"no 
alto  dos  oiteiros  de  Valverde,  em  quanto  no  violão 
do  Videirinha  tremia  o  choro  lento  do  fado  do  Vimio- 
so, Gonçalo  Mendes  recordava,  aos  pedaços,  aquella 
historia  que  tanto  enchera  a  sua  alma  desoccupada. 
Kamires  e  Cavalleiros  eram  famílias  vizinhas,  uma 
com  a  velha  torre  em  Santa  Ireneia,  mais  velha  que 
o  Reino  —  a  outra  com  quinta  bem  tratada  e  rendosa 
em  Corinde.  E  quando  elle,  rapaz  de  dezoito  annos, 
enfiava  enfastiadamente  os  preparatórios  do  Lyceu, 
André  Cavalleiro,  então  estudante  do  Terceiro-Anno, 
Já  o  tratava  como  um  amigo  serio.  Durante  as  fé- 
rias, como  a  mãe  lhe  dera  um  cavallo,  apparecia  to- 
das as  tardes  na  Torre;  e  muitas  vezes,  sob  os  ar- 
voredos da  quinta  ou  passeando  pelos  arredores  de 
Bravaes  e  Valverde,  lhe  confiava,  como  a  um  espi- 
rito maduro,  as  suas  ambições  politicas,  as  suas  idéas 
de  vida  que  desejava  grave  e  toda  votada  ao  Estado, 
(iracinha  Ramires  desabrochava  na  flor  dos  seus  de- 
zeseis  annos;  o  mesmo  em  Oliveira  lhe  chamavam  a 
«flor  da  Torre».  Ainda  então  vivia  a  governante 
ingleza  de  Gracinha,  a  boa  IMiss  Rhodes  — que,  como 
todos  na  Torre,  admirava  com  enthusiasmo  André 


A  ILLUSTÍIE  CASA  DE  RAMIUES  55 


Cavalleiro  pela  sua  amabilidade,  a  sua  ondeada  ca- 
helleira  romântica,  a  doçura  quebrada  dos  seus  olhos 
larííos,  a  maneira  ardente  de  recitar  Victor  Hugo 
e  João  de  Deus.  E,  com  essa  íraqueza  que  lhe  amol- 
lecia  a  alma  e  os  princípios  perante  a  soberania  do 
Amor,  favorecera  demoradas  conversas  de  André  com 
Maria  da  Graça  sob  as  olaias  do  Mirante  e  mesmo 
cartinhas  trocadas  ao  escurecer  por  sobre  o  muro 
baixo  da  Mãe  d" Agua.  Todos  os  domingos  o  Caval- 
leiro jantava  na  Torre:  —  e  o  velho  procurador  Re- 
bello  já  preparara,  com  esforço  e  resmungando,  um 
conto  de  reis  para  o  enxoval  da  «menina».  O  pae 
de  Gonçalo,  Governador  Civil  de  Oliveira,  sempre 
atarefado,  enredado  em  Politica  e  em  dividas,  ama- 
nhecendo só  na  Torre  aos  Domingos,  approvava  esta 
collocação  de  Gracinha,  que,  meiga  e  romanesca,  sem 
mãe  que  a  velasse,  creava  na  sua  vida,  já  difficil,  um 
tropeço  e  um  cuidado.  Sem  representar  como  elle 
uma  familia  de  immensa  Chronica,  anterior  ao  Rei- 
no, do  mais  rico  sangue  de  Reis  godos,  André  Ca- 
valleiro era  um  moço  bem  nascido,  filho  de  gene- 
ral, neto  de  desembargador,  com  brasão  legitimo 
na  sua  casa  apalaçada  de  Corinde,  e  terras  fartas, 
em  redor,  de  boa  semeadura,  limpas  de  hypothe- 
c£is. . .  Depois,  sobrinho  de  Reis  Gomes,  um  dos  Che- 
fes Históricos,  já  filiado  no  Partido  Histórico  (desde 
o  Segundo  Anno  da  Universidade),  a  sua  carreira 


o6  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


andava  marcada  com  segurança  e  brilho  na  Poli- 
tica e  na  Administração.  E  emfim  Maria  da  Graça 
amava  enlevadamente  aquelles  reluzentes  bigodes,  o& 
homl)ros  fortes  de  Hercules  bem  educado,  o  porte 
ufano  que  lhe  encouraçava  o  peitilho  e  que  impres- 
sionava. Ella,  em  contraste,  era  pequenina  e  frágil, 
com.  uns  olhos  timidos  e  esverdeados  que  o  sorriso 
humedecia  e  enlanguescia,  uma  transparente  pelle  de 
porcellana  fina,  e  cabellos  magníficos,  mais  lustrosos  e 
negros  que  a  cauda  d' ura  corcel  de  guerra,  que  lhe 
rolavam  até  aos  pés,  em  que  se  podia  embrulhar  toda, 
assim  macia  e  pequenina.  Quando  desciam  ambos  as 
alamedas  da  quinta,  miss  Rhodes  (que  o  pae,  pro- 
fessor de  Litter atura  Grega  em  Manchester,  recheara 
de  Mithologia)  pensava  sempre  em  «Marte  cheio  de 
força  amando  Psyché  cheia  de  graça.»  E  mesmo  os 
criados  da  Torre  se  maravilhavam  do  «lindo  par!» 
Só  a  Snr."  D.  Joaquina  Cavalleiro,  a  mãe  de  André,  se- 
nhora obesa  e  rabugenta,  detestava  aquella  terna  as- 
siduidade do  filho  na  Torre,  sem  motivo  pesado,  só  por 
«desconfiar  da  pinta  da  menina  e  desejar  nora  mais 
comesinha. . .»  Felizmente,  quando  André  Cavalleiro 
se  matriculava  no  Quinto  Anno,  a  desagradável  ma- 
trona morreu  d'uma  anasarca.  O  pae  de  Gonçalo  re- 
cebeu a  chave  do  caixão:  Gracinha  tomou  luto:  e 
Gt)nçalo,  companheiro  de  casa  do  Cavalleiro  Jia  rua 
do  S.  João,  em  Coimbra,  enrolou  um  fumo  na  manga 


A   ILUSTRE   CAS\   DE   RAMIRES 


da  batina.  Logo  em  Santa  Ireneia  se  pensou  que  o 
explendido  André,  libertado  da  peca  opposicâo  da 
manaã,  pediria  a  «Flor  da  Torre»  depois  do  Acto  de 
Formatura.  Mas,  findo  esse  desejado  Acto,  Cavalleiro 
abalou  para  Lisboa — por  que  se  preparavam  Elei- 
ções em  Outubro,  e  elle  recebera  do  tio  Reis  Gomes, 
então  Ministro  da  Justiça,  a  promessa  de  «  ser  depu- 
tado» por  Bragança. 

E  todo  esse  verão  o  passou  na  Capital;  depois  em 
Cintra,  onde  o  negro  langor  dos  seus  olhos  húmidos 
amollecia  corações;  depois  n'uma  jornada  quasi  trium- 
phal  a  Bragança  com  foguetes  e  avivas  ao  sobrinho 
do  Sr.  conselheiro  Reis  Gomes!»  Em  Outubro  Bra- 
gança «  confiou  ao  dr.  André  Cavalleiro  (como  escre- 
veu o  Ec/io  de  fraz-os-Montes)  o  direito  de  a  repre- 
sentar em  Cortes  com  os  seus  brilhantes  conheci- 
mentos litterarios  e  a  sua  íormosissima  presença  de 
orador...»  Recolheu  então  a  Corinde;  mas  nas  suas 
visitas  á  Torre,  onde  o  pae  de  Gonçalo  convalescia 
d'uma  febre  gástrica  que  exacerbara  a  sua  antiga 
diabetes,  André  já  não  arrastava  sofregamente  Gra- 
cinha, como  outr'ora,  para  as  silenciosas  sombras  da 
quinta,  permanecendo  de  preferencia  na  sala  azul,  a 
conversar  sobre  Politica  com  Vicente  Ramires,  que 
se  não  movia  da  poltrona,  embrulhado  n'uma  manta. 
E  Gracinha,  nas  suas  cartas  para  Coimbra  a  Gonçalo, 
já  se  carpia  de  não  correrem  tão  doces  nem  tão  inti- 


.'Í6  A   ILLUSTP.E   CASA   DE   RAMIRES 


mas  as  visitas  do  André  á  Turre,  «occupado,  cumo 
andava  sempre  agora,  a  estudar  para  deputado ...» 
Depois  do  Natal  o  Cavalleiro  voltou  para  Lisboa,  para 
a  abertura  das  Cortes,  muito  apetrechado,  com  o  seu 
creado  ]\Iatheus,  uma  linda  égua  que  comprara  em 
Villa  Clara  ao  Manoel  Duarte,  e  dous  caixotes  de 
livros.  E  a  boa  !\Iiss  Rhodes  sustentava  que  Marte, 
como  convinha  a  um  heróe,  só  reclamaria  Psyché 
depois  d'um  nobre  feito,  uma  estreia  nas  Camarás. 
t(n'um  discurso  lindo,  todo  flores...»  Quando  Gon- 
çalo, nas  férias  de  Paschoa,  appareceu  na  Torre,  en- 
controu Gracinha  inquieta  e  descorada.  As  cartas  do 
seu  André,  que  se  estreara  «e  n*um  discurso  lindo, 
todo  flores. . . »,  eram  cada  semana  mais  curtas,  mais 
calmas.  E  a  ultima  (que  ella  lhe  mostrou  em  se- 
gredo), datada  da  Camará,  contava  em  três  linhas 
mal  rabiscadas  aque  tivera  muito  que  trabalhar  em 
commissõos,  que  o  tempo  se  pozera  lindo,  que  n'essa 
noite  era  o  baile  dos  condes  de  Viflaverde,  e  que  elle 
continuava  com  muitas  saudades  o  seu  fiel  André...» 
Gonçalo  Mendes  Piamires,  logo  n"cssa  tarde,  desaba- 
fou com  o  pae,  que  definhava  na  su^  poltrona: 

—  Eu  acho  que  o  André  se  está  portando  muito 
inal  com  a  Gracinha...  O  papá  não  lhe  parece? 

Vicente  Ramires  apenas  moveu,  n'um  gesto  de 
vencida  tristeza,  a  mão  descarnada  d'onde  a  cada 
momento  lhe  escorregava  o  annel  d'armas. 


A   ILLISTRF,    CASA   DE   RAMIRES  59 


Por  fim  em  Maio  a  sessão  das  Camarás  termi- 
nou—  essa  sessão  que  tanto  interessara  Gracinha, 
anciosa  «que  elles  accabassem  de  discutir  e  tives- 
sem férias. »  E  quasi  immediatamente  ella  em  Santa 
Ireneia,  Gonçalo  em  Coimbra,  souberam  pelos  jornaes 
que  eco  talentoso  deputado  André  Cavalleiro  partira 
para  Itália  e  França  n"uma  longa  viagem  de  re- 
creio e  d'estudo. »  E  nem  uma  carta  á  sua  escolhida, 
quasi  sua  noiva ! . . .  Era  um  .ultraje,  um  bruto  ul- 
traje, que  outr'ora,  no  século  xii,  lançaria  todos  os 
Ramires,  com  homens  de  ca  vali  o  e  peonagem,  sobre 
o  solar  dos  Cavalleiros,  para  deixar  cada  trave  dene- 
grida pela  chamma,  cada  servo  pendurado  d*uma 
corda  de  canave.  Agora  Vicente  Ramires,  apagado 
«>  mortal,  murmurou  simplesmente:  «Que  traste!» 
Elle  em  Coimbra,  rugindo,  jurou  esbofetear  um 
dia  o  infame!  A  boa  Miss  Rhodes,  para  se  consolar, 
desembrulhou  a  sua  velha  harpa,  encheu  Santa  Ire- 
neia de  magoados  harpejos.  E  tudo  findou  nas  lagri- 
mas que  Gracinha,  durante  semanas,  tão  desconso- 
lada da  vida  que  nem  se  penteava,  escondeu  sob  as 
olaias  do  Mirante, 

E,  ainda  depois  d'esses  annos,  a  esta  lembrança 
das  lagrimas  da  irmã,  um  rancor  invadiu  Gonçalo, 
tão  redivivo  que  atirou  para  o  lado,  para  sobre  as 
sebes  da  valia,  uma  bengallada,  como  se  fossem  ás 
costas  do  Cavalleiro!  —  Caminhavam  então  junto  á 


60  A    ILUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


ponte  da  Portclla,  ondo,  os  campos  se  alargam,  e  da 
estrada  se  avista  Villa-Clara,  que  a  lua  branqueava 
toda,  desde  o  convento  de  Santa  Thereza,  rente  ao 
Chafariz,  até  ao  muro  novo  do  cemitério,  no  alto,  com 
os  seus  finos  cyprcstes.  Para  o  fundo  do  valle,  clara 
também  no  luar,  era  a  egrejinha  de  Craquède,  Santa 
Maria  de  Craquède,  resto  do  antigo  Mosteiro  em  que 
ainda  jaziam,  nos  seus  rudes  túmulos  de  granito,  as 
grandes  ossadas  dos  Ramires  Afíonsinos.  Sob  o  arco, 
docemente,  o  riacho  lento,  arrastando  entre  os  sei- 
xos, sussurrava  na  sombra.  E  Videirinha,  enlevado 
n'aquelle  silencio  e  suavidade  saudosa,  cantava,  n'um 
gemer  surdo  de  bordões: 

Baldadas  são  tuas  queixas, 
Escusados  são  teus  ais. 
Que  é  como  se  eu  morto  fora, 
E  não  me  verás  nujica  mais ! . . . 
» 

E  Gonçalo  retomara  as  suas  recordações,  repas- 
sava tristezas  que  d(>pois  cahiram  sobre  a  Torre.  Vi- 
cent(>  Ramires  morrera  n'uma  tarde  dWgosto,  sem 
sollrimento,  estendido  na  sua  poltrona  á  varanda, 
com  os  olhos  cravados  na  vdha  Torre,  nmrmurando 
para  o  padre  Soeiro:  —  «(juantos  Hamires  verá  ella 
ainda,  n'esía  casa,  e  á  sua  sombra?...»  Todas  essas 
ferias  as  consumiu  Concalo  no  escuro  cartório,  des- 


A  II.LISTUE  CASA  1)K  liAMIliKS  61 


ajudado  (por  quo  o  procurador,  o  bom  Piebello,  tam- 
l)em  Deus  o  chamara),  revolvendo  paptns,  apurando 
o  estado  da  casa  —  reduzida  aos  dois  contos  e  trezen- 
tos mil  reis  que  rendiam  os  foros  de  Craquède,  a  her- 
dade de  Praga,  e  as  duas  quintas  hist(»ricas,  Treixedo 
e  Santa  Ireneia.  Quando  regressou  a  Coimbra  deixou 
Gracinha  era  Oliveira,  em  casa  de  uma  prima,  D.  Ar- 
minda Nunes  Viegas,  senhora  muito  abastada,  muito  » 
bondosa,  que  habitava  no  Terreiro  da  Louça  um  im- 
menso  casarão  cheio  de  retratos  d"avoengos  e  de  ar- 
vores de  costado,  onde  ella,  vestida  de  Aelludo  preto, 
pousada  n'um  camapé  de  damasco,  entre  aias  que  íia- 
vam,  perpetuamente  relia  os  seus  Livros  de  Cavalla- 
ria,  o  Ainadis,  Leandro  o  Bello,  Tr  islão  e  Branca  flor, 
as  Chronicas  do  Imperador  Clariínundo. . .  Foi  ahi 
que  José  Barrôlo  (senhor  d"uma  das  mais  ricas  ca- 
sas d'Amarante)  encontrou  Gracinha  Piamires,  e  a 
amou  com  uma  paixão  profunda,  quasi  religiosa  — 
estranha  n'aquelle  moço  indolente,  gorducho,  de  bo- 
chechas coradas  como  uma  maçã,  e  tão^escasso  d'e^- 
pirito  que  os  amigos  lhe  chamavam  «o  José  Baco- 
co». O  bom  Barrolo  residira  sempre  em  Amarante 
com  a  mãe,  não  conhecia  o  trahido  romance  da 
«Plúr  da  Torre» — que  nunca  se  espalhara  para  além 
dos  cerrados  arvoredos  da  quinta.  E,  sob  o  enterne- 
cido e  romanesco  patrocínio  de  D.  Arminda,  noivado 
e  casamento  docemente  se  apressaram,  em  três  me- 


(iâ  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


zes,  depois  d* uma  carta  d(!  Barròlo  a  Gonçalo  Mendes 
Ramires  jurando  —  «que  a  afíeiçâo  pura  que  sentia 
pela  prima  Graça,  pelas  suas  virtudes  e  outras  qua- 
lidades respeitáveis,  era  tão  grande  que  nem  achava 
no  Diccionario  termos  para  a  (íxplicar. . . »  Houve 
uma  boda  luxuosa:  e  os  noivos  (por  desejo  de  Gra- 
(únha,  para  se  não  aífastar  da  querida  Torre),  depois 
d'uma  jornada  filial  a  Amarante,  «armaram  o  seu  ni- 
nho» em  Oliveira,  á  esquina  do  largo  d'El-Rei  e  da  rua 
das  Tecedeiras,  n*um  palacete  que  o  Bacoco  herdara, 
com  largas  terras,  do  seu  tio  Melchior,  Deão  da  Sé. 
Dois  annos  correram,  mansos  e  sem  historia.  E  Gon- 
çalo Mendes  Ramires  passava  justamente  em  Olivei- 
ra as  suas  ultimas  férias  de  Paschoa  quando  André 
Cavalleiro,  nomeado  Governador  Civil  do  Districto, 
tomou  posse,  estrondosamente,  com  foguetes,  philar- 
monicas,  o  Governo  civil  e  o  Paço  do  Bispo  illumi- 
nados,  as  armas  dos  Cavalleiros  em  transparentes  no 
(•afé  da  Arcada  e  na  Recebedoria ! . . .  Barròlo  co- 
nhecia o  Cavalleiro  quasi  intimamente,  admirava  o 
seu  talento,  a  sua  elegância,  o  seu  brilho  Politico. 
Mas  Gonçalo  Mendfs  l«amires,  que  dominava  sobe- 
ranamente o  bom  Bacoco,  logo  o  intimou  a  não  vi- 
sitar o  Sr.  Governador  Civil,  a  não  o  saudar  sequer 
na  rua,  «;  a  partilhar,  por  dever  d*alliança,  os  ranco- 
res ({ue  existiam  entre  Cavalleiros  e  Ramires!  José 
Barròlo  cedeu,  submisso,  espantado,  sem  comprehen- 


A    ILLL.STlllí   CAS.V   DE    RAMIRES  ()."{ 


(ler.  Depois  uma  noite,  no  quarto,  enfiando  as  chi- 
uellas,  contou  a  («racinha  «a  exquisitice  de  Gon- 
çalo » : 

—  K  sem  motivo,  sem  offensa,  só  por  eaiisa  da 
Politica!...  Ora,  vr  tu!  Um  bello  rapaz  como  o  Ca- 
valleiro!  Podíamos  íazer  um  ranchinlio  tão  agrada- 
\  el ! . . . 

Outro  sereno  anno  passou. . .  E  n'essa  primave- 
ra, em  Oliveira,  onde  se  demorara  para  a  festa  dos 
annos  de  Barròlo,  eis  que  Gonçalo  suspeita,  fareja, 
descobre  uma  incomparável  infâmia!  O  impertigado 
homem  da  bigodeira  negra,  o  Sr.  André  Cavalleiro, 
recomeçara  com  soberba  impudência  a  cortejar  Gra- 
cinha Piamires,  de  longo,  mudamente,  em  olhadellas 
tundas,  carregadas  de  saudade  e  langor,  procurando 
agora  apanhar  como  amante  aquella  grande  fidalga, 
aquella  Piamires,  (}ue  desdenhara  como  esposa! 


Tão  levado  ia  Gonçalo  pela  branca  estrada,  no 
rolo  amargo  d'estes  pensamentos,  que  não  reparou 
110  portão  da  Torre,  nem  na  portinha  verde,  á  es- 
quina da  casa,  sobre  três  degráos.  E  seguia,  rente  do 
muro  da  horta,  quando  Videirinha,  que  estacara  com 
(»s  dedos  mudos  nos  bordões  do  violão,  o  avisou,  rindo : 

—  Oh,  Sr.  Doutor,  então  larga  assim  a  estas  ho- 
riis  de  corrida  para  os  Bravaes  ? 


(>4-  A  ILUSTRE  CAS\  DE  RAMIRES 


Gonçalo  virou,  bruscamonte  despertado,  procu- 
rando na  algibeira,  entre  o  dinheiro  solto,  a  chavi- 
nha  do  trinco : 

—  Nem  reparava...  Que  lindamente  você  tem 
tocado,  Videirinha!  Com  lua,  depois  de  ceia,  não  ha 
companheiro  mais  poético . . .  Realmente  você  é  o 
derradeiro  trovador  portuguez! 

Para  y  ajudante  de  Pharmacia,  lilho  d"um  pa- 
deiro d"01iveira,  a  familiaridade  d"aquclle  tamanho 
Fidalgo,  que  lhe  apertava  a  mão  na  botica  deante 
do  Pires  boticário  e  em  Oliveira  deante  das  Auctori- 
dades,  constituía  uma  gloria,  quasi  uma  coroação,  e 
sempre  nova,  sempre  deliciosa.  Logo  sensibilisado, 
feriu  os  bordões  rijamente: 

—  Então,  para  acabar,  lá  vae  a  grande  trova, 
Sr.  Doutor! 

Era  a  sua  famosa  cantiga,  o  Fado  dos  Ramires, 
rosário  de  heróicas  Quadras  celebrando  as  Lendas 
da  Casa  illustre  —  que  elle  desde  raezes  apurava  e 
completava,  ajudado  na  terna  tarefa  pelo  saber  do 
velho  Padre  Soeiro,  capellão  c  archivista  da  Torre. 

Gonçalo  empurrou  a  portinha  verde.  No  corre- 
dor espirrava  uma  lamparina  mortiça,  já  sem  azei- 
te, junto  ao  castiçal  de  prata.  E  Videirinha,  recuan- 
do ao  meio  da  estrada,  com  um  «  dlindlon»  ardente, 
litára  a  Torre,  que,  por  cima  dos  telhados  da  vasta 
casa.  mergulbava  as  ameias,  o  negro  miradoiro,  no 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  6o 


luminoso  silencio  do  ceu  de  verão.  Depois  para  ella 
c  para  a  lua  atirou  as  endeixas  glorificadoras,  na 
dolente  melodia  d' um  fado  de  Coimbra,  rico  em  ais: 


Quem  te  v'rá  sem  que  estremeça, 
Torre  de  Santa  Ireneia, 
Assim  tão  negra  e  callada, 
Por  noites  de  lua  cheia. . . 
Ail  Assim  callada,  tão  negra, 
Torre  de  Santa  Ireneia! 


Ainda  suspendeu  para  agradecer  ao  Fidalgo,  que 
o  c(mvida\  a  a  subir  e  enxugar  um  cálice  do  genebra 
salvadora.  Mas  retomou  logo  o  descante,  ditoso  em 
descantar,  como  sempre  arrebatado  pelo  sabor  dos 
seus  versos,  pelo  prestigio  das  Lendas,  emquanto 
Gonçalo  desapparecia  —  com  folgazãs  desculpas  ao 
Trovador  «por  cerrar  a  portinha  do  Castello. ..» 

Ai !  ahi  estás,  forte  e  soberba, 

Com  uma  historia  em  cada  ameia,  •      ^ 

Torre  mais  velha  que  o  reino, 

Torre  de  Santa  Ireneia  I .  . . 

E  começara  a  quadra  a  Muncio  Ramires,  Dente 
<le  Lobo,  quando  em  cima  uma  sala,  aberta  á  fres- 
cura da  noite,  se  allumiou  —  e  o  Fidalgo  da  Torre, 


66  A  ILU  STUE  CASA  DE  RAMIRES 


com  O  charuto  acceso,  se  debruçou  da  varanda  para 
receber  a  serenada.  Mais  ardente,  quasi  soluçante, 
vibrou  o  cantar  do  Videirinha.  Agora  era  a  qua- 
dra de  Gutierres  Uamires,  na  Palestina,  sobre  o 
monte  das  Oliveiras,  á  porta  da  sua  tenda,  deante 
dos  Barões  que  o  acclamavam  com  as  espadas  nuas. 
recusando  o  Ducado  de  Galiléa  e  o  senhorio  das 
Terras  d"Além-Jordâo.  —  Que  não  podia,  em  verdade, 
acceitar  terra,  mesmo  Santa,  mesmo  de  Galiléa. . . 

Quem  já  tinlia  em  Portugal 
Torras  de  Santa  Ireneia  ! 

—  Boa  piada!  murmurou  Gonçalo. 

Videirinha,  enthusiasmado,  entoou  logo  outra 
nova,  trabalhada  n'cssa  semana — a  do  sahimento 
de  Aldonça  iíamires,  Santa  Aldonça,  trazida  do  mos- 
teiro dWrouca  ao  solar  de  Treixedo,  sobre  o  alma- 
draque  em  que  morrera,  aos  hombros  de  ((uatro 
Reis! 

— Bra\o!  gritou  o  Fidalgo  pendurado  da  va- 
randa. Essa  é  íamosa,  oh  Videirinha!  Mas  ahi  ha 
Reis  de  ^nais. . .  (juatro  Heis! 

Enlevado,  empinando  o  braço  do  violão,  o  aju- 
dante da  Pharmacia  lançou  outra,  já  antiga — a  d'a- 
quelle  terrível  Lopo  Ramires  que,  morto,  se  erguera 
da  sua  campa  no  Mosteiro  de  Craquéde,  montara  um 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  07 


ginete  morto,  e  toda  a  noite  galopara  atravez  da  Hes- 
panha  para  se  bater  nas  Navas  de  Tolosa!  Pigar- 
reou—  e,  mais  chorosamente,  atacou  a  do  Descabe- 
çado : 

IA  passa  a  nej^ra  fiyura,  . . 

Mas  Gonçalo,  que  abominava  aquella  lenda,  a 
silenciosa  figura  degolada,  errando  por  noites  de 
inverno  entre  as  ameias  da  Torre  com  a  cabeça  nas 
mãos — despegou  da  varanda,  deteve  a  Chronica  im- 
mensa : 

—  Toca  a  deitar,  oh  Videirinha,  hein?  Passa  das 
três  horas,  é  um  horror.  Olhe!  O  Tito  e  o  Gouveia 
jantam  cá  na  Torre,  no  Domingo.  Appareça  tam- 
bém, com  o  violão  e  cantiga  nova;  mas  menos  si- 
nistra... Bona  será!  Que  linda  noite! 

Atirou  o  charuto,  fechou  a  vidraça  da  sala  — 
a  «sala  velha,»  toda  revestida  d*esses  denegridos 
e  tristonhos  retratos  de  Ramires  que  elle  desde  pe- 
queno chama\'a  as  caranfonhas  dos  vovôs.  E,  atra- 
vessando o  corredor,  ainda  sentia  rolarem  ao  longe, 
no  silencio  dos  campos  cobertos  de  luar,  façanhas  ri- 
madas dos  seus : 

Ai !  lá  na  grande  batalha. . . 

El-Rei  Dom  Sebastião 

O  mais  moço  tios  Ramires  * 

Que  era  pagem  do  guião. . . 


G8  A  ILIASTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Despido,  soprada  a  vella,  depois  de  um  rápido 
signal  da  cruz,  o  Fidalgo  da  Torre  adormeceu.  Mas 
no  quarto,  que  se  povoou  de  Sombras,  começou 
para  elle  uma  noite  revolta  e  pavorosa.  André  Ca- 
valleiro  e  João  Gouveia  romperam  pela  parede,  re- 
vestidos de  cotas  de  malha,  montados  em  horrendas 
tainhas  assadas!  E  lentamente,  piscando  o  olho  máo, 
arremessavam  contra  o  seu  pobre  estômago  pontoa- 
das de  lança,  que  o  faziam  gemer  e  estorcer  sobre  o 
leito  de  pau  preto.  Depois  era,  na  Calçadinha  de 
Villa-Clara,  o  medonho  Ramires  morto,  com  a  ossa- 
da a  ranger  dentro  da  armadura,  e  El-rei  Dom  Aííon- 
so  II,  arreganhando  afiados  dentes  de  lobo,  que  o 
arrastavam  furiosamente  para  a  batalha  das  Navas. 
Elle  resistia,  fincado  nas  lages,  gritando  pela  Rosa, 
por  Gracinha,  pelo  Titól  Mas  D.  Aííonso  tão  rijo 
murro  lhe  despedia  aos  rins,  com  o  guante  de  fer- 
ro, que  o  arremessava  desde  a  Hospedaria  do  Gago 
até  á  Serra  Morena,  ao  campo  da  lide,  luzente  e 
fremente  de  pendões  e  d'armas.  E  immediatamente 
seu  primo  d*Hespanha,  Gomes  Ramires,  Mestre  de 
Calatrava,  debruçado  do  negro  ginete,  lhe  arrancava 
os  derradeiros  cabellos,  entre  a  retumbante  galhofa 
de  toda  a  hoste  sarracena  e  os  prantos  da  tia  Lou- 
redo  trazida  como  um  andor  aos  hombros  de  quatro 
l»eis!... — Por  fim,  moido,  sem  socègo,  jú  com  a 
madrugada  clareando  nas  lendas  das  janellas  e  as 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  69 


andorinhas  piando  no  beiral  dos  telhados,  o  Fidalgo 
da  Torre  atirou  um  derradeiro  repellâo  aos  lençoes, 
saltou  ao  soalho,  abrio  a  vidraça  —  e  respirou  deli- 
ciosamente o  silencio,  a  frescura,  a  verdura,  o  re- 
pouso da  quinta.  Mas  que  sede!  uma  sede  desespe- 
rada que  lhe  encortiçava  os  lábios!  Recordou  en- 
tão o  famoso  fruit  salt  que  lhe  recommendára  o 
Dr.  Mattos,  —  arrebatou  o  frasco,  correu  á  sala  de 
jantar,  em  camisa.  E,  a  arquejar,  deitou  duas  fartas 
colheradas  n'um  copo  d'agua  da  Bica-Velha,  que 
esvasiou  d'um  trago,  na  fervura  picante. 

—  Ah!  que  consolo,  que  rico  consolo!... 
Voltou  derreadamente  á  cama:  e  readormeceu 

logo,  muito  longe,  sobre  as  relvas  profundas  d' um 
prado  d' Africa,  debaixo  de  coqueiros  susurrantes, 
entre  o  apimentado  aroma  de  radiosas  flores  que 
brotavam  atravez  de  pedregulhos  d'oiro.  D'essa  per- 
feita beatitude  o  arrancou  o  Bento,  ao  meio  dia,  in- 
quieto com  aaquelle  tardar  do  Sr.  Doutor.» 

—  É  que  passei  uma  noite  horrenda.  Bento!  Pe-  ê 
sadelos,  pavores,  bulhas,  esqueletos...  Foram  os  mal- 
ditos ovos  com  chouriço;  e  o  pepino...  Sobretudo  o 
pepino!  Uma  idéa  d'aquelle  animal  do  Tito...  Depois, 
de  madrugada,  tomei  o  tal  fruit  salt,  e  estou  óptimo, 
homem ! . . .  Estou  optimissimo  !  Até  me  sinto  capaz 
de  trabalhar.  Leva  para  a  livraria  uma  chávena  de 
chá  verde,  muito  forte . . .  Leva  também  torradas. 


/<•  A   ILI.rsrilE    CASA    DE  RAMIRES 


E  momentos  depois,  na  livraria,  com  ura  rou- 
pão de  flanella  sobre  a  camisa  de  dormir,  sorvendo 
lentos  goles  de  chá,  Gonçalo  relia  junto  da  varanda 
essa  derradeira  linha  da  Novella,  tão  rabiscada  e 
molle,  em  que  «os  largos  raios  da  lua  se  estiravam 
pela  larga  sala  d'armas...»  De  repente,  n'uma  rasgada 
impressão  de  claridade,  entreviu  detalhes  expres- 
sivos para  aquella  noite  de  Castello  e  de  verão  —  as 
pontas  das  lanças  dos  esculcas  faiscajido  silencio- 
samente pelos  adarves  da  muralha,  e  o  coaxar 
triste  das  rans  nas  bordas  lodosas  dos  fossos . . . 

—  Bons  traços ! 

Achegou  de  vagar  a  cadeira,  consultou  ainda  no 
volume  do  Bardo  o  Poemeto  do  tio  Duarte.  E,  des- 
annuviado,  sentindo  as  Imagens  e  os  Dizeres  surgi- 
rem como  bolhas  d' uma  agua  represa  que  rebenta, 
atacou  esse  lance  do  Capitulo  I  em  que  o  velho 
Tructesindo  Ramires,  na  sala  d*arraas  de  Santa  Ire— 
neia,  conversava  com  seu  filho  Lourenço  e  seu  pri- 
mo D.  Garcia  Viegas,  o  Sabedor,  de  aprestos  de 
guerra...  Guerra!  Porque?  Acaso  pelos  cerros  ar- 
raianos  corriam,  ligeiros  entre  o  arvoredo,  almoga- 
vares  mouros? Não!  Mas  desgraçadamente,  «n"aquella 
terra  já  remida  e  christã,  em  breve  se  crusariam, 
umas  contra  outras,   nobre  lanças  portuguezas!...» 

Louvado  Deus !   a  penna  desemperrára !  E,  at- 


A  ILLLSTHE  CASA  DE  RAMIRES  71 


t»'nto  ás  paginas  marcadas  n'um  tomo  da  Historia 
<rHerculano,  esboçou  com  segurança  a  Epocha  da 
sua  Novella — que  abria  entre  as  discórdias  d(í  Af- 
fonso  II  e  de  seus  irmãos  por  causa  do  testamento 
d'EI-Rei  seu  pae,  D.  Sancho  I.  rs"esse  começo  do  Ca- 
pitulo já  os  Infantes  D.  Pedro  e  D.  Fernando,  esbu- 
lhados, andavam  por  França  e  Leão.  Jii  com  elles 
abandonara  o  Reino  o  íorte  primo  dos  Ramires,  Gon- 
çalo Mendes  de  Souza,  chefe  magnifico  da  casa  dos 
Souzas.  E  agora,  encerradas  nos  castellos  de  Monte- 
-Mór  e  de  Esgueira,  as  senhoras  Infantas,  D.  Thereza 
f  1).  Sancha,  negavam  a  D.  Affonso  o  senhorio  real 
sobre  as  villas,  fortalezas,  herdades  e  mosteiros,  que 
tão  copiosamente  lhes  doara  El-Rei  seu  pae.  Ora, 
antes  de  morrer  no  Alcaçar  de  Coimbra,  o  senhor 
\).  Sancho  supplicára  a  Tructesindo  Mendes  Ramires, 
seu  collaço  e  Alíeres-Mór,  por  elle  armado  cavalleiro 
€m  Lorvão,  que  ^empre  lhe  servisse  e  defendesse  a 
filha  amada  entre  todas,  a  infanta  D.  Sancha,  senhora 
de  Aveyras.  Assim  o  jurara  o  leal  Rico-Homem  junto 
do  leito  onde,  nos  braços  do  Bispo  de  Coimbra  e  do 
Prior  do  Hospital  sustentando  a  candeia,  agonisava, 
vestido  de  burel  como  um  penitente,  o  vencedor  de 
Silves...  Mas  eis  que  rompe  a  íéra  contenda  entre 
Affonso  II,  asperamente  cioso  da  sua  auctoridade  de 
Rei — e  as  Infantas,  orgulhosas,  impellidas  á  resistên- 
cia pelos  freires  do  Templo  e  pelos  Prelados  a  quem 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


D.  Sancho  legara  tão  vastos  pedaços  do  Reino !  ím- 
mediatamente  Alemquer  e  os  arredores  d'oatros  cas- 
tellos  são  devastados  pela  hoste  real  que  recoliiia 
das  Navas  de  Tolosa.  Então  D.  Saacha  e  D.  Thereza 
appellam  para  El-rei  de  Leão,  que  .entra  cora  seu  fi- 
lho D.  Fernando  por  terras  de  Portugal  a  soccorrer 
as  «Donas  opprimidas.» — E  n'este  lance  o  tio  Duarte, 
no  seu  Castello  de  Santa  Ireneia,  interpellava  com 
soherho  garbo  o  Alferes-Mór  de  Sancho  I: 

Que  farás  tu,  mais  velho  dos  Ramires? 
Se  ao  pendão  leonez  juntas  o  teu 
Trahes  o  preito  que  deves  ao  rei  vivo ! 
Mas  se  as  Infantas  deixas  indefezas   ' 
Trahes  a  jura  que  destes  ao  rei  morto ! . . . 

Esta  duvida,  porém,  não  angustiara  a  alma  d'esse 
Tructesindo  rude  e  leal  que  o  Fidalgo  da  Torre  ri- 
jamente modelava.  jN"essa  noite,  apenas  recebera 
pelo  irmão  do  Alcaide  d'Aveyras,  disfarçado  em  be- 
guino,  um  aíílicto  recado  da  senhora  D.  Sancha — or- 
denava a  seu  fdho  Lourenço  que,  ao  primeiro  arre- 
bol, com  quinze  lanças,  cincoenta  homens  de  pé  da 
sua  morcé  e  quarenta  besteiros,  corresse  sobre  Mon- 
te-mór.  EUe  no  emtanto  daria  alarido  —  e  em  dous 
dias  entraria  a  campo  com  os  parentes  de  solar, 
um  troço  mais  rijo  de   cavalleiros  acontiados  e  de 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


frecheiros,  para  se  juntar  a  seu  primo,  o  Souzão^ 
que  na  vanguarda  dos  leonezes  descia  d'Alva-do- 
Douro.  ' 

Depois  logo  de  madrugada  o  pendão  dos  Rami- 
res, o  Açor  negro  em  campo  escarlate,  se  plantara 
deante  das  barreiras  gateadas :  e  ao  lado,  no  chão, 
amarrado  á  haste  por  uma  tira  de  couro,  reluzia  o 
velho  emblema  senhorial,  o  sonoro  e  fundo  caldei- 
rão polido.  Por  todo  o  CastcUo  se  apressavam  os 
serviçaes,  despendurando  as  cervilheiras,  arrastando 
com  fragor  pelas  lages  os  pesados  saios  de  ma- 
lhas de  ícrro.  Nos  pateos  os  armeiros  aguçavam  as- 
cumas,  amaciavam  a  dureza  das  grevas  e  coxotes 
com  camadas  d'estopa.  Já  o  adail,  na  ucharia,  arro- 
lara as  rações  de  vianda  para  os  dous  quentes  dias 
da  arrancada.  E  por  todas  as  cercanias  de  Santa 
Ireneia,  na  doçura  da  tarde,  os  atambores  mou- 
riscos, abafados  no  arvoredo,  tararam!  tararam!  ou 
mais  vivos  nos  cabeços,  ratatam !  ratatam !  convoca- 
vam os  cavalleiros  de  soldo  e  a  peonagem  da  mes- 
nada  dos  Ramires. 

No  emtanto  o  irmão  do  Alcaide,  sempre  disfar- 
çado em  beguino,  de  volta  ao  castello  d'Aveyras  com 
a  boa  nova  de  prestes  soccorros,  transpunha  ligeira- 
mente a  levadiça  da  carcova . . .  E  aqui,  para  ale- 
grar tão  sombrias  vésperas  de  guerra,  o  tio  Duarte, 
no  seu  Poemeto,  engastara  uma  sorte  galante: 


A  ILUSTRE  CASA  DE  IIAMIRES 


Á  moça,  que  na  fonte  encliia  a  bilha. 
O  frade  íouba  um  beijo  c  diz  Amen! 

Mas  Gonçalo  hesitava  em  desmanchar  coin  um 
beijo  de  clérigo  a  pompa  d"aqu(ílla  íormusa  sortida 
d'armas . . .  E  mordia  pensativamente  a  rama  da  pen- 
na  —  quando  a  porta  da  livraria  rangeu, 

—  O  correio.. . 

Era  o  Bento  com  os  Jornaes  e  duas  cartas.  O 
Fidalgo  apenas  abriu  uma,  lacrada  com  o  enorme 
sinete  d'armas  do  Barròlo  — rcpellindo  a  outra  em 
que  reconhecera  a  lettra  detestada  do  seu  alfaiate  de 
Lisboa.  E  immediatamente,  com  uma  palmada  na  mesa: 

—  Oh  diabo!  quantos  do  mez,  hoje?  quatorze. 
hein? 

O  Bento  esperava  com  a  mão  no  fecho  da  porta. 

—  É  que  não  tardam  os  annos  da  mana  Gra- 
ça! De  todo  esqueci,  esqueço  sempre.  E  sem  ter 
um  presentinho  engraçado...  Que  secca,  hein? 

Mas  na  véspera  o  Manoel  Duarte,  na  Assembléa. 
á  mesa  do  voltarete,  annunciára  uma  fuga  a  Lisboa 
por  três  dias,  para  tratar  do  emprego  do  sobrinho 
nas  Obras  Publicas.  Pois  corria  a  \'illa-Clara  pedir 
ao  snr.  Manoel  Duarte  que  lhe  comprasse  era  Lis- 
boa um  bonito  guarda-solinho  de  seda  branca  com 
rendas . . . 

—  O  snr.  Manoel  Duarte  tem  gosto;  tem  muito 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


ii:osto!  E  então  o  Joaquim  que  não  selle  a  egoa;  já 
oâo  vou  ao  Sanches  Lucena.  Oh,  senhores,  quando 
pagarei  eu  esta  infame  visita  ?  Ha  três  mezes ! . . . 
Kmíim,  por  dous  dias  mais  a  bella  D.  Anna  não  en- 
velhece; e  o  ^"elho  Lucena  também  não  morre. 

E  o  Fidalgo  da  Torre,  que  decidira  arriscar  o 
beijo  folgazão,  retomou  a  penna,  arredondou  o  sou 
rmal  com  elegante  harmonia : 

«A  moça,  furiosa,  gritou:  Fu!  Fu!  uillão!  E  o 
beguino,  assobiando,  aligeirou  as  sandálias  pelo  cór- 
rego, na  sombra  das  altas  faias,  emquanto  que  por 
Lodo  o  fresco  valle,  até  Santa  Maria  de  Craquêde,  os 
itambores  mouriscos,  tararam!  ratamtam!  convoca- 
\'à\\\  á  mesnada  dos  Ramires,  na  doçura  da  tarde...» 


III 


Durante  a  longa  semana,  nas  horas  da  calma,  o 
Fidalgo  da  Torre  trabalhou  com  aflerro  e  proveito. 
E  n"essa  manhã,  depois  de  repicar  a  sineta  no  cor- 
redor, duas  vezes  o  Bento  empurrara  a  porta  da  li- 
vraria, avisando  o  snr.  Doutor  «que  o  almocinho, 
assim  á  espera,  certamente  se  estragava.»  Mas  de 
sobro  a  tira  d'almaço  Gonçalo  rosnava  «já  vou!» 
—sem  despegar  a  penna,  que  corria  como  quilha 
leve  em  agua  mansa,  na  pressa  amorosa  de  termi- 
nar, antes  do  almoço,  o  seu  Capitulo  I. 

Ah!  e  que  canceira' lhe  custara,  durante  esses 
dias.  esse  copioso  Capitulo,  tão  difficil,  com  o  im- 
menso  Castello  de  Santa  Ireneia  a  erguer;  e  toda 
uma  edade  esfumada  da  Historia  de  Portugal  a  con- 
densar em  contornos  robustos ;  e  a  mesnada  dos  Ra- 
mires a  apetrechar,  sem  que  faltasse  uma  ração  nos 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


alforges,  ou  uma  garrimcha  nos  caixotes,  sobre  o  dor- 
so das  mulas  !  Mas  felizmente,  na  véspera,  já  movera 
para  íóra  do  Castello  o  troço  de  Lourenço  Piamires, 
em  soccorro  de  Monte-mór,  com  um  vistoso  coriscar 
de  capellos  e  lanças  em  torno  ao  pendão  tendido. 

E  agora,  n'esse  remate  do  Capitulo,  era  noite,  c 
o  sino  de  recolher  tangera,  e  a  almenára  luzira  na 
Torre  albarran,  e  Tructesindo  Rannires  descera  á  sala 
térrea  da  Alcáçova  para  ceiar  — quando  íóra,  deante 
da  carcova,  com  três  toques  fortes  annunciando  fi- 
lho-d'algo,  uma  bozina  apressada  soou.  E,  sem  que  o 
villico  tomasse  permissão  do  Senhor,  o  alçapão  daleva- 
diça  rangeu  nas  correntes  de  ferro,  rebombou  cava- 
mente nos  apoios  de  pedra.  Ouem  assim  chegava  em 
dura  pressa  era  Mendo  Paes,  amigo  de  AíTonso  fl  e 
mordomo  da  sua  Cúria,  casado  com  a  filha  mais  velha 
de  Tructesindo,  1).  Theresa  —  aquella  que,  pelo  on- 
deante e  alvo  pescoço,  pelo  pisar  mais  leve  que  um 
vuo,  os  Uamires  chamavam  a  Garça  Real.  O  Senhor 
do  Santa  Ireneia  correra  ao  patim  para  acolher,  n'um 
abraço,  o  genro  amado — «membrudo  cavalleiro,  com 
os  cabellos  ruivos,  a  alvíssima  pelle  da  raça  germâ- 
nica dos  visigodos ...»  E,  de  mãos  enlaçadas,  am- 
bos penetraram  n'essa  sala  de  abobada,  allumiada 
por  tochas  que  toscos  anncis  de  ferro  seguravam, 
chumbados  aos  muros. 

Ao  meio  pousava  a  massiça  meza  de  carvalho, 


.V   Il.l.l  STISE  CASA  UE  RAMIUES 


rodeada  do  oscanhos  até  ao  topo,  onde  se  erguia, 
deante  d'um  áspero  mantel  de  linho  coijerto  de  pra- 
tos de  estanho  e  de  picheis  luzidios,  a  cadeira  se- 
nhorial com  o  Açor  grossamente  lavrado  nas  altas 
espaldas,  e  d'ellas  suspensa,  pelo  cinturão  tauxeado 
de  prata,  a  espada  de  Tructesindo.  Por  traz  negre- 
java a  funda  lareira  apagada,  toda  entulhada  do 
ramos  de  pinheiro,  com  a  prateleira  guarnecida  de 
conchas,  entre  bocaes  de  sangucsugas,  sob  dois  mo- 
lhos de  palmas  trazidas  da  Palestina  por  Gutierres 
Ramires,  o  d'Ultra/nar\  Rente  a  um  esteio  da  cha- 
miné, um  íalcâo,  ainda  emplumado,  dormitava  na 
sua  alcondora:  e  ao  lado,  sobre  as  lages,  n'uma  ca- 
mada de  juncos,  dois  alões  enormes  dormiam  tam- 
bém, com  o  focinho  nas  patas,  as  orelhas  rojando. 
Toros  de  castanheiro  sustentavam  a  um  canto  um 
pipo  de  vinho.  Entre  duas  frestas  engradadas  de  íer- 
ro,  um  monge,  com  a  lace  sumida  no  capuz,  sen- 
tado na  borda  de  uma  arca,  lia,  á  claridade  do  can- 
tlil  que  por  cima  fumegava,  um  pergaminho  desen- 
rolado . . .  Assim  Gonçalo  adornara  a  soturna  sala 
Affonsina  com  alfaias  tiradas  do  Tio  Duarte,  de  Walter 
Scott,  de  narrativas  do  Panorama.  Mas  que  esforço  !... 
Vj  mesmo,  depois  de  collocar  sobre  os  joelhos  do 
monge  um  folio  impresso  em  Moguncia  por  Ulrick 
Zoli.  desmanchara  toda  essa  linha  tão  erudita,  ao 
recordar,  com  um  murro  na  mesa,  que  ainda  a  Im- 


80  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


prensa  se  não  inventara  em  tempos  de  seu  avô  Tru- 
ctesindo,  e  que  ao  monge  lettrado  apenas  competia 
«um  pergaminho  de  amarellada  escripta...» 

E  caminhando  nos  ladrilhos  sonoros,  desde  a  la- 
reira até  ao  arco  da  porta  cerrado  por  uma  cortina 
de  couro,  Tructesindo,  com  a  branca  barba  espalhada 
sobre  os  braços  cruzados,  escutava  Mendo  Paes,  que, 
na  confiança  de  parente  e  amigo,  jornadeára  sem  ho- 
mens da  sua  mercê,  cingindo  apenas  por  cima  do 
brial  de  lâ  cinzenta  uma  espada  curta  e  um  punhal 
sarraceno.  Açodado  e  coberto  de  pó  correra  Mendo 
Paes  desde  Coimbra  para  supplicar  ao  sogro,  em 
nome  do  Rei  e  dos  preitos  jurados,  que  se  não  ban- 
deasse com  os  de  Leão  e  com  as  senhoras  Infan- 
tas. E  já  desenrolara  ante  o  velho  todos  os  funda- 
mentos invocados  contra  ellas  pelos  doutos  Notários 
da  Cúria  —  as  resoluções  do  Concilio  de  Toledo!  a 
bulia  do  Apostolo  de  Roma,  Alexandre !  o  velho  íóro 
dos  Visigodos!...  De  resto,  que  injuria  íizera  ás  se- 
nhoras Infantas  seu  real  irmão  para  assim  chamarem 
hostes  Leonezas  a  tcírras  de  Portugal?  Nenhuma! 
Nem  regedoria  nem  renda  dos  castcllos  e  villas  da 
doação  de  D.  Sancho  lhes  negava  o  senhor  D.  Afíonso. 
O  Rei  do  Portugal  só  queria  que  nenhum  palmo  de 
chão  portuguez,  baldio  ou  murado,  jazesse  fora  de 
seu  senhorio  real.  Escasso  e  ávido  El-Rei  D.  Affon- 
so?...  Mas  não  entregara  elle  á  senhora  D.  Sancha 


A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES  81 


oito  mil  morahitinos  d'oiro?  E  a  gratidão  da  irmã 
lòra  o  Leonez  passando  a  raia  e  logo  cahidos  os  cas- 
íellos  [formosos  d'Ulgoso,  de  Contrasta,  d'Urros  e  de 
Lanhosello!  O  mais  velho  da  casa  dos  Souzas,  Gon- 
í-alo  Mendes,  não  se  encontrara  ao  lado  dos  cavallei- 
ros  da  Cruz  na  jornada  das  Navas,  mas  lá  andava 
em  'recado  das  Infantas,  como  moiro,  talando  terra 
portugueza  desde  Aguiar  até  Miranda!  E  já  pelos  cer- 
ros d*Além-Douro  apparecera  o  pendão  renegado  das 
treze  arruellas  —  e  por  traz,  farejando,  a  alcateia 
dos  Castros !  Carregada  ameaça,  e  de  armas  christâs, 
opprimindo  o  Ueino  —  quando  ainda  Moabitas  e  Aga- 
renos corriam  á  rédea  solta  pelos  campos  do  Sul!... 
E  o  honrado  Senhor  de  Santa  Ireneia,  que  tão  rija- 
mente ajud;ira  a  fazer  o  Reino,  não  o  deveria  decerto 
desfazer^arrancando  d*elle  os  pedaços  melhores  para 
monges  e  piíra  donas  rebeldes!  —  Assim,  com  arre- 
messados passos,  exclamara  Mendo  Paes,  tão  acalo- 
rado do  esforço  e  da  emoção,  que  duas  vezes  encheu 
de  vinho  uma  conca  de  pau  e  d' um  trago  a  despe- 
jou. Depois,  limpando  a  bocca  ás  costas  da  mão 
tremula: 

—  Ide  por  certo  a  Monte-mór.  senhor  Tructe- 
sindo  Piamires!  Mas  em  recado  de  paz  e  boa  avença, 
persuadir  vossa  senhora  D.  Sancha  e  as  senhoras  In- 
fantas que  voltem  honradamente  a  quem  hoje  con- 
tam por  seu  pae  e  seu  Rei ! 


82  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


O  enorme  senhor  de  Santa  Ireneia  parara,  pou- 
sando no  genro  os  olhos  duros,  soh  a  ruga  das  so- 
brancelhas, hirsutas  e  brancas  como  sarças  em  ma- 
nhã de  geada : 

—  Irei  a  Monte-mór,  Mendo  Paes,  mas  levar  o 
meu  sangue  e  o  dos  meus  para  que  justiça  logre 
quem  justiça  tem. 

Então  ilendo  Paes,  amargurado,  ante  a  heróica 
teima : 

—  Maior  dó,  maior  dó!  Será  bom  sangue  de  Pii- 
cos-homens  vertido  por  más  destórras . . .  Senhor 
Tructesindo  Ramires,  sabei  que  em  Canta-Pedra  vos 
espera  Lopo  do  Baião,  o  Bastardo,  para  vos  tolher  a 
passagem  com  cem  lanças! 

Tructesindo  ergueu  a  vasta  face  —  com  um  riso 
tão  soberbo  e  claro  que  os  alões  rosnaram  torva- 
mcnte,  e,  acordando,  o  falcão  esticou  a  aza  lenta: 

—  Boa  nova  e  de  boa  esperança!  E,  distei,  se- 
[dior  !Mordomo-mór  da  Cúria,  tão  de  íeição  e  certa 
assim  m"a  trazeis  para  me  intimidar? 

—  Para  vos  intimidar?...  Nem  o  Senhor  Ar- 
chanjo  S.  Miguel  vos  intimidaria  descendo  do  céo 
com  tod  a  sua  hoste  e  a  sua  espada  de  lume!  Do 
sobra  o  sei,  senhor  Tructesindo  l\amires.  Mas  casei 
na  vossa  casa.  E  já  que  n'esta  lide  não  sereis  por 
mim  bem  ajudado,  quero,  ao  menos,  que  sejaes  bem 
avisado. 


A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES  '    8.'{ 


O  velho  Truotesindo  bateu  as  palmas  para  cha- 
mar os  sergentes: 

— Bem,  bem,  a  cear,  pois!  A  ceia,  Frei  Munio!... 
K  vós.  Mendo  Paes,  deixai  receios. 

—  Se  deixo!  Nâo  vos  pôde  vir  damno  que  me 
anceie  de  cem  lanças,  de  duzentas,  que  vos  surjani 
a  caminho. 

E.  emquanto  o  monge  enrolava  o  seu  pergami- 
nho, se  acercava  da  mesa — !Mondo  Paes  ajuntou  com 
tristeza,  desafivelando  vagarosamen^te  o  cinturão  da 
espada : 

—  Só  um  cuidado  me  pesa.  E  é  que,  n"esta  jor- 
nada, senhor  meu  sogro,  ides  ficar  de  mal  com  o 
Tieino  e  com  o  Rei. 

—  Filho  e  amigo!  De  mal  ficarei  com  o  Reino  je- 
(om  o  Rei,  mas  de  bem  com  a  honra  e  commigo ! 

Este  grito  de  fidelidade,  tão  altivo,  nâo  resoava 
no  poemeto  do  tio  Duarte.  E  quando  o  achou,  com 
inesperada  inspiração,  o  Fidalgo  da  Torre,  atirando  a 
penna,  esfregou  as  mãos,  exclamou,  enlevado: 

—  Caramba!  Aqui  ha  talento! 

Rematou  logo  o  Capitulo.  Estava  esfalfado.  ;í 
banca  do  trabalho  desde  as  nove  horas,  a  n  4ver  in- 
tensamente, e  em  jejum,  as  energias  magnificas  dos 
seus  fortes  avós!  Numerou  as  tiras  —  fechou  na  ga- 
veta á  chave  o  volume  do  Bardo.  Depois  á  janella, 
com  o  collete  desabotoado,  ainda  lançou  o  brado  ge- 


84  A  ILLLSTP.E  CASA  DF,  RAMIRES 


nial  n'uni  grave  e  rouco  tom,  como  o  lançaria  Tru- 
ctesindo: — . ..  «de.  mal  com  o  Reino  e  com  o  Rei,  mas 
de  bem  com  a  honra  e  commigo !...»  E  sentia  n'elle 
realmente  toda  a  alma  de  am  Ramires,  como  elles 
eram  no  século  xii,  de  sublime  lealdade,  mais  presos 
á  sua  palavra  que  um  santo  ao  seu  voto,  e  alegre- 
mente desbaratando,  para  a  manter,  bens,  contenta- 
mento e  vida  ! 

O  Bento,  que  espalhara  outro  repique  desespe- 
rado, escancarou  a  porta  da  livraria : 

—  É  o  Pereira...  Está  lá  em  baixo  no  pateo  o 
Pereira  que  quer  íallar  ao  Sr.  Doutor. 

Gonçalo  Mendes  íranziu  a  testa,  com  impaciên- 
cia, assim  repuxado  d*aquellas  alturas  onde  respirava 
os  nobres  espíritos  da  sua  raça: 

—  Que  massada!...  O  Pereira...  Que  Pereira? 

—  O  Pereira;  o  Manoel  Pereira,  da  Piiosa;  o  Pe- 
reira Brazileiro. 

Era  um  lavrador,  com  casal  na  Riosa,  chamado 
lirazileiro  por  ter  herdado  vinte  contos  de  um  tio, 
regatâo  no  Pará.  Comprara  então  terras,  trazia  ar- 
rendada a  Cúvti(ja,  a  íallada  propriedade  dos  condes 
de  Monte-Agra.  envergava  aos  domingos  uma  sobre- 
casaca de  panno  íino,  e  dispunha  de  sessenta  votos 
na  Freguezia. 

—  Ah!  Dize  ao  Pereira  que  suba,  que  conversa- 
mos emquanto   ilmóço...  E  põe  outro  talher. 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RÀMIUES  S^i 


A  sala  do  jantar  da  Torre,  ([ue  aljria  por  trez 
portas  envidraçadas  para  uma  funda  varanda  alpen- 
drada,  conservava,  do  tempo  do  avô  Damião,  (o  tra- 
ductor  de  Valerius  Flaccus)  dous  formosos  pannos 
d'Arraz  representando  a  Expedição  dos  Argonautas. 
Louças  da  índia  e  do  Japão,  desirmanadas  e  precio- 
sas, recheiavauí  um  immenso  armário  de  mogno.  K 
sobre  o  mármore  dos  aparadores  rebrilhavam  os 
restos,  ainda  ricos,  das  pratas  famosas  dos  Ramires 
que  o  Bento  constantemente  areava  e  polia  com 
amor.  Mas  Gonçalo,  sobretudo  de  verão,  sempre  al- 
moçava e  jantava  na  varanda  luminosa  e  fresca,  bem 
esteirada,  revestida  até  meio-muro  por  finos  azulejos 
do  século  xviii,  e  offerecendo  a  um  canto,  para  as 
preguiças  do  charuto,  um  profundo  canapé  de  palhi- 
nha com  almofadas  de  damasco. 

Quando  lá  entrou,  com  os  jornaes  da  manhã 
que  não  abrira,  o  Pereira  esporava,  encostado  a  um 
grosso  guarda-sol  de  panninho  escarlate,  consideran- 
do pensativamente  a  quinta  que,  d'alli,  se  abrangia 
até  aos  álamos  da  ribeira  do  Coice  o  aos  outeiros 
suaves  de  Valverde.  Era  um  velho  esgalgado  e  rijo, 
todo  ossos,  com  um  carão  moreno,  de  olhos  miudi- 
nhos e  azulados,  e  uma  barbicha  rala,  já  branca, 
entre  dous  enormes  collarinhos  presos  por  botões 
de  ouro.  Homem  de  propriedade,  acostumado  á  Ci- 


8(»  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


dade  e  ao  trato  das  Auetoridades,  estendeu  larga- 
mente a  mão  ao  Fidalgo  da  Torre,  e  acceitou,  sem 
embaraço,  a  cadeira  qae  elle  lhe  empurrara  para  a 
mesa  —  onde  dominavam,  com  os  seus  ricos  lavores 
duas  altas  eníusas  de  crystal  antigo,  uma  cheia  d"açu- 
cenas  e  a  outra  de  vinho  verde. 

—  Então,  que  bom  vento  o  traz  pela  Torre,  Pe- 
reira amigo?  Não  o  vejo  desde  Abril! 

—  É  verdade,  meu  Fidalgo,  desde  o  sabbado  em 
que  cahiu  a  grande  trovoada,  na  véspera  da  eleição ! 
confirmou  o  Pereira  afíagando  o  cabo  do  guarda-sol 
que  conservara  entre  os  joelhos. 

Gonçalo,  n'uma  esfaimada  pressa  do  almoço,  re- 
picou a  campainha  de  prata.  Depois  rindo: 

—  E  os  seus  votos,  Pereira  amigo,  segundo  o 
costume,  lá  foram  para  o  eterno  Sanches  Lucena, 
direitinhos,  como  os  rios  vão  para  o  mar! 

O  Pereira  também  riu,  com  um  riso  agradado 
que  lhe  descobria  os  mãos  dentes.  Pois  o  circulo 
era  uma  propriedade  do  Sr.  Sanches  Lucena!  Ca- 
valheiro de  fortuna,  homem  de. bem,  conhecedor,  ser- 
viçal... E  então,  quando  lhe  calhava  como  em  Abril 
o  apoio  do  (3overno,  nem  Nosso  Senhor  Jesus  Christo 
•que  voltasse  á  terra  e  se  propuzesse  por  Villa-Clara 
desalojava  o  patrão  da  Fe/íosa ! 

O  Bento,  vagaroso,  de  jafjueta  do  lustrina  preta 
•íObre   o    aAcntal    resplandecente,    entrava    com    um 


A   ILLISTRE    CASA   DE   RAMIRES  87 


prato  d'ovos  estrellados,  quando  o  Fidal^ro,  que  des- 
ilobrára  o  guardanapo,  o  amarrotou,  arremessou 
com  nojo: 

—  Este  guardanapo  já  serviu!  Eu  estou  farto 
de  gritar.  Nào  me  importa  guardanapo  roto,  ou  com 
passagens,  ou  com  remendos.. .  Mas  branquinho,  fres- 
quinho cada  manhã,  a  cheirar  a  alfazema! 

E  reparando  no  Pereira,  que  discretamente  ar- 
redava a  cadeira : 

—  O  quê!  Você  não  almoça,  Pereira?... 

Não,  agradecia  muito  ao  Fidalgo,  mas  n'essa 
tarde  comia  as  sopas  com  o  genro  nos  Bravaes,  que 
era  festa  pelos  annos  do  netinho. 

— Bravo!  Parabéns.  Pereira  amigo!  Dè  lá  um 
beijo  meu  ao  netinho . . .  Mas  então  ao  menos  um 
copo  de  vinho  verde. 

—  Entre  as  comidas,  meu  Fidalgo,  nem  agua  nem 
vinho. 

Gonçalo  farejara,  arredara  os  ovos.  E  reclamou 
o  «jantar  da  familia»,  sempre  muito  farto  e  sabo- 
roso na  Torro,  e  começando  por  essas  pesadas  sopas 
de  pão,  presunto  e  legunues,  que  elle  desde  creança 
adorava  e  chamava  as  palnnganns.  Depois,  barrando 
de  manteiga  uma  bolacha : 

—  Pois  francamente.  Pereira,  esse  seu  Sanches 
Lucena  não  faz  honra  ao  circulo!  Homem  excellen- 
te,  decerto,  respeitável,  obsequiador...  Mas  mudo, 
Pereira  !  Inteiramente  mudo ! 


88  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMiUES 


O  lavrador  roçou  vagarosamente  pelas  ventas 
cabelludas  o  lenço  vermelho,  enrolado  em  bóia: 

—  Sabe  as  cousas,  pensa  com  acerto... 

—  Sim!  mas  pensamento  e  acerto  nâo  lhe  sahem 
de  dentro  do  craneo!  Depois  está  muito  velho,  Pe- 
reira! Que  edade  terá  elle?  Sessenta? 

—  Sessenta  e  cinco.  Mas  de  gente  muito  rija, 
meu  Fidalgo.  O  avô  durou  até  aos  cem  annos,  E  ain- 
da o  conheci  na  loja... 

—  Como,  na  loja? 

Então  o  Pereira,  enrolando  mais  o  lenço,  estra- 
nhou que  o  Fidalgo  não  soubesse  a  historia  do  San- 
ches Lucena.  Pois  o  avô,  o  Manoel  Sanches,  ora  uu> 
Unheiro  do  Porto,  da  rua  das  Hortas.  E  casado  tam- 
bém com  uma  moça  muito  vistosa,  muito  íaría- 
Ihuda... 

—  Bem!  atalhou  o  Fidalgo.  Isso  é  honroso  para 
o  Sanches  Lucena,  isente  que  engordou,  que  trepou... 
E  eu  concordo,  Pereira,  o  circulo  deve  mandar  a  Lis- 
boa um  homem  como  o  Sanches  Lucena,  que  tenha 
n'elle  terra,  raizes,  interesses,  nome...  Mas  é  preciso 
que  seja  também  homem  com  talento,  com  arrojo. 
Um  deputado,  que,  nas  grandes  questões,  nas  crises, 
se  erga,  transporto  a  Camará!...  E  depois,  Pereira 
amigo,  em  Politica  quem  mais  grita  mais  arranja. 
Olho  a  estrada  da  Riosa!  Ainda  em  papel,  a  lápis 
vermelho...  E,  se  o  Sanches  Lucena  fosse  homem  de 


A  ILLISTUE  CASA  DE  RAMIUES  8Í> 


berrar  em  S.   Bento,  já  o  Pereira  trazia  por  lá  os 
seus  carros  a  chiar. 

O  Pereira  abanou  a  cqljeça,  com  tristív.a : 

—  Ahi  talvez  o  Fidalgo  acerte...  Para  essa  es- 
tradinha  da  Piiosa  sempre  faltou  quem  gritasse.  Alii 
talvez  o  Fidalgo  acerte! 

Mas  o  Fidalgo  emmudecera,  embebido  na  chei- 
rosa sopa.  dentro  d' uma  caçoila  nova.  com  raminhos 
de  hortelã.  E  então  o  Pereira,  acercando  mais  a  ca- 
deira, cruzou  no  rebordo  da  mesa  as  mãos,  que  meio 
século  de  trabalho  na  terra  tornara  negras  e  duras 
como  raizes  —  e  declarou  que  se  atrevera  a  incom- 
modar  o  Fidalgo,  áquellas  horas  do  ahnocinho,  por- 
que njessa  semana  começava  um  corte  de  madeiras 
para  os  lados  de  Sandim,  e  desejava,  antes  que  sur- 
dissem outros  arranjos,  conversar  com  S.  Ex.**  so- 
bre o  arrendamento  da  Torre... 

Gonçalo  reteve  a  colher,  num  pasmo  risonho : 

—  Você  queria  arrendar  a  Torre,  Per(>ira? 

—  Queria  conversar  com  V.  Ex.".  Como  o  Relho 
está  despedido... 

—  Mas  eu  já  tratei  com  o  Casco,  o  .íosé  Casco 
dos  Bravaes!  Ficamos  meio  apalavrados,  ha  dias... 
Ua  mais  de  uma  semana. 

O  Pereira  coçou  arrastadamente  a  barba  rala. 
Pois  era  pena,  grande  pena . . .  Elle  só  no  sabbado 
s"inteirára  da  desavença  com  o  Belho.   E.  se  o  Fi- 


!M)  A   ILLISTRE   CASA   DE   RAMIRES 


(lalgo  não  resalvava  o  segredo,  por  quanto  ficjíra  o 
arrendamento? 

—  Não  resalvo,  não,  homem!  >sovecentos  e  cin- 
coenta  mil  réis. 

O  Pereira  tirou  da  a]gil)eira  do  colíete  a  caix<i 
de  tartaruga,  e  sorveu  detidamente  uma  pitada, 
com  o  carão  pendido  para  a  esteira.  Pois  maior 
pena,  mesmo  para  o  Fidalgo.  Emfmi !  depois  de  pa- 
lavra trocada  ...  Mas  era  peT^a,  porque  elle  gostava  da 
propriedade;  já  pelo  S.  João  pensara  em  abeirar  o 
Fidalgo;  e,  apezar  dos  tempos  correrem  escassos, 
não  andaria  longe  de  oílerecer  um  conto  e  cin- 
coenta,  mesmo  um  conto  cento  e  cincoental 

Uonçalo  esqueceu  a  sopa,  n'uma  emoção  que 
lhe  afogueou  a  face  fina,  ante  um  tal  accrescimo  de 
renda — e  a  exceliencia  de  tal  rendeiro,  hom'-m  abas- 
tado, com  metal  no  banco,  e  o  mais  fino  amanhador 
ih'  terras  de  todas  as  cercanias! 

—  Isso  é  serio,  oh  Pereira? 

O  vellio  lavrador  pousou  a  caixa  de  rapé  sobre 
a  toalha,  com  decisão: 

—  Meu  Fidalgo,  eu  não  era  homem  que  en- 
trasse na  Torre  para  eaçoar  com  V.  Ex."""!  Propos- 
ta a  valer,  cscriptura  a  íazer...  Mas  se  o  arrenda- 
mento está  tratado . . . 

Recolheu  a  caixa,  apoiava  a  mão  larga  na  ineza 
para  se  erguer,  quando  (lonçalo  acudiu,  nervoso, 
empurrando  o  prato: 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  ÍH 


—  Escute,  homem!...  Eu,  não  contei  por  miúdo 
i)  caso  do  Casco.  Você  compreliendc,  sabe  como 
essas  cousas  passam...  O  Casco  veiu,  conversamos; 
eu  pedi  novecentos  e  cincocnta  mil  reis  e  porco 
pelo  Natal.  Primeiramente  concordou,  que  sim;  logo 
udiante  emendou,  que  não . . .  Voltou  com  o  com- 
padre; depois,  com  a  mulher  e  o  compadre,  e  o 
afilhado,  e  o  cão !  Depois  só.  Andou  ahi  pela  quinta, 
a  medir,  a  cheirar  a  terra;  acho  até  que  a  pro- 
vou. Aquellas  rahulices  do  Casco!...  Por  fim,  uma 
tarde,  lá  gemeu,  lá  acceitou  os  novecentos  e  cin- 
coenta  mil  riús,  sem  porco.  Cedi  do  porco.  Aperto  de 
mão,  copo  de  vinho.  Ficou  de  apparecer  para  combi- 
nar, tratar  da  escriptura.  Não  o  avistei  mais,  ha  quasi 
duas  semanas!  Naturalmente  já  virou,  já  se  arre- 
pendeu... Para  resumir,  não  tenho  com  o  Cascojcon- 
tracto  firme.  Foi  uma  conversa  em  que  apenas  es- 
tabelecemos, como  base,  a  renda  de  novecentos  e 
cincoenta.  E  eu,  que  detesto  cousas  vagas,  já  an- 
dava pensando  era  encontrar  melhor  homem ! 

Mas  o  Pereira  coçava  o  queixo,  desconliado. 
EUe,  em  negócios,  gostava  de  lisura.  Sempre  se 
entendera  bem  com  o  Casco.  Nem  por  um  con- 
dado se  atravessaria  nos  arranjos  do  Casco,  ho- 
mem violento,  assomado.  ])e  modo  que  desejava  as 
cousas  claras,  para  não  surdir  desgosto  rijo.  Não  se 
lavrara  escriptura,  bem!  Mas  ficara,  ou  não,  palavra 
dada  entre  o  Fidalgo  e  o  Casco? 


92  A    ILLISTUE    CASA   DE   RAMIRES 


Gonçalo  !Mendes  Ramires,  que  fiudára  apressa- 
damente a  sopa  e  enchia  um  copo  de  vinho  verde 
para  se  cahiiar,  fitou  o  lavrador,  quasi  severa- 
mente : 

—  Homem,  essa  pergunta!...  Pois  se  eu  ti- 
vesse confirmado  ao  ('asco  decisivamente  a  palavra 
de  Gonçalo  Iiamires,  estava  agora  aqui  a  tratar,  ou 
sequer  a  conversar  comsigo.  Pereira,  sobre  o  arren- 
damento da  Torre? 

O  Pereira  baixou  a  cabeça.  Também  era  ver- 
dade!... Pois,  n'esse  caso,  elle  abria  a  sua  tenção, 
claramente.  E,  como  conhecia  a  propriedade,  e  apu- 
rara o  seu  calculo— offerecia  ao  Fidalgo  um  conto 
cente  e  cincoenta  mil  réis,  sem  porco.  Mas  não  dava 
para  a  família  nem  leite,  nem  hortaliça,  nem  fructa. 
O  Fidalgo,  homem  sô,  pouco  se  aproveitava.  A  Torre, 
porém,  casa  antiga,  enxameava  de  gentes  e  d'adhe- 
rentes.  Todos  apanhavam,  todos  abusavam . . .  Em- 
fim,  esse  era  o  seu  principio.  E  de  resto,  para  a  meza 
do  Fidalgo  e  mesmo  dos  creados,  bastava  o  pomar 
e  a  horta  de  regalo . . .  Que  horta  e  pomar  necessi-  '■ 
tavam  trato  mais  geitoso:  mas  elle,  por  amor  do  Fi- 
dalgo, e  gosto  seu,  por  lá  passaria  e  tudo  luziria... 
Emquanto  ás  outras  condições,  acceitava  as  do  antigo 
arrendamento.  E  escriptura  assignada  para  a  outra 
semana,  no  sabbado...  Estava  feito? 

Gonçalo,  depois  de  um  momento  em  que  pes- 


A   ILUSTRE    C\SA   DE    ItAMIHES  03 


tanejou  nervosa  e  tremulamente,   estendeu  a    mão 
aberta  ao  Pereira : 

—  Toque!  Agora  shn!  Agora  liça  palavra  dada! 

—  E  nosso  Senhor  lhe  ponha  virtude,  concluiu 
o  Pereira,  firmado  no  immenso  guarda-sol  para  se 
erguer.  Então  no  sabbado,  em  Oliveira,  para  a  es- 
criptura...   Assigna  V.  Ex.'"'  ou  o  Sr.  padre  Soeiro? 

Mas  o  fidalgo  calculava : 

—  >sâo,  homem,  não  pôde  ser !  No  sabbado,  com 
effeito,  estou  em  Oliveira,  mas  são  os  annos  da  ma- 
na Maria  da  Graça... 

O  Pereira  destapou  de  novo  os  maus  dentes, 
n"um  riso  de  estima: 

—  Ah!  e  como  vae  a  snr.''  1).  Maria  da  Oraça? 
lia  que  edades  a  não  vejo!  Desde  o  anno  passado,  na 
procissão  de  Passos,  em  Oliveira...  Muito  boa  se- 
nhora! .Muito  dada!  E  o  Sr.  José  Barròlo?  Pessoa 
«'\cellente  também,  a  valer,  o  Sr.  José  Barròlo... 
K  que  terra  a  d'elle,  a  Ribeirinha !  A  melhor  pro- 
priedade d"estas  vinte  léguas  em  redor.  Linda  pro- 
priedade! A  do  André  Cavalleiro  que  lhe  está  pe- 
gada, a  Biscaia,  não  se  lhe  compara  —  é  como  cardo 
ao  pé  de  couve. 

O  Fidalgo  da  Torre  descascava  um  pecego, 
sorrindo : 

—  Do  André  Cavalleiro  nada  presta.  Pereira! 
Xem  terra,  nem  alma! 


1)4  A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES 


O  lavrador  pareceu  surprehendido.  Elle  imaíri- 
nava  que  o  Fidalgo  e  o  Cavalleiro  continuavam 
chegados  e  amigos...  Não  era  Politica!  Mas  parti- 
cularmente, como  cavalheiros... 

^0  que?  Eu  e  o  Cavalleiro?  Nem  como  ca- 
valheiro nem  como  politico.  Que  elle  nem  é  cava- 
lheiro nem  politico.    É  apenas  cavallo,  e  resabiado. 

O  Pereira  ficou  silencioso,  com  os  olhos  na  toa- 
lha.  Depois,  resumindo : 

—  Então  está  entendido,  no  sahhado,  na  cidade. 
E,  SC  não  faz  transtorno  ao  Fidalgo,  passamos  pelo 
tabelliâo  Guedes,  e  fica  o  feito  arrumado.  O  Hdalgo, 
naturalmente,  vae  para  a  casa  da  senhora  sua  mana.. . 

—  Sempre.  Appareea  você  ás  trez  horas.  Lá 
conversamos  com  o  padre  Soeiro. 

—  Também  ha  que  edades  não  encontro  o  Sr- 
padre  Soeiro! 

—  Oh!  esse  ingrato,  agora,  raramente  apparece 
na  Torre.  Sempre  em  Oliveira,  com  a  mana  (3raça, 
que  é  a  menina  dos  seus  encantos...  Então  nem  um 
cálice  de  vinho  do  Porto,  Pereira?...  Bem,  até  sab- 
liado.  Não  esqueça  o  beijinho  para  o  neto. 

—  Cá  me  vae  no  coração,  meu  Fidalgo...  Ora 
essa!  Pois  consentia  eu  que  V.  Ex."  se  levantasse? 
Sei  perfeitam<mte  a  escada,  e  ainda  passo  pela  cozinha 
para  debicar  com  a  tia  liosa.  .lá  desde  o  tempo  do 
naesinho  de  V.  Ex.".  que  Deus  haja,  conheço  bem  a 


A  II.LLSTIIE  CASA  DE  RAilIUES  í)o 


Torre!...  E  sempre  nVesperancei  de  trazer  n'esta 
([uiula  ama  lavoura  a  meu  gosto,  de  consolar! 

Durante  o  caíé,  esquecido  dos  joruaes,  Gonçalo 
i,'Ozou  a  excellencia  d'aquelle  negocio.  Duzentos  mil 
réis  mais  de  renda.  E  a  Torre  tratada  pelo  Pereira, 
com  aquelle  amor  da  terra  e  saber  de  lavra  que 
transformara  o  chavascal  do  Monte-Agra  n'uma  ma- 
ravilha de  seara,  vinha  e  horta!...  Além  d"isso,  ho- 
mem abastado,  capaz  de  um  adeantamento.  E  eis  ahi 
mais  uma  evidencia  do  valor  da  Torre,  esse  affinco 
do  Pereira  em  a  arrendar,  elle  tão  apertado,  tão  se- 
guro... (juasi  se  arrependia  de  lhe  não  ter  arran- 
cado um  conto  e  duzentos.  Emfmi,  a  manhã  fora  fe- 
cunda! E:  realmente,  nenhum  accordo  firmado  o  col- 
lava  ao  Casco.  Entre  elles  apenas  s"esboçára  uma 
conversa,  sobre  um  arrendamento  possível  da  Torre, 
a  debater  depois  miudamente,  n'uma  Ijase  nova  de 
novecentos  e  cincoenta  mil  reis...  E  que  insensatez 
se  elle,  por  escrupuloso  respeito  d'essa  conversa  es- 
boçada, recusasse  o  Pereira,  retivesse  o  Casco,  lavra- 
dor do  rotina — dos  que  raspam  a  terra  para  comer, 
<i  a  deixam  cada  anno  deperecendo,  mais  cançada  e 
chupada!... 

—  Bento,  traze  charutos!  E  o  Joaquim  que  tenha 
a  égua  sellada  das  cinco  para  as  cinco  e  meia.  Sem- 
pre vou  á  Feilosa...  Hoje  é  o  dia!     . 

Accendeu  um  charuto,  voltou  á  livraria.  E.  im- 


Í)G  A  IM.rSTUE  CASA  DK  UAMIRES 


mediatamente  releu  o  linal  magnifico:  «De  mal  com 
o  líeino  e  com  o  Rei,  mas  de  bem  com  a  hom'a  e 
commigo!»  —  Ah!  como  alli  gritava  a  alma  inteira 
do  velho  portuguez,  no  seu  amor  religioso  da  pala- 
\ra  e  da  honra!  E,  com  a  tira  d'almasso  entre  os 
dedos,  junto  da  varanda,  considerou  um  momento  a 
Torre,  as  poeirentas  frestas  engradadas  de  ferro,  as 
resistentes  ameias,  ainda  inteiras,  onde  agora  adejava 
um  bando  de  pombas . . .  (juantas  manhãs,  ás  frescas 
horas  d'alva,  o  velho  Tructesindo  se  encostara  áquel- 
las  ameias,  então  novas  e  brancas!  Toda  a  terra  em 
redor,  semeada  ou  bravia,  decerto  pertencia  ao  po- 
deroso Rico-Homem.  E  o  Pereira,  n'esse  tempo  colo- 
no ou  servo,  só  abordava  o  seu  Senhor  de  joelhos  e 
tremendo!  Mas  não  lhe  pagava  um  conto  cento  e 
cincoenta  mil  réis  de  sonora  moeda  do  Reino.  Tam- 
bém, que  diabo,  o  vòvò  Tructesindo  não  precisava... 
<,)uando  os  saccos  rareavam  nas  arcas,  e  os  acosta- 
dos rosnavam  por  tardança  de  soldo,  o  leal  Ricò-Ho- 
mem,  para  se  prover,  tinha  as  tulhas  e  as  adegas  dos 
Concelhos  mal  defendidos — ou  então,  numa  volta 
de  estrada,  o  ovençal  voltando  de  recolher  as  ren- 
das reaes,  o  bufarinheiro  genovez  com  os  machos 
ajoujados  de  trouxas.  Por  baixo  da  Torre  (como  lhe 
contara  o  papá)  ainda  negrejava  a  masmorra  feu- 
dal, moio  atulhada,  mas  com  restos  de  correntes 
^•humbadus  aos  pilares,  e  na  abobada  a  argola  d'ondc 


A  lI.I.ISTliF  CASA  DK  RAMIRES  97 


pendia  a  polé,  e  no  lagedo  os  baraços  em  que  se 
escorava  o  potro.  E,  n'essa  surda  e  húmida  cova,  oven- 
çal,  buíarinheiro.  clérigos  e  mesmo  burguezes  de 
lòro  uivavam  sob  o  açoite  ou  no  torniquete,  até  lar- 
garem agonizando  o  derradeiro  morabitino.  Ah !  a 
ramantica  Torre,  cantada  tão  meigamente  ao  luar 
pelo  Videirinba.  quantos  tormentos  abaíára!... 

E  de  repente,  com  um  berro.  (Gonçalo  agarrou 
de  sobre  a  mesa  um  volume  de  Walter  Scott, 
que  atirou  sem  piedade,  como  uma  pedra,  contra  o 
tronco  de  uma  faia.  É  que  descortinara  o  gato  da 
liosa  cozinheira,  trepado,  d'unhas  fincadas  n'um  ra- 
mo, arqueando  a  espinha,  para  assaltar  um  ninho  de 
melros. 


(Juando  n'essa  tarde  o  Fidalgo  da  Torre,  airoso 
no  seu  fato  novo  de  montar,  polainas  de  couro  po- 
lido, luvas  de  camurça  branca,  parou  a  égua  ao 
portão  da  Fe/tosa  —  um  velho  todo  esfarrapado,  com 
longos  cabellos  ctihidos  pelos  hombros  c  immensas 
l)arbas  espalhadas  polo  peito,  im mediatamente  se  er- 
gueu do  banco  de  pedra  onde  comia  rodellas  de 
chouriço,  bebendo  d"uma  cabaça,  para  o  avisar  que 
o  Sr.  Sanches  Lucena  e  a  Sr.'^  D.  Anna  andavam  por 
fora,  de  carruagem.  Oonçalo  pediu  ao  velho  que 
puchasse  o  ferro  da  sineta.  E  entregando  um  cartão 

7 


98  A  ILLIISTRE  CASA  DE  RAMIRKS 


ao  iiiDço.  ([ue  entreabrira  a  rica  grade  dourada, 
com  um  S  e  um  L  entrelaçados  sob  uma  coroa  de 
conde : 

—  O  Sr.  Sanches  Lucena,  bem? 

O  Sr.  Conselheiro,  agora,  um  pouquinho  me- 
lhor ... 

—  O  que?  Esteve  doente? 

—  Pois  o  Sr.  Conselheiro,  aqui  ha  três  ou  qua- 
tro semanas,  andou  muito  agoniado  . . . 

—  Oh!  Sinto  muito...  Diga  ao  Sr.  Conselheiro 
que  sinto  muitissimo! 

Chamou  o  velho  que  repicara  a  sineta  para  o^ 
recompensar  coui  um  tostão.  K.  interessado  por  aquel- 
las  barbaças  e  melenas  de  mendigo  de  Melodrama  i 

—  Vocemecè  pede  esmola  por  estes  sitios? 

Õ  homem  ergueu  para  elle  os  olhos  sujos,  aver- 
melhados da  poeira  e  do  sol,  mas  risonhos,  quasi  con- 
tentes : 

^Também  me  chego  pela  Torre,  meu  Fidalgo. 
E,  graças  a  Deus,  lá  me  fazem  muito  bem. 

— Então  quando  lá  voltar  diga  ao  Bento  .  .  . 
Você  conhece  o  Bento? 

Se  conhecia !  E  a  Snr.**  llosa . . . 
'         — Píjís  diga  ao  Bento  que  lhe  dr  umas  calças, 
homem!   Você   assim,   com  essas  calças,   não   anda 
decente. 

O    velho  riu,  num  riso  lento  e  desdentado,  mi- 


A  ILH  STRE  CASA  DE  RAMIRES  99 


rnndo  com  gosto  os  sórdidos  farrapos  que  lhe  trape- 
javain  nas  canellas,  mais  denegridas  e  seccas  que 
galhos  de  inverno: 

—  Ròtinhas,  rutinhas...  Mas  o  Sr.  dr.  Júlio  diz 
que  me  ficam  assim  bem.  O  Sr.  dr.  Júlio,  quando 
lá  passo,  sempre  me  tira  o  retrato  na  machina. 
Ainda  na  semana  passada...  Até  com  uns  pedaços 
de  grilhões  dependurados  do  pulso,  e  uma  espada  er- 
guida na  mão . . .  Parece  que  para  mostrar  ao  Go- 
verno. 

Gonçalo,  rindo,  picou  a  égua.  Pensava  agora  em 
alongar  por  Valverde:  depois  recolheria  por  Villa- 
Clara,  e  tentaria  o  Gouvèa  a  partilhar  na  Torre  um 
cabrito  assado  no  espeto  de  cerejeira,  para  que  elle 
na  véspera,  na  Assembléa,  convidara  o  Manoel  Duarte 
e  o  Tito.  INIas  ao  atravessar  a  «Cruz  das  Almas», 
onde  a  estrada  de  Corinde,  tão  linda,  com  as  suas  fdas 
d'alaraos,  crus.i  a  ladeira  de  Valverde,  parou  — no- 
tando ao  fundo,  para  o  lado  de  Corinde,  como  o  con- 
fuso esbarro  d' uma  carrada  de  lenha,  e  uma  car- 
riola  d"açouguo,  e  uma  mulher  de  lenço  escarlate 
bracejando  so])re  a  albarda  d' um  burro,  e  dous  la- 
vradores de  enxada  ás  costas.  E,  de  repente,  todo  o 
encalhe  se  despegou  —  a  mulher  trotando  no  seu 
Ijurrinho,  logo  sumida  n'uma  volta  de  arvoredo ; 
a  carriola  solavancando  n"um  rolo  leve  de  poeira; 
o   carro   avançando   para    a  « Cruz  das  Almas »    a 


100  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


chiar  tardamente;  os  cavadores  descendo  para  uma 
cliâ  atravez  das  leiras  de  íeno...  Na  estrad^,  só  res- 
tou, como  desamparado,  um  homem  de  jaqueta  ao 
hombro,  que  se  arrastava  penosamente,  coxeando. 
Gonçalo  trotou,  com  curiosidade: 

—  Que  foi?...  Vocemecê  que  tem? 

O  homem,  com  a  perna  encolhida,  levantou  para 
Gonçalo  uma  íace  arrepanhada,  quasi  desmaiada,  que 
reluzia  sob  us  camarinhas  de  suor : 

—  Nosso  Senhor  lhe  dè  muito  boas  tardes,  meu 
Fidalgo!  Ora  o  que  hade  ser?  Desgraças  d'esta  vida! 

E,  gemendo,  contou  a  sua  historia. — Desde  me- 
'/es  padecia  d'uraa  chaga  n'um  torno/.ello.  que  não 
seccára,  nem  com  emplastos,  nem  com  pó  de  mur- 
tinhos,  nem  com  henzeduras...  E  agora  andava 
arriba,  na  fazenda  do  Sr.  dr.  Júlio,  a  concertar  um 
socalco,  para  ajudar  um  compadre  também  doente 
com  maleitas  —  e,  zás,  desaba  mn  pedregulho,  que 
topa  na  ferida,  leva  a  carne,  lasca  o  osso,  o  deixa 
n'aquella  lastima!...  Até  rasgara  a  fralda  para  enso- 
par o  sangue  e  amarrar  por  cima  o  lenço. 

—  Mas  assim  não  podo  andar,  homem!  D'ond(' 
é  vocemecê? 

—  De  Cof-indc,  meu  Fidalgo.  ?»Ianoel  Solha,  do 
logar   da  Finta.   Até  lá,  sempre  me  hei-de  arrastar. 

—  E  então,  d"cssa  gente  toda,  que  ahi  estava  ha 
bocado,  ninguém  o  poude  ajudar?...    Uma  carriola. 

^  dous  latagões. .. 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  r.AilIUES  101 


Uma  rija  líuinada,  no  teimoso  esforço  de  fir- 
mar a  perna,  arrancou  um  grito  ao  Solha.  Mas  sor- 
riu, arquejando...  Que  queria  o  Fidalgo?  Cada  um, 
ueste  mundo,  tem  a  sua  pressa...  Emfim,  a  rapariga 
do  burro  promettêra  passar  pela  Finta,  para  avisar. 
E  talvez  um  dos  seus  rapazes  apparecesse  na  estrada 
com  uma  eguasita  que  elle  comprara  pela  Paschoa  — 
e  que,  por  desgraça,  também  mancava!... 

Immediatamente,  com  um  salto  leve,  o  Fidalgo 
da  Torre  desmontou: 

—  Bem!  Então,  égua  por  égua,  já  vocemec^í 
tem  aqui  esta. .. 

O  Solha  embasbacou  para  Gonçalo: 

—  Ora  essa !  Santo  nome  de  Deus ! . . .  Pois  eu 
havia  de  ir  a  cavallo,  e  V,  Ex.'^  a  pé? 

Gonçalo  ria: 

—  Homem,  com  essas  discussões  de  «eu  a  pé» 
e  «você  a  cavallo»,  e  «faz  favor»  e  «não  senhor», 
é  que  perdemos  um  tempo  precioso.  Monte,  esteja 
quieto,  e  trote  para  a  Finta! 

O  outro  recuava  para  a  valleta  da  estrada,  sa- 
cudindo a  cabeça,  esgazeado,  como  no  espanto  de 
um  sacrilégio: 

—  [sso  é  que  não,  meu  senhor,  isso  é  que  não ! 
Antes  eu  acabasse  aqui  á  mingoa,  com  a  chaga 
em  bolor! 

Gonçalo  bateu  o  pé,  com  auctoridade:         • 


lOâ  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Monte,  que  mando  eu!  Vocemecè  é  um  la- 
vrador de  enxada,  eu  sou  um  Doutor  formado  em 
Coimbra,  sou  eu  que  sei,  sou  eu  que  mando! 

E  o  Solha,  logo  submisso  ante  aquella  força 
deslumbrante  do  Saber  superior,  agarrou  em  silen- 
cio a  crina  da  égua,  enfiou  respeitosamente  o  es- 
tribo, ajudado  pelo  Fidalgo,  que,  sem  tirar  as  luvas 
brancas,  lhe  amparava  o  pé  entrapado  e  manchado 
de  sangue. 

Depois,  quando  elle  repousou  no  selllm  com  um 
ah !  consolado : 

—  Então  que  tal? 

O  homem  só  murmurava  o  nome  de  Nosso  Se- 
nhor, na  gratidão  e  no  assombro  d'aquclla  caridade: 

—  Mas  isto  é  a  volta  do  mundo...  Eu  aqui,  na 
égua  do  Fidalgo!  E  o  Fidalgo,  o  Sr.  Gonçalo  Rami- 
res, da  Torre,  a  pé  pela  estrada ! 

Gonçalo  gracejou.  E,  para  entreter  a  caminhada, 
perguntou  pela  quinta  do  Dr.  Júlio,  que  agora  se  arro- 
jara a  obras  e  plantações  de  vinha.  Depois,  como  o 
IManoel  Sõllia  conhecia  o  Pereira  Brasileiro  (que  pen- 
sara em  arrendar  as  terras  do  Dr.  .lulio),  conversa- 
ram sobre  esse  esperto  homem,  sobre  as  grandezas 
da  Corf/ga.  Já  sem  embaraço,  direito  no  sellim,  no 
gosto  d'aquella  intimidade  com  o  Fidalgo  da  Torre,  o 
Solha  esquecia  a  chaga,  a  dòr  que  adormentara.  E  ú 
estribeira  do  Solha,  attento  e  sorrindo,  o  Fidalgo  es- 
tugava o  passo  na  poeira  branca. 


A   ILLfSTItE   CASA  DE   RAMIRES  103 


Assim  se  avizinhavam  da  Bica-Santa,  um  dos 
sítios  decantados  d*aqueilas  cercanias  formosas.  Ahi 
a  estrada,  cortada  na  encosta  d' um  monte,  alarga  e 
íbrma  um  arejado  terraço,  d'onde  se  abrange  todo 
o  valle  de  Corinde,  tão  rico  em  casaes,  em  ar- 
voredos, em  searas,  em  aguas.  No  pendor  do  monte, 
coberto  de  carvalhos  e  de  tragas  musgosas,  brota  a 
Ibnte  nomeada,  que  já  em  tempos  d'El-íiei  D.  João  V 
cura\  a  males  d'entranhas — e  que  uma  devota  senhora 
de  Corinde,  1).  Rosa  Miranda  Carneiro,  mandou  en- 
canar desde  o  alto  até  a  um  tanque  de  mármore, 
onde  agora  corre  beneficamente,  por  uma  bica  de 
bronze,  sob  a  imagem  e  patrocinio  de  Santa  Rosa 
de  Lima.  De  cada  lado  do  tanque  se  encurvam  dous 
compridos  bancos  de  pedra,  que  a  espalhada  ra- 
maria  das  carvalheiras  tolda  de  sombra  e  frescura. 
É  um  suave  retiro  onde  se  apanham  violetas,  se  co- 
mem merendas,  e  senhoras  dos  arredores  se  sentam 
em  rancho,  nas  tardinhas  de  domingo,  escutando  os 
melros,  gozando  a  povoada,  luminosa  e  verdejante 
largueza  do  valle. 

Antes  porém  de  desembocar  na  Bica-Santa,  e 
perto  do  legar  do  Serdal,  a  estrada  de  Corinde  que- 
bra n*uma  volta: — ^e,  ahi,  de  repente,  a  égua  pu- 
lou, n'um  reparo,  que  obrigou  o  Fidalgo  da  Torre, 
desconfiado  da  pericia  do  Solha,  a  deitar  a  mão  á 
caimba  do  freio.  Fora  o  encontro  inesperado  d' uma 


iOÍ  A  ILLUSTRE  CASA  DK  n\.\llllKS 


carruagem — uma  caleche  forrada  d'azul,  com  a  pa- 
relha coberta  de  redes  brancas  contra  a  mosca,  e  na 
ahnoíada,  tèzo,  um  cocheiro  de  bigode,-  farda  de 
golla  escarlate  e  chapéo  de  tope  amarello.  E  Gon- 
çalo mantinha  ainda  a  égua  pelo  freio,  como  ar- 
rieiro servióal  em  trilho  perigoso  —  quando  avistou, 
sentado  n*um  dos  bancos  de  pedra,  junto  da  Bica, 
com  um  chale-manta  por  cima  dos  joelhos,  o  velho 
Sanches  Lucena.  Ao  lado  o  trintanario,  agachado, 
esfregava  com  um  molho  d'herva  a  botina  que  a 
bella  D.  Anna  lho  estendia,  apanhando  o  vestido  do 
linho  crú,  apoiando  a  outra  mão,  sem  luva,  na  cinta 
vergada  e  íina. 
0  A  desconcertada  apparicâo  do  Fidalgo  da  Torre, 
pux.ando  pela  rédea  a  sua  égua  onde  se  escarran- 
chava regaladamente  um  cavador  em  mangas  de 
camisa,  alvorotou  aquelle  repousado  e  dormente  re- 
canto da  Bica.  Sanches  Lucena  esbugalhava  os  olhns. 
esbugalhava  os  óculos,  n'um  arremesso  do  curiosida- 
de que  o  levantiira,  com  o  pescoço  esticado,  o  chale- 
manta  escorregado  para  a  relva.  1).  Anna  recolheu 
bruscamente  a  botina,  logo  empertigada,  na  gravi- 
dade condigna  da  senhora  da  Fe/fona,  retomando 
como  uma  insígnia  o  cabo  d"ouro  da  luneta  d'ouro. 
suspensa  por  um  cordão  d'ouro.  K  até  o  trintanario 
ria  pasmadamente  para  o  Solha. 

Mas  já,  com  o  seu  desembaraço  elegante,  Gon- 


A   ILLISTUE    CAS.V   DE   RAMIUES  U)o 


calo,  n'um  relance,  saudara  D.  Anna,  apertava  com 
fervor  a  mão  espantada  do  Sanches  Lucena,  e,  ale- 
gremente se  conííratulava  por  aquelle  encontro  di- 
toso! Pois  viniia  justamente  da  Feitosa!  E  ahi  sou- 
bera com  desgosto,  por  um  moço  da  quinta  de- 
certo exagerado,  que  o  Sr.  Conselh(íiro  nas  ultimas 
semanas  andara  doente...  E,  então  como  estava? 
com.o  estava? — Oh!  a  physionomia  era  excellente! 

—  Pois  não  é  verdade,  Sr.'^  D.  Anna?  O  aspecto 
(■'  excellente! 

Com  um  leve  requebro  da  cabeça,  um  fofo  on- 
dear do  molho  do  plumas  brancas  sobre  o  chapéo  de 
palha  veiTnelha,  ella  volveu  n'uma  voz  rolada,  lenta  e 
gorda,  que  arripiou  Gonçalo: 

—  O  Sanches  agora,  graças  a  Deus,  desíructa 
melhor  saúde  . . . 

—  Um  pouco  melhor,  sim,  com  eíTeito,  muito 
agradecido  a  V.  Ex.'\  Sr.  Gonçalo  liamires!  murmu- 
rou o  descarnado  e  corcovado  homem,  repuxando 
para  os  joelhos  o  chale-manta. 

E,  com  os  óculos  a  luzir,  cravados  em  Gonçalo, 
na  curiosidade  que  o  abrazava,  quasi  lhe  rosara  a 
lace  afdada,  mais  amarella  que  um  cirio: 

—  Mas,  com  perdão  de  V.  Ex." !  como  é  que 
V.  Ex.''^  anda  por  aqui,  pela  estrada  de  Corinde, 
n"este  estado,  a  pé,  trazendo  ú  rédea  um  lavrador 
de  enxada?... 


106  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Rindo,  sobretudo  para  D.  Anna,  cujos  olhos  íor- 
inosamente  negros,  d' uma  íunda  refulgencia  liquida, 
também  esperavam,  sérios  e  reservados,  Gonçalo 
contou  o  desastre  do  bom  homem,  que  encontrara 
no  caminho  gemendo,  arrastando  a  perna  escala- 
vrada . . . 

—  De  sorte  que  lhe  ofíereci  a  minha  égua...  E 
até,  se  V.  Ex.^  me  permitte,  minha  senhora,  é  neces- 
sário que  eu  combine  com  elle  o  resto  da  jornada... 

Rapidamente,  voltou  ao  Solha,  que,  de  novo  aca- 
nhado ante  os  senhores  da  Feifosa,  com  o  chapéu 
na  mão,  encolhido  sobre  o  sellim,  como  attenuando 
a  sua  grandeza,  logo  se  desestribou  para  desmontar. 
Mas  já  Gonçalo  lho  ordenava  que  trotasse  para  a 
Finta — e  lhe  mandasse  a  égua  por  um  dos  seus  rapa- 
zes, alli  á  Bica-Santa,  onde  elle  se  demorava  com  o 
Snr.  Conselheiro.  E  quando  o  Solha  largou,  saudando 
desabaladamente,  torcido,  como  impellido  a  seu  pe- 
zar  pelos  acenos  risonhos  com  que  o  Fidalgo  o  des- 
pedia, o  assombro  do  Sanches  Lucena  recomeçou: 

—  Ora  uma  cousa  d'estas!  Eu  tudo  esperaria, 
tudo,  menos  o  Sr.  Gonçalo  Mendes  Ramires  a  tra- 
zer á  rédea,  pela  estrada  de  Corinde,  um  cavador 
d'enxada!  É  a  repetição  do  Bom  Samaritano...  Mas 
para  melhor ! 

Gonçalo  gracejou,  sentado  no  banco,  junto  de 
Sanches  Lucena.  —  Oh!  o  Bom  Samaritano  não  mere- 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  107 


cera  uma  pagina  tão  amável  no  Evangelho  somente 
por  ofíerecer  o  burro  a  um  Levita  doente:  decerto 
mostrara  virtudes  mais  bellas...  —  E  sorrindo  para 
D.  Anna,  que,  do  outro  lado  de  Sanches  Lucena, 
espalhava  a  luneta,  com  lentidão  magestosa,  pelas 
arvores  e  pela  Fonte  que  tão  bem  conhecia: 

—  Ha  dous  annos,  minha  senhora,  que  eu  não 
tenho  a  honra... 

Mas  Sanches  Lucena  despediu  um  grito  : 

—  Oh!  Sr.  Oonçalo  Piamires!  V.  Ex."  traz  sangue 
na  mão! 

O  Fidalgo  reparou,  espantado.  Sobre  a  luva  de 
camurça  branca  resaltavam  duas  manchas  arro- 
xeadas : 

— Não  é  sangue  meu!  foi  naturalmente  quando 
o  Solha  montou,  e  eu  lhe  segurei  o  pé  escalavrado . . . 

Arrancou  a  luva,  que  arremessou  para  as  hervas 
bravas,  por  traz  do  banco  de  pedra.  E  continuando  o 
sorriso : 

—  Com  eífeito,  não  tenho  a  honra  de  encontrar 
a  V.  Ex.",  minha  senhora,  desde  o  baile  do  barão  das 
Marges,  em  Oliveira,  o  famoso  baile  de  Entrudo . . . 
Ha  mais  de  dois  annos,  era  eu  estudante.  E  ainda 
me  recordo  que  V.  Ex.''  estava  vestida  esplendida- 
mente de  Catharina  da  Rússia ... 

E,  emquanto  a  envolvia  no  sorrir  dos  olhos  finos 
e  meigos,  pensava:  —  «Formosa  creatura!  mas  ordi- 


•108  A   ILLUSTliE   CASA   DE   RAMIUES 


naria!  e  que  voz!...»  D.  Arma  também  se  recordava 
do  baile  dos  Marges: 

—  O  cavalheiro,  porém,  está  equivocado.  Eu  não 
íui  de  Russa,  fui  de  Imperatriz... 

—  Sim,  d'ímperatriz  da  Rússia,  de  Grande  Ca- 
tharina . . .  E  com  ura  gosto!  com.  um  luxo! 

Sanches  Lucena  voltou  vagarosamente  para  Gon- 
çalo os  óculos  d'ouro,  apontou  um  dedo  alongado  e 
lívido : 

—  Pois  também  eu  me  lembro  que  sua  mana, 
e  minha  senhora,  a  Sr.''  D.  Graça,  trazia  um  trage 
de  lavradeira  de  Vianna...  Foi  uma  luzidissiraa 
festa;  nem  admira;  o  nosso  Marges  é  sempre  primo- 
roso... E  desde  essa  noite  não  tornei  a  encontrar  a 
mana  de  V.  Ex.'*  em  intimidade.  Apenas  de  longe, 
na  missa  ... 

De  resto  pouco  residia  agora  em  Oliveira,  apesar 
de  conservar  a  casa  montada,  creadagem  o  cochei- 
ra—  porque,  ou  culpa  do  ar  ou  culpa  da  agua,  não- 
se  dava  bem  na  Cidade. 

Gonçalo  acalorou  mais  o  seu  interesse: 

—  Mas  então,  realmente,  V.  Ex."  o  que  tem  tido? 

Sanches  Lucena  sorriu,  com  amargura.  Os  mé- 
dicos, em  Lisboa,  não  se  entendiam.  Uns  attribuiam 
ao  estômago  —  outros  attribuiam  ao  coração.  Por- 
tanto, aqui  ou  alli,  viscera  essencial  atacada.  E  sof- 
fria  crises  —  más  crises...  Emllm,  com  a  graça  de 


A   ILLISTUE   CASV   DE    n.VMíRES  109 


Deus,  e  regimen,  e  leite,  e  descanço,  ainda  esperava 
arrastar  uns  annos. 

—  Oh!  com  certeza!  exclamou  Gonçalo  alegre- 
mente.  E  V.  Ex."'  não  pensa  que  a  estada  em  Lisboa, 
e  as  Camarás,  e  a  Politica,  a  terrível  Politica,  o  fa- 
tiguem, o  agitem?. . . 

>sâo,  pelo  contrario,  Sanches  Lucena  passava 
toleravelmente  em  Lisboa.  Melhor  mesmo  que  na 
Feitosa !  Depois,  gostava  d'aquella  distracção  das 
Camarás.  E  como  conservava  amigos  na  Capital, 
uma  roda  escolhida,  uma  roda  fina  . . . 

— Um  d'esses  nossos  excellentes  amigos,  V.  Ex."' 
decerto  conhece.  Elle  é  parente  de  V.  Ex."'. ..  O  D.  João 
da  Pedrosa. 

Gonçalo,  alheio  ao  homem,  mesmo  ao  nome, 
murmurou  polidamente: 

—  Sim.  o  D.  João,  decerto... 

E  Sanches  Lucena,  passando  pelas  suissas  bran- 
cas a  mão  magríssima,  quasi  transparente,  onde  re- 
luzia um  enorme  annel  (Farmas  de  saphira : 

—  E  não  somente  o  D.  João...  Outro  dos  nossos 
amigos  é  egualmente  parente  de  V.  Ex.^\  o  chega- 
do. Muitas  \ezcs  temos  lallado  de  \'.  Ex.'',  e  da  sua 
casa.  Que  elle  pertence  também  á  primeira  no- 
breza . . .  E  o  Arronches  Manrique. 

—  Cavalheiro  muito  dado.  muito  divertido!  ac- 
crescontou  D.   Anna,   com   uma  convicção   que   lhe 


110  A   ILLISTUE    CASA   DE   RAMIRKS 


alteou    o  poito,   a  que  o   corpete  justo   marcava  a 
força  viçosa  e  a  perfeição. 

A  Gonçalo  também  nunca  chegara  esse  nome 
sonoro.  Mas  não  hesitou: 

—  Sim,  perfeitamente,  o  Manrique...  De  resto, 
eu  tenho  tantos  parentes  em  Lisboa,  e  vou  tão  pouco 
a  Lisboa  ! . . .  E  V.  Ex.",  Sr."  D.  Anna . . . 

Mas  o  Sanches  Lucena  insistia,  deliciado  n"aquella 
conversa  de  parentescos  fidalgos: 

—  V.  Ex.'\  naturalmente,  tem  em  Lisboa  toda  a 
sua  parentella  histórica.  Assim  eu  creio  que  V.  Ex."  é 
primo  do  Duque  de  Lourençal...  O  Duarte  Louren- 
çal!  EUe  não  usa  o  titulo,  por  Aliguelismo,  ou  antes 
por  habito;  mas  emfim  é  o  legitimo  Duque  de  Lou- 
rençal. É  quem  representa  a  casa  de  Lourençal. 

Gonçalo,  sorrindo  attentamente,  desabotoara  o 
fraque,  procurava  a  sua  velha  charuteira  de  couro. 

—  Sim,  com  effeito,  o  Duarte...  Somos  primos. 
Diz  elle  que  somos  primos.  E  eu  acredito.  Entendo 
tão  pouco  d'arvores  de  costado ! . . .  De  facto  as  casas 
em  Portugal  andam  muito  cruzadas;  todos  somos  pa- 

♦  rentes,  não  só  pelo  lado  d' Adão,  mas  pelos  Godos...  E 
V.  Ex.'\  Sr.''  D.  Anna,  prefere  a  estada  em  Lisboa? 
Mas,  reparando  que  escolhera  um  charuto,  dis- 
trahidamente  o  trincara: 

—  Oh!  perdão  minha  senhora...  la  fumar  sem 
saber  se  V.  Ex." . . . 


A   ILUSTRE    CASA   DE   líAMIllES  111 


Ella  saudou,  descendo  as  longas  pestanas  : 

—  O  cavalheiro  pôde  fumar;  o  Sanches  não  íu- 
ma,  mas  eu  até  aprecio  o  cheiro. 

Gonçalo  agradeceu,  enjoado  com  aquella  voz 
redonda  e  gorda,  aquelles  horrendos  «  cavalheiro,  o 
cavalheiro! .  ..y>  Mas  pensava:  —  «que  linda  pelleL 
que  bella  creatura!...»  E  Sanches  Lucena,  inexorá- 
vel, estendera  o  dedo  agudo : 

—  Pois  eu  conheço  muito,  não  o  Sr.  I).  Duarte 
Lourençal,  não  tenho  essa  subida  honra  por  ora,  mas 
seu  irmão,  o  Sr.  D.  Philippe.  Cavalheiro  esíimabi- 
lissimo,  como  ^'.  Ex.'^  decerto  sabe , . .  E  depois,  que 
talento...  Qui'  talento,  no  cornotim! 

—Ah! 

—  O  qut'!  V.  Ex."  não  ouviu  seu  primo,  o  Sr. 
1).  Philippe  Lourençal,  tocar  cornetim? 

E  até  a  bella  I).  Anna  se  animou,  com  um  sor- 
riso languido  dos  beiços  cheios,  mais  vermelhos  que 
cerejas  maduras  sobre  o  fresco  rebrilho  dos  dentes, 
pequeninos: 

—  Oli!  toca  ricamente!  O  Sanches  gosta  muito- 
de  musica;  eu  também...  Mas,  como  V.  Ex.''  com- 
prehende,  qui  na  uldéa,  com  a  íalta  de  recursos . . . 

Gonçalo,  arremessando  o  phosphoro,  exclamara 
logo,  n'um  sincero  interesse : 

— Então,  queria  que  V.  Ex.'^  ouvisse  um  amigo 
meu,  que  é  verdadeiramente  sublime  no  violão,  o- 
Videirinha ! . . . 


112  A   IIJ.rSTHK  CASA   DE  ItAAirRES 


Sanches  Lucena  estranhou  o  nome,  a  sua  vul- 
garidade. E  o  Fidalíro,  singelamente: 

— E  um  rapaz  nmito  meu  amigo,  de  Villa-Clara . . . 
O  José  Videira,  ajudante  da  Pharmacia... 
«         Os  óculos  de  Sanches  Lucena  cresceram  de  puro 
espanto : 

—  Ajudante  da  Pharmacia  <>  amigo  do  Sr.  Gon- 
çalo Mendes  líamires! 

Sim,  desde  estudante,  dos  exames  do  Lyceu. 
Até  o  \'ideirinha  passava  as  ferias  na  Torre,  com  a 
mãe,  antiga  costureira  da  casa.  Tão  ])oni  rapaz,  tão 
simples...  E  na  realidade,  no  n  iolâo,  um  génio! 

—  Agora  tem  elle  uma  cantiga  admirável  que 
chamou  o  Fado  dos  Ramires.  A  musica  é  com  ef- 
leito  um  íado  de  Coimbra,  um  fado  conhecido.  i\Ias 
os  versos  são  d"elle,  umas  quadras  engraçadas  sobre 
cousas  da  minha  Casa,  lendas,  |)atranhas...  Pois  li- 
cou  sublime!  Ainda  ha  dias  na  Torre,  comigo  e  com 
o  Tito  . . . 

E  a  este  nome,  familiar  e  menineiro,  Sanches 
Lucena  mostrou  outro  reparo: 

—  O  fito? 

O  Eidalgo  ria : 

—  E  uma  velha  alcunha  d'amizade  que  nós  da- 
mos ao  António  \'iil,ilobos. 

Então  Sanches  Lucena  atirou  ambos  os  braços, 
como  se  alguém  nuiito  querido  apparocesse  na  es- 
trada : 


A  ILI.l  SrUE  CASA  DE  RAMIUKS  il3 


—  O  António  Villalohos!  Mas  esse  é  um  dos 
nossos  fieis  e  bons  amigos!  Cavalhoiro  estimabilis- 
sirao!  Quasi  todas  as  semanas  nos  faz  o  favor  de 
apparecer  pela  Feitosa... 

E  agora  era  o  Fidalgo  que  pasmava  ante  essa 
intimidade  a  que  nunca  o  Tito  alludira,  quando  no 
Gago,  na  Torre,  na  Assemiiléa,  se  berrava,  politican- 
do, o  nome  do  Sancbes  Lucena! 

—  Ah  V.  E\."  conhece  . . . 

-Mas  1).  Anna,  que  se  erguera  bruscamente  do 
banco,  e,  debruçada,  recolhia  a  luva  e  a  sombri- 
nha— lembrou  ao  marido  o  esfriar  lento  da  tarde,  a 
neblina  subindo  sempre  áquella  hora  do  valle  aque- 
cido : 

—  Sabes  que  nunca  te  faz  bem  ...  E  também  não 
laz  bem  á  parelha,  assim  parada,  ha  tanto  tempo. 

Immediatamente  Sanches  Lucena,  receioso,  pu- 
xara da  algibeira  um  espesso  lenço  de  seda  branca 
para  abafar  o  pescoço.  E,  receioso  também  pela  pa- 
relha, logo  se  arrancou  pesadamente  do  banco  de 
pedra,  com  um  aceno  cançado  ao  trintanario  para 
apanhar  o  chalé,  avisar  o  cocheiro.  Mas  ainda  atra- 
vessou, vergado  e  arrimado  á  bengala,  para  o  pa- 
*  rapeito  que  resguarda  a  estrada  sobre  o  despenhado 
pendor  do  monte,  dominando  o  \alle.  E  confessava 
a  Gonçalo  que  aquelle  era,  nos  arredores  da  Feitosa, 
o  seu  passeio  preferido.  Não  só  pela  belleza  do  sitio, 

8 


Í.14  A  ILLUSTRE   CASA  DE   RAMIRES 


já  cantado  pelo  «nosso  mavioso  Cunha  Torres»; — mas 
porque  do  terraço  da  Bica,  sem  esforço,  sentado  no 
banco,  avistava  n'uma  largueza  terras  suas: 

—  Olhe  V.  Ex.''...  Para  além  d'aquelle  souto,  até 
á  chã  e  ao  cômoro  onde  está  a  casota  amarella  e  por 
traz  o  pinhal,  tudo  é  meu...  O  pinhal  ainda  é  meu... 
Acolá,  do  renque  d'álamos  para  deante,  depois  do  la- 
meiro, é  também  meu...  Alli,  do  lado  da  ermida, 
pertence  ao  Monte-Agra . , .  Mas,  mais  para  lá,  pas- 
sado o  azinhal,  pelo  monte  acima,  é  tudo  meu! 

O  livido  dedo,  o  braço  escanifrado  na  manga  de 
casimira  preta,  cresciam  por  sobre  o  \alle. — Além 
os  pastos . . .  Adeante  os  centeios  . . .  Depois  o  bra- 
vio...—  Tudo  d'elle!  E,  por  traz  da  magra  figura  al- 
quebrada, de  chapéo  enterrado  na  nuca,  o  abafo  de 
seda  subido  até  ás  pallidas  orelhas  quasi  despegadas, 
D.  Anna,  esvelta,  clara  e  sã  como  um  mármore,  com 
um  sorriso  esquecido  nos  lábios  gulosos,  o  formoso 
peito  mais  cheio,  acompanhava  a  enumeração  copio- 
sa, affincava  a  luneta  sobre  os  pastos,  e  os  pinhaes, 
e  os  centeios,  sentindo  já  —  tudo  d'ella! 

— E  agora  acolá,  detraz  do  olival,  concluiu  San- 
ches Lucena  com  respeito,  é  sitio  seu,  Sr.  Gonçalo 
Mendes  Ramires . . . 

—Meu?... 

—  De  V.  Ex.",  quero  dizer,  ligado  á  casa  de 
V.   Ex.\  Pois  não  reconhece?...  Além,  por  traz  do 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  115 


moinho,  passa  a  estrada  de  Santa  Maria  de  Craquêde. 
São  os  túmulos  dos  seus  antepassados...  Passeio 
que  eu  também  ás  vezes  faço,  e  com  gosto.  Ainda  ha 
um  mez  visitamos  detidamente  as  ruinas.  E  acredite 
que  fiquei  impressionado !  Aquelle  bocado  de  claustro 
tão  antigo,  os  grandes  esquifes  de  pedra,  a  espada 
chumbada  á  abobada  por  cima  do  tumulo  do  meio... 
É  de  coramover!  E  achei  muito  bonito,  muito  filial, 
da  parte  de  V.  Ex.^  o  ter  sempre  aquella  lâmpada 
de  bronze  accèsa  de  noite  o  de  dia . . . 

Gonçalo  engrolou  um  murmúrio  risonho — por- 
que não  se  recordava  da  espada,  nunca  recommen- 
dára  a  lâmpada.  Mas  Sanches  Lucena,  agora,  sup^ 
plicava  um  precioso  favor  ao  snr.  Gonçalo  Mendes 
Ramires.  E  era  que  S.  Ex.*  lhe  concedesse  a  honra 
de  o  conduzir  na  carruagem  á  Torre...  Alvoroçada- 
mente Gonçalo  recusou.  Nem  podia!  combinara  com 
o  homem  da  perna  dorida  esperar  alli,  na  Bica,  pela 
sua  egoa. 

—  Mas  fica  aqui  o  meu  trintanario,  que  leva  a 
egoa  de  V.  Ex.'^  á  Torre. 

—  Não,*  não,  se  V.  Ex.*^  me  permitte,  eu  espe- 
ro... Depois  metto  polo  atalho  da  Crassa,  porque  te- 
nho ás  oito  horas  na  Torre,  á  minha  espera  para 
jantar,  o  Tito. 

D.  Anna,  do  meio  da  estrada,  apressou  logo  o 
marido  sacudidamente,  com  a  ameaça  renovada  da 


116  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


friagem,  do  relento...  Mas,  junto  da  caleche,  Sanches 
Lucena  ainda  emperrou  para  affirmar  a  Gonçalo, 
com  a  descarnada  mão  sobre  o  encovado  peito,  que 
aquella  tardt^  lhe  licava  cehíbre. .. 

—  Porque  vi  uma  cousa  que  poucas  Ví^zes  se 
terá  visto:  o  maior  fidalgo  de  Portugal,  a  pé  pela 
estrada  de  Corinde,  levando  á  rédea  no  seu  próprio 
cavallo  um  cavador  de  enxada! 

Ajudado  por  Gonçalo,  trepou  emfim  pesadamente 
ao  estribo.  1).  Anna  já  se  enterrara  nas  almofadas, 
alçando  entre  as  mãos,  como  uma  insígnia,  o  cabo 
rebrilhante  da  luneta  d'ouro.  O  trintanario  também 
se  entezoLi,  cruzou  os  braços :  e  a  caleche  apparatosa, 
com  as  manchas  brancas  das  redes  dos  cavallos,  mer- 
gulhou no  silencio  e  na  penumbra  da  estrada,  sob  a 
espalhada  ramaria  das  faias. 

«  Que  massada !  »  exclamou  Gonçalo.  E  não  vse 
consolava  de  tarde  tão  linda  assim  desperdiçada . . . 
Intolerável,  esse  Sanches  Lucena,  com  o  Snr.  D.  Fu- 
lano e  o  Snr.  D.  Sicrano,  e  a  sua  gula  de  «roda 
íina»,  e  «tudo  d'elle»  por  collina  e  valle!  A  mulher, 
explendida  peça  de  carne,  como  filha  de  carniceiro, — 
mas  sem  migalha  de  graça  ou  alma.  E  que  voz.  Jesus, 
que  voz!  Gente  pedante  e  sabuja...  —  E  agora  só 
desejava  recuperar  a  sua  egoa,  galopar  para  a  Torre, 
e  desa!)afar  com  o  Tito,  lamiliar  da  Feilthsfd  o  seu 
•  asco  poi-  toda  aquolla  Sancharia. 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  117 


A  egoa  não  tardou,  a  trote  largo,  montada  pelo 
filho  do  Solha,  que,  ao  avistar  o  Fidalgo,  saltou  á 
estrada,  do  chapéu  na  mão,  encouchado  e  encarnado, 
balbuciando  que  o  pae  chegara  bem,  pedia  a  Nosso 
Senhor  lhe  pagasse  a  caridade... 

—  Bem,  bem!  Recados  a  tou  pae.  Ouc  estimo  as 
melhoras.  Lá  mandarei  saber. 

N.'um  pulo  montara  —  galopava  pelo  lacil  atalho 
da  Crassa.  Mas,  deante  do  portão  da  Torre,  encon- 
trou um  moço  do  Gag^,  com  um  bilhete  do  Tito, 
annunciando  que  não  podia  jantar  na  Torre  porque 
partia  n'essa  semana  para  Oliveira! 

— Que  disparate!  Para  Oliveira  também  eu  parto; 
masjan4:o  hoje!  Até  combinávamos,  o  levava  na  car- 
ruagem... Elle  que  ficou  a  fazer,  o  Snr.  D.  António? 

O  rapaz  coçou  pensativamente  a  cabeça: 

—  O  Snr.  D.  António  passou  lá  por  casa  para  eu 
trazer  o  bilhete  ao  Fidalgo...  Depois,  creio  que  tem 
festa,  porque  entrou  defronte  no  tio  Cosme  foguetei- 
ro, a  comprar  bichas  de  rabear... 

Aquellas  inesperadas  bichas  de  rabear  causaram 
logo  ao  Fidalgo  uma  immensa  inveja: 
— E  onde  é  a  festa,  sabes? 

—  Eu  não  sei,  meu  Fidalgo...  Mas  parece  que 
é  cousa  rija,  porque  o  Snr.  João  Gouvèa  encom- 
mendou  lá  ao  patrão  dous  grandes  pratos  de  bolos 
de  bacalhau. 


118  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Bolos  de  bacalhau!  Gonçalo  sentio  como  a  amar- 
gura de  uma  traição: 

—  Oh !  que  animaes ! 

E  de  repente  ideou  uma  vingança  alegre: 

—  Pois  se  vires  hoje  o  Snr.  D.  António  ou  o 
Snr.  João  Gouvêa  não  te  esqueças  de  lhes  dizer  que 
sinto  muito...  Que  eu  também  cá  tinha  á  noite  na 
Torre  uma  festa.  E  havia  senhoras.  Vinha  a  Snr.* 
D.  Anna  Lucena...  Não  te  esqueças,  hein? 

Gonçalo  galgou  as  escâtias  rindo  da  sua  inven- 
ção. Mas,  n'essa  noite,  ás  nove  horas,  depois  do  ar- 
rastado e  atochado  jantar  com  o  -Manoel  Duarte,  en- 
trou na  sala  grande  dos  retratos,  apenas  allumiada 
pelo  lampeâo  dourado  do  corredor,  para  buscar  uma 
caixa  de  charutos.  E  casualmente,  atravez  da  janella 
aberta,  reparou  n'um  homem  que,  em  baixo,  rente  da 
sombra  dos  alamos,  rondava,  espreitava . . .  IMais  at- 
tento,  imaginou  reconhecer  os  poderosos  hoiilbros, 
o  andar  bovino  do  Tito.  Mas  não,  com  certesa!  o 
homem  trasia  jaqueta  e  carapuço  de  lã.  Curioso, 
abafando  os  passos,  ainda  se  abeirou  da  varanda. 
O  vulto  porém  descera  da  estrada,  logo  sumido  sob 
as  arvores  d*uma  quelha  que  contorna  o  Casal  do 
Miranda,  e  desemboca  adiante,  na  Portella,  junto  das 
])rimeiras  casas  de  Villa-Clara. 


IV 


o  palacete  dos  Barrôlos  em  Oliveira  (conhecido 
desde  o  começo  do  século  pela  Casa  dos  Cunhaes) 
erguia  a  sua  fidalga  íachada  de  doze  varandas  no 
Largo  d'El-Rei,  entre  uma  solitária  viella  que  conduz 
ao  Quartel  e  a  rua  das  Tecedeiras,  velha  rua  mal 
<'mpedrada,  ladeirenta,  opprimida  pelo  comprido  ter- 
raço do  jardim,  e  pelo  muro  íronteiro  da  antiga  cerca 
das  Monicas.  E  n'essa  manhã,  justamente  quando 
Gonçalo,  na  caleche  da  Torre  puxada  pela  parelha 
do  Torto,  desembocava  no  Largo  d'El-Rei,  subia 
pela  Tecedeiras,  dobrando  a  esquina  dos  Cunhaes, 
n'um  cavallo  negro  de  fartas  clinas,  que  feria  as 
lages  com  soberba  e  garbo,  o  Governador  Civil,  o 
André  Cavalleiro,  de  collete  branco  e  chapéu  de  pa- 
lha. N'um  relance,  do  íundo  da  caleche,  o  Fidalgo 
ainda  o  surprehendeu  levantando  os  pestanudos  olhos 


120  A  ILLLSroE  l.VSA  DE  JIA.MIHES 


negros  para  as  varandas  de  ferro  do  palacete.  E  pu- 
lou, com  um  murro  no  joelho,  rugindo  surdamente — 
«  que  biltre ! »  Ao  apear  no  portão  (  ura  portão  baixo, 
como  esmagado  pelo  immenso  escudo  de  armas  dos 
Sás)  tão  suííocada  indignação  o  impellia  que  não  re- 
parou nas  effusões  do  porteiro,  o  velho  Joaquim  da 
Porta,  e  esqueceu  dentro  da  caleche  os  presentes  para 
Gracinha,  a  caixa  com  o  guardasolinho  e  um  cesto  de 
flores  da  Torre  coberto  de  papel  de  seda.  Depois  em 
cima,  na  sala  d"espera,  onde  José  Barròlo  correra,  ai» 
sentir  nas  lages  do  Largo  silencioso  o  estrépito  di» 
calhambeque,  desabafou  logo,  arrebatadamente,  ati- 
rando o  guarda  pó  para  uma  cadeira  de  couro : 

—  Oli  senhores!  Que  eu  não  possa  vir  á  cidade 
sem  encontrar  de  cara  este  animal  do  Cavalleiro!  E 
sempre  no  Largo,  defronte  da  casa!  É  sorte!.,.  Esse 
bigodeira  não  achará  outro  logar  para  onde  vá  ca- 
racolar com  a  pileca? 

José  Barròlo,  uai  moço  gordo,  de  cabello  rui\ o 
e  crespo,  com  um  buço  claro  n"uma  face  mais  re- 
donda e  corada  que  uma  bella  maçã,  accudiu,  inge- 
nuamente : 

—  Pileca?!...  Oh,  menino,  tem  agora  um  cavalh» 
lindo!  Um  cavallo  lindo,  que  (;om|)rou  ao  .Marges! 

—  Pois  bem!  É  um  burro  leio  em  cima  d'um 
cavallo  bonito.  Que  fiquem  ambos  na  cavallariça.  Ou 
que  vão  ambos  pastar  para  as  l)e\ezas! 


A   ILLISTIIE    CAS\  DERAMllíES  lâl 


O  BaiTÔlo  escancarou  a  boca  larga  e  fresca,  de 
soberbos  dentes,  n'um  lento  pasmo.  E  de  repente, 
cora  uma  patada  no  soalho,  vergado  pela  cinta,  rom- 
peu n"uma  risada  que  o  suffocava,  lhe  inchava  as 
veias : 

—  Essa  é  d'arromba!  Não,  essa  é  para  contar 
no  Club...  Um  burro  feio  em  cima  d'um  cavallo 
bonito!  E  ambos  a  pastarem!...  Tu^vens  hoje  rico, 
menino!  Olha  que  essa!  Ambos  a  pastarem,  com  os 
íocinhos  na  herva,  o  Governador  civil  e  o  cavallo . . . 
É  (larromba ! 

llebolava  pela  sala.  com  palmadas  r.idiantes  so- 
bre a  coxa  obesa.  E  Gonçalo,  adoçado  por  aquella 
ovação  que  celebra\a  a  sua  facécia: 

—  Bem.  Dá  cú  esses  ossos,  ou  antes  esses  untos. 
E  como  vae  a  família?  A  Gracinha?...  Oh!  viva  a 
linda  íl()r! 

Era  ella,  com  a  sua  ligeiresa  airosa  e  menineira, 
os  magniticos  cabellos  soltos  sobre  um  penteador  de 
rendas,  correndo  alvoroçada  para  o  irmão,  que  a  en- 
volveu n'um  abraço  e  em  dous  beijos  sonorys.  E 
immediatamente,  recuando,  a  declarou  mais  bonita, 
mais  gorda: 

—  Positivamente  estás  mais  gorda,  até  mais  al- 
ta... E  sobrinho  ? . . .  Não  ?  nada,  por  ora  ? 

Gracinha  cerou,  com  aquelle  seu  languido  sor- 
riso que  mais  lhe  humedecia  e  Ibe  enternecia  a  do- 
çura dos  olhos  esverdeados.  ' 


122  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Se  ella  não  quer,  ella  não  quer!  gritava  o 
José  Barrôlo,  gingando,  com  as  mãos  enterradas  nos 
bolsos  do  jaquetão  que  lhe  desenhava  as  ancas  roli- 
ças. A  culpa  não  é  cá  do  patrão...  Mas  ella  não  se 
decide ! 

O  fidalgo  da  Torre  reprehendeu  a  irmã: 

—  Pois  é  necessário  um  menino.  Eu  por  mim 
não  caso,  não  tenho  geito :  e  lá  se  vão  d'esía  feita 
Barrôlos  e  Ramires !  A  extincçào  dos  Barrôlos  é  uma 
limpeza.  Mas,  acabados  os  Ramires,  acaba  Portugal. 
Portanto,  Snr.*^  D.  Graça  Ramires,  depressa,  em  no- 
me da  nação,  um  morgado!  Um  morgado  muito  gor- 
do, que  eu  pretendo  que  se  chame  Tructesindo! 

Barrôlo  protestou,  aterrado : 

—  O  que?  Turtesinho?  Não!  para  tal  sorte  não 
o  fabrico  eu! 

Mas  Gracinha  deteve  aquelles  gracejos  picantes, 
desejosa  de  saber  da  Torre,  e  do  Bento,  e  da  Rosa 
cosinheira,  e  da  horta,  e  dos  pavões...  Conversando, 
penetraram  na  outra  sala,  guarnecida  de  contadores 
da  índia,  de  pesados  cadeirões  dourados  de  damasco 
azul,  com  três  varandas  sobre  o  Largo  d'El-Rei. 
Barrôlo  enrolou  um  cigarro,  reclamou  a  historia  do 
Relho,  da  grande  desordem.  Também  elle  arranjara 
uma  «pega»  cora  o  rendeiro  da  Ribeirinhn,  por 
causa  d' um  corte  de  pinhal.  Essa  do  Relho  porém 
tora  tremenda . . . 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  i23 


E  Gonçalo,  enterrado  ao  canto  do  fundo  camapé 
azul,  desabotoando  preguiçosamente  o  jaquetão  de 
chaviote  claro: 

— Não!  foi  muito  simples.  Já  ha  mezes  esse  Re- 
lho andava  bêbedo,  sem  despegar . . .  Uma  noite  ber- 
rou, ameaçou  a  Rosa,  agarrou  n'uma  espingarda.  Eu 
desci,  e  n'um  instante  a  Torre  ficou  desembaraçada 
de  Relhos  e  de  barulhos. 

— Mas  veio  o  Regedor,  com  cabos!  accudio  o 
Barròlo. 

Gonçalo  saccudiu  os  hombros,  impaciente: 

— Veio  o  regedor?  Veio  depois,  para  legalisar! 
Já  o  homem  abalara,  corrido.  E  como  resultado  ar- 
rendei a  Torre  ao  Pereira,  ao  Pereira  da  Riosa . . . 

Contou  esse  negocio  excellente,  tratado  na  va- 
randa, ao  almoço,  entre  dous  copos  de  vinho  verde. 
Barròlo  admirou  a  renda — gabou  o  rendeiro.  Assim 
Gonçalo  descortinasse  outro  Pereira  para  a  quinta 
de  Treixedo,  terra  tão  generosa,  tão  mal  amanhada ! 

Á  borda  do  camapé,  coberta  pelos  bellos  cabei- 
los  que  lavara  n'essa  manhã  e  que  cheiravam  a  ale- 
crim. Gracinha  comtemplava  o  irmão  com  ternura: 

— E  do  estômago,  andas  melhor?  Continuam  as 
ceias  com  o  Tito? 

—  Oh!  esse  animal!  exclamou  Gonçalo.  Ha  dias 
prometteu  jantar  na  Torre,  até  a  Rosa  assou  um 
cabrito  no  espeto,  magnifico...  Depois  falhou:  creio 


lâi  A   ILLUSTRE   CASA   DE   R\MIRES 


que  teve  uma  orgia  infame,  com  bichas  de  rabear. 
Elle  vem  esta  semana  a  Oliveira ...  E  é  verdade ! 
vocês  sabiam  da  intimidade  do  Tit(S  com  o  Sanches 
Lucen'a  ? 

Historiou  então,  cora  exagero  alegre,  o  encon- 
tro da  Bica-Santa,  o  horror  que  lhe  causara  a  bella 
D.  Anna.  a  descoberta  inesperada  d'essa  familiaridade 
do  Tito  na  Feitosa. 

Barrôlo  recordou  que  uma  tarde,  antes  do  S.  João. 
avistara  o  Tito,  deante  do  portão  da  Feitosa,  a  pas- 
sear pela  trela  ura  cãosinho  l)ranco  de  regaço... 

—  Mas  o  ((ue  eu  não  coraprchendo,  menino,  é 
esse  teu  «horrur»  pela  D.  Anna...  Caramba!  Mulher 
soberba!  Um  quebrado  de  quadris,  uns  olhões,  um 
peitoril... 

—  Calle  essa  boca  impura,  devasso!  gritou  Gon- 
çalo. Pois  aqui  ao  lado  da  sua  mulher,  que  é  a  flor 
das  Graças,  ousa  louvar  semelhante  peça  de  carne! 

Gracinha  rindo,  sem  ciúmes,  comprehendia  «a 
admiração  do  José.»  Realmente,  a  Anna  Lucena,  que 
vistosa,  que  bella!... 

—  Sim,  concedeu  Gonçalo,  bella  como  uma  bella 
egoa...  Mas  aquella  voz  gorda,  papuda...  E  a  lune- 
ta, os  modos...  E  «o  cavalheiro  pôde  fumar,  o  ca- 
Vidheiro  está  enganado...»  Oh!  senhores,  pavorosa! 

RarnMo  gingava,  deante  do  sophá,  com  as  mãos 
nos  bolsos  da  rabona: 


A  ILLISTRE  CASA  DE   RAMIUKS  lâli 


—  Uvas  verdes,  Snr.  1).  Gonçalo,  uvas  verdes  t 

O  Fidalgo  dardejou  sobre  o  cunhado  uns  olhos   • 
ferozes : 

—  Nem  (ju»'  ella  se  me  oíferocesse,  de  joelhos, 
em  camisa,  com  os  duzentos  contos  do  Sanches  n'uma     ' 
salva  d'ouro ! 

Sorrindo,  Nermelha  como  uma  pionia,  com  um 
«oh»  escandalisado,  Gracinha  bateu  no  hombro  de 
Gonçalo  —  que  puxou  por  ella,  galhofeiramente: 

—  Venha  lá  essa  bochecha,  e  outra  beijoca,  para 
purificar !  Com  effeito,  só  pensar  na  D.  Anna  arrasta 
a  gente  ás  imagens  brutaes...  Dizias  então  do  es- 
tômago . . .  Sim,  filha,  combalido.  E  ha  dias  mais 
pesado,  desde  o  tal  cabrito  no  espeto  e  da  com- 
panhia beberrona  do  .Alanoel  Duarte.  Tu  tens  cá 
agua  de  Vidago  ? . . .  Então,  Barrôlinho,  sè  angélico.  * 
Manda  trazer  já  uma  garrafinha  bem  íresca.  E  olha! 
pergunta  se  subiram  um  açafate  e  uma  caixa  de 
papelão  que  eu  deixei  na  caleche?  Que  ponham  no 
meu  quarto.  E  não  desembrulhes,  que  é  surpreza... 
Escuta!  Que  me  levem  agua  bem  quente.  Preciso 
mudar  toda  a  roupa...  Estava  uma  poeirada  por  esse 
caminho ! 

E  quando  o  Barrôlo  abalou,  a  rebolar  e  a  asso- 
biar, Gonçalo,  esfregando  as  mãos: 

—  Pois  vocês  ambos  estão  explendidos!  E  na 
harmonia  que  convém.  Tu  positivamente  mais  íórte, 


126  A  ILLUSTRE   CASA  DE   RAMIRES 


mais  cheia.  Até  pensei  que  fosse  sobrinho.  E  o  Bar- 
rôlo  mais  delgado,  mais  leve... 

—  Oh,  agora  o  José  passeia,  monta  a  cavallo,  já 
não  adormece  tanto  depois  de  jantar, . , 

—  E  a  outra  familia?  A  tia  Arminda,  o  rancho 
Mendonça?  Bem?...  Padre  Sueiro,  que^é  íeito  d'esse 
santo  ? 

—  Teve  um  ataquesito  de  rheumatismo,  muito 
ligeiro.  Agora  bom,  sempre  no  Paço  do  Bispo,  na 
Bibliotheca...  Parece  que  se  entretém  a  fazer  um  li- 
vro sobre  os  Bispos. 

—  Bem  sei,  a  Historia  da  Sé  d'OUveira...  Pois 
eu  também  tenho  trabalhado  muito,  Gracinha  1  Ando 
a  escrever  um  Romance. 

—  Ah! 

9         — Um  Romance  pequeno,  uma  Novella,  para  os 

^    Ánnaes  de  Litteratiira  e  de  Historia^  uma  Revista 

que  fundou  um  rapaz  meu  amigo,  o  Castanheiro... 

É  sobre  um  facto  histórico  da  nossa  gente . . .  Sobre 

um  avô  nosso,  muito  antigo,  Tructesindo. 

—  Tem  graça,  que  fez  elle? 

—  Horrores.  MaS  é  pittoresco . . .  E  depois  o  Paço 
de  Santa  Ireneia,  no  século  XH,  em  todo  o  seu  ex- 
plendor!  Emfun  uma  bolla  reconstrucçâo  do  velho 
Portugal  e  sobre  tudo  dos  velhos  Ramires.  Has-do 
gostar. . .  Não  ha  amores,  tudo  guerras.  Apenas,  muito 
remotamente,    uma   das   nossas   antepassadas,   uma 


A  ILLUSTRE   CASA  DE  RAMIRES  12Í 


I).  Menda,  que  eu  nem  sei  se  realmente  existiu.  Tem 
seu  chie,  hein?...  E  tu comprehendes,  como  eu  desejo 
tentar  a  Politica,  preciso  primeiramente  apparecer, 
espalhar  o  meu  nome... 

Gracinha  sorria  docemente  para  o  irmão,  no  cos- 
tumado enlevo : 

.  —  E  agora  tens  alguma  idéa?  A  tia  Arminda  lá 
continua  sempre  com  a  teima  que  devias  entrar  na 
Diplomacia.  Ainda  ha  dias...  «Ai,  o  Gonçalinho,  assim 
galante,  e  com  aquelle  nome,  só  n"uma  grande  em- 
baixada ! » 

Gonçalo  despegara  lentamente  do  vasto  cama- 
pé,  reabotoando  o  jaquetão  claro: 

— Com  eííeito  ando  com  uma  idéa,  ha  dias...  Tal- 
vez me  viesse  d'um  romance  inglez,  muito  interes- 
sante, e  que  te  recommendo,  sobre  as  antigas  Minas 
de  Ophir,  King  Salomon's  Mines. ..  Ando  com  idéas 
de  ir  para  a  Africa. 

—  Oh  Gonçalo,  credo!  Para  a  Africa? 

O  escudeiro  entrara  com  duas  garrafas  de  agua 
de  Vidago,  ambas  desarrolhadas,  n'uma  salva.  Preci- 
pitadamente, para  aproveitar  o  « piquesinho »,  Gon- 
çalo encheu  um  copo  enorme  de  crystal  lavrado. 
Ah!  que  delicia  d'agua!  —  E  como  o  Barrôlo  voltava, 
annunciando  que  cumprira  as  ordens  de  S.  Ex.*: 

— Bem !  então  logo  conversamos  ao  almoço,  Gra- 
cinha! Agora  lavar,  mudar  de  roupa,  que  não  paro 
com  estas  infames  comichões... 


i'2ii  A  ILUSTRE  CASA  DE  IIAMIUES 


Barrôlo  acompanhou  o  cunhado  ao  quarto,  um 
(los  mais  espaçosos  e  alegres  do  Palacete,  forrado  de 
cretones  còr  de  canário  com  uma  varanda  para  o 
jardim,  e  duas  janellas  de  peitoril  sobre  a  rua  das 
Tecedeiras  e  os  velhos  arvoredos  do  convento  das 
jMonicas.  Gonçalo  impaciente  despiu  logo  o  casaco, 
saccudiu  para  longe  o  coilete: 

—  Pois  tu  estás  explendido,  Barròlo!  Deves  ter 
perdido  três  ou  quatro  kilos.  São  naturalmente  os  ki- 
los  que  Gracinha  ganhou  . . .  Vocês,  se  assim  se  equi- 
libram, ficam  períeitos. 

Deante  do  espelho  Barròlo  acariciava  a  cinta, 
com  um  risinho  deleitado: 

—  Realmente,  parece  que  adelgacei...  Até  sinto 
nas  calças.. . 

Gonçalo  abrira  o  gavetão  da  rica  commoda  de 
ferragens  douradas,  onde  conservava  sempre  roupa 
(até  duas  casacas),  para  evitar  o  transporto  de  malas 
entre  os  Cunhaesea  Torr(í.  K  ria.  aconselhava  o  bom 
Barròlo  a  «  adelgaçar  »  sem  descanço,  para  bolleza  da 
futura  raça  Barrolica  —  quando  em  baixo,  na  silen- 
ciosa rua  das  Tecedeiras  as  patas  de  um  cavallo  de 
luxo  feriram  as  lages  em  cadencia  lenta. 

Logo  desconfiado,  Gonçalo  correu  á  janella, 
ainda  com  a  camisa  que  dí^sdobrava.  E  era  el/e! 
Kra  o  André  Cavalleiro,  que  descia  ladeando,  so- 
peando  a   rédea,   para  escar\"ar  com  garbo  e  íragor 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  129 


a  rampa  mal  empedrada.  Gonçalo  virou  para  o  Bar- 
rulo  a  íace  chammejante  de  fiiròr: 

—  Isto  é  uma  provocação!  Se  este  descarado 
<l'este  Cavalleiro  passa  outra  vez  na  maldita  pileca, 
por  debaixo  das  janellas,  apanha  com  um  balde 
d'agua  suja  ! . . . 

Barròlo,  inquieto,  espreitou : 

—  Naturalmente  vae  para  casa  das  Louzadas... 
Anda  agora  muito  intimo  das  Louzadas , . .  Sempre 
por  aqui  o  vejo ...  E  é  para  as  Louzadas. 

—  Que  seja  para  o  inferno!  Pois,  em  toda  a  ci- 
dade, não  ha  outro  caminho  para  casa  das  Louza- 
das? Duas  vezes  em  meia  hora!  Grande  insolente! 
Tem  uma  chapada  d'agua  de  sabão,  pela  grenha  e 
pela  bigodeira,  tão  certo  como  eu  ser  Ramires,  filho 
de  meu  pae  Ramires ! 

Barròlo  beliscava  a  pelle  do  pescoço,  constran- 
gido ante  aquelles  rancores  ruidosos  que  desman- 
chavam o  seu  socego.  Já,  por  imposição  de  Gon- 
çalo, rompera  desconsoladamente  com  o  Cavalleiro. 
E  agora  antevia  sempre  uma  bulha,  um  escândalo 
que  o  indisporia  com  os  amigos  do  Cavalleiro,  lhe 
vedaria  o  Club  e  as  doçuras  da  Arcada,  lhe  tornaria 
Oliveira  mais  enfadonha  que  a  sua  quinta  da  Ribei- 
rinha ou  da  Murtosa,  solidões  detestadas.  Não  se 
conteve,  arriscou  o  costumado  reparo : 


130  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


♦      — Ó  Gunçalinho,  olha  que  também  todo  esse  es-  ' 
palhafato  só  por  causa  da  Politica  ... 

Gonçalo  quasi  quebrou  o  jarro,  na  íuria  com 
que  o  pousou  sobre  o  mármore  do  lavatório: 

—  Politica!  Ahi  vens  tu  com  a  Politica!  Por 
Politica  não  se  atira  .agua  suja  aos  Governadores 
Civis.  Que  elle  não  é  Politico,  é  só  malandro !  Além 
d"isso... 

Mas  terminou  por  encolher  os  hombros,  emmu- 
decer,  diante  do  pobre  bacoco  de  bochechas  pasma-    Â 
das,  que,  n'aquellas  rondas  do  Cavalleiro  pelos  Cu- 
nhaes,  só  notava  o  o  lindo  cavallo»  ou  «o  caminho 
mais  curto  para  as  Louzadas!. . .» 

—  Bem!  resumiu.  Agora  larga,  que  me  quero 
vestir...  Do  bigodeira  me  encarrego  eu. 

—  Então,  até  logo...  Mas  se  elle  passar  nada 
d' asneiras,  hein? 

—  Só  justiça,  aos  baldes! 
E   bateu  com  a  porta  nas  costas  resignadas  do 

bom  Barrólo,  que,  pelo  corredor,  suspirando,  lamen- 
tava o  assomado  gonio  do  Gonçalinlio,  as  cóleras 
desproporcionadas  em  que  o  lançava  «a  Politica.» 
Em  quanto  se  ensaboa\a  com  vehemencia,  de- 
pois se  vestia  n'uma  pressa  irada,  Gonçalo  ruminou 
aqu,elle  intolerável  escândalo.  Fatalmente,  apenas  se 
apeava  em  Oliveira,  encontrava  o  homem  da  grande 
guedelha,   caracolando   por  sob  as  janellas  do  pala- 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAxMIlíES  131 


cete,  na  pileca  de  grandes  clinas!  E  o  que  o  de- 
solava era  perceber  no  coração  de  Gracinha,  pobre 
coração  meigo  c  sem  fortaleza,  uma  teimosa  raiz 
de  ternura  pelo  Cavalleiro,  bem  enterrada,  ainda 
\'ivaz,  íacil  de  reflorir . . .  E  nenhum  outro  senti- 
mento forte  que  a  defendesse,  n'aquella  ociosidade 
d'01iveira  — nem  superioridade  do  marido,  nem  en- 
canto d'um  filho  no  seu  berço.  Só  a  amparava  o  or- 
gulho, certo  respeito  religioso  pelo  nome  de  Rami- 
res, o  medo  da  pequena  terra  espreitadeira  e  me- 
x.eriqueira.  A  sua  salvação  seria  o  abandono  da 
cidade,  o  encerrado  retiro  n'uma  das  quintas  do 
Barròlo,  a  Ribeirinha,  sobretudo  a  Murtosa,  com  a 
linda  matta,  os  musgosos  muros  de  convento,  a  aldêa 
em  redor  para  ella  se  occupar  como  castellâ  bené- 
fica. -Mas  quê !  Nunca  o  Barròlo,  consentiria  em  per- 
der o  seu  voltarete  no  Club,  e  a  cavaqueira  da  ta- 
bacaria « Elegante »,  e  as  chalaças  do  Major  Ri- 
bas! 

Afogueado  pelo  calor,  pela  emoção,  Gonçalo 
abriu  a  varanda.  Em  baixo,  no  curto  terraço  ladri- 
lhado', orlado  de  vasos  de  louça,  precedendo  o  jar- 
dim, Gracinha,  ainda  soltos  os  cabellos  por  cima 
do  penteador,  conversava  cora  outra  senhora,  mui- 
to alta,  muito  magra,  de  chapéu  marujo  enfeitado 
de  papoulas,  que  segurava  entre  os  braços  um  re- 
polhudo  molho  de  rosas. 


1:{Í  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Era  a  a  prima»  Maria  Mendonça,  mulher  de  José 
Mendonça,  condiscipulo  do  Barròlo  em  Amarante, 
agora  capitão  do  Regimento  de  Cavallaria  estacio- 
nado em  Oliveira.  Filha  d"um  certo  D,  António,  se- 
nhor (hoje  Visconde)  dos  Paços  de  Severim,  devo- 
rada pela  preoccupaçâo  de  parentescos  fidalgos,  de 
origens  fidalgas,  ligava  sempre  surrateiramcnte  o  vago 
solar  de  Severim  a  todas  as  casas  nobres  de  Portugal 
—  sobre  tudo,  mais  gulosamente,  á  grande  casa  de 
Ramires:  e,  desde  que  o  regimento  se  aquartellára 
em  Oliveira,  tratara  logo  Gracinha  por  «tu»  e  Gon- 
çalo por  a  primo»,  com  a  intimidade  especial,  que 
convém  a  sangues  superiores.  Todavia  mantinha  ami- 
sades  muito  seguidas  e  activas  com  brazileiras  ricas 
dT)Iiveira — até  com  a  viuva  Pinho,  dona  da  loja  de 
pannos,  que  (segando  se  murmurava)  lhe  fornecia 
os  dous  filhos  ainda  pequenos  de  calções  e  de  jale- 
cas.  Também  convivia  intimamente,  já  na  cidade,  já 
na  Feitosa,  com  1).  Anna  Lucena.  Gonçalo  gostava  da 
sua  graça,  da  sua  agudfza,  da  vivacidade  maliciosa 
que  a  agitava  n'iuna  linda  crepitação  de  galho,  ar- 
dendo com  alegria.  E  quando,  ao  rumor  da  janella 
perra,  ella  levantou  os  olhos  lusidios  e  espertos,  foi 
em  ambos  uma  surpresa  carinhosa: 

—  Oh  prima  Maria !  Oue  felicidade,  logo  que 
chego  e  que  abro  a  janella ... 

—  P"  para  mim.   |)rim()  Gonçalo,  que  o  não  via 


A    ILLLSTRE   CASA   DE   RAMIRES  IXi 


desde  a  sua  volta  de  Lisboa!,..  Pois  está  mais  lin- 
do, assim  de  bigode  . . . 

—  Dizem  que  estou  lindíssimo,  absolutamente 
irresistível!  Até  aconselho  á  prima  Maria  que  se  nã(t 
approxime  muito  de  mim,  para  se  não  incendiar. 

Ella  deixou  pender  desoladamente  nos  braços 
o  seu  pesado  molho  de  rosas: 

—  Ai  Jesus,  então  estou  perdida,  que  ainda  agora 
prometti  á  prima  Graça  jantar  cá  esta  tarde ! . . .  Oh 
Gracinha,  por  quem  és,  põe  um  biombo  entre  os 
dois! 

Gonçalo  gritou,  pendurado  da  varanda,  já  de- 
liciado com  os  chistes  da  prima  Maria: 

—  Não!  enfio  eu  um  abat-jour  pela  cabeça 
para  attenuar  o  meu  brilho!...  E  o  maridinho,  os 
pequenos  ?  Como  vae  o  nobre  rancho  ? 

— Vivendo,  com  algum  pão  e  muita  graça  de 
Deus...  Então  até  logo,  primo  Gonçalo!  E  seja  mi- 
sericordioso ! 

E  ainda  elle  ria,  encantado — já  a  prima  Maria, 
depois  de  cochichar  e  d'estalar  dois  beijos  apressados 
na  face  de  Gracinha,  desapparecêra  pela  porta  envi- 
draçada da  sala  com  a  sua  elegância  esgalgada- 
Gracinha,  huitamente,  subiu  os  três  degraus  de  már- 
more do  jardim.  Da  varanda,  Gonçalo  ainda  avis- 
tou atra  vez  da  r  amar  ia  leve,  entre  as  sebes  de  buxo, 
o  penteador  branco,  os  tartos  cabellos  cabidos,  relu— 


l.'J4  A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


síndo  no  sol  como  uma  cascata  de  azeviche.  Depois 
o  negro  brilho,  as  claras  rendas,  desapparcceram  sob 
os  loureiros  da  rua  que  conduzia  ao  Mirante. 

Mas  Gonçalo  nâo  se  arredou  d'entre  as  janellas, 
limando  vagamente  as  unhas,  espreitando  pelas  cor- 
tinas, n'uma  desconfiança,  quasi  n'um  terror  que  o 
Cavalloiro  de  novo  surgisse  na  pileca  —  agora  que 
Gracinha  se  embrenhara  para  os  lados  d"esse  com- 
modo  Mirante,  construcção  do  século  xvm,  imitando 
um  Templosinho  do  Amor,  que  rematava  o  longo 
terraço  do  jardim  e  dominava  a  rua  das  Teccdeiras. 
Mas  a  calçada  permanecia  silenciosa,  sob  as  derra- 
madas sombras  de  arvoredo  do  Palacete  e  do  Con- 
vento. E  por  fim  decidiu  descer,  envergonhado  da 
espionagem  —  certo  que  a  irmã  não  se  mostraria  ao 
*  Cavalleiro  na  varandinha  do  I\Iirante,  assim  com  os 
cabellos  cm  desalinho,  por  cima  d\un  penteador. 

E  cerrava  a  porta,  quando  se  (>ncontrou  deante 
dos  braços  do  Padre  Su(;iro,  que  o  prenderam  pela 
cinta  com  affago  e  respeito. 

—  Oh!  meu  ingratíssimo  Padre  Sueiro !  excla- 
mava Gonçalo,  batendo  ternamente  nas  gordas  cos- 
tas do  Capellâo.  Então  que  feia  acção  foi  esta?  Mais 
de  um  mez  sem  apparecer  na  Torre!  Agora  para 
o  Sr.  Padre  Sueiro  já  nâo  ha  Gonçalinho,  ha  só 
Gracinha. . . 

Enternecido,   quasi  com   uma   lagrima  a  bailar 


A   ILLUSTP.E    CASA   DE   RAMIRES  .135 


nos  mansos  olhos  miúdos,  que  mais  negrejavam  en- 
tre a  írescura  rozea  da  face  roliça  e  a  cabecinha 
branca  como  algodão — Padre  Sueiro  sorria,  fechan- 
do as  mãos  sobre  o  peito  da  batina  d"nlpaca,  d'onde 
surdia  a  ponta  de  um  lenço  de  quadrados  verme- 
lhos. E  não  lhe  escasseara  certamente  o  desejo  d'ir  á 
Torre.  Mas  aquelle  trabalhinho  na  Bibliotheca  do  Paço 
do  Bispo...  Depois  o  seu  rheumatismosito. . .  Emfim 
a  Sr."  ]J.  Graça  sempre  esperando  S.  Ex.",  um  dia,  ou- 
tro dia  . . . 

—  Bem,  bem!  acudiu  alegremente  Gonçalo,  com- 
tanto  que  o  coração  não  se  esquecesse  da  Torre... 

—  Ah!  esse!  murmurou  Padre  Sueiro  com  com- 
movida  gravidade. 

E  pelo  corredor  de  paredes  azues,  adornadas 
com  gravuras  coloridas  das  batalhas  de  Napoleão, 
Gonçalo  resumiu  as  novidades  da  Torre : 

—  Como  o  Padre  Sueiro  sabe,  rebentou  aquelle 
escândalo  do  Relho...  E  ainda  bem.  porque  conclui 
um  negocio  esplendido.  Imagine!  Arrendei  ha  dias 
a  quinta  ao  Pereira  Brazileiro,  ao  Pereira  da  Riosa. 
por  um  conto  cento  e  cincoenta  mil  réis . . . 

O  capellão  suspendeu  a  pitada,  que  colhera  n'uma 
caixa  de  prata  dourada,  pasmado  para  o  Fidalgo:     < 

—  Ora  ahi  está  como  as  cousas  se  inventam! 
Pois  por  cá  constou  que  V.  Ex."  tratara  com  o  José 
Casco,  o  José  Casco  dos  Bravaes.  Até  no  Domingo, 
ao  almoço,  a  Sr.'"*  D.  Graça  . . . 


•136  A   ILLUSTUE    CASA   DE   RAMIRES 


—  Sim,  interrompeu  o  Fidalgo  coiu  uma  fugidia 
côr  na  face  fina.  F^ffectivamente  o  Casco  veio  á  Torro, 
conversámos.  Primeiramente  quiz,  depois  não  quiz. 
Aquellas  cousas  do  Casco!  Emfim,  uma  massada... 
Não  ficou  nada  decidido.  E  quando  o  Pereira,  uma 
bella  manhã,  me  appareceu  com  a  proposta,  eu,  in- 
teiramente desligado,  acceitei,  e  com  que  alvoroço!,.. 
Imagine!  Um  augmento  soberbo  de  renda,  o  Pereira 
como  rendeiro ...  O  Padre  Sueiro  conhece  bem  o 
Pereira . . . 

—  Homem  entendido,  concordou  o  Capellâo  co- 
çando embaraçadamente  o  queixo.  Não  ha  duvida. 
E  homem  de  bem . . .  Depois  não  havendo  palavra 
dada  ao  Cas . . . 

—  Pois  o  Pereira  para  a  semana  vem  á  cidade, 
atalhou  apressadamente  Gonçalo.  O  Padre  Sueiro  pre^ 
vine  o  tabelliâo  Guedes,  e  assignamos  essa  bella  es- 
criptura.  São  as  condições  costumadas.  Creio  que  ha 
uma  reserva  a  respeito  da  hortaliça  e  do  porco . . . 
Emfim  o  Padre  Sueiro  deve  receber  carta  do  Pereira. 

E  inunediatamente,  descendo  a  escada,  passando 
o  lenço  perfumado  pelo  bigode,  gracejou  com  o  ca- 
pellâo sobre  o  famoso  Fado  dos  Ramires  em  que 
elle  collaborava  com  o  Videirinha.  Oh!  Padre  Sueiro 
fornecera  lendas  sublimes !  Mas  aquella  de  Santa  Al- 
donça,  realmente,  fora  ataviada  com  exageração . . . 
Quatro  Reis  a  levarem  a  Santa  aos  hombros! 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIUES  137 


—  São  Reis  de  mais,  Padre  Sueiro! 

O  bum  capellâo  protestou,  logo  interessado  e  se- 
rio, no  amor  d'aquella  obra  que  glorificava  a  Casa: 

—  Ora  essa!  Com  perdão  de  V.  Ex.'\..  Perfei- 
tissimamente  exacto.  Lá  o  conta  o  Padre  Guedes  do 
Amaral,  nas  suas  Damas  da  Corte  do  Ceu,  livro  pre- 
cioso, livro  raríssimo,  que  o  Sr.  José  Barròlo  tem 
na  Livraria.  Não  especifica  os  lieis,  mas  diz  qua- 
tro . . .  « Aos  hombros  de  quatro  Reis  e  com  acompa- 
nhamento de  muitos  Condes. »  Mas  o  nosso  José  Vi- 
deira declarou  que  não  podia  metter  os  Condes  por 
causa  da  rima. 

O  Fidalgo  ria,  dependurando  n'um  cabide,  ao 
fundo  da  escada,  o  chapéu  de  palha  com  que  descera: 

—  Por  causa  da  rima,  pobres  Condes...  Mas  o 
fado  está  lindo.  Eu  trago  uma  copia  para  a  Gracinha 
cantar  ao  piano ...  E  agora  outra  cousa,  Padre 
Sueiro.  O  que  se  conta  por  ahi  do  Governador  Ci- 
vil, d'esse  Sr.  André  Cavalleiro?.. . 

O  capellâo  encolheu  os  hombros,  desdobrando 
cautelosamente  o  seu  vasto  lenço  de  quadrados  ver- 
melhos : 

—  Eu,  como  V.  Ex.*  sabe,  não  entendo  de  Po- 
litica. Depois  também  não  frequento  os  cafés,  os  sí- 
tios onde  se  questiona  Politica . . .  Mas  parece  que 
gostam. 

No  corredor  ura  escudeiro  gordo,  de  opulentas 


I"i8  A   ILUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


suissas  ruivas,  que  Gonçalo  não  conhecia,  l)adalou  a 
sineta  do  almoço.  Gonçalo  reparou,  avisou  o  homem 
que  a  Snr."  D.  Maria  da  Graça  andava  para  o  fundo 
do  jardim ... 

—  Entrou  agora,  Snr.  D.  Gonçalo!  accudiu  o  es- 
cudeiro. E  até  manda  perguntar  se  V.  Ex.*'  deseja  para 
o  almoço  vinho  verde  de  Amarante,  de  Vidainhos. 

Sim,  com  certeza,  vinho  de  Viduinhos.  Depois 
sorrindo : 

— Oli  Padre  Sueiro,  previna  este  escudeiro  novo 
que  eu  nâo  tenho  Dom.  Sou  simplesmente  Gonçalo, 
graças  a  Deus ! 

O  capellâo  murmurou  que  todavia,  em  docu- 
mentos da  Primeira  Dynastia,  appareciam  Ramires 
com  Do/n.  E,  como  Gonçalo  parara  deante  do  repos- 
teiro corrido  da  sala,  logo  o  bom  velho  se  curvou, 
com  as  suas  escrupulosas,  reverentes  ccremonias. 
para  o  Fidalgo  passar. 

—  Então,  Padre  Sueiro,  por  quem  é! 
iVIas  elle,  com  apegado  respeito : 

—  Depois  de  V.  Ex.",  meu  senhor... 

Gonçalo  afastou  o  reposteiro,  empurrou  doce- 
mente o  capellâo : 

—  Padre  Sueiro,  já  nos  documentos  da  Primeira 
Dynastia  se  estabeleceu  que  os  vSantos  nunca  andam 
a  traz  dos  Pecca  dores ! 

—  V.  Ex."  manda,  e  sempre  com  que  graça! 


A    ILLISTIIF,    CASA    DE   li.VMIRKS  13í) 


Depois  dos  annos  de  Gracinha,  uma  tarde,  pelas 
três  horas,  Gonçalo,  recolhendo  com  Padre  Sueiro 
d'uma  visita  á  Bibliotheca  do  Paço  do  Bispo,  sentiu 
logo  da  antecâmara  o  vozeirão  do  Tito,  que  rolava  na 
sala  azul  em  trovão  lento.  Franziu  vivamente  o  re- 
posteiro—  e  sacudiu  o  punho  para  o  immenso  homem 
(jue  enchia  um  dos  cadeirões  dourados,  estirando  por 
sobre  as  flores  do  tapete  umas  botas  novas  de  gros- 
sas tachas  reluzentes : 

—  Oh  infame!...  Então  n'outro  dia  assim  me 
larga,  sem  escrúpulo,  depois  de  eu  lhe  preparar  um 
cabrito  estupendo,  assado  n'um  espeto  de  cerejeira? 
E  para  quê?...  Para  uma  orgia  reles,  com  bolinhos 
de  bacalhau  e  bichinhas  de  rabear! 

Tito  não  desmanchou  a  sua  conchegada  beati- 
tude: 

—  Impossibilissimo.  De  tarde  encontrei  o  João 
Gouveia  no  Chafariz.  E  só  então  nos  lembrámos  de 
que  eram  os  annos  da  D.  Casimira.  Dia  sagrado! 

Aquellas  ceias  de  Villa-Clara,  as  tresnoutadas 
« pandegas »  com  violão,  impressionavam  sempre 
Barròlo,  que  as  appetecia.  E  com  o  olho  aguçado, 
do  canto  da  mesa  onde  esfarelava  cuidadosamente 
pacotes  de  tabaco  dentro  de  uma  terrina  do  Japão  : 

—  Quem  é  a  D.  Casimira?  Vocês  em  Villa-Clara 
descobrem  uns  typos  . . .  Conta  lá ! 


140  A  ILLrSTRE  CASA  DE  UAMIHES 


—  Um  monstro!  declarou  Gonçalo.  Uma  matro- 
naça  bojuda  como  uma  pipa,  com  um  pêllo  nojento 
no  queixo.  Vive  ao  pé  do  Cemitério,  n"um  cacifro 
que  tresanda  a  petróleo,  onde  este  senhor  e  as  au- 
ctoridades  vão  jogar  o  quino,  e  derriçar  com  umas 
serigaitas  de  cazabeque  vermelho  e  de  farripas  . . . 
Nem  se  pôde  decentemente  contar  deante  do  Snr. 
Padre  Sueiro! 

O  capellâo,  que  sem  rumor  se  esbatera  n'uma 
sombra  discreta,  entre  os  franjados  setins  d'uma  cor- 
tina e  um  pesado  contador  da  índia,  moveu  os  hom- 
bros  n'um  consentimento  risonho,  como  acostumado 
a  todas  as  fealdades  do  Peccado.  E,  com  pachorra,  o 
Tito  emendava  o  esboço  burlesco  do  Fidalgo: 

—  A  D.  Casimira  é  gorda,  mas  muito  aceada. 
Até  me  pediu  para  eu  lhe  comprar  hoje,  na  cidade, 
uma  bacia  nova  d'assento.  A  casa  não  cheira  a  pe- 
tróleo e  fica  por  traz  do  convento  de  Santa  Thereza. 
As  serigaitas  são  simplesmente  as  sobrinhas,  duas 
raj)arigas  alegres  que  gostam  de  rir  e  de  troçar , . . 
E  o  Snr.  Padre  Sueiro  podia,  sem  medo... 

—  Bem,  bem!  atalhou  Gonçalo.  Gente  deliciosa  1 
Deixemos  a  D.  Casimira,  que  tem  bacia  nova  para 
os  seus  semicupios . . .  Vamos  á  outra  iníamia  do 
Snr.  António  Villalobos ! 

Mas  Barrôlo  insistia,  curioso: 

—  Não,  não,  conta  lá,  Tito...  Noite  d'annos,  pa- 
tuscada rija,  hein? 


A  IIXUSTRE  CASA  DE  KAMIRES  141 


—  Ceia  pacata,  contou  o  Tito  com  a  seriedade 
qae  lhe  merecia  a  festa  das  suas  amigas.  A  D.  Ca- 
simira tinha  uma  bella  frangalhada  com  ervilhas.  O 
.íoâo  Gouveia  trouxe  do  Gago  uma  travessa  de  bolos 
de  bacalhau  que  calharam...  Depois,  fogo  de  vistas 
na  horta.  O  Videirinha  tocou,  as  pequenas  canta- 
ram... Não  se  passou  mal. 

Gonçalo  esperava  —  irresistivelmente  interessa- 
do pela  ceia  das  Casimiras : 

—  Acabou,  hein? . . .  Agora  a  outra  infâmia,  mais 
grave!  Então  o  Snr.  António  Villalobos  é  intimo  do 
Sanches  Lucena,  frequenta  todas  as  semanas  a  Fei- 
tosa,  toma  chá  e  torradas  com  a  bella  D.  Anna,  e 
esconde  tenebrosamente  dos  seus  amigos  estes  pri- 
vilégios gloriosos? . . . 

—  Sem  contar,  gritou  o  Barròlo  deliciosamente 
divertido,  que  lhe  passeia  á  trela  os  câesinhos  fel- 
pudos! 

—  Sem  contar  que  lhe  passeia  á  trela  os  câesi- 
nhos felpudos!  echoou  cavamente  Gonçalo.  Responda, 
meu  illustre  amigo! 

O  Tito  remecheu  o  vasto  corpo  dentro  do  ca- 
deirão, recolheu  as  botas  de  tachas  luzentes,  afagou 
lentamente  a  face  barbuda,  que  uma  vermelhidão 
aquecera.  E  depois  de  encarar  Gonçalo,  intensamen- 
te, com  um  esforço  de  sagacidade  que  mais  o  afo- 
gueou : 


í  12  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Tu  já  alguma  vez,  por  curiosidade,  me  per- 
guntaste se  eu  conhecia  o  Sanches  Lucena?  Nunca 
me  perguntaste  . . . 

O  Fidalgo  protestou.  Não !  Mas  constantemente 
na  Assembleia,  no  Gago,  na  Torre,  elles  berravam, 
em  questões  de  Politica,  o  nome  do  Sanches  Lucena ! 
Nada  mais  natural,  até  mais  prudente,  do  que  aliu- 
dir  o  Snr.  Tito  á  sua  intimidade  illustre!  Ao  me- 
nos para  evitar  que  elle,  ou  os  amigos,  deante  do 
Snr.  Tito  que  comia  as  torradas  da  Feitosa,  tratas- 
sem o  Sanches  Lucena  como  um  trapo ! 

O  Ti(ó  despegou  do  cadeirão.  E  afundando  as 
mãos  nos  bolsos  da  quinzena  d'alpaca,  sacudindo 
desinteressadamente  os  hombros: 

—  Cada  um  tem  sobre  o  Sanches  a  sua  opi- 
nião ...  Eu  apenas  o  conheço  ha  quatro  ou  cinco 
inezes,  mas  acho  que  é  serio,  que  sabe  as  cousas... 
Agora,  lú  nas  Camarás... 

Gonçalo,  indignado,  bradava  que  se  não  discu- 
tiam os  méritos  do  Snr.  Sanches  Lucena — mas  os 
segredos  do  Snr.  Tito  Villalobos!  E  o  escudeiro  novo, 
avançando  as  suissas  ruivas  por  uma  fenda  do  re- 
posteiro, annunciou  que  o  Snr.  Administrador  de 
Villa-Clara  procurava  Suas  Ex.'"... 

Barrôlo  largou  logo  a  terrina  de  tabaco: 

—  O  Snr.  João  Gouveia!  Que  entre!  Bravo!  te- 
mos cá  toda  a  rapaziada  de  Viila-CIara ! 


A  lí-LUSTIlE  CASA  DE  RAMIRES  143 


E  Tito,  da  janclla  onde  se  rofagiára,  lançou  o 
vozeirão,  mais  troante,  abafando  a  importuna  con- 
versa do  Sanches  e  da  Feilosa: 

—  Viemos  ambos!  Por  signal  n'uma  traquitana 
infame...  Até  se  nos  desferrou  uma  das  pilecas  e 
tivemos  de  parar  na  V^endinha.  Não  se  perdeu  tempo, 
que  ha  agora  lá  um  vinhinho  branco  que  é  d"aqui 
da  ponta  fina  ! . . . 

Beliscava  a  orelha.  Aconselhava  ruidosamente 
Barròlo  e  Gonçalo  a  passarem  na  Vendinha,  para 
provar  a  pinga  celeste. 

—  Até  aqui  o  Snr.  Padre  Sueiro  lhe  atiçava  uma 
caneca  valente,  apesar  do  Peccado! 

Mas  João  Gouveia  entrou,  encalmado,  empoei- 
rado, com  um  vinco  vermelho  na  testa,  do  chapéu 
e  do  calor — e  abotoado  na  sobrecasaca  preta,  de  cal- 
ças pretas,  de  luvas  pretas.  Sem  fôlego,  apertou  si- 
lenciosamente pela  sala  as  mãos  amigas  que  o  aco- 
lhiam. E  desabou  sobre  o  camapé,  implorando  ao  ami- 
go Barròlo  a  caridade  d'uma  bebidinha  fresca ! 

—  Estive  para  entrar  no  café  Mónaco.  Mas  re- 
llccti  que  n'esta  grandiosa  casa  dos  Barròlos  as  be- 
bidas são  de  mais  confiança. 

—  Ainda  bem!  Você  que  quer?  Orchata  ?  San- 
irria  ?  Limonada  ? 

—  Sangria. 

E,  limpando  o  pescoço  e  a  testa,  amaldiçoou  o 
indecente  calor  d'01iveira: 


144  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Mas  ha  gente  que  gosta!  Lá  o  meu  cheio,  o 
Snr.  Governador  Civil,  escolhe  sempre  a  hora  do  ca- 
lor para  passear  a  cavallo.  Ainda  hoje...  Xa  reparti- 
ção até  ao  meio  dia ;  depois,  cavallo  á  porta ;  e  larga 
até  á  estrada  de  Ramilde,  que  é  uma  Africa . . .  Não 
sei  como  lhe  nâo  fervem  os  miolos! 

—  Oh!  acudiu  Gonçalo,  é  muito  simples.  Se  elle 
os  não  tem! 

O  administrador  saudou  gravemente : 

—  Já  cá  faltava  com  a  sua  ferroadasinha  o  Snr. 
Gonçalo  Mendes  Ramires!  Nâo  comecemos,  nâo  co- 
mecemos... Este  seu  cunhado,  Barròlo,  é  bicho  in- 
domesticavel!  Sempre  reponta! 

O  bom  Barròlo  gaguejou,  constrangido,  que 
Gonçalinho  era  Politica  nâo  dispensava  a  piada... 

—  Pois  olhe!  declarou  o  administrador,  sacudindo 
o  dedo  para  Gonçalo.  Esse  Snr.  André  Cavalleiro, 
que  nâo  tem  miolos,  ainda  esta  manhã  na  Reparti- 
ção gabou  com  immensa  sympathia  os  miolos  do 
Snr.  Gonçalo  Mendes  Ramires!... 

E  Gonçalo,  muito  serio: 

—  Também  nâo  faltava  mais  nada!  Para  esse 
Governador  Civil  ser  perfeitamente  absurdo  só  lhe 
restava  que  me  considerasse  um  asno! 

—  Perdão!  gritou  o  Administrador,  que  se  er- 
guera, desabotoando  logo  a  sobrecasaca,  para  com- 
modidade  da  contenda. 


A  II.LISTHK  CASA  DE  KAMIHKS  .li,"> 


Barròlo  aciidio,  aítlicto.  carri'<.MrKlo  nos  hoiii- 
bros  do  Gouveia—  para  o  soecarar  «•  o  repor  no  ca- 
ma pé: 

— Não,  nienin(ts.  não!  Politica,  não!  E  então  essa 
inassada  do  Caxalleiro...  \'amos  ao  que  importa. 
^'oct'  janta  comnosco,  João  Gouveia ? 

—  Não,  obrigado.  Já  promotti  jantar  com  o  Ca- 
valleiro.  Temos  lá  o  ígnacio  Vilhena.  \'ae  lêr  um  ar- 
tigo que  (iscreveu  para  o  Boletim  r/  •  Gtumaraen  so- 
bre umas  fòrraas  de  fabricar  ossos  de  martyres,  des- 
cobertas nas  obras  do  convento  do  S.  Bento.  Estou 
com  curiosidade...  E  a  Snr."  D.  Graça,  bem?  Quem 
eu  não  avistava  havia  mezes  era  o  Snr.  Padre  Suei- 
ro.  Nunca  apparece  agora  pela  Torre ! . . .  Mas  sem- 
pre rijo.  sempre  viçoso.  Oh.  Snr.  Padre  Sueiro. 
qual  é  o  seu  segredo  para  toda  essa  meninice? 

])o  seu  canto,  o  capellâo  sorriu  timidamente.  O 
segredo?  Poupar  a  \'ida — não  a  consumindo  nem 
com  ambições  nem  com  decepções.  Ora  para  elle. 
louvado  Deus,  a  vida  corria  muito  simples  e  muito 
pequenina.  E  fora  o  seu  rheumatismo.. . 

Depois,  corando  d'acanhamento,  atra\  ez  das  sen- 
tenças evangélicas  que  lhe  escapavam : 

—  Mas  mesmo  o  rheumatismo  não  é  mal  per- 
dido. Deus.  que  o  manda,  sabe  porque  o  manda . . . 
Sofírer  edifica.  Por  que  enfim  o  que  nós  soffremos 
nos  leva  a  pensar  no  que  os  outros  soíTrem  . . . 

10 


146  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Pois  olhe,  volveu  com  alegre  incredulidade 
o  Administrador,  eu,  quando  tenho  os  meus  ata- 
ques de  garganta,  não  penso  na  garganta  dos 
outros  1  Penso  só  na  minha  que  me  dá  bastante 
cuidado.  E  agora  a  vou  regalar  n'aquella  bella 
sangria . . . 

O  escudeiro  vergava,  com  a  luzente  bandeja  de 
prata,  carregada  de  copos  de  sangria  onde  boiavam 
rodellinhas  de  limão.  E  todos  se  tentaram,  todos  be- 
beram, até  Padre  Sueiro,  para  mostrar  ao  Snr.  An- 
tónio Villalobos  que  não  desdenhava  o  vinho,  dadi- 
va amável  de  Deus— pois  como  ensina  Tibulo  com 
verdade,  apezar  de  gentílico,  iu'nus  fácil  dites  âni- 
mos, mollia  corda  dal,  enrija  a  alma  e  adoça  o  co- 
ração. 

João  Gouveia,  depois  d'um  suspiro  consolado, 
pousou  na  bandeja  o  copo  que  esvasiára  d'um  trago 
e  interpellou  Gonçalo: 

—  Vamos  a  saber!  Então  n'outro  dia  que  histo- 
ria phantastica  íoi  essa  d'uma  festa  na  Torre,  com 
senhoras,  com  a  D.  Auna  Lucena?...  Eu  não  acre- 
ditei quando  o  pequeno  do  Gago  me  encontrou,  me 
deu  o  recado.  Depois... 

Mas  d'entre  as  cortinas  da  janella.  onde  acabava 
a  sangria,  Tito  novamente  rebombou.  interpellando 
também  o  Fidalgo: 

—  Oh  sò  Gonçalo !  E  o  que  me  contou  ha  pouco 


A  ILLIJSTRE  CAS.V  DE  RAMIRES  "  147 


O  Barròlo?...  Que  andavas  com  idéas  de  abalar  para 
a  Africa? 

Ao  espanto  de  João  Gouveia  qiiasi  se  misturou 
terror.  Para  a  Africa?...  O  quê?  Com  um  emprego 
para  a  Africa?... 

— Nâo!  plantar  cocos!  plantar  cacau!  plan- 
tar café!  exclamava  o  Borrôlo,  com  divertidas  pal- 
madas na  coxa. 

Pois  Tito  approvava  a  idéa!  Também  elle,  se 
arranjasse  um  capital,  dez  ou  quinze  contos,  tentava 
a  Africa,  a  traficar  com  o  preto . . .  E  também  se  fosse 
mais  pequeno,  mais  secco.  Oue  homens  do  seu  cor- 
panzil, necessitando  muita  comezaina  e  muita  vinha- 
ça,  nâo  aguentam  a  Africa,  rebentam! 

— O  Gonçalo  sim!  É  chupado,  é  rijo;  não  car- 
rega na  agua-ardente;  está  na  conta  para  Africa- 
nista ...  E  sempre  te  digo !  Carreira  bem  mais  de- 
cente que  essa  outra  por  que  tens  mania,  de  de- 
putado !  Para  que?  Para  palmilhar  na  Arcada,  para 
bajular  Conselheiros. 

Barròlo  concordou,  com  alarido.  Também  nâo 
comprehendia  a  teima  de  Gonçalo  em  ser  deputa- 
do! Que  massada!  Eram  logo  as  intrigas,  e  as  de- 
sandas nos  jornaes,  e  os  enxovalhos.  E  sobretudo 
aturar  os  eleitores. 

— Eu,  nem  que  me  nomeassem  depois  Governa- 
dor Civil,  com  um  titulo  e  uma  gran-cruz  a  tira- 
collo,  como  o  Freixomil! 


118  \  ILLr.STKE  CASA  Di:  KVMIUlilS 


Gonçalo  escutara.  n"uin  silencio  risonho  e  supe- 
rior, enrolando  laboriosamente  um  cigarro  com  o 
tabaco  do  liarròlo: 

—  \'ocrs  não  comprohendem . ..  \'oct''S  não  co- 
nhecem a  organisaçâo  de  Portugal.  Perguntem  alii  ao 
Gouveia. .  .  Portugal  é  uma  fazenda,  uma  bella  fazen- 
da, possuída  por  uma  parceria,  ('omo  vocês  sabem 
ha  parcerias  commerciaes  e  parcerias  ruraes.  Esta  de 
Lisboa  é  uma  parceria  politica,  que  governa  a  her- 
dade chamada  Portugal...  Nós  os  Portuguezes  per- 
tencemos todos  a  duas  classes:  uns  cinco  a  seis  mi- 
lhões que  trabalham  na  íazenda.  ou  vivem  n'ella  a 
olhar,  como  o  Barrôlo,  e  que  pagam;  e  ims  trinta  su- 
jeitos em  cima.  em  Lisboa,  que  formam  a  parceria. 
que  recebem  e  que  governam.  Ora  eu,  por  gosto, 
por  necessidade,  por  habito  de  fumilia.  desejo  man- 
dar na  lazonda.  Mas,  para  entrar  na  parceria  poli- 
lica.  o  cidadão  portuguez  precisa  uma  habilitação  — 
ser  deputado.  Exactamente  como.  quando  pretende 
entrar  na  Magistratura,  necessita  uma  ha!)ilitaçâo  — 
ser  bacharel.  l'or  isso  procuro  começar  como  depu- 
tado para  acabar  como  parceiro  e  governar...  Não 
c  verdade,  João  ("-ouveia? 

O  Administrador  voltiíra  á  bandeja  das  sangrias, 
de  que  saboreava  outro  copo,  agora  lentamente,  aos 
goles : 

—  Sim.  coui  elfeito.  essa  é  a  carreira...  Candi- 


A   ILLl  STRK  CASA  UE  RAMIRES  •  i4U 


(lato,  Deputado,  Politico,  Conselheiro,  Ministro,  Man- 
darim. E  a  carreira...  E  melhor  qne  a  d'Aírica. 
For  fim  na  Arcada,  em  Lisboa,  também  cresce  cacau 
e  ha  mais  sombra! 

Barrulo  no  emtanto  abraçara  o  hombro  pos- 
sante do  Tito,  com  quem  mergulhou  no  \âo  da  ja- 
nella.  n'uma  coníraternidade  d'ideias,  gracejando: 

—  Pois  eu,  sem  ser  dos  taes /;CT/*ce«/'o.y,  também 
mando  nos  bocados  de  Portugal  que  mais  me  inte- 
ressam por  que  mo  pertencem!...  E  sempre  queria 
vèr  ([ue  esse  S.  Fulgencio.  ou  o  Braz  Victorino,  ou 
la  os  políticos  do  Terreiro  do  Paço,  se  mettessem 
a  dispor  nas  minhas  terras,  na  Ribefrhiha  ou  na 
Murtosa...  Era  a  tiro! 

Encostado  á  vidraça,  Tito  coçava  a  barba,  im- 

t 

pressionado : 

—  Pois  sim,  liarròlo!  Mas  voe»;  na  HiheiVinha 
r  na  Murtom  tem  de  pagar  as  contribuições  que 
elies  mandarem.  E  n'esses  concelhos  tem  d'aguen- 
tar  íis  auctoridades  que  elles  nomearem.  E  goza  para 
lá  d'estradas  se  elles  lh'as  íizerem.  E  vende  o  carro 
de  pão  e  a  pipa  de  vinho  com  mais  ou  menos  pro- 
\  eito,  segundo  as  leis  que  elles  votarem ...  E  assim 
tudo.  O  Gonçalo  não  deixa  de  acertar.  É  o  diabo!  Quem 
manda  é  quem  lucra...  Olhe!  o  maroto  do  meu  senho- 
rio em  Villa-Clara,  agora  para  o  S.  Miguel,  augmenta 
a  renda  da  casa  em  que  en  moro,  um  cochicho  que 


150  A   ILLUSTRE   CASA   DE  RAMIRES 


ninguém  quer,  por  que  mataram  lá  o  carrasco,  que 
ainda  lá  apparece . . .  E  o  Cavalleiro,  esse,  como  par- 
ceiro, vive  de  graça  n"este  bello  palácio  de  S.  Do- 
mingos, com  cocheira,  com  jardim,  com  horta . . . 

Barrôlo  atirou  um  cltut,  de  mão  espalmada,  abafan- 
do o  vozeirão  do  Tito,  com  medo  que  as  regalias  do 
Cavalleiro,  assim  proclamadas,  renovassem  as  fúrias 
de  Gonçalo.  Mas  o  Fidalgo  não  percebera,  attento  ao 
João  Gouveia,  que,  enterrado  no  camapé  depois  da 
sangria,  novamente  contava  o  seu  assombro,  ao  en- 
contrar no  chafariz,  em  Villa-Clara,  o  rapasola  do 
Gago  com  o  recado  da  grande  íesta  na  Torre: 

— E  cheguei  a  desconfiar  que  realmente  vocò 
desse  festa,  quando  bateram  as  nove,  depois  as  nove 
e  meia,  e  o  Tito  sem  chegar  para  a  ceia  d^  D.  Casi- 
mira ! . . .  Bem,  pensei,  também  recebeu  recado  e  aba- 
lou para  a  Torre!  Por  fim,  apenas  elle  appareceu,  de 
carapuço  e  de  jaqueta,  percebi  que  fora  troça  do  Snr. 
]).  Gonçalo  . . . 

Então  o  Fidalgo  pasmou  com  uma  inesperada, 
estranha  suspeita: 

— De  carapuço  e  jaqueta?  O  Tito  andava  n"essa 
noite  de  carapuço  e  de  jaqueta  ? . . . 

Mas  bruscamente  Barròlo,  da  funda  janella,  lan- 
çou para  dentro,  para  a  sala,  um  brado  de  pavor: 

— Oh!  rapazes!  Santo  Deus!  Ahi  vêem  as  Lou- 
zãdas ! 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  151 


João  Gouveia  saltou  do  camapé,  como  n'um  pe- 
rigo, reabotoando  arrebatadamente  a  sobrecasaca ; 
Gonçalo,  atarantado,  esbarrou  com  o  Tito  e  o  Bar- 
ròlo  que  recuavam,  no  terror  de  serem  apercebidos 
atravez  dos  vidros  largos;  até  Padre  Sueiro,  pru- 
dente, abandonou  o  seu  recanto  onde  corria  os  ócu- 
los pela  Gaz-eta  do  Porto.  E  todos.  d'entre  a  fenda 
das  cortinas,  como  soldados  na  íresta  de  uma  cida- 
della,  espreitavam  o  Largo,  que  o  sol  das  quatro  ho- 
ras dourava  por  sobre  os  telhados  musgosos  da  Cor- 
doaria. Do  lado  da  rua  das  Pegas,  as  duas  Louzadas, 
muito  esgalgadas,  muito  sacudidas,  ambas  com  man- 
teletes  curtos  de  seda  preta  e  vidrilhos,  ambas  com 
guardasoes  de  xadresinho  desbotado,  avançavam,  es- 
tirando pelo  largo  empedrado  duas  sombras  agudas. 

As  duas  manas  Louzadas!  Seccas,  escuras  e  gár- 
rulas como  cigarras,  desde  longos  annos,  em  Oliveira, 
eram  ellas  as  esquadrinhadoras  de  todas  as  vidas, 
as  espalhadoras  de  todas  as  maledicências,  as  tece- 
deiras  de  todas  as  intrigas.  E  na  desditosa  Cidade 
não  existia  nódoa,  pecha,  bule  rachado,  coração  do- 
rido, algibeira  arrasada,  janella  entreaberta,  poeira 
a  um  canto,  vulto  a  uma  esquina,  chapéu  estreado 
na  missa,  bolo  encommendado  nas  Mathildes,  que 
os  seus  quatro  olhinhos  furantes  d'azeviche  sujo  não 
descortinassem  — e  que  a  sua  solta  lingoa,  entre  os 
dentes  ralos,  não  commentasse  com  malicia  estriden*^ 


152  A  ILLUSTRE  CASA  DE  HAMIRES 


te!  D'ellas  surdiam  todas  as  cartas  unonymas  que  in- 
festavam o  Districto:  as  pessoas  devotas  cousidera- 
vam  como  penitencias  essas  visitas  em  que  ellas 
durante  horas  galravam,  abanando  os  braços  escani- 
Irados:  e  sempre  por  onde  ellas  passassem  ficava  la- 
tejando um  sulco  de  desconfiança  e  receio.  Mas  quem 
ousaria  rechaçar  as  duas  manas  Louzadas?  Eram 
[ilhas  do  decrépito  e  venerando  General  Louzada; 
eram  parentas  do  Bispo;  eram  poderosas  na  pode- 
rosa confraria  do  Senhor  dos  Passos  da  Penha.  E 
depois  d'uma  castidade  tão  rigida,  tão  antiga  o  tão 
resequida,  e  por  ellas  tão  espaventosaaiente  alar- 
deada—  que  o  Marcolino  do  Independente  as  alcu- 
nhara de  Duas  Mil  Virgens. 

—  Não  vêem  para  cá!  trovejou  o  Tito.  com 
immenso  allivio. 

Com  efteito  no  meio  do  Largo,  rente  ií  grade 
que  circumda  o  antigo  Kelogio-de-Sol,  as  duas  manas 
paradas,  erguiam  o  bico  escuro,  farejando  e  espiando 
a  Egrejinha  de  S.  Matheus  onde  o  sino  lançara  um 
repique  de  baptisado. 

—  Oh.  c*os  diabos,  que  é  para  cá! 

As  Louzadas,  decididas,  investiam  contra  o  portão 
(los  Cunhaes!  Então  loi  um  pânico!  As  gordas  per- 
nas do  Barrôlo,  fugindo,  abalaram,  quasi  derru- 
baram sobre  os  contadores,  os  potes  bojudos  da  ín- 
dia, (lonçalo  bradava  que  se  escondessem  no  pomar. 


A  IIXLSTKK  CASA  1)K  UAMÍUES  .K>:{ 


Desconcertado,  o  Gouveia  rebuscava  com  desespero 
o  seu  chapéu  coco.  S<'»  o  Tito,  que  as  abominava  e 
a  quem  elias  ciianiavam  o  Poli/pliemo.  retirou  com 
serenidade,  abrigando  o  Padre  Sueiro  sob  o  seu  bra- 
i;o  forte.  E  já  o  bando  espavorido  se  arremessara 
sobre  o  reposteiro —quando  Gracinha  appareceu. 
com  um  íresco  vestido  de  sedinha  cõr  de  morango, 
sorrindo,  pasmada,  para  o  tropel  que  rolava: 

— Oue  lui ".'  Que  foi? . . . 

Um  clamor  abafado  envolveu  a  doce  senhora 
ameaçada: 

— As  Louzadas! 

—  Oh! 

Fugidiamente  o  Tito  e  .João  Gouveia  aperta- 
ram a  mão  que  ella  lhes  abandonou,  esmorecida.  A 
sineta  do  portão  tilintara,  temerosa!  E  a  fila  acaval- 
lada,  onde  Padre  Sueiro  rebolava  a  reboque,  enfiou 
para  a  livraria  que  o  Barròlo  aíerrolhou,  gritando 
ainda  a  Gracinha,  com  uma  inspiração : 

—  Esconde  as  sangrias! 

Pobre  Gracinha  !  Atarantada,  sem  tempo  de  cha- 
mar o  escudeiro,  carregou  ella  para  uma  banqueta 
do  corredor,  n"um  estorço  desesperado,  a  pesada 
salva  — com  ((ue  as  Louzadas,  se  a  descortinassem, 
edificariam  por  sobre  a  cidade,  e  mais  alta  que  a 
Torre  do  S.  Matheus,  uma  historia  pavorosa  de  «vi- 
nhaça  e  bebedeira».  Depois,  offegando,  relanceou  no 


lo4  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


espelho  o  penteado.  E  direita  como  n'uina  arena, 
com  a  temeridade  simples  e  risonha  dos  antigos 
Ramires,  esperou  a  arremettida  das  manas  terriveis. 


No  outro  domingo,  depois  do  almoço,  Gonçalo 
acompanhou  a  irmã  a  casa  da  tia  Arminda  Viilegas, 
que  na  véspera,'  ao  tomar  (como  costumava  todos 
os  sabbados)  o  seu  banho  aos  pés,  se  escaldara  e  re- 
colhera á  cama,  apavorada,  reclamando  uma  junta 
dos  cinco  cirurgiões  d'01iveira.  Depois  acabou  o  cha- 
ruto sob  as  acácias  do  Terreiro  da  Louça,  pensando 
na  sua  Novella  abandonada  na  Torre  durante  essas 
semanas,  e  no  lance  íamoso  do  Capitulo  11  que  o 
tentava  e  que  o  assustava  —  o  encontro  de  Lourenço 
Piam  ires  com  Lopo  de  Bayâo,  o  Bastardo,  no  valle  fatal 
de  Cantapedra.  E  recolhia  aos  Cunhaes  (porque  pro- 
mettera  ao  Barròlo  uma  trotada  a  cavallo,  até  ao  Pinhal 
de  Estevinha,  para  aproveitar  a  doçura  do  domingo 
ennevoado)  quando,  na  rua  das  Vellas,  avistou  o  ta- 
belliâo  Guedes,  que  sabia  da  confeitaria  das  Mathildes 
com  um  grosso  embrulho  de  pasteis.  Ligeiramente,  o 
Fidalgo  atravessou  logo  a  rua  —  emquanto  o  Gue- 
des, da  borda  do  passeio,  pesado  e  barrigudo,  na 
ponta  dos  botins  miudinhos  gaspeados  de  verniz,  des- 
cobria, n'uma  cortezia  immensa,  a  calva,  emplumada 


A   ILLUSTRE   CASA   DE    RAMIRES  155 


ao   meio   pelo    famoso  tufo  de  cabello  grisalho  que 
lhe  valera  a  alcunha  de  «Guedes  Popa»: 

—  Por  quem  é,  meu  caro  Guedes,  ponha  o  cha- 
péu !  Como  está  ?  Sempre  fero  e  moço.  Ainda  bem ! . . . 
Fallou  com  o  meu  Padre  Sueiro?  O  Pereira  da  Riosa, 
por  fim,  só  vem  á  cidade  na  quarta  íeira... 

Sim !  Sim !  O  Snr.  Padre  Sueiro  passara  pelo 
cartório,  para  avisar  —  e  elle  apresentava  os  para- 
béns a  S.  Ex.''  pelo  seu  novo  rendeiro... 

—  Homem  muito  competente,  o  Pereira!  Já  ha 
vinte  annos  que  o  conheço . . .  E  olhe  V.  Ex.'"'  a  pro- 
priedade do  Conde  de  Monte-Agra !  Ainda  me  lem- 
bro d'ella,  um  chavascal;  hoje  que  primor!  Só  a  vi- 
nha que  elle  tem  plantado !  Homem  muito  compe- 
tente ...   E  V.  Ex."  com  demora  ? 

—  Dois  ou  três  dias...  Não  se  atura  este  calor 
de  Oliveira.  Hoje,  felizmente,  refrescou.  E  que  ha  de 
novo?  Como  vae  a  politica?  O  amigo  Guedes  sempre 
bom  Regenerador,  leal  e  ardente,  hein  ? 

Subitamente  o  Tabellião.  com  o  seu  embrulho 
de  doces  conchegado  ao  collete  de  seda  preta,  agi- 
tou o  braço  gordo  e  curto,  n'uma  indignação  que 
lhe  esbraseou  de  sangue  o  pescoço,  as  orelhas  ca- 
belludas,  a  face  rapada,  toda  a  testa  até  ás  abas  do  cha- 
péu branco  orlado  de  íumo  negro : 

—  E  quem  o  não  ha-de  ser,  Snr.  Gonçalo  Men- 
des Ramires?  Quem  o  não  ha-de  ser?...  Pois  este  ul- 
timo escândalo! 


lotí  A  lí-I-LSTRE  CASA  DE  RAMIHKS 


Os  risonhos  olhos  de  Gonçalo  lo,i,'o  se  alargaram, 
sérios : 

—  Uue  escândalo? 

O  Tabelliâo  recuou.  Pois  S.  Eu.."  não  sabia  da 
uitima  prepotência  do  (io\ernador  Civil,  do  Snr.  An- 
dré Cavalleiro  ? 

—  O  quê,  caro  aniiíío?... 

O  Guedes  cresceu  todo  sobre  o  bico  dos  botins 
pequeninos,  e  bojou,  e  inchou,  para  exclamar : 

—  A  transferencia  do  Noronha!...  A  transíeren- 
ciii  do  desgraçado  Noronha! 

Mas  uma  senhora,  também  obesa,  do  buço  car- 
regado, toda  a  estalar  em  ricas  e  rugidoras  sedas 
de  missa,  arrastando  severamente  pela  mão  um 
menino  que  rabujava,  parou,  fitou  o  Guedes — por- 
que o  digno  homem  com  o  seu  ventre,  o  seu  em- 
brulho, a  sua  indignação,  atravancava  a  entrada  das 
Mathildes.  Apressadamente,  o  Fidalgo  levantou,  para 
ella  entrar,  o  fecho  da  porta  envidraçada.  Depois. 
n"um  alvoroço: 

—  Õ  amigo  Gutides  naturalmente  vae  para  casa. 
K  o  meu  caminho.  Andamos  c  conversamos...  Ora 
essa!  Mas  o  Noronha...  Gue  Noronha? 

—  O  liicardo  Noronha...  V.  Fa."  conhece.  O  pa- 
gador das  Obras-Publicus! 

—  Ah!  sim,  sim...  Kntâo  tr.uisffrido?  Transfe- 
rido arbitrariamente  ? 


A  U.U  STHK  CASA   UE  l-.AMIliiCS  l.^r 


Na  rua  das  Brocas  por  oiido  desciam,  no  silencio. 
<■  solidão  das  lojas  cerradas,  a  cólera  do  Guedes 
resoou.  mais  solta  : 

—  Intamemente.  Snr.  Gonçalo  M<ndes  Kamires. 
Infamissimamente!  E  para  Alniodovar,  para  os  con- 
lins  do  Alemtejo!...  Para  uma  terra  scni  recursos, 
sem  distracções,  sem  famílias ! . . . 

Parara,  com  os  doces  contra  (t  coração,  os  olhi- 
nlios  esl)up:alhados  para  o  Fidalgo,  coriscando.  (> 
Noronha!  Um  empretrado  trabalhador,  honradíssimo I 
K  sem  Politica,  absolutamente  sem  Politica.  Nem 
(los  Históricos,  nem  dos  Regeneradores.  Só  da  famí- 
lia, das  três  irmãs  <|ue  sustentava,  três  ílòres...  K 
homem  estimadíssimo  na  cidade,  cheio  de  prendas ! 
Um  talento  immenso  para  a  musica!...  Ah!  o  Snr. 
(ionçalo  Ramires  não  sabia?  Pois  compunha  ao  piano 
cousas  lindas!  Depois  precioso  para  reuniões,  para 
•  muos.  Era  elle  quem  organisa\a  sempre  em  Oliveira 
as  representações  de  curiosos . . . 

— Porque,  como  ensaiador,  crtsia  \'.  Ex,"  que  não 
lia  outro,  mesmo  na  capital...  Não  ha  outro!  E. 
zás,  de  reponte,  para  Almodo\  ar.  para  o  inferno,  com 
as  irmãs,  com  os  tarecos!  Só  o  piano!...  \>ja  V.  K\." 
só  o  transporte  do  piano! 

Gonçalo  resplandecia: 

— É  um  bello  escândalo.  Ora  que  felicidade  esta 
do  o  ter  encontrado,  meu  caro  Guedes!...  E  não  se 
sabe  o  motivo  ? 


lo8  A  ILLUSTRE   CASA  DE  RAMIRES 


De  novo  caminhavam  demoradamente  pelo  pas- 
seio estreito.  E  o  tabelliâo  encolhia  os  hombros,  com 
amargura.  O  motivo!  Publicamente,  como  sempre 
n'estas  prepotências,  o  motivo  era  a  conveniência  do 
Serviço . . . 

—  Mas  todos  os  amigos  do  Noronha,  por  toda  a 
cidade,  conhecem  o  verdadeiro  motivo...  O  intimo, 
o  secreto,  o  medonho  1 

—  Então? 

Guedes  relanceou  a  rua,  com  prudência.  Uma 
velha  atravessava,  coxeando,  segurando  uma  bilha. 
E  o  tabelliâo  segredou  cavamente,  junto  á  face  des- 
lumbrada do  fidalgo.  —  É  que  o  Snr.  André  Caval- 
leiro,  esse  infame,  se  encantara  com  a  mais  velha 
das  irmãs  Noronhas,  a  1).  Adelina,  formosíssima  ra- 
pariga, alta  e  morena,  uma  estatua ! . . .  E  repellido 
(porque  a  menina,  cheia  de  juizo^  uma  pérola,  per- 
cebera a  intenção  villissima)  em  quem  se  vinga,  por 
despeito,  o  Snr.  Governador  Givil?  No  pagador!  Para 
Almodovar  com  as  meninas,  com  os  tarecos!...  Era 
o  pagador  quem  pagava! 

— É  uma  bella  maroteira!  murmurou  Gonçalo,  ba- 
nhado de  gosto  e  riso. 

—  E  note  V.  Ex." !  exclamava  o  Guedes,  com  a  mão 
gorda  a  tremer  por  cima  do  chapéu.  Note  V.  Ex.' 
que  o  pobre  Noronha,  na  sua  innocencia,  tão  bom 
homem,  gostando  sempre  d'agradar  aos  seus  chefes, 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  159 


ainda  ha  semanas  dedicara  ao  Cavalleiro  uma  valsa 
linda!...  A  Mariposa,  uma  valsa  linda! 

Gonçalo  não  se  conteve,  esfregou  as  mãos  n'um 
iriumpho : 

—  Mas  que  preciosa  maroteira ! . . .  E  não  se  tem 
íallado?  Esse  jornal  d'opposiçâo,  o  Clarim  d' Oliveira. 
nem  uma  denuncia,  nem  uma  allusâo?... 

O  Guedes  pendeu  a  cabeça,  descorçoado-  O  Snr. 
Gonçalo  Ramires  conhecia  bem  essa  gente  do  Cla- 
rim... Estylo — e  estylo  brincado,  opulento...  Mas 
para  assoalhar,  assim  n'um  caso  gravíssimo  como  o 
do  Noronha,  a  verdade  bem  nua  —  pouco  nervo,  ne- 
nhuma valentia.  E  depois  o  Biscainho,  o  redactor 
principal,  andava  a  passar  surrateiramente  para  os 
Históricos.  Ah!  O  Snr.  Gonçalo  Mendes  Ramires  não 
■Mt  inteirara?  Pois  esse  torpíssimo  Biscainho  bolinava. 
De  certo  o  Cavalleiro  lhe  acenara  com  posta . . .  Além 
d"isso,  como  provar  a  infâmia?  Cousas  intimas,  cou- 
sas de  família.  j\âo  se  podia  apresentar  a  declaração 
da  D.  Adelina,  menina  virtuosíssima  —  e  com  uns 
olhos!...  Ah!  se  fosse  no  tempo  do  Manoel  Justino 
e  da  Aurora  de  Oliveira!...  Esse  era  homem  para 
estampar  logo  na  primeira  pagina,  em  letra  graúda : 
«Alerta!  que  a  xVuctoridade  superior  do  Districto  ten- 
tou levar  a  deshonra  ao  seio  da  íamilia  Noronha! ...» 

—  Esse  era  um  homem!  Coitado,  lá  está  no  ce- 
mitério de  S.  Miguel...  E  agora,  Snr.  Gonçalo  Ra- 
mires, o  despotismo  campeia,  desenfreado! 


I<>0  A   ll.l.t  srUK  CASA  lii:  HAMIHEí 


Bufava,  arla\a.  esíalíado  d'aqaelle  fogoso  desa- 
bafo. Dobraram  calados  a  esquina  das  Brocas  para 
a  bella  rua,  novamente  calçada,  da  Princeza  D.  Amé- 
lia. E  logo  na  segunda  porta,  parando,  tirando  da  al- 
gibeira o  trinco,  o  Guedes,  que  ainda  resfolgava, 
offereceu  a  S.  Ex."  para  descançar. 

—  Não,  não.  obrigado,  meu  caro  amigo.  Tive 
immenso,  immenso  prazer,  em  o  encontrar...  Essa 
historia  do  Noronha  é  tremenda !..»  Mas  nada  me 
<^spanta  do  Snr.  Governador  Civil.  Só  me  espanta 
([ue  o  não  tenham  corrijdo  d*01iveira,  como  elle  me- 
rece, com  pancada  e  assuada . . .  Emíim,  nem  toda  a 
gente  boa  jaz  no  cemitério  de  S.  ÍMigiiel...  Até  ama- 
nhã, meu  Guedes.  E  obrigado! 

Da  rua  da  Princeza  D.  Amélia  até  o  Largo  de  ¥Á- 
\\pÃ,  Gonçalo  correu  com  o  deslumbramento  de  quem 
descobrisse  um  thesouro  e  o  levasse  debaixo  da 
capa!  E  ahi  le\a\a  com  eífeito  o  «escândalo,  o  rico 
<!Scandalo»,  que  tanto  farojiíra,  por  que  tanto  alme- 
jara, para  desmantelar  o  Snr.  Governador  Civil  na 
sua  fiel  cidade  do  Oliveira  que  lhe  levantava  arcos  de 
buxo!  E,  por  uma  mercê  de  Deus,  o  «rico  escânda- 
lo», demoliria  também  o  homem  no  coração  de  Gra- 
cinha, onde.  apezar  do  antigo  ultraje,  elle  permane- 
cia como  um  bicho  n'um  fructo,  esfuracando  e  estra- 
gando... E  não  duvidava  da  efficacia  do  escândalo! 
Toda   a    cidade   se    revoltaria  contra  a  Authoridadf 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  161 


(emieira,  que  opprime.  desterra  um  íuuccionario 
admirável  —  por  que  a  irmã  do  pobre  senhor  se  re- 
cusou á  baba  dos  seus  beijos.  E  Oracinha?...  Como 
resistiria  Gracinha  áquelle  desengano  —  o  seu  antigo 
André  abrazado  pela  menina  Noronha  e  por  ella  re- 
pollido  com  nojo  e  com  mota?  Oh!  o  escândalo  era 
soberbo !  Só  restava  que  estalasse,  bem  ruidoso,  so- 
bre os  telhados  d'01iveira  e  sobre  o  peito  de  Gracinha 
como  trovão  benéfico  que  limpa  ares  corrompidos. 
K  d'esse  trovão,  rolando  por  todo  o  Norte,  se  encar- 
regava elie  cora  delicia.  Libertav^a  a  cidade  d*um  Go- 
\ernador  detestável,  Gracinha  d'iim  sonho  errado.  E 
assim,  com  uma  certeira  pennada,  trabalhava /;;'oy?r/- 
trifi  et  pro  domo  ! 

Nos  Cunhaes  correu  ao  quarto  do  Barròlo,  que 
se  vestia  trauteando  o  Fado  dos  fíamires,  e  gritou 
atravez  da  porta  com  uma  decisão  ílammejante : 

— Não  te  posso  acompanhar  á  Estevinha.  Tenho 
que  escrever  urgentemente.  E  não  subas,  não  me  per- 
turbes. Necessito  socego! 

Nem  attendeu  aos  protestos  desolados  com  que 
o  Barrôlo  accudira  ao  corredor,  em  ceroulas.  Galgou 
a  escada.  No  seu  quarto,  depois  de  despir  rapidamente 
o  casaco,  de  excitar  a  testa  com  um  borrifo  d'agua 
de  Colónia,  abancou  á  mesa — onde  Gracinha  coUoca- 
va  sempre  entre  flores,  para  elle  trabalhar,  o  monu- 
mental tinteiro  de  prata  que  pertencera  ao  tio  Melchior. 


162  A    ILl.rSTliE    CASA    DE    RAMIRES 


E  sem  emperrar,  sem  rascunhar,  n'um  d'esses  soltos 
fluxos  de  Prosa  que  brotam  da  paixão,  improvisou  uma 
Correspondência  rancorosa  para  a  Gazeta  do  Porto 
contra  o  Snr.  Governador  Civil.  Logo  o  titulo  fulmi- 
*nava  —  Monstruoso  at tentado!  Sem  desvendar  o  no- 
me da  familia  Noronha,  contava  miudamente,  como 
um  acto  certo  e  por  elle  testemunhado.  «  a  tentati^■a 
villòa  e  ])aixa  da  primeira  Auctoridade  do  Districto 
contra  a  pudicicia,  a  paz  de  coração,  a  honra  de  uma 
doce  rapariga  de  dezeseis  primaveras!»  Depois  era 
a  resistência  desdenhosa — t(que  a  nobre  creança  oppu- 
zera  ao  l)on  Juan  administrativo,  cujos  bellos  bigodes 
são  o  espanto  dos  po\'os !»  Por  fim  vinha — «a  desforra 
torpe  e  sem  nome  que  S.  Ex."  tomara  sobre  o  zelo- 
so empregado  (que  é  também  um  talentoso  artista), 
obtendo  d'este  nefasto  Governo  que  íosse  transferi- 
do, ou  antes  arrojado,  cruelmente  exilado,  com  a  la- 
inilia  de  três  delicadas  senhoras,  para  os  confins  do 
íicino,  para  a  mais  árida  e  escassa  das  nossas  Pro- 
víncias, por  o  não  poder  empacotar  para  a  Africa  no 
porão  sórdido  d"uma  fragata!»  Lançava  ainda  alguns 
rugidos  sobre  «a  agonia  politica  de  Portugal».  Com  pa- 
vor triste,  recordava  os  pe4ores  tempos  do  Absolutis- 
mo, a  innocencia  soterrada  nas  masmorras,  o  prazer 
desordenado  do  Príncipe  sendo  a  expressão  única  da 
Lei!  E  terminava  perguntando  ao  Governo  se  co- 
briria   este   seu  agente  —  «este  grotesco  Nero.   quo 


A  ILLLSTRE  CAS\  DK  RAMIRES  IO,"» 


como  oiitr"ora  o  outro,  o  grande,  em  Roma,  tentava 
levar  a  seducçâo  ao  seio  das  íamilias  melhores,  e 
commettia  esses  abusos  de  poder,  motivados  por 
lascívias  de  temperamento,  que  íoram  sempre,  em 
todos  os  séculos  e  todas  as  civilisaçôes.  a  execração 
do  justo!»— E  assignava  Juvenal.  * 

Eram  quasi  seis  horas  quando  desceu  á  sala,  li- 
geiro e  resplandecente.  Gracinha  martellava  o  piano, 
estudando  o  Fado  dos  Ramires.  E  Barrôlo  (que  não  se 
arriscara  a  um  passeio  solitário)  folheava,  estendido 
no  camapé,  uma  famosa  Historia  dos  Crimes  da  In- 
(jitizição  que  começara  ainda  em  solteiro. 

—  Estou  a  trabalhar  desde  as  duas  horas!  ex- 
clamou logo  Gonçalo,  escancarando  a  janella.  Fi- 
quei derreado.  Mas,  louvado  seja  Deus,  fiz  obra  de 
Justiça . . .  D'esta  vez  o  Snr.  André  Cavalleiro  vae 
abaixo  do  seu  cavallo! 

Barrôlo  fechou  immediatamente  o  livro,  com  o 
cotovello  nas  almofadas,  inquieto: 

—  Houve  alguma  coisa? 

E  Gonçalo,  plantado  deante  d'elle,  com  um  ri- 
sinho suave,  um  risinho  feroz,  remexendo  na  algibei- 
ra o  dinheiro  e  as  chaves: 

— Oh!  quasi  nada.  Uma  bagatella.  Apenas  uma 
infâmia...  Mas  para  o  nosso  Governador  Civil  infâ- 
mias são  bagatellas. 

Sob  os  dedos  de  Gracinha  o  Fado  dos  Ramires 
esmoreceu,  apenas  roçado.  n"um  murmúrio  incerto. 


104  A  ILLUSTRE  CASA  BK  RAMIRES 


O  Barrôlo  esperava,  esgaseado : 

—  Desembucha! 

E  Gonçalo  desabafou,  com  estrondo: 

—  Pois  uma  maroteira  immensa,  homem!  O  No- 
ronha, o  pobre  Noronha,  perseguido,  espesinhado, 
■expulso!  Com  a  familia...  Para  o  inferno,  para  o 
Algarve ! 

—  O  Noronha  pagador? 

—  O  Noronha  pagador.  Foi  o  infeliz  pagador 
que  pagou! 

E,  regaladamente,  desenrolou  a  historia  lamen- 
tável. O  Snr.  André  Càvalleiro  namoradissimo,  todo 
em  chammas  pela  irmã  mais  velha  do  Noronha. 
E  atacando  a  rapariga  com  ramos,  cartas,  versos, 
estropidos  cada  manha  por  deante  da  janella,  a  la- 
dear na  pileca!  Até  lhe  soltara,  ao  que  parece,  uma 
velha  marafona,  uma  alcoviteira...  E  a  rapariga, 
um  anjo  cheio  de  dignidade,  impassível.  Nem  se  re- 
voltava, apenas  se  ria.  Era  uma  troça  em  casa  das 
Noronhas,  ao  chá,  com  a  leitura  da  versalhada  ar- 
dente em  que  elle  a  tratava  de  «Nympha,  d'estrella 
da  tarde...»  Emílm  uma  sordidez  funambulesca! 

O  pobre  Fftdo  dos  Ramires  debandou  pelo  te- 
clado, n'um  tumulto  de  gemidos  desconcertados  e ás- 
peros. 

—  E  eu  não  ter  ouvido  nada!  murmurava  o  liar- 
ròlo,  assombrado.  Nem  no  Club,  nem  na  Arcada . . . 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  165 


— Pois,  meu  amiguinho,  quem  ouviu,  e  um  ía- 
moso  estampido,  foi  o  pobre  Noronha.  Arremessado 
para  o  fundo  do  Alemtejo,  para  um  sitio  doentio, 
coalhado  de  pântanos.  É  a  morte...  É  uma  conde- 
mnaçâo  á  morte! 

A  esta  appariçâo  da  Morte,  surdindo  dos  pân- 
tanos, Barrôlo  atirou  uma  palmada  ao  joelho,  des- 
confiado: 

— Mas  quem  diabo  te  contou  tudo  isso? 

O  Fidalgo  da  Torre  encarou  o  cunhado  com  des- 
dém, com  piedade: 

—  Quem  me  contou!?  E  quem  me  contou  que  D. 
Sebastião  morreu  em  Alcacer-Kebir?...  São  os  factos. 
É  a  Historia.  Toda  Oliveira  sabe.  Por  acaso  ainda 
esta  manhã  o  Guedes  e  eu  conversamos  sobre  o 
caso.  Mas  eu  já  sabia!...  E  tenho  tido  pena.  Que  dia- 
bo! Não  ha  crime  em  se  estar  apaixonado  como  o 
pobre  André.  Louco,  perdido!  Até  a  chorar  na  Re- 
partição, deante  do  Secretario  Geral.  E  a  rapari- 
ga ás  gargalhadas!...  Agora  onde  ha  crime,  e  hor- 
rendo, é  na  perseguição  ao  irmão,  ao  pagador,  empre- 
gado excellente,  d'um  talento  raro...  E  o  dever  de 
todo  o  homem  de  bem,  que  prese  a  dignidade  da 
Administração  e  a  dignidade  dos  costumes,  é  de- 
nunciar a  infâmia...  Eu,  pela  minha  parte,  cumpri 
esse  bom  dever.  E  com  certo  brilho,  louvado  Deus! 

—  (jue  fizeste? 


160  A  ILl.rSTRK  CASA  DE  RAMIRES 


— Enterrei  na  ilharga  do  Snr.  Governador  Ci- 
vil a  minha  bòa  penna  de  Toledo,  até  á  rama ! 

O  Barròlo,  impressionado,  beliscava  a  pelle  do 
pescoço.  O  piano  emmudecera:  mas  Gracinha  não  se 
movia  do  mocho,  com  os  dedos  entorpecidos  nas 
teclas,  como  esquecida  deante  da  larga  folha  onde 
se  enfileiravam,  na  lettra  apurada  do  Videirinha,  as 
quadras  triumphaes  dos  Ramires.  E  subitamente  Gon- 
çalo sentiu  n'aquella  immobilidade  sufíocada  o  des- 
peito que  a  trespassava.  Sensibilisado,  para  a  liber- 
tar, lhe  poupar  algum  soluço  escapando  irresistivel- 
mente, correu  ao  piano,  bateu  com  carinho  nos  po- 
bres hombros  vergados  que  estremeceram: 

—  Tu  não  dás  conta  d"esse  lindo  fado,  rapariga  l 
Deixa,  que  eu  te  cantarolo  uma  quadra,  á  bôa  moda 
do  Videirinha...  Mas  primeiramente  sè  um  anjo... 
Grita  ahi  no  corredor  que  me  tragam  um  copo  d'a- 
gua  bem  fresca  do  Poço  Velho. 

Ensaiou  as  teclas,  entoou  versos,  ao  accaso,  n'um 
esforço  esganiçado: 

Ora  na  grande  batalha, 
Quatro  Ramires  valentes  . . . 

Gracinha  desapparecera  por  uma  fenda  do  re-' 
posteiro,  sem  rumor.  Então  o  bom  Barròlo,  que 
deante  da  sua  terrina  da  índia  enrolava  um  cigarro 


A  ILLUSTUE  CASA  1)K  IIAMIUKS  1G7 


com  pensativo  cuidado,  correu,  desafogou,  deJjruçado 
sobre  Gonçalo,  da  certeza  que  lentamente  o  in- 
\  adira : 

—  Pois,  menino,  sempre  te  dis^o...  Essa  irmã  do 
Noronha  é  um  mulherão  soberbo!  Mas  o  que  eu  não 
acredito  é  que  ella  se  fizesse  arisca.  Com  o  Cavallei- 
ro,  bonito  rapaz.  Governador  civil?...  Não  acredito. 
i)  Cavalleiro  saboreou! 

E  com  as  bochechas  Insidias  d"admiração: 
— Aquelle  velhaco !  Para  cavallos  e  para  mulhe- 
res não  ha  outro,  em  01i\  eira ! 


A  Gazeta  do  Porto,  com  a  Correspondência  vin- 
gadora, devia  desabar  sobre  Oliveira  na  quarta- 
feira  de  manhã,  dia  dos  annos  da  prima  Maria  IVIen- 
donça.  Mas  Gonçalo,  ainda  que  não  temesse  (resalva- 
do  pelo  seu  pseudonymo  de  Jurenal)  uma  briga  gros- 
seira com  o  Cavalleiro  nas  ruas  da  Cidade,  nem  mes- 
mo com  algum  dos  seus  partidários  servis  e  íaça- 
nhudos  como  o  Marcolino  do  Independente — re- 
colheu discretamente  a  Santa  Ireneia  na  terça-feira. 
a  cavallo,  acompanhado  pelo  Barrôlo  até  á  Vendinha, 
onde  ambos  provaram  o  vinho  branco  celebrado  pelo 
Tito.  Depois,  para  recordar  os  logares  memoráveis  em 
que  na  sua  Novella  se  encontravam,  com  desastrado 
choque  d'armas,  Lourenço  Ilamires  e  o  Bastardo  de 
Bayâo  —  tomou  o  caminho  que,  atravessando  os  po- 
mares da  espalhada  aldèa  de  Canta-Pedra,  entronca 
na  estrada  dos  Bravaes. 


170  A   ILLU.STUE    CASA   DE  RAMIRES 


N'um  trote  folgado  passara  á  Fabrica  de  Vidros, 
depois  o  Cruzeiro  sempre  coberto  pelas  pombas  que 
esvoaçam  do  pombal  da  Fabrica.  E  entrava  no  logar 
de  Nacejas  —  quando,  á  janella  d'uma  casinha  muito 
limpa,  rodeada  de  parreiras,  appareceu  uma  linda 
rapariga,  morena  e  fina,  com  jaqué  de  panno  azul  e 
lenço  de  cambraieta  bordada  sobre  fartos  bandós  on- 
deados. Gonçalo,  sopeando  a  égua,  saudou,  sorriu 
suavemente : 

— Perdão,  minha  menina...  Vou  bem  por  aqui. 
para  Canta-Pedra? 

—  Vae,  sim  senhor.  Em  baixo,  á  ponte,  mette 
para  a  direita,  para  os  alamos.  E  é  sempre  a  se- 
guir... 

Gonçalo  suspirou,  gracejando: 

— Antes  desejava  ficar! 

A  moça  corou.  E  o  Fidalgo  ainda  se  torceu  no 
selim  para  gosar  a  fina  face  morena,  entre  os  dous 
craveiros  da  janellinha,    na    casa  tão   bem   caiada. 

]N'esse  momento,  ao  lado,  d" uma  quelha  enra- 
mada, desembocava  um  caçador  do  campo,  de  jale- 
ca  e  barrete  vermelho,  com  a  espingarda  atraves- 
sada nas  costas,  seguido  por  dois  perdigueiros.  Era 
um  latagão  airoso,  que  todo  elle,  no  bater  dos  sa- 
patões brancos,  no  menear  da  cinta  enfaixada  em 
seda,  no  levantar  da  face  clara  de  suissas  louras, 
transbordava  de  presumpçâo  e  pimponice.  N"um  re- 


A  ILLISTUE  CASA  I)K  RAMIRES  171 


lance  surprehendeu  o  sorriso,  a  attençâo  galante  do 
Fidalgo.  E  estacou,  pregando  sobre  elle,  com  lenta 
arrogância,  os  bellos  olhos  pestanudos.  Depois  passou 
desdenhosamente,  sem  se  arredar  da  égua  na  la- 
deira estreita,  quasi  raspando  pela  perna  do  Fidalgo 
o  cano  da  caçadeira.  ÍMas  adiante  ainda  atirou  uma 
tossidela  secca  e  de  chasco  —  com  um  bater  mais 
petulante  dos  tacões. 

Gonçalo  picou  a  egoa,  colhido  logo  por  aquelle 
desgraçado  temor,  aquelle  desmaiado  arrepio  da  car- 
ne, que  sempre,  ante  ({ualquer  risco,  qualquer  amea- 
ça, o  forçava  irresistivelmente  a  encolher,  a  recuar, 
a  abalar.  Em  baixo,  na  ponte,  desesperado  contra  a 
sua  timidez,  deteve  o  trote,  espreitou  para  traz, 
para  a  branca  casa  ílorida.  O  mocetão  parara,  en- 
costado á  espingarda,  sob  a  janella  onde  a  rapariga 
morena '  se  debruçava  entre  os  dous  vasos  de  cra- 
vos. E  assim  encostado,  depois  de  rir  para  a  moça. 
acenou  ao  Fidalgo,  n'um  desafio  largo,  com  a  cabeça 
alta,  a  borla  do  barrete  toda  espetada  como  uma  crista 
tlammante. 

Gonçalo  Mendes  Ramires  metteu  a  galope  pelo 
copado  caminho  d'alamos  que  acompanha  o  riacho  das 
Donas.  Em  Canta-Pedra  nem  se  demorou  a  estudar 
{como  tencionava  para  proveito  da  sua  Novella)  o 
valle,  a  ribeira  espraiada,  as  ruinas  do  Mosteiro  de 
Recadâes   sobre   a  collina.   e  no  cabeço  fronteiro  o 


172  A  ILLUSTIIE  CASA  DE  RAMIRES 


moinho  que  assenta  sobre  as  denegridas  pedras  da 
antiga  e  tão  íallada  Honra  d"ÂveIlans.  De  resto  o  ceu. 
cinzento  e  abafado  desde  manhã,  entenebrecia  para 
os  lados  de  Craquede  e  de  Villa-Clara.  Um  baio  morno 
remexeu  a  folhagem  sedenta.  E  já  gotas  pesadas  se  es- 
magavam na  poeira — quando  elle.  sempre  galopando, 
entrou  na  estrada  dos  Bravaes. 

Na  Torre  encontrou  uma  carta  do  Castanheiro. 
O  patriota  anelava  por  saber  « se  essa  Torre  de  D. 
iífíaniires  se  erguia  emfim  para  honra  das  letras,  como 
«a  outra,  a  genuína,  se  erguera  outr'ora,  em  séculos 
«mais  ditosos,  para  orgulho  das  armas...»  E  accres- 
centava  n'um  Post-Scriptum — «Planeio  immensos 
«cartazes,  pregados  a  cada  esquina  de  cada  cidade  de 
«Portugal,  annunciando  em  letras  de  covado  a  appa- 
«riçâo  salvadora  dos  Annaes!  E,  como  tenciono  pro- 
«metter  n'elles  aos  povos  a  sua  preciosa  Novellasinha, 
«desejo  que  o  amigo  Gonçalo  me  informe  se  ella  tem, 
«á  moda  de  1<S:J(),  um  saboroso  sub-titulo,  como  £p^'- 
«sodios  do  século  XII.  ou  ('hro)uca  do  Reinado  de  Af- 
a/onso  II.  ou  Scenafi  da  Me/a -Idade  Portuyueza ... 
«Eu  voto  pelo  sub-titulo.  Como  o  sub-solo  n'um  edi- 
«licio,  o  sub-titulo  n'um  livro  alteia  e  dá  solidez.  A 
«obra,  pois,  meu  Ramires,  cora  essa  sua  imaginação 
«feracissima  ! . . .  » 

Esta  invenção  de  immensos  cartazes,  com  o  seu 
nome  e  o  titulo  da  sua  >sovella  em  letras  de  cores 


A  ILLl  STRE  CASA  DE  RAMIRES  Ivlí 


estridentes,  enchendo  cada  esquina  de  Portugal,  de- 
leitou o  Fidalgo.  K  logo  n'essa  noite,  ao  rumor  da 
rhuva  densa  que  estalava  na  folhagem  dos  limoeiros, 
retomou  o  seu  manuscripto,  parado  nas  primeiras 
linhas,  amplas  e  sonoras,  do  Cap.  II... 

Atravez  d'ellas,  e  na  frescura  da  madrugada, 
Lourenço  Mendes  Ramires,  com  o  troço  de  caval- 
leiros  e  peonagem  da  sua  mercê,  corria  sobre  Monte- 
-Mór  em  soccorro  das  senhoras  Infantas.  Ma^,  ao  pe- 
netrar no  valle  de  Canta-Pedra,  eis  que  o  esforçado 
filho  de  Tructesindo  avista  a  mesnada  do  Bastardo 
de  Bayão,  esperando  desde  alva  (como  annunciái'a 
-Mendo  Paes)  para  tolher  a  passagem.  —  E  então,  n'es- 
ta  sombria  Novella  de  sangue  e  homizios,  brotava 
inesperadamente,  como  uma  rosa  na  fenda  d'um  bas- 
tião, um  lance  de  amor,  que  o  tio  Duarte  cantara  no 
Bardo  com  dolente  elegância. 

Lopo  de  Bayão,  cuja  belleza  loura  de  fidalgo 
godo  era  tão  celebrada  por  toda  a  terra  d"Entre 
-Alinho-e-Douro  que  lhe  chamavam  o  Claro-Sol,  amara 
arrebatadamente  D.  Violante,  a  filha  mais  nova  de 
Tructesindo  Ramires.  Em  dia  de  S.  João,  no  solar  de 
Lanhoso,  onde  se  celebravam  lides  de  toiros  e  jogos 
de  tavolagem,  conhecera  elle  a  donzella  explendida, 
que  o  tio  Duarte  no  seu  Poemeto  louvava  com  des- 
lumbrado encanto : 

Que  liquido  fulgor  dos  negros  olhos! 
Que  fartas  tranças  de  lustroso  ébano  1 


A   ILLUSTRE    CASA    1)K   HAMIRES 


E  ella,  certamente,  rcndcrii  tambein  o  coração 
áquelle  moço  resplandecente  o  còr  d'ouro,  que,  n'essa 
tarde  de  festa,  arremessando  o  rojão  contra  os  toiros, 
ganhara  duas  tachas  bordadas  [)ela  nobre  Dona  de  La- 
nhoso— e  á  noite,  no  sarau,  se  requebrara  com  tão  re- 
picado garbo  na  dança  dos  .A[archatins...  Mas  Lopo 
era  bastardo,  d' essa  raça  de  Bayão,  inimiga  dos  Ra- 
mires por  velhissimas  brigas  de  terras  e  precedên- 
cias desde  o  conde  D.  Henrique  —  ainda  assanhadas 
depois,  durante  as  contendas  de  1).  Tareja  e  de  Aífon- 
so  Henriques,  quando  na  cúria  dos  Barões,  em  Gui- 
marães, Mendo  de  Bayão,  bandeado  com  o  (Jonde  do 
Trava,  e  Ramires  o  Corlador,  collaço  do  moçct  Infan- 
te, se  arrojaram  ás  íaces  os  guantes  ferrados.  E,  fiel 
ao  ódio  secular,  Tructesindo  liamires  recusara  com 
áspera  arrogância  a  mão  do  Niolante  ao  mais  velho 
dos  de  Bayão,  um  dos  valentes  de  Silves,  que  pelo 
Natal,  na  Alcáçova  de  S.ia  Ireneia,  lh'a  pedira  para 
Lopo,  seu  sobrinho,  o  Claro-Sol,  offerecendo  aven- 
ças quasi  submissas  d'alliança  e  doce  paz.  Este  ul- 
traje revoltara  o  solar  de  Bayão  —  que  se  honrava  cm 
Lopo,  apezar  de  bastardo,  pelo  lus,tre  da  sua  bravu- 
ra e  graça  galante.  E  então  Lopo  terido  dorida- 
mente no  seu  coração,  mais  luriosamente  no  seu 
orgulho,  para  fartar  o  esfaimado  desejo,  para  infa- 
mar o  claro  nome  dos  Ramires  —  tentou  raptar  D. 
Violante.   Era  na  primavera,  con\  todas  as  veigas  do 


A  ILI.ISTUE  (.ASA  Dlí  UA.MIKES  Í7.> 


Mondego  já  verdes.  A  donosa  senhora,  entre  alguns 
escudeiros  da  Honra  e  parentes,  jornadeava  de  Trei- 
xedo  ao  mosteiro  de  Lorvão,  onde  sua  tia  D.  Branca 
era  abbadeça...  Languidamente,  no  Bardo,  descan- 
tara o  tio  Duarte  o  romântico  lance: 

Junto  d  fonte  mourisca,  entre  os  ulmeiros, 
A  cavalgadura  pára... 

E  junto  aos  ulmeiros  da  íonto  surgira  o  Claro- 
Sol — que,  com  os  seus,  espreitava  d'um  cabeço !  Mas, 
logo  no  começo  da  curta  briga,  um  primo  de  D.  Vio- 
lante, o  agigantado  Senhor  dos  Paços  d'Avenim,  o 
desarmou,  o  manteve  um  momento  ajoelhado  sob  o 
lampejo  e  gume  da  sua  adaga.  E  com  vida  perdoada, 
rugindo  de  surda  raiva,  o  Bastardo  abalou  entre  os  pou- 
cos solarengos  que  o  acompanhavam  n'esta  affouta  ar- 
remettida.  Desde  então  mais  fero  ardera  o  rancor  en- 
tre os  de  Bayâo  e  os  Ramires.  E  eis  agora,  n'esse  co- 
meço da  Guerra  das  Infantas,  os  dois  inimigos  rosto 
a  rosto  no  valle  estreito  de  Canta-Pedra!  Lopo  com 
um  bando  de  trinta  lanças  e  mais  de  cem  besteiros  da 
Hoste  Real.  Lourenço  Mendes  Ramires  com  quinze 
cavalleiros  e  noventa  homens  de  pé  do  seu  pendão. 

Agosto  findava:  e  o  demorado  estio  amarellecera 
toda  a  relva,  as  pastagens  íamosas  do  valle,  até  a 
loíhagem  de  amieiros  e  freixos  pela  beira  do  ria- 


176  A  ii.Li  STRb:  i:.vsA  de  ramikes 


cho  das  Donas  que  s'arrastava  entre  as  pedras 
lustrosas,  em  fios  escassos,  com  dormido  murmú- 
rio. Sobre  um  outeiro,  dos  lados  de  Pxamilde,  avul- 
tava, entre  possantes  ruinas  erriçadas  de  sarças,  a 
denegrida  Torre  Redonda,  resto  da  velha  Honra  de 
Avellans,  incendiada  durante  as  cruas  rixas  dos  de 
Salzedas  e  dos  de  Landim,  e  agora  haijitada  pela  alma 
gemente  de  Guiomar  de  Landim,  a  Mal-casada.  No 
cabeço  fronteiro  e  mais  alto,  dominando  o  valle,  o 
mosteiro  de  Piecadâes  estendia  as  suas  cantarias  no- 
vas, com  o  forte  torreão,  asseteado  como  o  d'uma  for- 
taleza—  d'onde  os  monges  se  debruçavam,  esprei- 
tando, inquietos  com  aquelle  coriscar  d'armas  que 
desde  alva  enchia  o  valle.  E  o  mesmo  temor  acos- 
sara as  aldeias  chegadas  —  porque,  sobre  a  crista  das 
coUinas,  se  apressavam  para  o  santo  e  murado  refugio 
do  convento  gentes  com  trouxas,  carros  toldados, 
magras  filas  de  gados. 

Ao  avistar  tão  rijo  troço  de  cavalleiros  e  peões, 
espalhado  até  á  beira  do  riacho  por  entre  a  sombra 
dos  freixos,  Lourenço  Ramires  soíTreou,  susteve  a  leva, 
junto  d'um  montão  de  pedras  onde  apodrecia,  en- 
cravada, uma  tosca  cruz  de  pau.  E  o  seu  esculca 
que  largara  rédeas  soltas,  estirado  sob  o  escudo  de 
couro,  para  reconhecer  a  mesnada  —  logo  voltou,  sem 
que  Irccha  ou  pedra  de  íundu  o  colhessem,  gritando: 

—  São  homens  de  Bavão  e  da  Hoste  Real! 


A    ILLUSTRE   CAS.V   DE   RAMIRES  177 


Tolhida  pois  a  passagem!  E  em  ffiie  clesigiialado 
recontro !  IMas  o  denodado  Ramires  não  duvidou 
avançar,  travar  peleja.  Sósinho  que  assomasse  ao 
valle,  com  uma  quebradiça  lança  de  monte,  arremet- 
teria  contra  todo  o  arraial  do  Bastardo  ...  —  No 
emtanto  já  o  adail  de  Bayâo  se  adeantára,  curveteando 
no  rosilho  magro,  com  a  espada  atravessada  por  cima 
do  morrião  que  pennas  de  garça  emplumavam.  E 
pregoava,  atroava  o  valle  com  o  rouco  pregão : 

—  Deter,  deter!  que  não  ha  passagem!  E  o  no- 
bre senhor  de  Bayâo,  em  recado  d'El-Bey  e  por 
mercê  de  Sua  Senhoria,  vos  guarda  vidas  salvas  se 
volverdes  costas  sem  rumor  e  tardança! 

Lourenço  Ramires  gritou : 

—  A  elle,  besteiros! 

Os  virotes  assobiaram.  Toda  a  curta  ala  dos  ca- 
valleiros  de  Santa-íreneia  tropeou  para  dentro  do 
valle,  de  lanças  ristadas.  E  o  fdho  de  Tructosindo, 
erguido  nos  cstribões  de  ferro,  debaixo  do  panno 
solto  do  seu  pendão  que  apressadamente  o  alferes 
saccára  da  funda,  descerrou  a  vizeira  do  casco  para 
que  lhe  mirassem  bem  a  face  destemida,  e  lançou 
ao  Bastardo  injurias  de  furioso  orgulho: 

—  Chama  outros  tantos  dos  villões  que  te  seguem 
que,  por  sobre  elles  e  por  sobre  ti,  chegarei  esta 
noite  a  IMonte-Mór ! 

E  o  Bastardo,  no  seu  fouveiro,  que  uma  rede  de 


178  A  iLLrsTiiE  i;asa  de  ramiues 


malha  cobria,  toda  acairelada  d"ouru,  atirava  a  mão 
calçada  de  ferro,  clamava: 

—  Para  traz,  (Toade  vieste,  voltarás,  itulrâo  trai- 
dor, se  eu  por  mercê  mandar  a  teu  pae  o  teu  corpo 
n'umas  andas! 

Estes  teros  desafios  rolavam  em  versos  serena- 
mente compassados  no  Poemeto  do  Tio  Duarte.  E 
depois  de  os  reforçar,  Gonçalo  Mendes  Ramires,  (sen- 
tindo a  alma  enfunada  pelo  heroísmo  da  sua  raça 
como  por  um  ^■ento  que  sopra  de  funda  com  pina)  ar- 
rojou um  contra  o  outro  os  dous  bandos  valorosos. 
Grande  briga,  grande  grita... 

—  Ala!  Ala! 

—  Rompe!  Rompe! 

—  Cerra  por  Bayâo! 

—  Casca  pelos  Ramires! 

Através  da  gi^ssa  poeirada  e  do  alovanto  zunem 
os  garruchões,  as  rudes  balas  de  barro  despedidas  das 
íuudas.  Almogavres  de  Santa-íreneia,  almogavres  da 
Hoste  Real,  em  turmas  ligeiras,  carregam,  topam,  com 
baralhado  arremesso  d'ascumas  que  se  partem,  do 
dardos  que  se  cravam:  e  ambas  logo  refogem, 
refluem— em  quanto,  no  chão  revolto,  algum  mal- 
ferido estrebucha  aos  urros,  e  os  atordoados  cam- 
baleando buscam,  sob  o  abrigo  do  arvoredo,  a  fres- 
quidâo  do  riacho.  Ao  meio,  no  embate  mais  nobre 
da  peleja,  por  cima  dos  corcéis  que  se  empinam,  ar- 


A  ILLUSTHE  CASA  DK  HAMIRES  179 


fando  ao  peso  das  coberturas  de  malha,  as  lisas  pran- 
chas dos  montantes  lampejam,  retinem,  embebidas  nas 
chapas  dos  broqueis:  —  e  já,  dos  altos  arções  de  cou- 
ro vermelho,  desaba  algum  hirto  e  chapeado  senhor, 
com  um  baque  de  ferragens  sobre  a  terra  molle.  Ca- 
valleiros  e  iníançôes,  porém,  como  n'um  torneio,  ape- 
nas terçam  lanças  para  se  derribarem,  abolados  os 
arnezes,  com  clamores  de  excitada  ufania:  e  sobre  a 
villanagem  contraria,  em  quem  cevam  o  furor  da  ma- 
tança, se  abatem  os  seus  espadões,  se  despenham  as 
suas  achas,  esmigalhando  os  cascos  de  íerro  como 
bilhas  de  greda. 

Por  entre  a  pionagem  de  Bayâo  e  da  Hoste  Real 
Lourenço  Ramires  avança  mais  levemente  que  cei- 
feiro apressado  entre  herva  tenra.  A  cada  arranque 
do  seu  rijo  murzello,  alagado  d'espuma,  que  sacode 
furiosamente  a  testeira  rostrada-— sempre,  entre  pra- 
gas ou  gritos  por  Jesus!  um  peito  verga  trespassado, 
braços  se  retorcem  em  agonia.  Todo  o  seu  afan  era 
chocar  armas  com  Lopo.  Mas  o  Bastardo,  tão  ar- 
remessado e  afírontador  em  combate,  não  se  arredara 
n'essa  manhã  da  lomba  do  outeiro  onde  uma  fda  de 
lanças  o  guardava,  como  uma  estacada:  e  com  bra- 
dos, não  com  golpes,  aquentava  a  lide!  No  ardor  de- 
*^  sesperado  de  romper  a  viva  cerca  Lourenço  gastava 
as  forças,  berrando  roucamente  pelo  Bastardo  com 
os  duros  ultrajes  de  churdo !  e  marrano !  Já  d'entre 


180  A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMíRES 


a  trama  íalseada  do  camalho  lhe  borbulhavam  do 
hombro,  pela  loriga,  fios  lentos  de  sangue.  Um  lan- 
ço de  virotâo,  que  lhe  partira  as  charneiras  da 
greva  esquerda,  íendera  a  perna  d'onde  mais  sangue 
brotava,  ensopando  o  forro  d'estopa.  Depois,  varado 
por  uma  frecha  na  anca,  o  seu  grande  ginete  aba- 
teu, rolou,  estalando  no  escoucear  as  cilhas  preguea- 
das. E,  desembrulhado  dos  loros  com  um  salto,  Lou- 
renço Ramires  encontrou  em  roda  uma  sebe  erriçada 
de  espadas  e  chuços,  que  o  cerraram  —  em  quanto 
do  outeiro,  debruçado  na  sella,  o  Bastardo  bra- 
mava : 

— ^ Tendei  tende!  para  que  o  colhaes  ás  mãos! 

Trepando  por  cima  de  corpos,  que  se  estorcem 
sob  os  seus  sapatos  de  íerro,  o  valente  moço  arre- 
mette,  a  golpes  arquejados,  contra  as  pontas  luzentes 
que  recuam,  se  furtam...  E,  triumphantes,  redobram 
os  gritos  de  Lopo  de  Bayâo : 

—  Vivo,  vivo!  tomadel-o  vivo! 

—  Não,  se  me  restar  alma,  villâo!  rugia  Lou- 
renço. 

E  mais  raivosamente  investia,  quando  um  calhau 
agudo  lhe  acertou  no  braço  r—  que  logo  amorteceu, 
pendeu,  com  a  espada  arrastando,  presa  ainda  ao 
l)unho  peio  grilhão,  mas  sem  mais  servir  que  uma 
roca.  ?s'um  relance  ficou  agarrado  por  peões  que 
lho  fiiav.im  fi  gorja,  emquanto  outros  com  varadas 


A  ILIASTUE  CASA  DE  RAMIRES  181 


de  asciima  lhe  vergavam  as  pernas  retesadas.  Tom- 
bou por  fim  direito  como  um  madeiro;  —  o  nas  cordas 
com  que  logo  o  amarraram,  jazeu  hirto,  sem  elmo, 
sem  cervilheira,  os  olhos  duramente  cerrados,  os 
cabellos  presos  n'uma  pasta  de  poeira  e  de  sangue. 

Eis  pois  captivo  Lourenço  Ramires!  E,  deante 
das  andas  íeitas  de  ramos  e  franças  de  faias  em  que 
o  estenderam,  depois  do  o  borrifarem  á  pressa  com 
a  agua  fresca  do  riacho,  —  o  Bastardo,  limpando  ás 
costas  da  mão  o  suor  que  lhe  escorria  pela  face  íor- 
mosa,  pelas  barbas  douradas,  murmurava,  com- 
movido : 

—  Ah!  Lourenço,  Lourenço,  grande  dor.  que  bem 
poderamos  ser  irmãos  e  amigos! 

Assim,  ajudado  pelo  tio  Duarte,  por  Walter  Scott, 
por  noticias  do  Panara nut,  compozera  Gonçalo  a  mal- 
venturada  lide  de  Canta-Pedra.  E  com  este  desabafo 
de  Lopo,  onde  perpassava  a  magua  do  amor  vedado, 
fechou  o  Cap.  íí,  sobre  que  labutara  três  dias—  tão 
embrenhadamente  que  em  torno  o  Mundo  como  que 
se  calara  e  se  fundira  em  penumbra. 


Uma  girandola  de  foguetes  estoirou  ao  longe,  para 
o  lado  dos  Bravaes,  onde  no  Domingo  se  fazia  a  ro- 
maria  celebrada  da  Senhora   das  Candeias.  Depois 


182  A   ILLISTRE   C-\S\   DE    RAMIRES 


da  chuva  rVaquelles  três  dias,  uma  frescura  descia 
do  ceu  amaciado  e  lavado  sobre  os  canlpos  mais 
verdes.  E  como  ainda  restava  meia  hora  farta  antes 
de  jantar,  o  Fidalgo  agarrou  o  chapéu,  e  mesmo  na 
sua  velha  quinzena  de  trabalho,  oorn  uma  bengalinha 
de  canna,  desceu  á  estrada,  tomou  pelo  caminho 
que  s*estreita  entre  o  muro  da  Torre  e  as  terras  de 
centeio  onde  assentavam  no  século  xii  as  barbacans 
da  Honra  de  Santa  Ireneia. 

Pela  silenciosa  vereda,  ainda  húmida,  Gonçalo 
pensava  nos  seus  avós  formidáveis.  Como  elles  re- 
surgiam,  na  sua  Novella,  sólidos  e  resoantes!  E 
realmente  uma  comprehensâo  tão  segura  d'aquel- 
las  almas  AfTonsinas  mostrava  que  a  sua  alma 
conservava  o  mesmo  quilate  e  sahira  do  mesmo  rico 
bloco  d'ouro.  Porque  um  coração  molle.  ou  degene- 
rado, não  saberia  narrar  corações  tão  fortes,  d*eras 
tão  íortes:  —  e  nunca  o  bom  Manoel  Duarte  ou  o 
Barrôlo  excellente  entenderiam,  bastante  para  lhes 
reconstruir  os  altos  espíritos,  ^lariim  áe  Freitas  ou 
Affonso  do  Albuquerque...  ]N'esta  fina  verdade  de- 
sejaria elie  que  os  Criticos  insistissem  ao  estudar 
depois  a  Torre  de  D.  fíamires  —  pois  ([ue  o  Cas- 
tanheiro lhe  assegurara  artigos  consideráveis  nas 
Novidades  c  na  Manhã.  Sim !  eis  o  que  convinha 
marcar  com  relevo  (e  elle  o  lembraria  ao  Castanhei- 
ro!)—  que  os   liicos  Homens  de  Santa-lrcneia  revi- 


A   ILÍASTIUí;    casa   DH   RAMIRES  '  183 


viam  no  seu  neto,  senão  pela  continuação  heróica 
das  mesmas  façanhas,  pela  mesma  alevantada  com- 
prehensão  do  heroísmo...  Que  diabo!  sob  o  reinado 
do  horr-endo  S.  Fulgencio  elle  não  podia  desman- 
telar o  solar  de  Bayâo,  desmantelado  ha  seiscentos 
annos  por  seu  avô  Lionel  Ramires  —  nem  retomar 
aos  Mouros  (^ssa  torreada  Monforte  onde  o  Anto- 
ninho  Moreno  era  o  languido  Governador  Civil !  Mas 
sentia  a  grandeza  e  o  préstimo  histórico  d'esse  ar-  9 
rojo  que  outr'ora  impollia  os  seus  a  arrasar  Solares 
rivaes,  a  escalar  Villas  mouriscas:  resuscitava  pelo 
Saber  e  pela  Arte,  arrojava. para  â  vida  ambiente, 
esses  varões  temerosos,  com  os  seus  corações,  os  seus 
trajes,  as  suas  immensas  cutiladas,  as  suas  bravatas 
sublimes:  dentro  do  espirito  e  das  expressões  do 
seu  Século  era  pois  um  bom  Ramires  — um  Ra- 
mires de  nobres  energias,  não  façanhudas,  mas  in- 
tellectuaes,  como  competia  n'umaEdade  d"intellectual 
descanço.  E  os  jornaes,  que  tanto  motejam  a  deca- 
dência dos  Fidalgos  de  Portugal,  deveriam  em  jus-  i 
liça  aífirmar  (e  elle  o  lembraria  ao  Castanheiro!): 
—  «Eis  ahi  um,  e  o  maior,  que,  com  as  formas  e 
os  modos  do  seu  tempo,  continua  e  honra  a  sua 
raça ! » 

Através  d'estes  pensamentos,  que  mais  lhe  enri- 
javam as  passadas  sobre  chão  tão  calcado  pelos 
seus — o  Fidalgo  da  Torre  chegara  á  esquina  do  muro 


184  A    ILUSTRE    CASA   DE  RAMIRES 


da  quinta,  ondo  uma  ladeirenta  e  apertada  azinhaga  a 
divide  do  pinheiral  e  da  matta.  Do  portão  nobre,  que 
outr'ora  se  erguera  n"esse  recanto  com  hnores  e  bra- 
zão  d"armas,  restam  apenas  os  dois  humbraes  de  gra- 
nito, amareliados  de  musgo,  cerrados  contra  o  gado 
por  uma  cancella  de  taboas  mal  pregadas,  carcomi- 
das da  chuva  e  dos  annos.  E  n'esse  momento,  da 
azinhaga  funda,  apagada  em  sombra,  subia  chiando, 
carregado  de  matto,  um  carro  de  bois,  que  uma  lin- 
da boeirinha  guiava. 

—  Nosso  Senhor  lhe  dè  muito  boas  tardes! 

—  Boas  tardes,  florzinha! 

O  carro  lento  passou.  E  logo  atraz  surdio  um 
homem,  esgrouviado  e  escuro,  trazendo  ao  hom- 
bro  o  cajado,  d'onde  pendia  um  molho  de  cordas. 

O  Fidalgo  da  Torre  reconheceu  o  José  Casco 
dos  Bravaes.  E  seguia,  como  dcsattento,  pela  orlado 
pinheiral,  assobiando,  raspando  com  a  bengalinha  as 
silvas 'floridas  do  vallado.  O  outro  porém  estugou  o 
passo  esgalgado,  lançou  duramente,  no  silencio  do  ar- 
voredo e  da  tarde,  o  nome  do  Fidalgo.  Então,  com 
um  pulo  do  coração,  Gonçalo  Mendes  Ramires  parou, 
forçando  um  sorriso  affavel: 

—  Olá!  E  \oss(\  José!  Então  que  temos? 

O  Casco  engavSgára,  com  as  costellas  a  ar- 
far sob  a   encardida   camisa  de  trabalho.    Por   !im. 


I 


A  ILLLSTP.E  CASA  DE  BAMIliES  .185 


(leseníiando  das  cordas  o  marmelleiro  que  cravou  no 
chão  pela  choupa: 

—  Temos  que  eu  íallei  sempre  claro  com  o  Fidal- 
go, e  não  era  para  que  depois  me  faltasse  á  palavra! 

Gonçalo  Ramires  levantou  a  caheça  com  uma 
dignidade  lenta  e  custosa  —  como  se  levantasse  uma 
massa  de  ferro: 

—  Que  está  vossè  a  dizer,  Casco?  Faltar  d  pala- 
vra! em  que  lhe  faltei  eu  á  palavra?...  Por  causa 
do  arrendamento  da  Torre?  Essa  é  nova!  Então  hou- 
ve por  acaso  escriptura  assignada  entre  nós?  Você 
não  voltou,  não  appareceu... 

O  Casco  emmudecera.  assombrado.  Depois,  com 
uma  cólera  em  que  lho  tremiam  os  beiços  brancos, 
lhe  tremiam  as  seccas  mãos  cabelludas,  fincadas  ao 
cabo  do  varapau  : 

—  Se  houvesse  papel  assignado  o  Fidalgo  não 
podia  recuar!...  Mas  era  como  se  houvesse,  para 
gente  de  bem!...  Até  V.  S."  disse,  quando  eu  ac- 
ceitei:  «viva!  está  tratado!...»  O  fidalgo  deu  a  sua 
palavra ! 

Gonçalo,  enfiado,  apparentou  a  paciência  d'um 
senhor  benev"olo : 

— Escute,  José  Casco.  Aqui  não  é  logar.  na  estra- 
da. Se  quer  conversar  commigo  appareça  na  Torre. 
Eu  lá  estou  sempre,  como  vossè  sabe,  de  manhã... 
Vá  amanhã,  não  me  encommóda. 


180  A  ILUSTRE  CASA  DE  RA.MIlíES 


E  endireitava  para  o  pinhal,  com  as  pernas  mol- 
les,  um  suor  arripiado  na  espinha  —  quando  o  Casco, 
n'um  rodeio,  n'um  salto  leve,  atrevidamente  se  lhe 
plantou  diantt>,  atravessando  o  cajado: 

—  O  Fidalgo  ha-de  dizer  aqui  mesmo!  O  Fidalgo 
deu  a  sua  palavra!...  A  mim  não  se  me  fazem  d'es- 
sas  desfeitas...  O  Fidalgo  deu  a  sua  palavra! 

Gonçalo  relanceou  esgaseadamente  em  redor,  na 
anciã  d'um  soccorro.  Só  o  cercava  solidão,  arvoredo 
cerrado.  Na  estrada,  apenas  clara  sob  ura  resto  de  tar- 
de, o  carro  de  lenha,  ao  longe.,  chiava,  mais  vago. 
As  ramas  altas  dos  pinheiros  gemiam  com  um 
gemer  dormente  e  remoto.  Entre  os  troncos  já  se 
adensava  sombra  e  névoa.  Então,  estarrecido,  Gon- 
çalo tentou  um  refugio  na  ideia  de  .Justiça  e  de  Lei. 
que  aterra  os  homens  do  campo.  E  como  amigo 
que  aconselha  um  amigo,  com  l)randura.  os  beiços 
resequidos  e  trémulos: 

—  Escute,  Casco,  escute,  homem!  As  coisas  não 
se  arranjam  assim,  a  gritar.  Pôde  ha\'er  desgosto, 
apparecer  o  regedor.  Depois  é  o  tribunal,  é  a  ca- 
deia. E  vocr  tem  mulher,  tem  filhos  pequenos...  Es- 
cute! Se  descobriu  motivo  para  se  queixar,  vá  á 
Torre,  conversamos.  Pacatamente  tudo  se  esclarece, 
homem...  Com  berros,  não!  Vem  o  cabo.  vem  a  en- 
xovia . . . 

Então  de  repente  o  Casco  cresceu  todo,  no  soli- 


A   ILLLSTRK  CASA  DE  RAMIUES  187 


tario  caminho,  negro  e  alto  como  um  pinheiro,  n'um 
furor  (jue  lhe  esbugalhava  os  olhos  esbraseados,  quasi 
sangrentos : 

—  Pois  o  Fidalgo  ainda  me  ameaça  com  a  justi- 
ça!... Pois  ainda  por  cima  de  me  fazer  a  maroteira 
me  ameaça  com  a  cadeia!...  Então,  com  os  diabos! 
primeiro  que  entre  na  cadeia  lhe  hei-de  eu  esmiga- 
lhar esses  ossos!... 

Erguera  o  cajado... —  Mas,  n"um  lampejo  de  ra- 
zão e  respeito,  ainda  gritou,  com  a  cabeça  a  tremer 
para  traz,  atravez  dos  dentes  cerrados: 

—  Fuja,  fidalgo,  que  me  perco!...  Fuja  que  o 
mato  e  me  perco! 

Gonçalo  Mendes  Ramires  correu  á  cancolla  enta- 
lada nos  velhos  humbraes  de  granito,  pulou  por  sobre 
as  taboas  mal  pregadas,  enfiou  pela  latada  que  orla. 
o  muro,  n'uma  carreira  furiosa  de  lebre  acossa- 
da! Ao  fim  da  vinha,  junto  aos  milheiraes,  uma  fi- 
gueira brava,  densa  em  folha,  alastrara  dentro  d'um 
espigueiro  de  granito  destelhado  e  desusado.  N'esse 
esconderijo  de  rama  e  pedra  se  alapou  o  Fidal-  | 
go  da  Torre,  arquejando.  O  crepúsculo  descera  so- 
bre os  campos  — e  com  elle  uma  serenidade  em  que 
adormeciam  frondes  e  relvas.  Aííoutado  pelo  si- 
lencio, pelo  socego,  Gonçalo  abandonou  o  cerrado 
abrigo,  recomeçou  a  correr,  n'um  correr  manso,  na 
ponta   das  botas  brancas,   sobre   o   chão  molle  das 


188  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


chuvadas,  até  ao  muro  da  -Mãe  d" Agua.  De  novo  esta- 
cou, esfalfado.  E  julgando  entrever,  longe,  á  orla  do 
arvoredo,  uma  mancha  clara,  algum  jornaleiro  em 
mangas  de  camisa,  atirou  um  berro  ancioso: — «Oh! 
Ricardo !  Oh !  Alanoel.!  Eh  lá !  alguém !  Vai  ahi  al- 
guém?...»  -A  mancha  indecisa  fundira  na  indecisa  io- 
Ihagem.  Uma  rã  pinchou  n'um  regueiro.  Estremecen- 
do, Gonçalo  retomou  a  carreira  até  ao  canto  do  po- 
mar—  onde  encontrou  fechada  uma  porta,  velha  porta 
mal  segura,  que  abanava  nos  gonzos  ferrugentos.  Fu- 
rioso, atirou  contra  ella  os  hombros  que  o  terror  enri- 
jara como  trancas.  Duas  taboas  cederam,  elle  íurou 
atravez,  esgaçando  a  quinzena  n'um  prego.  —  E  res- 
pirou emfnn  no  agazalho  do  pomar  murado,  deante 
das  varandas  da  casa  abertas  á  írescura  da  tarde, 
junto  da  Torre,  da  sua  Torre,  negra  e  de  mil  annos, 
mais  negra  e  como  mais  carregada  d'annos  contra  a 
macia  claridade  da  lua-nova  que  subia. 

Com  o  chapéu  na  mão,  enxugando  o  suor,  en- 
trou na  horta,  costeou  o  feijoal.  E  agora  subitamente 
sentia  uma  cólera  amarga  pelo  desamparo  em  que 
se  encontr;íra,  n"uma  quinta  tão  povoada,  exameando 
de  gentes  e  dependentes!  Nem  um  caseiro,  nem  um 
jornaleiro,  quando  elle  gritara,  tão  aíílicto,  da  borda 
da  Mãe  d"Agua!  De  cinco  creados  nenhum  acudira, 
—  e  elle  perdido,  alli,  a  uma  pedrada  da  eira  e  da  abe- 
goaria!  Pois  que  dois  homens  corressem  com  paus 


A  ILLUSTUE  CASA  DE  RAMIRES  180 


OU  enxadas  —  e  ainda  colhiam  o  Casco  na  estrada,  o 
malhavam  como  uma  espiga. 

Ao  pé  do  gallinheiro,  sentindo  uma  risada  fina  do 
rapariga,  atravessou  o  pateo  para  a  porta  alumiada  da 
cosinha.  Dois  moços  da  horta,  a  filha  da  Crispola,  a  Rosa, 
tagarellavam,  regaladamente  sentados  n'um  banco  de 
pedra,  sob  a  fresca  escuridão  da  latada.  Dentro  o  lu- 
me estrallejava— e  a  panella  do  caldo,  fervendo,  res- 
cendia.  Toda  a  cólera  do  Fidalgo  rompeu : 

—  Então,  que  sarau  ó  este?  Vocês  não  me  ou- 
viram chamar?...  Pois  encontrei  lá  em  baixo,  ao  pé 
do  pinheiral,  um  bêbedo,  que  me  não  conheceu,  veiu 
para  mim  com  uma  foice.!...  Felizmente  levava  a 
bengala.  E  chamo,  grito...  Qual!  Tudo  aqui  de  pa- 
lestra, e  a  ceia  a  cozer!  (Jue  desaforo!  Outra  vez 
que  succeda,  todos  para  a  rua...  E  quem  resmun- 
gar, a  cacete! 

A  sua  face  chammejava,  alta  e  valente.  A  pe- 
quena da  Crispola  logo  se  escapulira,  encolhida,  para 
o  recanto  da  cosinha,  para  traz  da  maceira.  Os  dois  mo- 
ços, erguidos,  vergavam  como  duas  espigas  sob  um 
grande  vento.  E  emquanto  a  Rosa,  aterrada,  se  benzia, 
se  derretia  em  lamentações  sobre  «desgraças  que 
assim  s'armam!»  —  Gonçalo,  deleitado  pela  submis- 
são dos  dois  homens,  ambos  tão  rijos,  com  tão  gros- 
sos varapaus  encostados  á  parede,  amansava: 

— Realmente!  sois  todos  surdos,  n'esta  pobre  casa!... 


190  A  ILUSTRE  CASA  UK  UA.VIIRES 


Além  (l'isso  a  porta  do  pomar  fechada  !  Tive  de  lhe 
aUrar  um  empurrão.  Ficou  em  pedaços. 

Então  um  dos  moços,  o  mais  alentado,  ruivo., 
com  um  queixo  de  cavallo,  pensando  que  o  Fidalgo 
censurava  a  frouxidão  da  porta  pouco  cuidada,  co- 
çou a  cabeça,  n'uma  desculpa: 

—  Pois,  com  perdão  do  fidalgo!. ..  ^las  já  depois 
da  saida  do  Pielho  se  lhe  pòz  uma  travessa  e  fecha- 
dura nova...  E  valente! 

—  Qual  fechadura!  gritou  o  Fidalgo  soberba- 
mente. Despedacei  a  fechadura,  despedacei  a  traves- 
sa... Tudo  em  estilhas! 

O  outro  moço,  mais  desembaraçado  e  esperto, 
riu,  para  agradar: 

—  Santo  nome  de  Deus!...  Então,  c  que  o  li- 
dalgo  lhe  atirou  com  força! 

E  o  companheiro,  convencido,  espetando  o  queixo 
enorme : 

—  Mas  que  íorça!  a  matar!  Oue  a  porta  era 
rija...  E  fechadura  nova,  já  depois  do  llelho! 

A  certeza  da  sua  força,  louvada  por  aquelles 
fortes,  reconfortou  inteiramente  o  fidalgo  da  Torre, 
já  brando,  quasi  paternal: 

—  Graças  a  Deus,  para  arrombar  uma  porta, 
mesmo  nova,  não  me  íalta  íorça.  O  que  eu  não  podia, 
por  decência,  era  arrastar  ahi  por  essas  estradas 
um   bêbedo  com   uma  foice  até  casa  do  Ilegedor... 


A  ILUSTRE  CASA  DE  líAMUiES  191 


Fui  para  isso  que  ciianiei,  que  irritei.  Para  que  vos- 
sès  o  agarrassoui,  o  le\ assem  ao  Regedor!...  Bem, 
acabou.  ()li!  Rosa,  dr  a  estes  rapazes,  para  a  ceia, 
mais  uma  caneca  de  vinho...  A  vêr  se  para  outra 
vez  se  affoutam,  se  appareceni. .. 

Era  agora  como  um  antigo  senhor,  um  Ramires 
d"outros  séculos,  justo  e  avisado,  que  reprehende 
uma  íraqueza  dos  seus  solarengos  —  e  logo  perdoa 
por  conta  e  amor  das  façanhas  próximas.  Depois  com 
a  bengala  ao  hombVo,  como  uma  lança,  subio  pela 
lobrega  escada  da  cozinha.  E  em  cima  no  quarto, 
apenas  o  Bento  entrara  para  o  vestir,  recomeçou 
a  sua  epopeia,  mais  carregada,  mais  terrifica — assom- 
brando o  sensível  homem,  estacado  rente  da  com- 
moda,  sem  mesmo  pousar  a  enfusa  d*agoa  quente, 
as  botas  envernisadas,  a  braçada  de  toalhas  que  o 
ajoujavam...  O  Casco!  O  José  Casco  dos  Bravaes, 
bêbedo,  rompendo  para  elle,  sem  o  conhecer,  com 
uma  foice  enorme,  a  berrar  —  «Morra,  que  é  mar- 
rão!...» E  elle  na  estrada,  deante  do  bruto,  de  ben- 
galinha! -Mas  atira  um  salto,  a  íoiçada  resvala  sobre 
um  tronco  de  pinheiro . . .  Então  arremette  desabala- 
damente,  brandindo  a  bengala,  gritando  pelo  Ricardo 
e  pelo  ?.íanoe[  como  se  ambos  o  escoltassem  —  e  ata- 
ranta o  Casco,  que  recua,  se  some  pela  azinhaga,  a 
cambalear,  a  grunhir... 

— Hein.  que  te  parece?  Se  não  é  a  minha  au- 


192  A  ILLUSTRE  CASA  DE  R\M[BES 


dacia,  o  homem  positivamente  me  ferra  um  t/ro  de 
espinijarda ! 

O  Bento,  que  quasi  se  babava,  com  o  jarro  es- 
quecido a  pingar  no  tapete,  pestanejou,  confuso,  mais 
attonito : 

—  Mas  o  Snr.  Dr.  disse  que  era  uma  foice! 
Gonçalo  bateu  o  pé,  impaciente : 

—  Correu  para  mTm  com  uma  íoice.  IMas  vinha 
atraz  do  carro...  E  no  carro  trazia  uma  espingarda. 
O  Casco  é  caçador,  anda  sempre  d'espingarda.. .  Em- 
tim  estou  aqui  vivo,  na  Torre,  por  mercê  de  Deus.  E 
também  porque  felizmente,  n'estes  casos,  não  me 
falta  decisão ! 

E  apressou  o  Bento  —  porque  com  o  abalo,  o  os- 
lorço,  positivamente  lhe  tremiam  as  pernas  de  can- 
çasso  e  de  fome...  Além  da  sede! 

—  Sobretudo  sede!  Esse  vinho  que  venha  beni 
fresco . . .  ])o  Verde  e  do  Alvaralhâo,  para  misturar. 

O  Bento,  com  um  tremulo  suspiro  da  emoção 
atravessada,  enchera  a  bacia,  estendia  as  toalhas. 
Depois,  gravemente : 

—  Pois,  Snr.  Dr.,  temos  esse  andaço  nos  sí- 
tios! Foi  o  mesmo  que  succedeu  ao  Snr.  San- 
ches Lucena,  na  Feítosa . . . 

—  Como,  ao  Snr.  Sanches  Lucena? 
()  IVmtu  desenrolou  então  uma  tremenda  historia 

tra/Jda  á  Torre,  durante  a  estada  do  Snr.  Doutor  em 


A  ILUSTHE  CASA  1)K  líA.MUlES  193 


Oliveira,  pelo  cunhado  da  Crispola,  o  lUiy  carpinteiro, 
•que  trabalhava  nas  obras  da  Feitosa.  O  Snr.  San- 
ches Lucena  descera  uma  tarde,  ao  lusco  fusco,  á 
porta  do  Mirante,  quando  passam  na  estrada  dous 
jornaleiros,  bêbedos  ou  facínoras,  que  implicam  com 
o  excellente  senhor.  E  chufas,  risinhos,  momices —  O 
Snr.  Sanches,  com  paciência,  aconselhou  os  homens 
que  seguissem,  não  se  desmandassem.  De  repente 
um  d"elles.  um  rapazola,  sacode  a  jaqueta  do  hom- 
bro,  ergue  o  cajado!  Felizmente  o  companheiro,  que 
se  afíirmára,  ainda  gritou:  —  «Ai!  rapaz,  que  elle  é 
o  nosso  deputado  !n  O  rapazola  abalou,  espavorido. 
O  outro  até  se  atirou  de  joelhos  deante  do  Snr.  San- 
ches Lucena...  Mas  o  pobre  senhor,  com  o  abalo,  re- 
colheu á  cama! 

Gonçalo  acompanhara  a  historia,  seccando  va- 
garosamente as  nitãos  á  toalha,  impressionado : 

—  Quando  foi  isso? 

—  Pois  disse  ao  Snr.  Dr Quando  o  Snr.  Dr. 

estava  em  Oliveira.  Um  dia  antes  ou  um  dia  depois 
dos  annos  da  Snr."  D.  Graça. 

O  Fidalgo  arremessou  a  toalha,  limpou  pensati- 
vamente as  unhas.  Depois  com  um  risinho  incerto  e 
leve : 

—  Emfim,  sempre  serviu  d'alguma  coisa  ao  San- 
ches Lucena  ser  deputado  por  Villa-Clara. . . 

E  já  víístido.  abastecendo  a  charuteira  (porque 

13 


19i  A  ILLLSTUE  CASA  DE  RAMIRES 


resolvera  passar  a  noite  na  Villa,  a  desabatar  com  o 
Gouveia) — de  novo  se  voltou  para  Bent(),  que  arru- 
mava a  roupa: 

— Então  o  bêbedo,  quando  o  outro  lhe  gritou 
«Ai,  que  é  o  nosso  deputado,»  cahiu  em  si,  íugiu. 
hein?...  Ora  vé  tu!  Ainda  vale  sor  deputado!  Ainda 
inspira  respeito,  homem!  Pelo  menos  inspira  mais 
respeito  que  descender  dos  reis  de  Leão ! . . .  Paciên- 
cia, toca  a  jantar. 


Durante  o  jantar,  misturando  copiosamente  o 
Verde  e  o  Alvaralhâo,  Gonçalo  não  cessou  de  rumi- 
nar a  ousadia  do  Casco.  Pela  vez  primeira,  na  his- 
toria de  Santa  írcneia,  um  lavrador  d"aquellas  al- 
deãs, crescidas  á  sombra  da  Casa  illustre,  por  tantos 
^  séculos  senhora  em  monte  c  valle,  ultrajava  um  Ra- 
»  mires !  K  brutamente,  alçando  o  cajado,  deaníe  dos 
muros  da  quinta  liistorica! .. .  Contava  seu  pae  que, 
em  vida  do  bisa\  6  Ignacio,  ainda  desde  Ramilde  até 
Corinde  os  homens  dobravam  o  joelho  nos  cami- 
nhos quando  passava  o  Seniior  da  Torre.  E  agora 
levantavam  a  foice!...  E  porqu(!?  Por  que  elle  não 
se  desfalcara  submissamente  das  suas  rendas  em  pro- 
veito d'um  íaçanhudo!  —  Em  tempos  do  avô  Tructo- 
síndo,   villâo   de   tal   attentado   assaria,   como  porco 


A   ILLUSTRE   CASA   I)K   RAMIRES  19o 


montez,  n'iima  ruidosa  íosíiieira,  deante  das  barba- 
cans  da  Honra.  Ainda  em  dias  do  bisavô  ,  ígnacio 
apodreceria  n'uma  masmorra.  E  o.  Casco  não  podia 
escapar  sem  castigo.  A  impunidade  só  lhe  incha- 
ria a  audácia:  e  assomado,  rancoroso,  n'outro  en- 
contro, sem  mais  falias,  desfechava  a  caçadeira.  Oh! 
não  lhe  desejava  um  mal  durável,  coitado,  com  dois 
lilhos  pequeninos  —  um  que  mamava.  Aias  que  o  ar- 
rastassem á  Administração,  algemado,  entre  dois  ca- 
bos do  policia — e  que  na  triste  saleta,  d'onde  se  avis- 
tam as  grades  da  cadeia,  apanhasse  uma  reprehensâo 
tremenda  do  Gouveia,  do  Gouveia  muito  secco,  muito 
esticado  na  sobrecasaca  negra  . . .  Assim  se  devia  res- 
guardar, por  meios  tortuosos — pois  que  não  era  depu- 
tado, e  que,  com  o  seu  talento,  o  seu  nome,  essa  es- 
pantosa linhagem  d'avós  que  edificara  o  Reino,  care- 
cia o  prestigio  d'um  Sanches  Lucena,  o  precioso  pres- 
tigio que  suspende  no  ar  os  varapaus  atrevidos! 

Apenas  findou  o  café,  mandou  pelo  Bento  avisar 
os  dous  moços  da  horta,  o  Ricardo  e  o  outro  de 
queixo  de  cavallo,  que  o  esperassem  no  pateo,  ar- 
mados. Porque  na  Torre  ainda  sobrevivia  uma  «Sala 
d"armas» — cacifro  tenebroso,  junto  ao  Archivo,  onde 
se  amontoavam  peças  aboladas  d'armaduras,  um  lo- 
rigâo  de  malha,  um  l>roquel  mourisco,  alabardas,  es- 
padões, polvarinhos,  bacamartes  de  1820,  e  entre  esta 
poeirenta  ferralhagem  negra  ires  espingardas  limpas 


lOG  A  ILUSTRE  CASA  DE  UAMIKES 


com  que  os  moços  da  quinta,  ua  romaria  de  S.  Gon- 
çalo, atiravam  descargas  em  louvor  do  Santo. 

Depois,  ellr,  enoafuou  o  revólver  na  algibeira, 
desenterrou  do  armário  do  corredor  um  velho  ben- 
galão de  cabo  de  chumbo  entrançado,  agarrou  um  api- 
to. E  assim  precavido,  aqus^cido  pelo  Verde  e  pelo  Al- 
varalhão,  com  os  dous  creados  de  caçadeira  ao  iiom- 
bro.  importantes  e  tesos,  partiu  para  Villa-Clara,  pro- 
curar o  Snr.  Administrador  do  Concelho.  A  noite  en- 
volvia os  campos  em  socego  e  frescura.  A  lua  nova. 
que  alimpara  o  tempo,  roçava  a  crista  dos  outeiros  de 
Valverde  como  a  roda  lustrosa  d"um  carro  de  ouro. 
No  silencio  os  rijos  sapatões  pregueados  dos  dous  jor- 
naleiros resoavam  em  cadencia.  E  Oonçalo  adiantu, 
de  charuto  flauimante,  gosava  aquella  marcha,  era 
<[ue  de  novo  um  Ramires  trilhava  os  caminhos  de 
Santa  Ireneia  com  homens  da  sua  mercê  e  solaren- 
gos armados. 

Ao  começo  da  villa,  porem,  recolheu  disereta- 
mente  a  escolta  na  taverna  da  Serena:  e  elle  cor- 
tou para  o  M Tcado  da  Herva,  para  a  Tabacaria  do 
SinuKis,  ondo  o  (Jouveia,  áqucUa  hora.  antes  da  par- 
tida da  Assembléa,  costumava  pousar,  comprar  uma 
caixa  de  phosphoros,  considerar  pensativamente  na 
N  idraça  as  cautelas  da  Loteria.  .Mas  n"(issa  noite  o 
Snr.  Administrador  faltara  ao  Simões  costumado. 
Largou  então  i)ara  a   Assembléa:  e  logo  cm  baixo, 


A  ILLLSTlíE  CASA  DE  RAMIRES  19/ 


no  bilhar,  ura  sujeitu  calvo,  que  contemplava  as 
carambolas  solitárias  do  marcador,  espapado  na  ban- 
cada, de  collete  desabotoado,  mascando  um  palito  — 
iiiforuiou  o  Fidalgo  da  doença  do  amigo  Gouveia: 

—  Cousa  leve,  inílammação  de  garganta...  V.  Ex."^ 
de  certo  o  encontra  em  casa.  Não  arreda  do  quarto 
desde  Domingo. 

Outro  cavalheiro  porém,  quo  remexia  o  seu  café 
á  esquina  d'uma  mesa  atulhada  de  garrafas  de  licor, 
affiançou  que  o  Snr.  Administrador  já  espairecera 
n"essa  tarde.  x\inda  pelas  cinco  horas  elle  o  encon- 
trara na  Amoreira,  com  o  pescoço  atabafado  n'uma 
manta  de  la. 

Gonçalo,  impaciente,  abalou  para  a  Calçadinha. 
E  atravessava  o  Largo  do  Chafariz  quando  descorti- 
nou o  desejado  Gouveia,  á  porta  muito  alumiada  da 
loja  de  pannos  do  Ramos,  conversando  com  um  ho- 
memzarrâo  de  forte  barba  retinta  e  de  guarda-pó 
alvadio. 

E  foi  o  (j0u\eia.  que.  de  dedo  espetado,  inves- 
tiu para  Gonçalo: 

— Então,  já  sabe? 

—  O  quê? 

—  Pois  não  sabe,  homem?...  O  Sanches  Lucena !. 

—  O  qué? 

—  Morreu! 

O  fidalgo  emba.sbacou  para  o  Administrador,  de— 


198  .A    ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


pois  para  o  outro  cavalheiro,  que  repuxava  na  mão 
enorme,  com  um  esforço  inchado,  uma  luva  preta 
apertada  e  curta. 

—  Santo  Deus!.,.  Quando? 

—  Esta  madrugada.  De  repente.  «Angina  pec- 
toris, »  não  sei  què  no  coração...  De  repente,  na 
cama. 

E  ambos  se  consideraram,  em  silencio,  no  espanto 
renovado  d'aquella  morte  que  impressionava  ViJla- 
Clara.  Por  fim  Gonçalo: 

—  E  eu  ainda  ha  bocado,  na  Torro,  a  fallar  d*el- 
le!  E,  coitado,  como  sempre,  com  pouca  admira- 
ção ... 

—  E  eu!  exclamou  o  Gouveia.  Eu,  que  aindu 
hontem  lhe  escrevi!...  E  uma  carta  comprida,  por 
causa  d"um  empenho  do  Manoel  Duarte.. .  Foi  o  ca- 
dáver que  recebeu  a  carta. 

—  Boa  piada!  rosnou  o  sujeito  obeso,  que  se  de- 
batia ferrenhamente  contra  a  luva.  O  cadáver  rece- 
beu a  carta . . .  Boa  piada  ! 

O  Fidalgo  torcia  o  bigode,  pensativo : 

—  Ora,  ora...  E  que  edadc  tinha  elk;? 

O  Gouveia  sempre  o  imaginara  um  completo  ve- 
lho, de  setenta  invernos.  Pois  não!  apenas  sessenta, 
em  Dezembro.  Mas  consumido,  arrasado.  Casara  tar- 
de, com  fêmea  forte  . . . 

—  E  ahi  temos  a  bolla  D.  Anna,  viuva  aos  vinte 


A   ILLUSTRK    CASA   DE   UAMIRES  191» 


«  oito  aiinos,  sem  tilhus,  naturalmente  herdeira, 
com  o  seu  mealheiro  de  duzentos  contos . . .  Talvez 
mais ! 

—  Boa  maquia!  roncou  de  novo  o  oupado  homem 
que  eníiára  a  luva,  f  agora  gemia,  com  as  veias 
túmidas,  para  lhe  apertar  o  colchete. 

Aquelle  cavalheiro  constrangia  o  Fidalgo  —  an- 
cioso  por  desafogar  com  o  Gouveia  sobre  «a  vaca- 
tura politica.»  assim  inesperadamente  aberta,  no 
circulo  de  Villa-Clara,  pela  brusca  desappariçâo  do 
Cheíe  tradicional.  E  não  se  conteve,  puchou  o 
Administrador  pelo  botão  da  sobrecasaca  para  a  som- 
bra íavoravel  da  parede: 

—  Ohl  Gouveia!  então  agora,  hein?...  Temos 
eleição  supplementar . . .  (Juem  virá  pelo  circulo? 

E  o  Administrador,  muito  simplesmente,  sem 
se  resguardar  do  homemzarrâo  de  guarda-pó,  que, 
emfim  enluvado,  accendera  o  charuto,  se  acercava 
com  familiaridade  —  deduziu  os  factos: 

—  Agora,  meu  amigo,  com  o  tio  do  Cavalleiro 
ministro  da  Justiça-  e  o  José  Ernesto  ministro  do 
Pieino,  vae  deputado  pelo  circulo  quem  o  André  Ca- 
valleiro mandar.  É  claro...  O  Sanches  Lucena  man- 
teve sempre  o  seu  lugar  em  S.  Bento  por  uma  in- 
dicação natural  do  partido.  Era  aqui  o  primeiro  ho- 
mem, o  grande  homem  dos  Históricos. ..  Bem!  Hoje, 
para  decidir  o  Governo,  como  falta  a  indicação  na- 


200  A  ILLISTIIE  CASA  DE  RAMIUES 


tural  do  partido,  que  resta  ?  O  desejo  pessoal  do  Ca- 
valleiro.  Você  sabe  como  o  Cavalleiro  é  regionalista. 
Pelo  circulo  pois,  logicamente,  sahe  quem  se  apre- 
sente ao  Cavalleiro  como  um  bom  continuador  do 
Lucena,  pela  iníluencia  c  pela  estabilidade  territorial . . . 
N'outro  circulo  ainda  se  podia  encaixar  ú  pressa  um 
deputado  fabricado  em  Lisboa,  nas  Secretarias.  Aqui 
não!  O  deputado  tem  de  ser  local  e  Cavalleirista. 
E  o  próprio  Cavalleiro,  acredite  você,  está  a  esta  hora 
embaraçado. 

O  gordalhufo  murmurou  com  importância,  atra- 
vez  do  immenso  charuto  que  mamava: 

—  Amanhã  já  estou  com  elle,  já  sei... 

Mas  o  Administrador  emmudecera,  coçava  o  quei- 
xo, cravando  em  (jonçalo  os  olhos  espertos,  que  re- 
brilhavam, como  se  uma  ditosa  idéa,  quasi  uma  ins- 
piração, o  illuminasse.  E  de  repente,  para  o  outro, 
que  cofiava  a  barba  retinta: 

— Pois,  meu  caro  senhor,  até  além  d'ámanha. 
Ficamos  entendidos.  Eu  remetto  o  cestinho  dos  quei- 
jos directamente  ao  Snr.  Conselheiro. 

Tt)mou  o  braço  de  Gonçalo,  ([ue  apertou  com 
impaciência.  E  sem  attender  mais  ao  homemzarrâo. 
que  saudava  rasgadamente,  arrastou  o  Fidalgo  para  a 
Calçadinha  silenciosa: 

—  Oh,   (Jonçalo,   ouça  lá . . .   Vossé  agora  tinha 


A  ILLUSTUE  CASA  DE  RAMIRES  201 


uma  occasião  soberba!   Vuct-,  se  qaizesse,  dentro  de 
poucos  dias,  estava  deputado  por  Villa-Clara  ! 

O  Fidalgo  da  Torre  estacara—  como  se  uma  es- 
trella  de  repente  se  despenhasse  na  rua  mal  allumiada. 

—  Ora  escute!  exclamou  o  Administrador,  lar- 
gando o  braço  de  Gonçalo,  para  desenrolar  mais  li- 
vremente a  sua  idéa.  Voc(^  não  tem  compromissos 
sérios  com  os  Regeneradores.  Você  deixou  Coimbra 
ha  um  anno,  tenta  agora  a  vida  publica,  nunca  tez 
acto  definitivo  de  partidário.  Lú  uma  ou  outra  cor- 
respondência para  os  jornaes,  historias!... 

—  Mas... 

—  Escute,  homem!  Você  quer  entrar  na  Poli-  ^ 
tica?  Quer.  Então,  pdos  Históricos  ou  pelos  Regene- 
radores, pouco  importa.  Ambos  são  constitucionaes, 
ambos  são  christãos...  A  questão  é  entrar,  é  furar. 
Ora  você,  agora,  inesperadamente,  encontra  uma 
porta  aberta.  O  que  o  pôde  embaraçar?  As  suas 
inimisades  particulai^es  com  o  Cavalleiro?  Tolices! 

Atirou  um  gesto,  largo  e  secco,  como  se  var- 
resse essas  puerilidades: 

—  Tolices!  Entre  vocês  não  ha  morte  d'horaem. 
Nem  vocês,  no  fundo,  são  inimigos.  O  Cavalleiro  é 
rapaz  do  talento,  rapaz  de  gosto...  Não  vejo  outro.  ^ 
aqui  no  districto,  com  quíuii  você  tenha  mais  con- 
formidade de  espirito,  de  educação,  de  maneiras,  de 
tradições...  N"uma  terra   p;'quona,   mais  dia  menos 


^Oá  A    ILLISTRE    CASA   DE   RAMIRES 


dia,  fatalmente,  se  impunha  a  reconciliação.  Euiâo 
seja  agora,  quando  a  reconciliação  o  leva  ás  Cama- 
rás!... E  repito.  Pelo  circulo  de  Villa-Clara  sahe  de- 
putado quem  o  Cavalleiro  mandar! 

O  Fidalgo  da  Torre  respirou,  com  esforço,  na 
emoção  que  o  suíTocava.  E  depois  d" um  silencio  em 
que  tirara  o  chapéo.  abanara  com  elle,  pensativa- 
mente, a  face-descahida: 

— Mas  o  Cavalleiro,  como  você  disse,  é  todo  lo- 
cal,todo  regional.. .  Não  quererá  impor  senão  um  ho- 
mem como  o  Lucena,  com  fortuna,  com  influencia... 

O  outro  parou,  alargou  os  braços: 

— E  então,  você?...  Que  diabo!  Você  tem  aqui 
propriedade.  Tem  a  Torre,  tem  Treixedo.  Sua  ir- 
mã hoje  é  rica,  mais  rica  que  o  Lucena.  E  depois  o 
nome,  a  íamilia...  Vocês,  os  Ramires,  estão  estabe- 
lecidos, com  solar  em  Santa  Ireneia.  ha  mais  de  du- 
zentos annos. 

O  fidalgo  da  Torre  ergueu  com  viveza  a  cabeça : 
A        — Duzentos?...  Ha  mil,  ha  quasi  mil! 

—  Ora  ahi  tem!  Ha  inil  annos.  Uma  casa  ante- 
rior á  monarchia.  Pelo  menos  coeva!  Você  é  por- 
tanto mais  fidalgo  que  o  Rei!  E  então,  isso  não  é 
uma  situação  muito  superior  á  do  Lucena?  Sem  con- 
tar a  intelligencia...  Oh!  diabo! 

—  Oue  foi? 


A  ILLISTRK  CAS.V  DK  1ÍA.M1HES  203 


—  A  garganta...  Uma  picadita  na  garganta.  Ainda 
não  estou  consolidado. 

E  decidiu  logo  recolher,  gargarejar,  porque 
o  Dr.  Macedo  prohibira  as  noitadas  festivas.  Mas 
Gonçalo  acompanhava  até  á  porta  o  amigo  Gou- 
veia. E,  conchegando  o  abafo  de  lâ,  o  Administrador 
resumiu  a  sua  idéa: 

—  Pelo  circulo  de  Yilla-Clara.  Gonçalinho,  sahe 
quem  o  Cavalleiro  mandar.  Õra  o  Cavalleiro,  creia 
você,  tem  immenso  empenho  de  o  eleger,  de  o  lançar 
na  Politica.  Se  você  portanto  estender  a  mão  ao  Ca- 
valeiro, o  circulo  é  seu.  O  Cavalleiro  tem  o  maior, 
o  maiorissimo  empenho,  Gonçalinho! 

—  Isso  é  que  eu  não  sei.  João  Gouveia... 

—  Sei  eu ! 

E  em  confidencia,  na  solidão  da  Calçadinha,  João 
Gouveia  revelou  ao  Fidalgo  (jue  o  Cavalleiro  an- 
elava pela  occasião  de  reatar  a  velha  fraterni- 
dade com  o  seu  velho  Gonçalo!  Ainda  na  semana 
passada  o  Cavalleiro  lhe  aífirmára  (palavras  tex- 
tuaes):  —  «Entre  os  rapazes  d*esta  geração  nenhum 
com  mais  seguro  e  mais  largo  futuro  na  Politica 
que  o  Gonçalo.  Tem  tudo !  grande  nome,  grande  ta- 
lento, a  seducçâo,  a  eloquência...  Tem  tudo!  E  eu, 
que  conservo  pelo  Gonçalo  todo  o  carinho  antigo, 
gostava  ardentemente,  ardentissimamentc,  de  o  levar 
;is  Camarás. » 


'20Í  A  IIXLSTCE  CASA   I)K  UAMIUr;S 


—  Palavras  textuaes,  meu  ainiiro!...  Ainda  ha 
seis  ou  sete  dias,  em  Oliveira,  depois  do  jantar,  a 
tomarmos  ambos  café  no  quintal. 

A  íace  de  Gonçalo  ardia  na  sombra,  devorando 
as  revelações  do  Administrador.  Depois,  com  lenti- 
dão, como  descobrindo  candidamente  todos  os  re- 
cantos da  sua  alma : 

—  Fai,  na  realidade,  também  conservo  a  antiga 
sympathia  pelo  Cavalleiro.  E  certas  questões  intimas 
adeus !...  Envelheceram,  caducaram,  tão  obsoletas  hoje 
como  os  aggravos  dos  Horacios  e  dos  Curiacios. . .  Como 
você  lembrou  ha  pouco,  com  razão,  nunca  se  ergueu 
entre  nós  morte  de  homem.  Que  diabo!  Eu  fui  educa- 
do com  o  Cavalleiro,  éramos  como  irmãos...  E  acre- 
dite você,  Gouveia!  Sempre  que  o  vejo,  sinto  um 
appetite  doido,  mas  doido,  de  correr  para  elle,  de 
lhe  gritar:  «Oh!  André!  nuvens  passadas  não  vol- 
tam, atira  para  cá  esses  ossos!»  Creia  você,  não  o 
faço  por  timid(íz...  E  timidez...  Oh!  não,  lá  por 
mim,  estou  proinpto  á  reconciliação,  todo  o  coração 
m"a  pede!  Mas  elle?...  Porque,  emfim,  Gouveia,  eu. 
nas  minhas  Correspondências  para  a  Gaze/a  do  Por- 
to, tenho  sido  feroz  com  o  Cavalleiro ! 

João  Gouveia  parou,  de  bengala  ao  hombro, 
considerando  o  íidal.Lro  com  um  sorriso  divertido: 

—  Nas  Correspondências?  One  lhe  tem  você 
dito  nas  Correspondências?   Oue  o  Snr.  Governador 


A  II.LLSTlíI';  CASA  UK  líAMllUíS  20.") 


Civil  é  um  déspota  e  uui  D.  Juan?...  Moa  caro  amigo, 
todo  o  homem  gosta  que,  por  opposição  politica,  lhe 
chamem   déspota  e  1).  Juan.  Você  imagina   que  elle 
sa  alíligiu?  Ficou  simplesmente  babado! 
O  fidalgo  murmurou,  inquieto: 

—  Sim!  Mas  as  allusões  á  bigodeira,  á  guede- 
lha . . . 

—  Oh!  Gonçalinho!  Bellos  cabellos  annellados, 
bellos  bigodes  torcidos,  não  são  defeitos  de  que  um 
macho  se  envergonhe...  Pelo  contrario!  Todas  as 
mulheres  admiram.  Você  pensa  que  ridicuiarisou  o 
Cavalleiro?  Não!  annunciou  simplesmente  ás  mada- 
mas  e  meninas,  que  lêem  a  Gazela  do  Porto,  a  exis- 
tência d" um  mocetão  esplendido  que  é  Governador 
Civil  dTJliveira. 

E  parando  de  novo  (por  que  defronte,  na  es- 
<[uina,  luziam  as  duas  janellas  abertas  da  sua  casa), 
o  Administrador  estendeu  o  dedo  firme  para  um 
conselho  supnniio : 

—  Gonçalo  IMendos  Tiamires.  ^■()cè  amanhã  manda 
buscar  a  parelha  do  Torto,  salta  para  a  sua  caleche, 
corre  á  cidade,  entra  pelo  Governo  Civil  de  braços 
abertos,  e  grita  sem  outro  prologo: — «André,  o  que 
lá  vae,  lá  vae,  venham  essas  costellas!  E  como  o 
circulo  está  vago,  venha  também  esse  circulo!» — E 
você,  dentro  de  cinco  ou  seis  semanas,  é  o  Snr.  De- 


206  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


piitado  pur  ViUa-Clara,  com  todos  os  sinos  a  repi- 
car... Quer  tomar  chá? 

—  Não,  obrigado. 

—  Bem,  então  viva!  Tipóia  amanhã  e  Governo 
Civil.  Está  claro,  c  necessário  arranjar  um  pretexto... 

O  fidalgo. acudiu,  com  alvoroço: 

— Eu  tenho  ura  pretexto!  Não!...  Quero  dizer,  te- 
nho necessidade  real,  absoluta,  de  íallar  com  o  Ca- 
valleiro  ou  com  o  Secretario  Geral.  É  uma  questão 
de  caseiro . . .  Até  por  causa  d'essa  infeliz  trapalhada 
o  procurava  eu  hoje  a  você,  Gouveia! 

E  aldravou  a  aventura  do  Casco,  cora  traços  mais 
pesados  que  a  ennegreciam.  Durante  semanas,  affer- 
radamente,  esse  fatal  Casco  o  torturara  para  lhe  ar- 
rendar a  Torre.  ]Mas  elle  tratara  com  o  Pereira,  o  Pe- 
reira Brazileiro,  por  uma  renda  explendidamente 
superior  á  que  o  Casco  ofterecia  a  gemer.  Desde 
então  o  Casco  rugia,  ameaçava,  por  todas  as  ta- 
bernas da  Freguczia.  E,  n"essa  tarde,  surde  d'uma 
azinhaga,  rompe  para  elle,  de  varapau  erguido!  Mero*"' 
de  Deus,  lá  se  defendera,  lá  sacudira  o  bruto,  com  a 
bengala.  Mas  agora,  sobre  o  seu  socego.  sobre  a  sua 
vida,  pairava  a  affronta  d'aquelle  cajado.  E,  se  o  as- 
salto se  renovasse,  elle  varava  o  Casco  cora  uma 
bala,  como  um  bicho  montez...  Urgia  pois  que  o 
amigo  Gouveia  chamasse  o  homem,  o  reprehendesse 


A  ILIASTRE  CASA  DE  IIAMIUES  207 


rijamente,   o   cntaipasse  mesmo   por  algumas  horas 
na  cadeia . . . 

O  Administrador,  que  escutara  palpando  a  írar- 
ganta,  atalhou  logo,  com  a  mão  espalmada: 

—  Governo  Civil,  caro  amigo,  Ooverno  Civil ! 
Esses  casos  de  prisão  preventiva  pertencem  ao  Go- 
verno Civil.  Reprchensão  não  basta,  com  talíéra!... 
Só  cadeia,  um  dia  de  cadeia,  a  meia  ração...  O  Go- 
verno Civil  que  me  mande  um  otticio  ou  telegrammti. 
Você  realmente  corre  perigo.  Nem  um  instante  a  per- 
der!... Amanliã  tipóia  e  Governo  Civil.  Mesmo  por 
amor  da  Ordem  Publica ! 

E  Gonçalo,  compenetrado,  com  os  hombros  ver- 
gados, cedeu  ante  esta  soberana  razão  da  Ordem  Pu- 
blica: 

—  Bem,  .loâo  Gouveia,  bem!...  Com  effeito  é 
uma  questão  de  Ordem  Pul)lica.  Vou  amanhã  ao 
Governo  Civil.  • 

— Perfeitamente,  concluiu  o  Administrador  pu- 
vando  o  cordão  da  campainha.  l)('  recados  meus  ao 
Cavalleiro.  E  só  lhe  digo  que  havemos  de  arranjar 
uma  votação  tremenda,  e  foguetorio,  e  vi^as,  e  ceia 
magna  no  Gago...  Você  não  quer  tomar  chá,  não? 
Então,  boas  noites . . .  E  olhe !  D"aqui  a  dous  annos, 
quando  você  íór  ministro,  Gonçalo  IMendes  Ramires, 
recorde  esta  nossa  conversa,  á  noite,  na  Calçadinha^ 
de  Villa-Clara ! 


208  A  ILLLSTRE  CASA  DK  RAJIIIÍES 


Gonçalo  se.iruia  pensativamente  por  defronte  do 
Correio;  torneou  a  branca  escadaria  da  Egreja  de  S. 
Bento;  inetteu,  alheado  e  sem  reparar,  pela  estrada 
plantada  de  acácias  que  conduz  ao  Cemitério.  E. 
n'aquelle  alto  da  ^'illa,  d'onde,  ao  desembocar  da 
Calçadinha,  se  abrange  a  largueza  rica  dos  campos 
desde  Valverde  a  Craquêde  —  sentiu  que  também  na 
sua  vida,  apertada  e  solitária  como  a  Calçadinha,  se 
alargara  um  arejado  espaço  cheio  d'interessante  bu- 
lício e  de  abundância.  Era  o  muro,  em  que  sempre 
se  imaginara  irreparavelmente  cerrado,  que  de  re- 
pente rachava.  Eis  a  fenda  facilitadora!  Para  além  re- 
luziam todas  as  bellas  realidades  que  desde  Coimbra 
appetecera!  Mas...  —  Mas  no  atravessar  da  fenda  fra- 
gosa de  certo  se  rasgaria  a  sua  dignidade  ou  se  raíjga- 
ria  o  seu  orgulho.   Oue  fazer?... 

Sim!  seguramente!  Estendendo  os  braços  ao  ani- 
mal do  Cavalieiro  conquistava  a  sua  Eleição.  O  cir- 
culo, infeudado  aos  Históricos,  elegeria  submissa- 
mente o  Deputado  que  o  chefe  Histórico  ordenasse 
com  indolente  aceno.  Mas  essa  reconciliação  impor- 
tava-a  entrada  triumphal  do  Cavalieiro  na  quieta 
casa  do  Barrôlo...  Elle  vendia  pois  o  socego  da  irmã  \ 
por  uma  cadeira  em  S.  Bento!  Não!  não  |)odia  por 
amor  de  (iracinha !  — E  Gonçalo  suspirou,  com  rui- 
doso suspiro,  no  luminoso  silencio  da  estrada. 

Agora  porém,  durante  tros,  quatro  annos,  os  r»e- 


A   ILLLSTRE    CASA    DK   RAMIRES  209 


generadores  não  trepavam  ao  Governo.  E  elle,  alli, 
atravez  d'esses  aimos,  no  buraco  rural,  jogando  vol- 
taretes  somnolentos  na  Assembléa  da  Villa,  íumando 
cigarros  calaceiros  nas  varandas  dos  Ciinhaes,  sem 
carreira,  parado  e  mudo  na  vida,  a  ganhar  musgo, 
como  a  sua  caduca,  inútil  Torre !  Caramba !  era 
faltar  cobardemente  a  deveres  muito  santos  para 
comsigo  e  para  com  o  seu  nome!...  Em  breve  os 
seus  camaradas  de  Coimbra  penetrariam  nos  altos 
Empregos,  nas  ricas  Companhias:  muitos  nas  Cama- 
rás por  vacaturas  abençoadas  como  a  do  Sanches; 
um  ou  outro  mesmo,  mais  audaz  ou  servil,  no  Mi- 
nistério. S(S  elle,  com  talentos  superiores,  um  tal 
brilho  histórico,  jazeria  esquecido  e  resmungando 
como  um  coxo  n'uma  estrada  quando  passa  a  roma- 
ria. E  por  quê  ?  Pelo  receio  pueril  de  pôr  a  bigodeira 
atrevida  do  Cavalleiro  muito  perto  dos  fracos  lábios 
de  Gracinha...  E  por  fim  esse  receio  constituía  uma 
injuria,  uma  nojenta  injuria,  á  seriedade  da  irmã. 
Porque  Portugal  não  se  honrava  com  mulher  mais 
rigidamente  seria,  de  mais  grave  e  puro  pensar ! 
Aquelle  corpinho  ligeiro,  que  o  vento  levava,  con- 
tinha .uma  alma  heróica.  O  Cavalleiro?...  Podia 
sua  exc.*^  sacudir  a  guedelha  com  graça  fatal,  jor- 
rar dos  olhos  pestanudos  a  languidez  ás  ondas — que 
Gracinha  permaneceria  tão  inaccessivel  e  solida  na 
sua  virtude  como  se  fosse  insexual  e  de  mármore. 


210  A   ILLLSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


Oh,  realmente,  por  Gracinha,  elle  abriria  ao  Caval- 
leiro  todas  as  portas  dos  Cunhaes  —  mesmo  a  porta 
do  quarto  d'ella,  e  bem  larga,  com  mna  solidão  bem 
preparada!...  E  depois  não  se  cuidava  de  uma  don- 
zelIa,  nem  d' uma  viuva.  Na  casa  do  Largo  d'El-Rei 
governava,  mercê  de  Deus,  marido  brioso,  marido 
rijo.  A  esse.  só  a  esse,  competia  escolher  as  intimi- 
dades do  seu  lar— e  n'elle  manter  quietação  e  re- 
cato. Não !  esse  receio  de  uma  imaginável  íragilidade 
de  Gracinha,  da  sua  honrada,  altiva  Gracinha — esse 
receio,  perverso  e  louco,  certamente  o  devia  varrer, 
com  o  coração  desafogado  e  sorrindo.  —  E,  na  clara 
solidão  da  estrada,  Gonçalo  Mendes  Ramires  atirou 
um  gesto  decidido  e  terminante  que  varria. 

Restava  porém  a  sua  própria  humilhação.  Desde 
annos,  ruidosamente,  conversando  e  escrevendo,  em  i 
Coimbra,  em  Villa-Clara,  em  Oliveira,  na  Gazeta 
do  Porto  —  elle  demolira  o  Cavalleiro !  E  subiria 
agora,  de  espinhaço  vergado,  as  escadarias  do  Go- 
verno Civil,  murmurando  o  seu — peccavi,  mea  cul- 
pa, mea  inaxima  culpa? ...  Que  escândalo  na  cidade! 
—  «O  Fidalgo  da  Torre  lá  precisou  e  lú  veio...» 
Era  o  transbordante  triumpho  do  Cavalleiro.  O  único 
homem  que  no  Districto  se  conservava  erguido,  pe- 
lejando, trovejando  as  verdades  —  desarmava,  em- 
mudecia,  e  encolhidamente  se  enfdeirava  no  séquito 
louvaminheiro  de  Sua  Exc." !   Bem  duro ! . . .   Mas, 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  21  í 


que  diabo,  havia  superiormente  o  interesse  do  paiz! 
—  E,  tão  admirável  lhe  appareceu  esta  razão,  que 
a  bradou  com  ardor  na  mudez  da  estrada:  —  «Ha 
o  paiz!...» 

Sim,  o  paiz!  Ôuantas  reformas  a  proclamar,  a 
realisar!  Em  Coimbra,  no  quinto  anno,  já  se  occu- 
pára  da  Instrucçáo  Publica  —  d'uma  remodelação  do 
Ensino,  todo  industrial,  todo  colonial,  sem  latim,  sem 
ociosas  bellas-lettras,  creando  um  povo  formigueiro  de 
Productores  e  d'Esploradores...  E  os  camaradas,  nos 
sonhos  ondeantes  de  Futuro,  quando  repartiam  os  Mi- 
nistérios, concordavam  sempre:— «O  Gonçalo  para 
a  Instrucçáo  Publica!»  Por  essas  ideas  poderosas,  pelo 
saber  accumulado,  todo  elle  se  devia  á  Nação  —  como 
outr'ora,  pela  força,  os  grandes  Ramires  armados.  E 
pela  Nação  cumpria  que  o  seu  orgulho  de  homem 
cedesse  ante  a  sua  tarefa  de  cidadão . . . 

Depois,  quem  sabe?  Entre  o  Cavalleiro  e  elle 
afogadamente  se  enroscava  todo  um  passado  de  ca- 
maradagem, apenas  entorpecido  —  que  talvez  revi- 
vesse n'esse  encontro,  os  enlaçasse  logo  n'um  abraço 
penetrante,  onde  os  antigos  aggravos  se  sumiriam 
como  um  pó  sacudido . . .  Mas  para  que  imaginar, 
remoer?  Uma  necessidade  se  sobrepunha,  inilludi- 
vel  —  a  de  comparecer  logo  de  manhã  em  Oliveira, 
no  Governo  Civil,  requerendo  a  suppressâo  do  Cas- 
co.  D'essa  pressa  dependia  o   seu  socego  de  vida 


212  A  ILLUSTRE  C.VSA  DE  RAMIRES 


e  dMntelligencia.  Nunca  elle  lograria  trabalhar  na 
Novella,  trilhar  folgadamente  a  estrada  de  Yilla- 
Clara,  sabendo  que  em  torno  o  outro,  pelas  quelhas 
e  sombras,  rondava  com  a  espingarda.  E  para  não 
regressar  aos  costumes  bravios  dos  seus  avós,  cir- 
culando atravez  do  Concelho  entre  as  carabinas  dos 
creados,  necessitava  o  Casco  domado,  immobilisado. 
Era  pois  inadiável  correr  ao  Governo  Civil,  para  bem 
da  Ordem.  E  depois,  quando  elle  se  encontrasse  no 
gabinete  do  Cavalleiro,  deante  da  mesa  do  Cavalleiro 
—  a  Providencia  decidiria...  —  «A  Providencia  deci- 
dirá ! » 

E  ancorado  n'esta  resolução,  o  Fidalgo  da  Torre 
parou,  olhou.  Levado  pela  quente  rajada  do  pensa- 
mentos, chegara  á  grade  do  cemitério  da  Villa  que 
o  luar  branqueava  como  um  lençol  estendido.  Ao 
fundo  da  alameda  que  o  divide,  clara  na  claridade 
triste,  o  escarnado  Christo  chagado  e  livido,  sobre  a 
sua  alta  cruz  negra,  pendia,  mais  dolorido  e  livido 
no  silencio  e  na  solidão,  com  uma  tristíssima  lâm- 
pada aos  pés  esmorecendo.  Em  torno  eram  cypres- 
tes,  sombras  de  cyprestes,  brancuras  de  lapides,  as 
cruzes  rasteiras  das  campas  pobres,  uma  paz  morta 
pesando  sobre  os  mortos:  e  no  alto  a  lua  amarella 
e  parada.  Então  o  Fidalgo  sentiu  um  arripiado  mi'do 
do  Christo,  das  lousas,  dos  defuntos,  da  lua,  da  so- 
lidão. E  despodio  n'uma  carreira  até  avistar  as  casas 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIUES  213 


da  Calçadinha,  por  onde  descambou  como  uma  pe- 
dra solta.  Ouando  se  deteve  no  Largo  do  Chafariz, 
um  mocho  piava  na  torre  da  Camará,  melancolisan- 
do  o  repouso  de  Villa-Clara  apagada  e  adormecida; 
Mais  impressionado,  Gonçalo  correu  á  taberna  da 
Serena,  recolheu  os  creados  que  esperavam  jogando 
a  bisca  lambida.  E  com  elles  atravessou  de  novo  a 
\'illa  até  á  cocheira  do  Torto  —  para  recommendar 
([ue  lhe  mandassem  á  Torre,  ás  nove  horas  da  ma- 
nhã, a  parelha  russa. 

Atravez  do  postigo,  que  se  abrira  com  cautella 
no  portão  chapeado,  a  mulher  do  Torto  gemeu,  in- 
decisa : 

—  Ai,  meu  Deus,  não  sei  se  poderá...  Elle  ás 
nove  tem  um  serviço . . .  Pois  não  faria  mais  conta  ao 
Fidalgo  ahi  pela  volta  das  onze? 

—  Ás  nove!  berrou  Gonçalo. 

Desejava  apear  cedo  ao  portão  do  Governo  Civil 
para  evitar  a  curiosidade  d'aquelles  cavalheiros  de 
Oliveira — que,  depois  do  meio  dia,  se  juntavam  na 
Praça,  vadiando  por  debaixo  da  Arcada. 


Mas  ás  nove  e  meia  Gonçalo,  que  até  ao  luzir  da 
madrugada  se  agitara  pelo  quarto  n"um  tumulto  d'es- 
peranças  e  receios — ainda  se  barbeava,  em  camisa, 
deante  do  vasto  espelho  de  columnas  douradas.  De- 


214  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIKES 


pois  aproveitou  a  caleche  para  deixar  na  Feltosa  os 
seus  bilhetes  de  pezames  á  bella  viuva,  á  D.  Anna. 
Ao  meio  dia,  esfaimado,  almoçou  na  Vendinha  em- 
quanto  a  parelha  resfolgava.  E  batia  a  meia  depois  das 
duas  quando  emfim  se  apeou  em  Oliveira  deante  do 
portão  do  antigo  convento  de  S.  Domingos,  ao  íundo 
da  Praça,  onde  seu  pae,  quando  Chefe  do  Districto, 
installára  faustosamente  as  repartições  do  Governo 
CivU. 

Áquella  hora,  já  na  frescura  e  som.bra  da  Arcada 
que  orla  um  lado  da  Praça  (outr'ora  Praça  da  Pra- 
taria,  hoje  Praça  da  Liberdade)  os  cavalheiros  d'01i- 
veira  mais  desoccupados,  os  «rapazes»,  preguiçavam, 
em  cadeiras  de  verga,  á  porta  da  Tabacaria  Elegan- 
te e  da  loja  do  Leão.  Gonçalo,  cautelosamente,  bai- 
xara as  cortinas  verdes  da  caleche.  Mas  no  pateo  do 
Governo  Civil,  ainda  guarnecido  de  bancos  monumen- 
taes  do  tempo  dos  frades,  esbarrou  com  o  primo  José 
Mendonça,  que  descia  a  escadaria,  fardado.  Foi  um 
assombro  para  o  alegre  capitão,  moço  esvelto,  de 
bigode  curto,  picado  levemente  de  bexigas. 

—  Tu  por  aqui,  Gonçalinho!  E  de  chapéu  alto! 
Caramba,  deve  ser  coisa  gorda! 

O  Fidalgo  da  Torre  confessou,  corajosamente. 
Chegava  n'esse  instante  de  Santa  Ireneia  para  fallar 
ao  André  Cavalleiro ... 

—  Está  elle  cá,  esse  illustre  senhor? 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  HAMIRES  ãlo 


O  outro  recuou,  quasi  aterrado: 

—  Ao  Cavalleiro?!  É  ao  Cavalleiro  que  vens  fal- 
lar?!...  Santíssima  Virgem!  Então  desabou  Tróia! 

Gonçalo  gracejou,  corando.  Não!  não  se  passara 
desgraça  épica  como  a  de  Tróia. . .  De  resto  podia  re- 
velar ao  amigo  Mendonça  o  caso  que  o  arrastava  á 
presença  augusta  de  Sua  Exc.''  o  Snr.  Governador 
Civil.  Era  um  homem  dos  Bravaes,  um  Casco,  que, 
furioso  por  não  conseguir  o  arrendamento  da  Torre, 
o  ameaçara,  rondava  agora  a  estrada  de  Villa-Clara 
de  noite,  á  espreita,  com  uma  espingarda.  E  elle,  não 
ousando  «fazer  alta  e  boa  justiça»  pelas  mãos  dos 
seus  creados,  como  os  Ramires  feudaes  — reclamava 
modestamente  da  Auctoridade  Superior  uma  ordem 
para  que  o  Gouveia  mantivesse  dentro  da  legalidade 
e  dos  Mandamentos  de  Deus  o  íaçanhudo  dos  Bra- 
vaes . . . 

— Só  isto,  uma  pequenina  questão  de  paz  pu- 
blica... E  então  o  grande  homem  está  lá  em  cima? 
Bem,  até  logo,  Zézinho...  A  prima,  de  saúde?  Eu  na- 
turalmente janto  nos  Cunhaes.  Apparece! 

Mas  o  capitão  não  despegava  do  degrau  de  pe- 
dra, abrindo  pachorrentamente  a  cigarreira  de  couro: 

—  E  que  me  dizes  tu  á  novidade?  O  pobre  San- 
ches Lucena?. . . 

Sim,  Gonçalo  soubera  na  Assembleia.  Um  ata- 
que, hein? — Mendonça  accendeu,  chupou  o  cigarro: 


216  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


— De  repente,  com  um  aneurisma,  a  ler  o  Noii- 
cias ! ...  Pois  ainda  ha  três  dias  a  Maricas  e  eu  janta- 
mos na  Fe í tosa.  Até  eu  toquei  a  duas  mãos,  com  a 
D.  Anna,  o  quarteto  do  Rigolcto.  E  elle  bem,  conver- 
sando, tomando  a  sua  aguardentesinha  de  canna  . .  > 

Gonçalo  esboçou  um  gesto  de  piedade  e  tristeza: 

—  Coitado . . .  Também  ha  semanas  o  encontrei 
na  Bica-Santa.  Bom  homem,  bem  educado...  E  ahi 
temos  agora  a  bella  D.  Anna  vaga. 

—  E  o  circulo! 

—  Oh,  o  circulo!  murmurou  o  Fidalgo  da  Torre 
com  risonho  desdém.  A  mim  antes  me  convinha  a 
viuva.  E  Vénus  com  duzentos  contos!  Infelizmente 
tem  uma  voz  medonha . . . 

O  primo  Mendonça  accudiu,  com  interesse,  uma 
convicção  dedicada: 

—  Não!  não!  na  intimidade,  perde  aquelle  tom 
empapado...  Não  imaginas!  até  um  timbre  natural, 
agradável . . .  E  depois,  menino,  que  corpo  !  que  pelle  1 

—  Deve  íicar  explendida  agora  com  o  luto!  con- 
cluiu Gonçalo.  Bem,  adeusinho!  Apparece  nos  Ca- 
nhaes...  Eu  corro  ao  Cavalleiro  para  que  Sua  Exc.'"*^ 
me  salve  com  o  seu  braço  íorte! 

Sacudiu  a  mão  do  Mendonça,  galgou  a  escada- 
ria de  pedra. 

Mas  o  capitão,  que  mettera  para  a  travessa  de 
S.  Domingos,  desconfiou  d'aquella  historia  d'amea- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  217 


ças,  d'espingardas...  «(Jual!  Aqui  anda  Politica!» 
E  quando,  passada  uma  hora  lenta,  repenetrou  na 
Praça  e  avistou  a  caleche  da  Torre  ainda  encalhada 
á  porta  do  Governo  Civil  —  correu  á  Arcada,  desa- 
bafou logo  com  os  dois  Villa- Velhas,  ambos  pensati- 
vamente encostados  aos  dois  humbraes  da  Tabaca- 
ria Elegante: 

—  Vocês  sabem  quem  está  no  Governo  Civil?... 
O  Gonçalo  Ramires!...  Com  o  Cavalleiro! 

Todos  em  roda  se  mexeram,  como  acordando, 
nas  gastas  cadeiras  de  verga— onde  os  estendera 
somnolen^amente  o  silencio  e  a  ociosidade  da  arras- 
tada tarde  de  verão.  E  o  Mendonça,  excitado,  contou 
que  desde  as  duas  horas  e  meia  Gonçalo  Mendes  Ra- 
mires, «em  carne  e  osso»,  se  conservava  fechado  com 
o  Cavalleiro,  no  Governo  Civil,  n'uma  coníerencia 
magna!  O  espanto  e  a  curiosidade  íoram  tão  ar- 
dentes que  todos  se  ergueram,  se  arremessaram  para 
fora  dos  Arcos,  a  espiar  a  bojuda  varanda  do  convento, 
sobre  o  portão  —  que  era  a  do  gabinete  de  Sua  Ex- 
cellencia. 

Precisamente,  n'esse  momento,  José  Rarrôlo,  a 
cavallo,  de  calça  branca,  do  rosa  branca  na  quinzena 
d'alpaca,  dobrava  a  esquina  da  rua  das  Vendas.  E  o 
interesse  todo  d'aquelles  cavalheiros  se  precipitou 
para  elle,  na  esperança  d'uma  revelação: 

—  Oh  Barròlol 


218  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Oh  Barrolinho.  chega  cá! 

— Depressa,  homem,  que  é  caso  rijo! 

Barrôlo,  ladeando,  abeirou  da  Arcada:  e  os  ami- 
gos immediatamente  lhe  atiraram  a  nova  formidável, 
apertados  em  volta  da  egoa.  O  Gonçalo  e  o  Caval- 
leiro  cochichando  secretamente  toda  a  manhã!  A  ca- 
leche da  Torre  á  espera,  com  a  parelha  adormecida  1 
E  já  começavam  a  repicar  os  sinos  da  Sé! 

Barrôlo,  n'um  pulo,  desmontou.  E  emquanto  um 
garoto  lhe  passeava  a  egoa  —  estacou  entre  os  ami- 
gos, com  o  chicote  detraz  das  costas,  pasm^ando  tam- 
bém para  a  varanda  de  pedra  do  Governo  Civil. 

— Pois  eu  não  sei  nada!  O  Gonçalo  a  mim  não 
me  disse  nada!  affirmava  elle,  assombrado.  Tam- 
bém já  ha  dias  não  vem  á  cidade . . .  Mas  não  me 
disse  nada!  E  da  ultima  vez  que  cá  esteve,  nos  an- 
íaos  da  Graça,  ainda  destemperou  contra  o  Cavalleiro! 
A  todos  o  caso  parecia  « d'estrondo ! »  E  subita- 
mente um  silencio  esmagou  a  Arcada,  trespassada 
d'emoçâo.  Na  varanda,  entre  as  vidraças  abertas 
vagarosamente,  apparecera  o  Cavalleiro  com  o  Fi- 
dalgo da  Torre,  conversando,  risonhos,  de  charutos 
accesos.  Os  largos  olhos  do  Cavalleiro  pousaram 
logo,  com  malícia,  sobre  os  «rapazes»  apinhados  em 
pasmo  á  borda  dos  Arcos.  Mas  foi  um  lampejar  de 
visão.  S.  Ex.'  remergulhára  no  gabinete  —  o  Fidal- 
go também,  depois  de  se  debruçar  da  varanda,  es- 


A   ILLUSTRP:    casa   de   RAMIRES  219 


preitar  a  caleche  da  Torre.  Entre  os  amigos  rompeu 
um  clamor: 

—  Viva!  •Reconciliação! 

—  Acabou  a  guerra  das  Rosas! 

—  E  as  correspondências  da  Gazela  do  Porto? . . . 

—  É  que  houve  peripécia  tremenda! 

—  Temos  o  Gonçalinho  administrador  d*01iveira! 

—  Upa,  Ex.'"°  Snr.,  upa! 

Mas  de  novo  emmudeceram.  O  Cavalleiro  e  o  Fi- 
dalgo reappareciam,  n'uma  enfronhada  conversa, 
que  os  deteve  um  momento  esquecidos,  na  eviden- 
cia da  varanda  escancarada.  Depois  o  Cavalleiro, 
com  uma  familiaridade  carinhosa,  bateu  nas  costas 
do  Gonçalo  —  como  se  publicasse  a  sua  reconciliação 
diante  da  Praça  maravilhada.  E  outra  vez  se  sumi- 
ram, n'esse  passear  conversado  e  intimo,  que  os  tra- 
zia da  sombra  do  gabinete  para  a  claridade  da  ja- 
nella,  roçando  as  mangas,  misturando  o  fumo  leve 
dos  charutos.  Em  baixo  o  bando  crescia,  mais  exci- 
tado. Passara  o  Mello  Alboim,  o  Rarâo  das  Marges,  o 
Dr.  Delegado:  e,  chamados  com  anciã,  cada  um  cor- 
rera, devorara  esgazeadamente  a  novidade,  embas- 
bacara para  o  velho  balcão  de  pedra  que  o  sol  dou- 
rava. Os  grossos  ponteiros  do  relógio  do  Governo 
Civil  já  se  acercavam  das  quatro  horas.  Os  dous  Vil- 
la-Velhas,  outros  a  rapazes»,  estafados,  retrocederam 
ás  cadeiras   de  verga  da    Tabacaria.    O    Dr.  Dele- 


220  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


gado,  que  jantava  ás  quatro  e  soffria  do  estômago, 
despegou  desconsoladamente  dos  Arcos,  supplicando 
ao  Pestana  seu  visinho  «que  apparecesse  ao  café, 
para  contar  o  resto ...»  Mello  Alboim,  esse,  enfiara 
para  casa,  defronte  do  Governo  Civil,  na  esquina  do 
Largo:  e  da  janella,  disfarçado  por  traz  da  mulher  e 
da  cunhada,  ambas  de  chambres  brancos  e  de  pape- 
lotes,  sondava  o  gabinete  de  S.  Ex.*^  com  um  binó- 
culo. Por  fim  bateram,  com  estendida  pancada,  as 
quatro  horas.  Então  o  Barão  das  Marges,  na  sua  im- 
paciência borbulhante,  decidiu  subir  ao  Governo  Ci- 
vil, «  para  farejar ! . . . » 

MaS  n'esse  momento  André  Cavalleiro  assomava 
de  novo  á  varanda  —  sozinho,  com  as  mãos  enterra- 
das no  jaquetão  de  flanella  azul.  E  quasi  immediata- 
mente  a  caleche  da  Torre  largou  da  porta  do  Go- 
verno Civil,  atravessou  a  Praça,  com  os  stores  ver- 
des meio  corridos,  descobrindo  apenas,  aquelles  ca- 
valheiros ávidos,  as  calças  claras  do  Fidalgo. 

—  Vae  para  os  Cunhaes! 

Lá  o  apanhava  pois  o  Barrôlo!  E  todos  apressa- 
ram o  bom  Barrôlo  a  que  iiiontasse,  recolhesse,  para 
ouvir  do  cunhado  os  motivos  e  os  lances  d'aquella 
paz  histórica!  O  Barão  das  MaríJ::es  até  lhe  segurou 
o  estribo.  Barrôlo,  alvoroçadamente,  trotou  para  o 
Largo  d'El-Rei. 


A   ILLUSTnE   CASA   DE    HAMIRES  221 


iMas  Gonçalo  Mendes  Ramires,  sem  parar  nos  Cu- 
nhaes,  seguia  para  a  Vendinha,  onde  decidira  jan- 
tar, dando  um  descanço  á  parelha  esfalfada.  E  logo 
depois  das  ultimas  casas  da  cidade  subiu  as  stores, 
respirou  deliciosamente,  com  o  chapeo  sobre  os  joe- 
lhos, a  luminosa  frescura  da  tarde  —  mais  fresca  e  de 
uma  claridade  mais  consoladora  que  todas  as  tardes 
da  sua  vida...  Voltava  d"01iveira  vencedor!  Furara 
emfim  atravez  da  fenda,  atravez  do  muro!  E  sem 
que  a  sua  honra  ou  o  seu  orgulho  se  esgaçassem  nas 
asperezas  estreitas  da  lenda!...  Abençoado  Gouveia, 
esperto  Gouveia!  E  abençoada  a  esperta  conversa, 
na  véspera,  pela  calçadinha  de  Villa-Clara ! . . . 

Sim,  de  certo,  fora  custoso  aquelle  mudo  mo- 
mento em  que  se  sentara  seccamente,  hirtamente, 
á  borda  da  poltrona,  junto  da  pesada  meza  admi- 
nistrativa de  S.  Ex.".  Mas  mantivera  muita  digni- 
dade e  muita  simplicidade...  —  «Sou  forçado  (dis- 
sera) a  dirigir-me  ao  Governador  Civil,  á  Auctori- 
dade,  por  um  motivo  de  ordem  publica. . . »  E  a  pri- 
meira avença  partira  logo  do  Cavalleiro,  que  torcia 
a  bigodeira,  pallido: — «Sinto  profundamente  que  não 
seja  ao  homem,  ao  velho  amigo,  que  Gonçalo  Men- 
des Ramires  se  dirija...»  EUe  ainda  se  conservara 
retrahido,  resistente,  murmurando  com  uma  frieza 
triste: — «As  culpas  não  são  decerto  minhas. . . »  E  en- 
tão o  Cavalleiro,  depois  de  um  silencio  em  que  lhe 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


tremera  o  beiço: — «Ao  cabo  de  tantos  annos,  Gon- 
çalo, seria  mais  caridoso  não  alludir  a  culpas,  lem- 
brar somente  a  antiga  amizade,  que,  pelo  menos 
em  mim,  se  conservou  a  mesma,  leal  e  séria.» 
A  esta  sensibilisada  invocação,  elle  volvera,  com 
doçura,  com  indulgência: — «Se  o  meu  antigo  amigo 
André  recorda  a  nossa  antiga  amizade,  eu  não  posso 
negar  que  em  mim  também  ella  nunca  inteiramente 
se  apagou.. .»  Ambos  balbuciaram  ainda  alguns  con- 
fusos lamentos  sobre  os  desaccordos  da  vida.  E 
quasi  insensivelmente  se  trataram  por  tu !  Elle  con- 
tou ao  Cavalleiro  a  torpe  ousadia  do  Casco.  E  o  Ca- 
valleiro,  indignado  como  amigo,  mais  como  Aucto- 
ridade,  telegraphára  logo  ao  Gouveia  um  mandado 
forte  para  inutilisar  o  valentão  dos  Bravaes. . .  De- 
pois conversaram  da  morte  do  Sanches  Lucena,  que 
impressionava  o  Districto.  Ambos  louvaram  a  belleza 
da  viuva,  os  seus  duzentos  contos.  O  Cavalleiro 
recordou  a  manhã,  na  Feitosa,  em  que  entrando  pela 
porta  pequena  do  jardim,  a  surprehendera,  dentro 
d'um  caramanchão  de  rosas,  a  apertar  a  liga.  Uma 
perna  divina!  Ambos  se  recusaram,  rindo,  a  casar 
com  a  D.  Anna,  apezar  dos  duzentos  contos  e  da  di- 
vina perna. . . — Já  entre  elles  se  restabelecera  a  antiga 
familiaridade  de  Coimbra.  Era  «tu  Gonçalo,  tu  An- 
dré, oh  menino,  oh  filho  !» 

E  fora  André,  naturalmente,  que  alludira  á  des- 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  223 


appariçâo  do  Deputado  do  Governo,  á  surpreza  do 
circulo  vago. . .  Elle  então,  com  indifferença,  estirado 
na  poltrona,  ruíando  com  os  dedos  na  borda  da  me- 
sa, murmurara : 

—  Sim,  com  effeito...  Vocês  agora  devem  estar 
embaraçados,  assim  de  repente. . . 

Mais  nada!  apenas  estas  indolentes  palavras,  mur- 
muradas através  do  rufo.  E  o  Cavalleiro,  logo,  sem 
preparação,  apressadamente,  empenhadamente,  lhe 
offerecera  o  Circulo!  —  Pousara  os  olhos  n'elle  com 
lentidão,  como  para  o  penetrar,  o  escutar...  Depois, 
insinuante  e  grave: 

—  Se  tu  quizesses,  Gonçalo,  não  estávamos  em- 
baraçados. . . 

Elle  ainda  exclamara,  com  surpreza  e  riso: 
— Como,  se  eu  quizesse? 

E  o  André,  sempre  com  os  olhos  n'elle  cravados, 
os  largos  olhos  lustrosos,  tão  persuasivos: 

—  Se  tu  quizesses  servir  o  Paiz,  ser  deputado 
por  Villa-Clara,  já  não  estávamos  embaraçados,  Gon- 
çalo! 

Se  tu  quizesses. . .  E  perante  esta  insistência  que 
rogava,  tão  sincera  e  commovida,  em  nome  do  Paiz, 
elle  consentira,  vergara  os  hombros: 

— Se  te  posso  ser  útil,  e  ao  Paiz,  estou  ás  vossas 
ordens. 

E  eis  a  fenda  transposta,  a  áspera  fenda,  sem  ras- 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


gâo  no  seu  orgulho  ou  na  sua  dignidade!  Depois  con- 
versaram desafogadamente,  passeando  pelo  gabinete, 
desde  a  estante  carregada  de  papeis  até  á  varanda 

—  que  André  abrira,  por  causa  d'um  cheiro  persis- 
tente de  petróleo  entornado  na  véspera.  André  ten- 
cionava partir  n'essa  noite  para  Lisboa — para  con- 
íerenciar  com  o  Governo,  depois  d"aquella  inespe- 
rada desappariçâo  do  Lucena.  E,  agora  em  Lisboa, 
imporia  o  querido  Gonçalo  como  o  único  Deputado, 
depois  do  Sanches  de  Lucena,  seguro  e  substancial 

—  pelo  nome,  pelo  talento,  pela  influencia,  pela  leal- 
dade. E  eis  a  eleição  consummada!  De  resto  (decla- 
rara o  Cavalleiro,  rindo)  aquelle  Circulo  de  Villa- 
Clara  constituía  uma  propriedade  sua  — tão  sua  como 
Corinde.  Livremente,  poderia  eleger  o  servente  da 
Repartição  que  era  gago  e  bêbado.  Prestava  pois  um 
serviço  esplendido  ao  Governo,  á  Nação,  apresen^ 
tando  um  moço  de  tão  alta  origem  e  de  tão  fina  in- 
teiligencia. . .  Depois  accrescentára : 

— Não  tens  a  pensar  mais  na  eleição.  Vaes  para 
a  Torre.  Não  contas  a  ninguém,  a  não  ser  ao  Gou- 
veia. Esperas  lá,  muito  quietinho,  telegramraa  meu 
de  Lisboa.  E.  recebido  elle,  estás  Deputado  por  Viila- 
Clara,  annuncias  a  teu  cunhado,  aos  amigos. . .  De- 
pois, no  domingo,  vens  almoçar  comigo  a  Corinde, 
ás  onze. 

Então  am])Os  se  apertaram  n'um  abraço  que  fun- 


A  ILIASTOE  C^SA  DF,  RAMIUES  225 


diu  de  novo,  e  para  sempre,  as  duas  almas  apartadas. 
Depois,  ao  cimo  da  escadaria  de  pedra  onde  o  acom- 
panhara, André,  repenetrando  timidamente  no  Pas- 
sado, murmurou  com  um  riso  pensativo:  —  «Que 
tens  tu  íeito  ultimamente,  nessa  querida  Torre?»  E, 
ao  saber  da  Novella  para  os  Annaes,  suspirou  com 
saudade  dos  tempos  de  Imaginação  e  d'Arte  em 
Coimbra,  quando  elle  amorosamente  lapidava  o  pri- 
meiro canto  d'um  poema  heróico,  o  Fronteiro  de 
Ceuta.  Emfim  outro  abraço  —  e  alli  voltava  depu- 
tado por  Villa-Clara. 

Todos  esses  campos,  esses  povoados  que  avis- 
tava da  portinhola  da  caleche,  era  elle  que  os  re- 
presentava em  Cortes,  elle,  Gonçalo  INIendes  Rami- 
res. . .  E  superiormente  os  representaria,  mercê  de 
Deus!  Porque  já  as  idéas  o  invadiam,  viçosas  e  fér- 
teis. Na  Vendinha,  emquanto  esperava  que  lhe  fri- 
gissem um  chouriço  com  ovos  e  duas  postas  de  sável, 
meditou,  para  a  Resposta  ao  Discurso  da  Coroa,  um 
esboço  sombrio  e  áspero  da  nossa  Administração 
na  Africa.  E  lançaria  então  um  brado  á  Nação,  que  a 
despertasse,  lhe  arrastasse  as  energias  para  essa 
Aírica  portentosa,  onde  cumpria,  como  gloria  su- 
prema e  suprema  riqueza,  edificar  de  costa  a  costa 
um  Portugal  maior!...  A  noite  cerrara,  ainda  ou- 
tras idéas  o  revolviam,  vastas  e  vagas  —  quando  o 


15 


226  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


trote    esfalfado    da   parelha    estacou    no   portão    da 
Torre. 

Ao  outro  dia  (terça  feira)  ás  dez  horas,  o  Bento 
entrou  no  quarto  do  Fidalgo  com  um  telegramma,. 
que  chegara  á  Villa  de  madrugada.  Gonçalo  pensou 
com  um  deslumbrado  pulo  do  coração:  — «É  do  Go- 
verno!»—  Era  do  Pinheiro,  gritando  pela  Novella. 
Gonçalo  amarrotou  o  telegramma.  A  Novella!  Co- 
mo poderia  labutar  na  Novella,  agora,  todo  na  impa- 
ciência e  no  esforço  da  sua  Eleição  ? . . .  Nem  almo- 
çou socegadamente  —  retendo,  atravez  dos  pratos  que 
arredava,  um  desejo  desesperado  de  «contar  ao 
Bento.»  E,  sorvido  o  café  n"um  sorvo  impaciente., 
atirou  para  Villa-Clara,  a  desafogar  com  o  Gouveia. 
O  pobre  administrador  jazia  de  novo  no  camapé  de 
palhinha,  com  papas  na  garganta.  E  toda  a  tarde, 
na  estreita  sala  forrada  de  papel  verde-gaio,  Gon- 
çalo exaltou  os  talentos  do  André,  «homem  de  go- 
verno e  de  idéas,  Gouveia!»  —  celebrou  o  [Ministé- 
rio Histórico,  «o  único  capaz  de  salvar  esta  chol- 
dra, Gouveia ! »  —  desenrolou  vistosos  Projectos  de 
Lei  que  meditava  sobre  a  Africa,  «a  nossa  esperança 
magnifica,  Gouveia!»  —  Emquanto  o  Gouveia,  esti- 
rado, só  rompia  a  mudez  o  a  immobilidade,  para 
murmurar  chòchamente,  apalpando  o  calor  das 
papas : 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  227 


— E  a  quem  deve  vossé  tudo  isso,  Gonçali- 
nho?. . .  Cá  ao  meço  !» 

Na  quarta-feira,  ao  accordar,  tarde,  o  seu  pensa- 
mento saltou  logo  soffregamente  para  o  André  Ca- 
valleiro,  que  a  essa  hora,  em  Lisboa,  almoçava  no 
Hotel  Central  (sempre,  desde  rapaz,  André  se  conser- 
vara fiel  ao  Hotel  Central).  E  todo  o  dia,  fumando 
cigarros  insaciavelmente  atravez  do  silencio  da  casa 
e  da  quinta,  seguiu  o  Cavalleiro  nos  seus  giros  de 
Chefe  de  Districto,  pela  Baixa,  pela  Arcada,  pelos  Mi- 
nistérios. . .  Naturalmente  jantaria  com  o  tio  Reis  Go- 
mes, Ministro  da  Justiça.  Outro  convidado  certa- 
mente seria  o  José  Ernesto,  Ministro  do  Pieino,  coii- 
discipulo  do  Cavalleiro,  seu  confidente  politico. . . 
N'essa  noite,  pois,  tudo  se  decidia ! 

—  Amanhã,  pelas  dez  horas,  tenho  cá  telegramiua 
do  André. 

Nenhuma  noticia  chegou  á  Torre: — e  o  FidaL-^o 
passou  a  lenta  quinta  íeira  á  janella,  vigiando  a  ís- 
trada  poeirenta  por  onde  surdiria  o  moço  do  teii*.- 
grapho,  um  rapaz  gordo  que  elle  conhecia  pelo  bonné 
d'oleado  e  pela  perna  manca.  Á  noitinha,  intoler;;- 
velmente  inquieto,  mandou  um  moço  a  Villa-Clau!. 
Talvez  o  telegramma  arrastasse,  esquecido,  pt-la 
mesa  d'aquella  «besta  do  Nunes  do  Telegrapho  •> 
Não  havia  telegramma  para  o  Fidalgo.  Então  fv-d 
certo  de  surgirem  em  Lisboa  diíficuldades !  E  tod    a 


228  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


noite,  sem  socego,  n'Lima  indignação  que  rolava  e 
crescia,  imaginou  o  Cavalleiro  cedendo  mollemente 
a  outras  exigências  do  IMinistro  —  acceitando  com 
servilismo  para  Villa-Clara  a  candidatura  d'algum 
imbecil  da  Arcada,  d'algum  chulo  escrevinhador  do 
Partido ! 

Pela  manhã  injuriou  o  Bento  por  lhe  trazer  tão 
tarde  os  jornaes  e  o  chá: 

—  E  não  ha  íelegramma,  nem  carta? 

— Não  ha  nada. 

Bem,  fora  trahido !  Pois  nunca,  nunca,  aquelle  in- 
fame Cavalleiro  transporia  a  porta  dos  Cunhaes!  De 
resto,  que  lhe  importava  a  burlesca  Eleição?  Mercê 
de  Deus  que  lhe  sobravam  outros  meios  de  provar 
soberbamente  o  seu  valor  —  e  bem  superiores  a  uma 
ensebada  cadeira  em  S.  Bento!  Que  miséria,  na  ver- 
dade, curvar  o  seu  espirito  e  o  seu  nome  ao  rasteiro 
serviço  do  S.  Fulgencio,  o  obeso  e  horrendo  careca! 
E  resolveu  logo  regressar  aos  cimos  puros  da  Arte, 
occupar  altivamente  todo  o  dia  no  nobre  e  elegante 
trabalho  da  sua  Xovella. 

Depois  de  almoço  ainda  abancou,  com  esforço, 
remexeu  nervosamente  as  tiras  de  papel.  E  de  re- 
pente agarrou  o  chapéo,  abalou  para  Villa-Clara, 
para  o  telegrapho.  O  Nunes  não  recebera  nada  para 
sua  exc." !  —  Correu,  coberto  de  suor  e  pó,  á  Admi- 
nistração   do    Concelho.    O   snr.   Aministrador  par- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  229 


tira  para  Oliveira!...  Positivamente  vencera  outra 
combinação — eis  a  sua  confiança  burlada!  E  reco- 
lheu á  Torre,  decidido  a  tomar  um  desforço  tre- 
mendo do  Cavalleiro  por  tanta  injuria  amontoada 
sobre  o  seu  nome,  sobre  a  sua  dignidade!  Toda  a 
abafada  e  enevoada  Sexta-feira  a  consumio  amarga- 
mente meditando  esta  vingança,  que  queria  bem  pu- 
blica e  bem  sangrenta.  A  mais  saborosa,  mais  sim- 
ples, seria  rasgar  a  bigodeira  do  infame  com  chico- 
tadas, na  escadaria  da  Sé,  um  domingo,  á  sabida  da 
missa!  Ao  escurecer,  depois  do  jantar  que  mal  de- 
bicara, n"aquelle  despeito  e  humilhação  que  o  pun- 
giam, envergou  o  casaco  para  voltar  a  Villa-Clara. 
Não  entraria  no  Telegrapho — já  com  vergonha  do 
Nunes.  Mas  gastaria  a  noite  na  Assembléa,  jogando 
o  bilhar,  tomando  um  alegre  chá,  lendo  risonha- 
mente os  Jornaes  Regeneradores,  para  que  todos  re- 
cordassem a  sua  indifferença  —  se  por  acaso,  mais 
tarde,  conhecessem  a  trama  em  que  resvalara. 

Desceu  ao  páteo,  onde  as  arvores  adensavam  a 
sombra  do  crepúsculo  carregado  de  íuscas  nuvens. 
E  abria  o  portão,  quando  esbarrou  com  um  rapaz 
que  s'esbaforia  sobre  a  perna  manca  e  gritava :  —  «  É 
um  telegramma!»  Com  que  voracidade  lh'o  arran- 
cou das  mãos!  Correu  á  cozinha,  ralhou  desabrida- 
mente á  Rosa  pela  falta  da  luz  tardia!  E,  com  um 
phosphoro   a   arder  nos  dedos,  devorou,  n'um  Iam- 


230  A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


pejo,  as  linhas  bemditas:  —  a  Ministro  acceita,  tudo 
arranjado ...»  O  resto  era  o  Cavalleiro  lembrando 
qae  no  domingo  o  esperava  em  Corinde,  ás  onze,  para 
almoçarem  e  conversarem. . . 

Gonçalo  Mendes  Ramires  deu  cinco  tostões  ao 
moço  do  telegrapho — galgou  as  escadas.  Na  livraria, 
á  claridade  mais  segura  do  candieiro,  releu  o  tele- 
gramma  delicioso.  Ministro  acceita,  tudo  arranja- 
do!..,  Na  sua  transbordante  gratidão  polo  Cavalleiro, 
ideou  logo  um  jantar  soberbo,  oíferecido  nos  Cu- 
nhaes  pelo  Barrôlo,  cimentando  para  sempre  a  re- 
conciliação das  duas  Casas.  E  recommendaria  a  Gra- 
cinha que,  para  mais  honrar  a  doce  festa,  se  deco- 
tasse, pozesse  o  seu  coilar  magnifico  de  brilhantes, 
a  derradeira  jóia  histórica  dos  Ramires. 

— Aquelle  André!  que  flor,  que  rapaz! 


O  relógio  de  charão,  no  corredor,  rouquejou  as 
nove  horas. .  E  só  então  Gonçalo  percebeu  a  densa 
chuva  que  alagava  a  quinta,  e  a  que  elle,  embebido 
na  sua  gloria,  passeando  pela  livraria  n'um  lumi- 
noso rolo  de  imaginações,  não  sentira  o  rumor  sobre 
a  pedra  da  varanda,  nem  sobre  a  folhagem  dos  li- 
moeiros. 

Para  se  calmar,  occupar  a  noite  encerrada,  deli- 
berou trabalhar  na  Novella.  E  realmente  agora  con- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  231 


vinha  que  terminasse  essa  Torre  de  D.  Ramires  antes 
do  afan  da  Eleição  —  para  que  em  Janeiro,  ao  abrir 
das  Cortes,  surgisse  na  Politica  com  o  seu  velho  no- 
me aureolado  pela  Erudição  e  pela  Arte.  Envergou  o 
roupão  de  flanella.  E  á  banca,  com  o  costumado  bule 
de  chá  inspirador,  repassou  lentamente  o  começo  do 
Capitulo  II  —  que  o  não  contentava. 

Era  no  castello  de  Santa  Ireneia,  n'aquelle  dia  de 
Agosto  em  que  Lourenço  Ramires  cahira  no  valle 
de  Canta-Pedra,  mal  íerido  e  captivo  do  Bastardo  de 
Bayão.  Pelo  Almocadem  dos  peões,  qae,  com  o  braço 
varado  por  uma  chuçada,  voltara  em  desesperada 
carreira  ao  Castello,  já  Tructezindo  Ramires  conhe- 
cia o  desventuroso  desíecho  da  lide.  —  E  n'este 
lance  o  tio  Duarte,  no  seu  poemeto  do  Bardo,  com 
um  lyrismo  molle,  mostrava  o  enorme  Rico-Homem 
gemendo  derramadamente  atra  vez  da  sala-d'armas, 
na  saudade  d'esse  filho,  flor  dos  Cavalleiros  de  Riba- 
Cavado,  derrubado,  amarrado  n'umas  andas,  á  mercê 
da  gente  de  Bayão  . . . 

Lagrimas  irrepresas  lhe  rebentam, 
Arfa  o  arnez  c'o  soluçar  ardente ! . . . 

Ora,  levado  no  harmonioso  sulco  do  tio  Duarte, 
também  elle,  nas  linhas  primeiras  do  Capitulo,  esbo- 
çara o  velho  abatido  sobre  um  escanho,  com  lagri- 


232  A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


mas  relusentes  sobre  as  barbas  brancas,  as  duras 
mãos  descabidas  como  as  de  languida  Dona  —  em 
quanto  que  nas  lages,  batendo  a  cauda,  os  seus  dois- 
lebreus  o  contemplam  n'uma  sympathia  anciada  e 
quasi  humana.  Mas,  agora,  este  choroso  desalento  não 
lhe  parecia  coherente  com  a  alma  tão  indomavelmente 
violenta  do  avô  Tructezindo.  O  tio  Duarte,  da  casa  das 
Balsas,  não  era  um  Ramires,  não  sentia  hereditaria- 
mente  a  fortaleza  da  raça:  —  e,  romântico  plangente 
de  1848,  inundara  logo  de  prantos  românticos  a  face 
férrea  de  um  lidador  do  século  xii,  d'um  companheiro 
de  Sancho  I !  Elle  porém  devia  restabelecer  os  espí- 
ritos do  Senhor  de  Santa  Ireneia  dentro  da  realidade 
épica.  E,  riscando  logo  esse  descorado  e  íalso  começo 
de  Capitulo,  retomou  o  lance  mais  vigorosamente, 
enchendo  todo  o  castello  de  Santa-lreneia  d'uma  irada 
c  rija  alarma.  Na  sua  lealdade  sublime  e  simples 
Tructezindo  não  cuida  do  lilho  —  adia  a  desíorra  do 
amargo  ultraje.  E  o  seu  estorço  todo  se  commette  a 
apressar  os  aprestos  da  mesnada,  para  correr  elle  so- 
bre Montemor,  e  levar  ás  Senhoras  Infantas  os  soc- 
corros  de  que  as  privara  a  embuscada  de  Canta-Pe- 
dra!  Mas  quando  o  impetuoso  Rico-Homem  com  o 
Adail,  na  sala-d'armas,  regia  a  ordem  da  arrancada 
—  eis  que  os  esculcas,  abrigados  do  calor  d' Agosto 
nos  miradouros,  enxergam  ao  longe,  para  além  do  ar- 
voredo da  Ribeira,  coriscos  d'armas,  uma  cavalgada 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  233 


subindo  para  Santa-Ireneia.  O  Villico,  o  gordo  e  aza- 
famado  Ordenho,  galga  arquejando  aos  eirados  da 
torre  albarrâ  —  e  reconhece  o  pendão  de  Lopo  de 
Bayâo,  o  seu  toque  de  trompas  á  mourisca,  arrastado 
e  triste  no  silencio  dos  campos.  Então  arqueia  as  ca- 
belludas  mãos  na  boca,  atira  o  alarido: 

—  Armas,  armas!  que  é  gente  deBayáo!...  Bes- 
teiros, ás  quadrellas!  Homens  em  chusma  ás  lavadi- 
ças  da  carcova! 

E  Gonçalo,  coçando  a  testa  com  a  rama  da  pen- 
na,  rebuscava  ainda  outros  veridicos  brados,  de  bravo 
som  Afíonsino — quando  a  porta  da  livraria  abriu  cau- 
tellosamente,  atravez  d'aquelle  perro  rangido  que  o 
desesperava.  Era  o  Bento,  em  mangas  de  camisa : 

—  O  Snr.  Dr.  não  poderia  descer  cá  baixo  á  co- 
zinha ? 

Gonçalo  embasbacou  para  o  Bento,  pestanejando, 
sem  comprehender: 

—  Á  cozinha?. . . 

—  E  que  está  lá  a  mulher  do  Casco  a  levantar  uma 
celeuma.  Parece  que  lhe  prenderam  o  homem  esta 
tarde. . ,  Appareceu  ahi  por  baixo  de  agoa,  com  os 
pequenos,  até  um  de  mama.  Quer  por  força  fallar 
com  o  Snr.  Dr.  E  não  se  calla,  lavada  em  lagrimas, 
de  joelhos  com  os  filhos,  que  é  mesmo  uma  Ignez 
de  Castro! 

Gonçalo    murmurou  —  «  que    massada  ! »    E    que 


234  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


contrariedade!  A  mulher,  n'ama  agonia,  entre  gritos, 
arrastando  os  filhos  supplicantes  até  ao  portão  da 
Torre!  E  elle,  nas  vésperas  da  sua  Eleição,  appare- 
cendo  a  todas  as  freguezias  enternecidas  como  um 
fidalgo  deshumano! . . . — Atirou  a  penna  furiosa- 
mente : 

—  Que  massada!  Dize  á  creatura  que  me  deixe, 
que  se  não  afílija. . .  O  Snr.  Am.inistrador  amanhã 
manda  soltar  o  Casco.  Eu  mesmo  vou  a  Villa-Clara, 
antes  d'almoço,  para  pedir.  Que  se  não  afílija,  que 
não  aterre  os  pequenos...  Corre,  dize,  homem! 

Mas  o  Bento  não  despegava  da  porta: 
— Pois  a  Rosa  e  eu  já  lhe  dissemos. .  .  Mas  a  mu- 
lherzinha não  acredita,  quer  pedir  ao  Snr.  Dr. !  V^eio 
por  baixo  d'agoa.    Até  um  dos  pequenitos  está  bem 
doentinho,  ainda  não  fez  senão  tremer, . . 

Então  Gonçalo,  sensibilisado,  atirou  á  meza  um 
murro  que  tresmalhou  as  tiras  da  Novella: 

—  Ora  se  uma  cousa  d'estas  se  atura!  Um  homem 
que  me  quiz  matar !  E  agora,  por  cima,  é  sobre  mim 
que  desabam  as  lagrimas,  e  as  scenas,  e  a  creança 
doente!  Não  se  pode  viver  n'esta  terra!  Um  dia  vendo 
casa  e  quinta,  emigro  para  Moçambique,  para  o  Trans- 
vaal,  para  onde  não  haja  massadas . . .  Bem,  dize  á 
mulher  que  já  desço. 

O  Bento  appro\ou,  com  effusão : 

—  Pois  se  o   Snr.  Dr.  lhe  não  custa...    E  como 


A   ILUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  235 


é  para  dar  uma  boa  nova. . .  Sempre  consola  a  pobre 
mulherzinha ! . . . 

—  Lá  vou,  homem,  lá  vou!  Não  me  masses  tam- 
bém... Impossível  trabalhar  n'esta  casa!  Outra  noite 
perdida ! 

Enfiou  violentamente  para  o  quarto,  atirando  as 
portas  —  com  a  ideia  de  metter  na  algibeira  do  rou- 
pão duas  notas  de  dez  tostões  que  consolariam  os 
pequenos.  Mas,  deante  da  gaveta,  recuou,  vexado. 
Que  brutalidade,  compensar  com  dinheiro  creanci- 
nhas  —  a  quem  elle  arrancara  o  pae,  algemado,  para 
o  trancar  n'uma  enxovia!  Agarrou' simplesmente 
n'uma  boceta  de  alperces  seccos  —  dos  famosos  alper- 
ces  do  Convento  de  Santa-Brigida  de  Oliveira,  que  na 
véspera  lhe  mandara  Gracinha.  E,  cerrando  lenta- 
mente o  quarto,  já  se  arrependia  da  sua  severidade, 
tão  estouvada,  que  assim  desmanchava  a  quietação 
de  um  casal.  Depois  no  corredor,  ante  a  chuva  cla- 
morosa que  dos  telhados  se  despenhava  nas  lages  do 
pateo,  ainda  mais  doridamente  se  impressionou,  com 
a  imagem  da  pobre  mulher,  tresloucada  pela  negra 
estrada,  puxando  os  filhinhos  encharcados,  moídos, 
contra  a  tormenta  solta.  E  ao  penetrar  no  corredor 
da  cozinha  —  tremia  como  um  culpado. 

Atravez  da  porta  envidraçada  sentiu  logo  a  Rosa 
e  o  Bento  consolando  a  mulher,  com  palradora  con- 
fiança, quasi  risonhos.  ^Nlas  os  «ais»  d'ella,  os  ruido- 


236  A   ILLLSTRE   CASA   DE  RAMIRES 


SOS  lamentos  pelo  «seu  rico  homem»,  resoavara,  mais 
agudos,  como  a  rebater  e  a  abafar  toda  a  consolação. 
E  apenas  Gonçalo  empurrou  timidamente  a  porta  — 
quasi  acuou  no  espanto  e  medo  d'aquella  afflicçào 
estridente  que  se  arremessava  para  elle  e  para  a  sua 
misericórdia!  De  rojos  nas  lages,  torcendo  as  ma- 
gras mãos  sobre  a  cabeça,  toda  de  negro,  parecendo 
mais  negra  e  dolorosa  contra  a  vermelhidão  do  len- 
çol estendido  que  seccava  ao  lume  forte  da  lareira 
—  a  creatura  estalara  n'um  tumulto  de  supplicas  e 
gritos : 

—  Ai,  meu  rico  Senhor,  tenha  compaixão!  Ai,  que 
me  prenderam  o  meu  homem,  que  m'o  vão  mandar 
para  a  Africa  degredado !  Jesus,  meus  filhinhos  da 
minha  alma  que  ficam  sem  pae!  Ai,  pelas  suas  al- 
mas, meu  senhor,  e  por  toda  a  sua  felicidade! ...  Eu 
sei  que  elle  teve  culpa!  Aquillo  foi  perdição  que  lhe 
deu!  Mas  tenha  piedade  d'estas  creancinhas!  Ai,  o 
meu  pobre  homem  que  está  a  ferros !  Ai,  meu  rico 
Senhor,  por  quem  é! 

Com  as  pálpebras  humedecidas,  agarrando  deses- 
peradamente, a  boceta  d'alperces,  Gonçalo  balbuciava, 
atravez  da  emoção  que  o  estrangulara: 

—  Oh  mulher,  socegue,  já  o  vão  soltar!  Socegue! 
Já  dei  ordem!  Já  o  vão  soltar! 

E  d'um  lado  a  Rosa,  debruçada  sobre  a  escu- 
ra creatura  que  gemia,   recomeçava  docemente:  — 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  237 


«Pois  íoi  O  que  lhe  dissemos,  tia  Maria!  Logo  pela 
manhã,  o  vão  soltar!»  —  E  do  outro  o  Bento,  hatendo 
na  coxa,  com  impaciência:  —  «Oh  mulher,  acabe  com 
esse  escarcéu!  Pois  se  o  Snr.  Dr.  prometteu!  Logo 
pela  manhã  o  vão  soltar!» 

Mas  ella  não  se  calmava,  com  o  lenço  da  cabeça 
desmanchado,  uma  trança  desprendida,  soluçando  e 
clamando  atravez  dos  soluços: 

—  Ai  que  eu  morro,  se  o  não  vejo  solto!  Ai  per- 
dão, meu  rico  Senhor  da  minha  alma!... 

Então  Gonçalo,  que  aquelle  infindável  e  obtuso 
queixume  torturava,  como  um  íerro  cravado  e  re- 
cravado,  bateu  o  chinello  nas  lages,  berrou: 

— Escute,  mulher!  E  olhe  para  mim!  Mas  de  pé, 
de  pé!.. .  E  olhe  bem,  olhe  direita! 

Hirtamente  erguida,  atirando  as  mãos  para  as  cos- 
tas como  a  escapar  d'algemas  que  também  a  amea- 
çassem—  ella  arregalou  para  o  Fidalgo  os  olhos  es- 
pavoridos, fundos  olhos  pretos,  de  fundas  olheiras 
tristes,  que  lhe  enchiam  a  face  rechupada  e  morena. 

—  Bem,  perfeitamente!  exclamava  Gonçalo.  E  ago- 
ra diga!  Acha  que  tenho  bojo  de  lhe  mentir,  quan- 
do vocemecè  está  n"essa  afflicçâo?  Pois  então  soce- 
gue,  acabe  com  os  gritos,  que,  sob  minha  palavra, 
amanhã  cedo,  o  seu  homem  está  solto! 

E  a  Rosa  e  o  Bento,  ambos  triumphando : 

—  Pois  que  lhe  dizia  a  gente,  creatura  de  Deus? 


238  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Se  O  Snr.  Dr.  tinha  promettido. . .  Amanhã  lá  tem  o 
homem! 

Lentamente  ella  limpava  as  lagrimas,  já  silen- 
ciosas, á  ponta  do  avental  negro.  Mas  ainda  descon- 
fiada, com  os  tenebrosos  olhos  mais  arregalados,  de- 
vorando Gonçalo.  E  o  Fidalgo  mandava  com  certeza 
a  ordem,  cedinho,  de  madrugada?...  —  Foi  o  Bento 
que  a  convenceu,  com  violência; 

—  Oh  mulher,  vossê  até  parece  atrevida !  Ora  es- 
sa !  Pois  duvida  da  palavra  do  Snr.  Dr.  ? 

Ella  soltou  o  avental,  baixou  a  cabeça,  suspirou 
simplesmente : 

—  Ai,  então  muito  obrigada,  seja  pela  felicidade 
de  todos. . . 

E  agora  a  curiosidade  de  Gonçalo  procuraNa  os 
pequenos  que  ella  acarretara  desde  os  Bravaes  atra- 
vez  da  chuva  cerrada.  A  pequenina  de  mama  dormia 
com  beatitude  sobre  a  tampa  de  uma  arca,  onde  a 
boa  Rosa  a  aconchegara  entre  mantas  e  fronhas.  Mas 
o  pequeno,  de  sete  annos,  encolhido  n'uraa  cadeira 
deante  do  lume,  rente  ao  lençol  que  seccava,  seccando 
também,  com  a  carinha  afogueada  de  lebre,  tossia 
despedaçadamente,  n'um  cabecear  de  somno  e  can- 
çasso,  a  arquejar,  a  gemer  contra  a  tosse  que  o  es- 
falfava. Gonçalo  pousou  a  boceta  de  alperces  na  arca, 
palpou  a  mâó  com  que  elle,  sem  cessar,  raspava  pela 


A  ILLUSTRE   CASA  DE   RAMIRES  239 


abertura  da  camisa  encardida  o  peito  ainda  mais  en- 
cardido. 

—  Mas  esta  creança  tem  íebre!...  E  vossè,  com 
uma  noite  d'estas,  traz  o  pequeno  assim  desde  os 
Bravaes,  mulher? 

Da  cadeirinha  baixa,  onde  se  sentara  prostrada, 
ella  murmurou,  sem  erguer  a  magra  face,  torcendo 
a  ponta  do  avental: 

—  Ai!  era  para  que  elles  também  pedissem,  que 
estavam  sem  pae,  coitadinhos! 

—  Vocemecé  é  doida,  mulher!  E  pretende  talvez 
voltar  para  os  Bravaes,  debaixo  d"agoa,  com  as  crean- 
ças? 

Ella  suspirou: 

— Ai!  volto,  volto...  Não  posso  deixar  sozinha  a 
mãe  do  meu  homem,  que  tem  oitenta  annos  e  está 
entrevada. . . 

Então  o  Fidalgo  cruzou  descorçoadamente  os  bra- 
ços —  no  embaraço  d'aquella  aventura,  em  que,  por 
culpa  da  sua  ferocidade,  se  arriscavam  duas  crean- 
ças.  Mas  a  Piosa  entendia  que  a  pequenina,  a  de  ma- 
ma, não  sofíreria  com  a  caminhada,  bem  achegadi- 
nha  ao  collo  da  mãe,  debaixo  de  uma  manta  grossa.. 
Agora  o  outro,  com  a  tosse,  com  a  febre. . . 

—  Esse  íica  cá!  exclamou  logo  Gonçalo,  decidido.. 
Como  se  chama  elle?  Manoel...  Bem!  O  Manoel  fica 
cá.  E  vá  descançada,  que  a  Sr.*^  Rosa  toma  cuidado. 


240  A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Precisa  uma  boa  gemada,  depois  um  bom  suadoiro. 
Um  d"esles  dias  lá  lhe  apparece  nos  Bravaos,  curado 
e  mais  gordo...  Vá  socegada! 

De  novo  a  mulher  suspirou,  no  cançasso  immenso 
que  a  invadira,  a  amollecia.  E  sem.  resistir,  no  seu 
longo  e  abatido  habito  de  submissão: 

—  Pois  sim  senhor,  se  o  Fidalgo  manda,  está  mui- 
to bem. . . 

O  Bento,  entreabrindo  a  porta  do  pateo,  annun- 
ciava  uma  «aberta»,  o  negrume  a  levantar.  Gon- 
çalo immediatamente  apressou  a  volta  aos  Bravaes: 

—  E  não  tenha  medo,  mulher.  Vae  um  moço  da 
quinta  com  uma  lanterna,  e  um  guarda  chuva  para 
abrigar  a  pequena. . .  Escute !  Vocemecê  até  podia 
levar  uma  capa  de  borracha!...  Oh  Bento,  corre, 
desce  a  minha  capa  de  borracha.  A  nova,  a  que  com- 
prei em  Lisboa. . . 

E  quando  o  Bento  trouxe  o  «impermeável»  de 
longa  romeira,  o  lançou  por  sobre  os  hombros  da 
mulher,  que  o  estofo  rico  intimidava,  com  o  seu 
ruge-ruge  de  seda  —  foi  na  cozinha  uma  divertida 
risada.  O  pranto  passara,  como  a  chuva.  Agora  era 
uma  visita  amoravel,  findando  n'um  arranjo  alegre 
d' agasalhos.  A  Rosa  apertava  as  mãos,  banhada  de 
gosto : 

—  Assim  é  que  vocemecê  fica  uma  bonita  Mada- 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  211 


ma,  hein!...  Se  fosse  de  dia,  olhe  que  se  juntava 
gente ! 

A  mulher  sorria  emfim,  descoradamente,  sem  in- 
teresse : 

—  Ai!  nem  sei  que  pareço...  Oue  avantesma! 
Atravez  do  pateo,    onde    as   acácias   gottejavam 

docemente,  Gonçalo  acompanhou  o  rancho  até  á 
porta  do  pomar,  gritando  ainda— «Agasalhem  bem  a 
pequena!»  —  quando  já  a  lanterna  do  moço  se  fun- 
dia na  húmida  espessura  da  noite  acalmada.  Depois, 
na  cozinha,  batendo  contra  as  lages  as  solas  dos  chi- 
nellos  molhados,  apalpou  novamente  o  ^íanoelsinho, 
que  adormecera  n'um  somno  rouquejado,  torcido  so- 
bre as  costas  da  cadeira. 

—  Tem  pouca  tebre. .  .  Mas  precisa  um  suadoiro 
forte.  E,  antes  de  o  cobrirem  bem,  um  leite  quente, 
quasi  a  ferver,  com  cognac. . .  O  que  elle  precisava  tam- 
bém era  esfregado  a  coco. . .  Que  porcaria  de  gente! 
Einíim  fica  para  mais  tarde,  quando  se  curar. . .  E 
agora,  oh  Rosa,  mande  acima  alguma  cousa  para  eu 
cear,  cousa  solida,  que  não  jantei,  e  o  sarau  foi  tre- 
mendo ! 

Na  livraria,  depois  de  mudar  os  chinellos,  descan- 
çar,  Gonçalo  escreveu  ao  Gouveia  uma  carta  re- 
clamando com  commovida  urgência  a  liberdade  do 
Casco.  E  accrescentava :  —  «É  o  primeiro  pedido  que 
«lhe  faz  o  deputado  por  Villa-Clara  (comprimente !), 

16 


2Í2  A  ILLLSTUE  CASA  DE  RAMIUES 


«porque  acabo  de  receber  telegramma  do  nosso  An- 
«dré,  annunciundo  que  a  tudo  feito,  ministro  con- 
(í  corda,  etc.»  De  sorte  que  precisamos  communicar  1 
«Queira  pois  vossa  mercê  vir  jantar  amanhã  a  esta 
«sua  Torre,  á  sombra  do  Tito  e  com  acompanha- 
« mento  de  Videirinha.  Estes  dous  beneméritos  são 
«indispensáveis  para  que  haja  appetite  e  harmo- 
«nia.  E  rogo,  Gouveia  amigo,  que  os  avise  do 
«festim,  para  me  evitar  a  remessa  de  circulares 
«eloquentes. . .» 

Lacrada  a  carta,  retomou  languidamente  o  ma- 
nuscripto  da  isovella.  E,  trincando  a  rama  da  penna. 
ainda  procurou  vozes,  de  bom  sabor  medieval,  para 
aquelle  lance  em  que  o  Villico  e  as  roídas  enxergavam 
a  cavalgada  do  Bastardo,  pela  encosta  da  ilibei ra, 
com  refulgidos  d'armas,  sob  o  rijo  sol  d'Agosto. . . 

Mas  a  sua  imaginação,  desde  a  carta  escripta  ao 
Gouveia  pelo  «Deputado  de  Villa-Clara»  escapava 
desassocegadamente  da  velha  Honra  de  Santa  Ire- 
neia  —  esvoaçava  teimosamente  para  os  lados  de 
Lisboa,  da  Lisboa  do  S.  Fulgencio.  E  o  eirado  da 
torre  albarrau,  onde  o  gordo  Ordonho  gritava  esba- 
forido—incessantemente se  desfazia  como  névoa  molle, 
para  sobre  elle  surgir,  appetitoso  e  mais  interessante, 
um  quarto  do  Hotel  Bragança  com  varanda  sobre  o  Te- 
jo. . .  Foi  um  allivio  quando  o  Bento  o  apressou  para 
a  ceia.   E  á  mesa  espalhou  livremente  a  imaginação 


A  ILU  STRE  CASA  DE  RAMIRES  243 


por  Lisboa,  pelos  corredores  de  S.  Carlos,  por  sob  as 
arvores  da  Avenida,  atravez  dos  antiquados  palácios 
dos  seus  parentes  em  S.  Vicente  e  na  Graça,  atra- 
vez das  salas  mais  modernas  de  cultos  e  alegres 
amigos — parando  ús  vezes  deante  de  visões  que  con- 
siderava com  um  riso  deleitado  e  mudo.  Alugaria 
aos  mezes,  certamente,  uma  carruagem  da  Com- 
panhia. E  para  as  sessões  de  S.  Bento  sempre  luvas 
côr  de  pérola,  uma  flor  no  peito.  Por  commodidade 
levava  o  Bento,  bem  apurado,  com  casaca  nova... 

O  Bento  entrou  com  a  garrafa  do  cognac  n'twT)a 
salva.  Dera  a  carta  ao  Joaquim  da  Horta  com  a  re- 
commendação  de  correr  logo  ás  seis  horas  a  casa  do 
Snr.  Administrador,  de  se  demorar  na  Villa  por 
deante  da  Cadeia  até  soltarem  o  Casco. 

—  E  já  deitamos  o  pequeno  no  quarto  verde. 
Fica  perto  de  mim,  que  tenho  o  somno  leve,  se  elle 
berrar. . .  Mas  já  dorme  regaladamente. 

—  Está  socegado,  hein?  acudiu  Gonçalo,  sorvendo 
á  pressa  o  cálice  de  cognac.  Vamos  vèr  esse  cava- 
lheiro ! 

E  tomou  um  castiçal,  subiu  ao  quarto  verde  com 
o  Bento, '  sorrindo,  abalando  os  passos  pela  estreita 
escada.  No  corredor,  junto  da  porta,  n'um  desbo- 
tado camapé  de  damasco  verde,  a  Rosa  dobrara 
carinhosamente  a  roupa  trapalhona  do  pequeno,  o 
collete  esgaçado,  as  calças  enormes,  só  com  um  bo- 


A   ILÍXSTRE    CASA   DE   RAMIKES 


tão.  Dentro  o  leito  de  pau  preto,  vasto  leito  de  ce- 
remonia,  atravancava  a  parede  forrada  d' um  velho 
papel  avelludado  de  ramagens  verdes.  Ao  lado  dos 
dous  postes  torneados,  á  cabeceira,  pendiam  dous 
painéis,  retratos  de  antigos  Ramires,  um  Bispo 
obeso  folheando  um  folio,  um  formoso  Cavallei- 
ro  de  Malta,  de  barba  ruiva,  appoiado  á  espada, 
com  um  laçarote  de  rendas  sobre  a  couraça  polida. 
E  nos  altos  colchões  o  Manoelzinho  resonava,  sem 
tosse,  quieto,  abafado  pela  grossura  dos  cobertores, 
humedecido  por  um  suor  fresco  e  sereno. 

Gonçalo,  caminhando  sempre  de  leve,  repuxou 
cuidadosamente  a  dobra  do  lençol.  Desconfiado  das 
janellas  decrépitas,  experimentou  que  nâo  entras- 
se traiçoeiro  ar  pelas  gretas.  Mandou  pelo  Bento 
buscar  uma  lamparina,  que  arranjou  sobre  o  lava- 
tório, com  a  luz  esbatida  por  traz  d' uma  vazilha. 
Ainda  attentamente  relanceou  os  olhos  lentos  pelo 
quarto,  para  se  assegurar  do  socego,  do  silencio,  da 
penumbra,  do  conforto.  E  sahiu,  sempre  na  ponta 
dos  pés,  sorrindo,  deixando  o  filho  do  Casco  velado 
pelos  dous  nobres  Ramires — o  Bispo  com  o  seu  Tra- 
tado, o  Cavalleiro  de  Malta  com  a  sua  pura  espada. 


A   ILLUSTRE   CASA    DE    RAMIRES 


Recolhendo  do  Tanque- Velho,  do  fundo  da  quin- 
ta, onde  passara  a  calma,  depois  do  almoço,  na  fres- 
cura do  arvoredo,  entre  susurros  de  agoas  correntes, 
a  folhear  um  volume  do  Panorama  —  Gonçalo  en- 
controu sobre  a  mesa  da  livraria,  com  o  correio  de 
Oliveira,  uma  carta  que  o  sarprehendeu,  enorme, 
t-m  papel  almaço,  fechada  por  uma  obreia.  E  den- 
tro a  assignatura,  desenhada  a  tinta  azul,  era  um 
coração  chammejante. 

N'um  relance  devorou  as  linhas,  pautadas  a  lá- 
pis, d' uma  lettra  gorda,  arredondada  com  esmero: 
—  «Caro  e  Ex."'°  Snr.  Gonçalo  Ramires.  O  galante 
«Governador  civil  do  Districto,  o  nosso  atiradiço  An- 
«drc  Cavallciro,  passeiava  agora  constantemente  por 
«deante  dos  Cunhaes,  olhando  com  ternura  para  as 
«janellas  e  para  o  honrado  brazão  dos  Barròlos.  Co- 
«  mo  não  era  natural  que  andasse  a  estudar  a  archi- 
«tetura  do  Palacete  (que  nada  tem  do  notável),  con- 
«cluiu  a  gente  seria  que  o  digno  Cheíe  do  Districto 
«esperava  que  V.  Ex.*'  apparecessc  a  alguma  das  ja- 
«nellas  do  Largo,  ou  das  que  deitam  para  a  rua  das 
«Tecedeiras,  ou  sobretudo  yio  in/ranle  do  jardim. 
«para  reatar  com  V.  Ex/''  a  antiga  e  quebrada  ami- 
«zade.  Por  isso  muito  acertadamente  procedeu  V. 
«Ex."  em  correr  pessoalmente  ao  Governo  Civil,  e 
«propor  a  reconciliação,  e  abrir  os  braços  generosos 


Í4tí  •        A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


«ao  velho  amigo,  evitando  assim  que  a  primeira  An- 
«ctoridade  do  Districto  continuasse  a  esbanjar  um 
«tempo  precioso  n'aquelles  passeios,  de  olhos  prega- 
«dos  no  Palacete  dos  fidalguissimos  Barrôlos.  En- 
« víamos  portanto  a  V.  Ex.''  os  nossos  sinceros  para - 
«bens  por  esse  acertado  passo  que  deve  calmar  as 
«impaciências  do  fogoso  Cavalleiro  e  redondar  em 
«beneficio  dos  serviços  públicos!» 

Revirando  o  papel  nas  mãos,  Gonçalo  pensou: 

— É  das  Louzadas! 

Ainda  estudou  a  lettra,  ars  expressões,  descorti- 
nando que  redundar  fora  escripto  com  um  O,  archi- 
tectura  sem  C.  E  rasgou  furiosamente  a  grossa  fo- 
lha, rosnando  no  silencio  da  livraria: 

—  Aquellas  bêbadas! 

Sim,  era  d'ellas,  das  odiosas  Louzadas!  E  essa  ori- 
gem mais  o  aterrava  —  porque  maledicência,  lançada 
por  tão  ardentes  espalhadoras  de  maledicências,  já 
certamente  penetrara  em  todas  as  casas  d'01iveira, 
mesmo  na  Cadeia,  mesmo  no  Hospital !  E  agora  a  ci- 
dade divertida,  lambendo  o  escândalo,  relacionava 
perfidamente  os  rodeios  do  André  pelos  Cunhaes  com 
essa  sua  visita  ao  Governo  Civil  que  assombrara  a 
Arcada.  Na  ideia  pois  d'01iveira,  e  sob  a  inspiração 
das  Louzadas — fora  elle,  elle.  Gonçalo  Mendes  Rami- 
res, que  arrancara  o  Cavalleiro  á  sua  Repartição, 
o  conduzira    serviçalmente   ao  Largo    d'El-Rei,    lhe 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  P.AMIRES  2'l7 


escancarara  as  portas  do  Palacete  até  ahi  rondadas 
e  miradas  sem  proveito,  e  com  sereno  descaro  alco- 
vitara os  amores  da  irmã!  Se  taes  desavergonhadas 
não  mereciam  que  lhes  arregaçassem  as  sujas  saias  no 
meio  da  Praça,  em  manhã  de  Missa,  e  lhes  fustigas- 
sem as  nádegas  melladas,  furiosamente,  até  que  o 
sangue  ensopasse  as  lages! , . . 

E,  para  maior  damno,  as  apparencias  todas  se 
combinavam  contra  elle,  traidoramente!  Essa  insis- 
tência de  André,  cocando  Gracinha,  estrondeando  a 
calçada  em  torno  do  Palacete,  crescera,  impressio- 
nava, justamente  agora,  n*este  Agosto,  nas  vésperas 
d'essa  sua  apparição  á  janella  do  Governo  Civil,  que 
Oliveira  com  menta  va  como  um  mistério  histórico. 
Oue  inopportunamente  morrera  o  animal  do  Sanches 
de  Lucena!  Mezes  antes,  nem  mesmo  a  malicia  das 
Louzadas  ligaria  a  sua  reconciliação  com  André  a 
um  cerco  amoroso  que  não  começara,  ou  não  andava 
tão  murmurado.  Três  ou  quatro  mezes  depois,  An- 
dré, sem  esperança  ante  o  Palacete  inaccessivel,  cer- 
tamente findaria  os  seus  giros  pelo  Largo,  de  rosa 
ao  peito!  Mas  não!  infelizmente  quando  esse  André, 
com  maior  estrépito,  ronda  a  porta  almejada — é  que 
elle  acode,  e  abraça  o  rondador,  e  lhe  facilita  a  porta! 
E  assim  a  maledicência  das  Louzadas  encontrava  uma 
base,  a  que  todos  na  cidade  podiam  palpar  a  subs- 
tancia e  a  solidez,  e  sobre  ella  se  erigia  como  Ver- 
dade Publica!  Infames  Louzadas! 


248  A  ILLLSTHE  CASA  DE  RAJIIllES 


Mas  agora?  O  que?  manter  rigidamente  as  suas 
relações  com  o  Cavalleiro  dentro  da  Politica,  evi- 
tando escorregadias  intimidades  qu.e  o  tornassem  lo- 
go nos  Cunhaes,  como  outr'ora  na  Torre,  o  conviva 
desejado?  Como  poderia?  Desde  que  elle  se  re- 
conciliava com  André,  logo  e  tão  naturalmente  co- 
mo a  sombra  segue  a  inclinação  do  ramo,  se  re- 
conciliava também  o  Barròlo,  seu  cunhado  e  sua 
sombra...  Mas  como  impor  ao  Earrôlo  que  a  sua 
renovada  familiaridade  com  o  Cavalleiro  se  reali- 
sasse  unicamente  dentro  da  Politica  como  dentro 
d"um  Lazareto?  —  «Eu  sou  outra  vez  o  velho  ami- 
go do  André,  tu,  Barròlo,  também  —  mas  nunca  o 
convides  para  a  tua  mesa,  nem  lhe  abras  a  tua  por- 
ta!»—  Imposição  desconcertada,  de  dura  impertinên- 
cia—  e  que,  na  pequena  Oliveira,  logo  os  fáceis 
encontros,  a  simplicidade  hospitaleira  do  Barròlo, 
quebrariam  como  um  barbante  poido...  E  depois 
que  grotesca  attitude  a  sua,  hirto  deante  do  por- 
tão do  Palacete,  como  um  Archaujo  S.  Miguel,  de 
bengala  de  fogo  na  mão,  para  sustar  a  intrusão 
de  Satanaz,  Chefe  do  Districto!  Mas  também  que 
toda  a  cidade  largasse  a  cochichar  pelos  cantos  o  no- 
me de  Gracinha  embrulhado  ao  nome  de  André,  com 
o  nome  d'elle,  (jonçalo,  einmaranhado  atravez  como 
o  íio  favorável  que  os  atara — era  horrível. 

E  na  impaciência  d"esta  difíiculdade,  de  malhas 


A  ILUSTRE  CASA  UE  HA.MIRES  249 


tão  ásperas,  que  tanto  o  feriam,  terminou  por  es- 
murrar a  meza,  revoltado: 

—  Irra,  que  massada!  São  tudo  massadas,  n'estas 
terras  pequenas  e  coscovilheiras. . . 

Em  Lisboa  quem  se  importaria  que  o  Snr.  Go- 
vernador civil  passeasse  n"um  certo  Largo  —  e  que 
certo  Fidalgo  da  Torro  se  reconciliasse  com  o  Snr. 
Governador  Civil  ? . . .  Pois  acabou !  Romperia  sober- 
bamente para  diante,  como  so  habitasse  Lisboa, 
desafogado  de  mexericos  e  de  malignos  olhinhos  a 
cocar.  Era  Gonçalo  Mendes  Ramires,  da  casa  de  Ra- 
mires! Mil  annos  do  nome  e  de  solar!  Dominava  bem 
acima  de  Oliveira,  de  todas  as  suas  Louzadas.  E  não 
só  pelo  nome,  louvado  Deus,  mas  pelo  espirito. . .  O 
André  era  seu  amigo,  entrava  em  casa  de  sua  irmã 
—  e  Oliveira  que  estoirasse! 

E  nem  consentiu  que  a  suja  carta  das  Louzadas 
desmanchasse  a  quieta  manhã  do  trabalho  para  que 
se  preparara  desde  o  almoço,  relendo  trechos  do 
Poemeto  do  Tio  Duarte,  folheando  artigos  do  Pano- 
rama sobre  as  guerras  de  muralhas  no  século  xii. 
Com  um  estorço  d'attenção  erudita  abancou,  mergu- 
lhou a  penna  no  tinteiro  de  latão  que  servira  a  trez 
gerações  do  Ramires.  E  emquanto  repassava  as  tiras 
trabalhadas,  nunca  o  Castello  de  Santa  Ireneia  lhe 
parecera  tão  heróico,  de  tão  soberana  estatura,  so- 
bre tamanha  collina  d*Historia,  sobranceando  o  Reino. 


250  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


que  em  torno  d'elle  se  alargava,  se  cobria  de  villas 
e  messes,  pelo  esforço  dos  seus  castellões ! 

Temerosa,  com  efíeito,  se  erguia  a  antiga  Honra 
de  Santa  Ireneia,  n'essa  Aííonsina  manhã  d'Agosto  e 
rijo  sol,  em  que  o  pendão  do  Bastardo  surgira,  entre 
fulgidos  d'armas,  para  além  dos  arvoredos  da  Ribei- 
ra! Já  por  todas  as  ameias  se  apinhavam  os  bestei- 
ros, espiando,  encurvadas  as  bestas.  Das  torres  e 
adarves  subia  o  fumo  grosso  do  breu,  fervendo  nas 
cubas,  para  despejar  sobre  os  homens  de  Bayão  que 
tentassem  a  escalada.  O  Adail  corria  pelas  quadrei- 
las,  relembrando  as  traças  de  defeza,  revistando  os 
íeixes  de  virotões,  os  pedregulhos  d'arremesso.  E  no 
immenso  terreiro,  por  entre  os  alpendres  colmados, 
surdiam  velhos  solarengos,  servos  do  lorno,  ser- 
vos da  abegoaria,  que  se  benziam  com  terror,  pucha- 
vara  pelo  saião  d'algum  apressado  homem  de  roída, 
para  saberem  da  hoste  que  avançava.  No  cmtanto  a 
cavalgada  passara  a  Ribeira  sobre  a  rude  ponte  de 
pau — já,  por  entre  os  alamos,  serenamente  se  acer- 
cava do  Cruzeiro  de  granito,  outr'ora  erguido  nos 
coníins  da  Honra  por  Gonçalo  Ramires,  o  Cortador. 
E,  no  socego  da  manhã  abrazada,  mais  fundamente 
resoaram  as  buzinas  do  Bastardo,  e  o  seu  toque  lento 
e  triste  á  mourisca. . . 

Mas  quando  Gonçalo,  enlevado  no  trabalho,  ten- 
tava reproduzir,   com  termos   bom  sonoros,  ávida- 


A  ILIASTRE  CASA  DE  RAMIRES  2Õ1 


mente  rebuscados  no  Diccionarío  de  Synonimos.  o 
toar  arrastado  das  buzinas  de  Bayâo— sentiu  real- 
mente, do  lado  da  Torre,  um  gemer  de  sons  graves 
que  crescia  atravez  dos  limoeiros.  Deteve  a  penna  — 
e  eis  que  o  Fado  dos  Ramires  s'eleva  offertadamente 
da  horta,  em  serenada,  para  a  varanda  florida  de  ma- 
dresilva : 


Ora,  quem  te  vi'  solitária, 
Torre  de  Santa  Ireneia.  .  . 


O  Videirinha!  —  Correu  alvoroçadamente  á  janel- 
la.  Um  chapéu  coco  tremulou  entre  os  ramos,  um 
brado  estrugio,  acclamador: 

—  Viva  o  deputado  por  Villa-Clara !  Viva  o  illns- 
tre  deputado  Gonçalo  Ramires! 

No  violão  rompera  triumphalmente  o  Hymno  da 
Carta.  Videirinha,  alçado  na  biqueira  das  botas  gas- 
peadas  de  verniz,  gritava  —  «Viva  a  illustre  casa  de 
Ramires!»  E  por  baixo  do  chapéu  coco,  sacudido 
com  delirio,  João  Gouveia,  sem  poupar  a  garganta, 
urrava  —  «Viva  o  illustre  deputado  por  Villa-Clara! 
Viva !  B 

Magestosamente,  Gonçalo,  alagado  de  riso,  esten- 
deu da  varanda  o  braço  eloquente: 

—  Obrigado,  meus  queridos  concidadãos!  Obriga- 
do!...   A  honra  que  me  fazeis,  vindo  assim,  n*esse 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


lormoso  grupo,  o  chefe  glorioso  da  Administração,  o 
inspirado  Pharmaceutico,  o. . . 
Mas  reparou...  E  o  Tito? 

—  O  Tito  não  veio?...  Oh  João  Gouveia,  vof>' 
não  avisou  o  Tito? 

Repondo  sobre  a  orelha  o  chapéu  coco,  o  Admi- 
nistrador, que  arvorara  uma  gravata  do  setim  escar- 
late, declarou  o  Tito  «um  animal»: 

—  Estava  combinado  virmos  todos  trez.  Até  elle 
devia  trazer  uma  dúzia  de  foguetes,  para  estalar  aqui 
com  o  Hymno. . .  A  reunião  era  ao  pé  da  Ponte. . . 
Mas  o  animal  não  appareceu.  Em  todo  o  caso  ficou 
avisado,  avisadíssimo. . .  E  se  não  vier,  é  traidor. 

—  Bem,  subam  vocês!  gritou  Gonçalo.  Eu  n'um 
instante  me  visto.  E,  para  aguçar  o  appetite,  propo- 
nho um  vermouth,  depois  uma  volta  pela  quinta  até 
ao  pinhal!. . . 

Immediatamente  Videirinha,  teso,  empinando  o 
violão,  metteu  pela  rua  larga  da  horta,  recoberta  de 
parreira;  e  atraz  .João  Gouveia  atirava  os  passos  em 
cadencia  nobre,  alçando  o  guarda-sol  como  um  pen- 
dão. Quando  Gonçalo  entrou  no  quarto,  berrando 
pelo  Bento  e  por  agoa  quente  —  o  Fado  dos  Ramires 
soava,  em  trinados  heróicos,  atravez  do  feijoal,  por 
sob  a  janella  aberta  onde  seccava  o  lençol  do  banho. 
E  eram  as  quadras  preferidas  do  F^idalgo,  as  quadras 
em  que  o  grande  avô  Ruy  Ramires,  sulcando  os  ma- 


A  ILLLSTUE  CASA  UE  UAMIUES  2o3 


res  de  Mascate  n'ama  urca,  encontra  trez  fortes  naus 
inizlezas,  e,  do  alto  do  seu  castello  de  proa,  vestido  de 
gran-vermelha,  com  a  mão  no  cinto  d'anta  tauxeado 
d'ouro  e  pedras,  soberbamente  as  intima  a  que  se 
rendam . . . 


Todo  alegre,  e  a  mão  no  cinto, 
Junto  da  Signa  Real, 
Gritando  ás  naus  —  "  Amainae 
Por  El-Rei  de  Portugal  !...•• 


Gonçalo  abotoava  á  pressa  os  suspensórios,  reto- 
mara o  canto  glorificador  —  Todo  ale<jre,  a  mão  no 
cinto...  Junto  da  Signa  Real...  —  E,  atra  vez  do  es- 
forço esganiçado,  pensava  que  cora  tal  linha  d'avós, 
bem  podia  desprezar  Oliveira  e  as  suas  Louzadas  hor- 
rendas. Mas  o  trovão  lento  de  Tito  retumbou  no  cor- 
redor : 

—  Então  esse  deputado  de  Villa-Clara  ? . . .  Já  está 
a  vestir  a  larda? 

Gonçalo  correu  á  porta  do  quarto,  radiante: 

—  Entra,  Tito !  Os  deputados  já  não  usam  farda, 
homem!  Mas  se  a  tivesse,  c'os  diabos,  ia  hoje  farda, 
e  espadim  e  chapéu  armado,  para  honrar  hospedes 
tão  illustres! 

O  outro  avançara  vagarosamente,  com  as  mãos 
nas  algibeiras  da  rabona  de  velludo  côr  d'azeitona,  o 


A    ILUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


vasto  chapéu  braguez  atirado  para  a  nuca,  desafogan- 
do a  honesta  íace  barl)uda,  vermelha  de  saúde  e  sol: 

—  Eu,  por  farda,  queria  dizer  libré...  Libré  de 
lacaio. 

—  Ora  essa!? 

E  o  outro  mais  retumbante: 

—  Pois  o  que  vaes  tu  ser,  homem,  senão  um  su- 
jeito ás  ordens  do  S.  Fulgencio,  do  horrendo  care- 
ca? Não  lhe  serves  o  chá,  quando  elle  te  mandar;  mas, 
quando  elle  te  mandar  votar,  votas!  Alli,  direitinho,  ás 
ordens!  «Oh  Ramires,  vote  lá!»  E  Piamires,  zás,  vo- 
ta... É  de  escudeiro,  homem,  é  de  escudeiro  de  li- 
bré . . . 

Gonçalo  sacudiu  os  hombros,  impaciente: 

—  Tu  és  uma  creatura  das  selvas,  lacustre,  quasi 
prehistorica. . .  Não  entendes  nada  das  realidades  so- 
ciaes! . ..  Na  sociedade  não  ha  princípios  absolutos ! . . . 

Mas  o  Tito,  imperturbável: 

—  E  esse  Cavalleiro?  Também  já  é  rapaz  de  ta- 
lento? Também  já  governa  bem  o  Districto? 

Então  Gonçalo  protestou,  picado,  com  uma  roseta 
forte  na  face.  E  quando  negara  elle  ao  André  talento 
.ou  geito  de  governar?  Nunca!  Só  rira,  gracejando, 
da  sua  pompa,  da  bigodeira  lustrosa ...  E  de  resto, 
o  serviço  do  Paiz  exigia  que  por  vezes  se  alliassem 
homens  que  nem  partilhavam  os  mesmos  gostos,  nem 
procuravam  os  mesmos  interesses! 


A  ILUSTRE  CASA  1)K  UAMIKKS  255 


—  E  eiiifiQi  O  Snr.  António  Villalobos  vem  hoje 
um  moralista  muito  terrível,  um  Catão  com  quem  se 
não  pode  jantar!...  Ora  íoi  sempre  o  costume  dos 
Philosophos  muito  ríspidos  fugir  da  sala  do  banque- 
te onde  triumpha  o  devasso,  e  protestar  comendo  na 
cosinha ! 

Tito,  serenamente,  virou  as  costas  magestosas. 

—  Onde  vaes,  ó  Tito? 

—  Para  a  cosinha! 

E,  como  Gonçalo  ria,  Tito,  junto  da  porta,  girando 
como  uma  torre  que  gira,  encarou  o  seu  amigo: 

—  Sério,  sério,  Gonçalo!  Eleição,  reconciliação, 
submissão,  e  tu  em  Lisboa  ás  cortezias  ao  S.  Ful- 
gencio,  e  em  Oliveira  de  braço  dado  com  o  André, 
tudo  isso  me  parece  que  destoa . . .  Mas  emfim  se  a 
Rosa  hoje  se  apurou,  não  alludamos  mais  a  cousas 
tristes ! 

E  Gonçalo  bracejava,  de  novo  protestava — quando 
u  violão  resoou  no  corredor,  com  as  patadas  bem 
marchadas  do  Gouveia,  e  o  Fado  recomeçou,  mais 
meigo,  mais  glorificador : 

—  Velha  casa  de  Ramires, 
Honra  e  flor  de  Portugal! 


VI 


A  casa  do  Cavalleiro  em  Corinde  era  uma  edifi- 
cação dos  fins  do  século  xvm,  sem  elegância  e  sem 
arte,  pintada  d"amarelIo,  lisa  e  vasta,  com  quatorze 
janellas  de  frente,  quasi  ao  meio  d'uma  quinta  chã, 
toda  de  terras  lavradas.  Mas  uma  avenida  de  casta- 
nheiros conduzia,  com  alinhada  nobreza,  ao  pateo  da 
frente,  ornado  por  dois  tanques  de  mármore.  Os 
jardins  conservavam  a  abundância  esplendida  de 
rosas  que  os  tornara  famosos  —  e  lhes  merecera  em 
tempos  do  avô  de  André,  o  Desembargador  Mar- 
tinho, uma  visita  da  Snr.*  D.  Maria  II.  E  dentro  to- 
das as  salas  reluziam  d*asseio  e  ordem,  pelos  cuidados 
da  velha  governanta,  uma  parenta  pobre  do  Caval- 
leiro, a  Snr.*  D.  Jesuina  Rollim. 

Quando  Gonçalo,  que  viera  da  Torre  na  egoa, 
atravessou  a  ante-sala,  ainda  reconheceu  um  dos  pai- 
néis da  parede,  fumarento  combate  de  galiões,  que 


258  A  ILLUSTHE  CASA  DE  RAMIRES 


elle  uma  tarde  rasgara  jogando  o  espadão  com  An- 
dré. Sob  esse  painel,  á  borda  do  canapé  de  palhinha, 
esperava  melancolicamente  um  amanuense  do  Go- 
verno Civil,  com  a  sua  pasta  vermelha  sobre  os  joe- 
lhos. E  d"  uma  porta  remota,  ao  fundo  do  corredor, 
André,  avisado  pelo  creado,  o  fiel  INIatheus,  gritou 
alegremente : 

—  Oh  Gonçalo,  entra  para  cá,  para  o  quarto!  Sahi 
da  tina...  Ainda  estou  em  ceroulas! 

E  em  ceroulas  o  abraçou,  n'um  generoso  abraço 
de  parabéns.  Depois,  em  quanto  se  vestia,  por  entre 
as  cadeiras  atravancadas  cora  o  recheio  das  malas 
—  gravatas,  peúgas  de  seda,  garrafas  de  perfumes  — 
conversaram  do  calor,  da  jornada  enfadonha,  de  Lis- 
boa despovoada . . . 

— Um  horror!  exclamava  o  Cavalleiro  aquecendo 
um  ferro  de  frisar  á  lâmpada  d'alcool.  Todas  as  ruas 
da  Baixa  em  obras,  cobertas  de  caliça,  de  poeirada. 
O  Central  enfestado  de  mosquitos.  Muito  mulato. 
Uma  Tunis,  Lisboa!...  Mas  emfim,  lá  combatemos 
bravamente  o  bom  combate! 

Gonçalo  sorria,  do  canto  do  divan  onde  se  accom- 
modára,  entre  uma  pilha  de  camisas  de  còr  e  outra 
de  ceroulas  com  monogramma  flammante: 

—  E  então,  Andrésinho,  tudo  arranjado,  hein? 

O  Cavalleiro,  deante  do  toucador,  frisava  com  en- 
levado esmero  as  pontas  grossas  do  bigode.  E  só  de- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  239 


pois  de  o  ensopar  em  brilhantina,  d'acamar  as  ondas 
da  cabelleira  rebelde,  de  se  mirar,  de  se  requebrar, 
assegurou  a  Gonçalo,  já  inquieto,  que  a  eleição  fi- 
cara solida . . . 

—  Mas  imagina  tu!  Quando  appareci  em  Lisboa, 
no  Ministério  do  Reino,  encontrei  o  circulo  promet- 
tido  ao  Pitta,  ao  Theotonio  Pitta,  o  grande  homem 
(la  Verdade . . . 

O  Fidalgo  pulou,  despenhando  a  ruma  de  camisas: 

—  E  então?... 

E  então  elle  mostrara  muito  asperamente  ao  José 
Ernesto  a  inconveniência  de  dispor  do  Circulo  como 
d'um  charuto,  sem  o  consultar,  a  elle.  Governador 
Civil — e  dono  do  circulo...  E  como  o  José  Ernesto  se 
arrebitava,  alludia  á  conveniência  superior  do  Go- 
verno, elle  logo,  estendendo  o  dedo  firme:  —  «Pois 
Zésinho,  flor,  ou  trago  o  Piamires  por  Villa-Clara,  ou 
me  demitto,  e  arde  Tróia!...»  Espantos,  escarcéus, 
berreiros  —  mas  o  José  Ernesto  cedera,  e  tudo  findou 
jantando  ambos  em  Algés  com  o  tio  Reis  Gomes,  on- 
de á  noite,  ao  «bluff»,  as  senhoras  lhe  arrancaram 
quatorze  mil  reis. 

—  Era  resumo,  Gonçalinho,  precisamos  conservar 
os  olhos  attentos.  O  José  Ernesto  é  rapaz  leal,  meu 
velho  amigo.  E  depois  conhece  o  meu  génio . . .  Mas 
lia  os  compromissos,  as  pressões...  E  agora  a  novi- 


2G0  A  ILLUSTRE  CASA.  DE  RAMIRES 


dade  pittoresca.  Sabes  quem  se  propõe  contra  ti,  pe- 
los Regeneradores?...  Adivinha...  O  Julinho! 

—  Que  Julinho?...  O  Júlio  das  photographias? 

—  O  Júlio  das  photographias. 

—  Diabo! 

O  Cavalleiro  encolheu  os  hombros,  com  piedade: 

—  Arranja  dez  votos  á  porta  da  quinta,  tira  o  re- 
trato a  todos  os  taverneiros  do  circulo  em  mangas 
de  camisa,  e  continua  a  ser  o  Julinho...  Não!  só  Lis- 
boa me  inquieta,  a  canalha  politica  de  Lisboa! 

Gonçalo  torcia  o  bigode,  desconsolado: 

—  Imaginei  tudo  mais  solido,  mais  inabalável... 
Assim  com  todas  essas  intrigas,  ainda  surde  trapa- 
lhada... Ainda  lá  não  vou! 

O  Cavalleiro,  ao  espelho,  esticava  o  fraque — que 
experimentara  abotoado,  depois  repuxadamente  aber- 
to sobre  o  collete  de  íustâo  côr  de  azeitona  onde, 
no  trespasse  largo,  tufava  a  gravata  de  sedinha  cla- 
ra, prendida  por  uma  saphira.  Por  fim,  encharcando  o 
lenço  com  essência  de  feno: 

—  Nós  estamos  bem  alliados,  bem  consagrados, 
não  é  verdade?  Então,  meu  caro  Gonçalo,  socega,  e 
almocemos  regaladamente ! . . .  Creio  que  este  fraque 
do  nosso  Amieiro  assenta  com  certa  graça,  hein? 

—  Magnifico!  affirmou  Gonçalo. 

—  Bem.  Então  agora  descemos  ao  jardim,  para  tu 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  ÍGl 


reveres  os  velhos  poisos  e  te  florires  com  uma  rosa 
de  Corinde. 

E  logo  no  corredor,  ornado  de  jarrões  da  índia, 
de  arcas  de  charão,  enlaçando  o  braço  de  Gonçalo, 
do  seu  recuperado  Gonçalo: 

—  Pois,  meu  filho,  aqui  pisamos  ambos  de  novo 
os  nobres  soalhos  de  Corinde,  como  ha  cinco  annos . . . 
E  nada  mudou,  nem  um  creado,  nem  uma  cortina! 
Agora,  um  d'estes  dias,  preciso  visitar  a  Torre. 

Gonçalo  accudiu  ingenuamente: 

—  Oh!  a  Torre  está  muito  mudada...  Muito  mu- 
dada ! 

E  um  embaraçado  silencio  pesou  —  como  se  entre 
elles  surgisse  a  imagem  entristecida  da  antiga  quinta, 
no  tempo  dos  amores  e  das  esperanças,  quando  An- 
dré e  Gracinha  procuravam  as  ultimas  violetas  d'Abril, 
sob  o  sorriso  tutelar  de  Miss  Rhodes,  rente  aos  húmi- 
dos muros  da  Mãe  d'Agoa.  Ainda  em  silencio  desce- 
ram a  escada  de  caracol  —  por  onde  ambos  outr'ora 
se  despenhavam  cavalgando  o  corrimão.  E  em  baixo, 
n*uma  sala  abobadada,  rodeada  de  bancos  de  ma- 
deira com  as  armas  dos  Cavalleiros  nas  espaldas, 
André  quedou  deante  da  porta  envidraçada  do  jar- 
dim, ondeou  um  gesto  desconsolado  e  languido : 

— Eu  também,  agora,  pouco  appareço  em  Corin- 
de. E,  comprehendes  bem  que  não  me  reteem  em 
Oliveira  os  cuidados  da  Administração . . .   Mas  este 


262  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


casarão  arrefeceu,  alargou,  desde  a  morte  da  ma- 
mã. Ando  aqui  como  perdido.  E  acredita,,  quando 
cá  me  demoro,  são  uns  passeios  tristonhos  por  esses 
jardins,  pela  Rua  Grande . . .  Ainda  te  lembras  da  Rua, 
Grande?...  Vou  envelhecendo  muito  solitariamente, 
meu  Gonçalo ! 

Gonçalo  murmurou,  por  concordância,  syrapathia 
renovada : 

—  Eu  também  m'aborreço  na  Torre... 

—  Mas  tens  outro  génio!...  E  eu  realmente  sou 
um  elegíaco. 

Correu,  com  um  estorço,  o  fecho  perro  da  porta  en- 
vidraçada. E  limpando  os  dedos  ao  lenço  perfumado: 

—  Eu  creio  que  Corinde,  agora,  só  me  encantava 
com  grandes  cerros  escalvados,  grandes  rochedos 
agrestes...  Ás  vezes,  cá  dentro  d'alraa,  necessito  o 
ermo  de  S.  Bruno... 

Gonçalo  sorria  d'aquelle  appetite  ascético,  mur- 
murado com  preciosidade,  atravez  da  bigodeira  tor- 
cida a  ferro,  resplandecente  de  brilhantina.  E  no  ter- 
raço, junto  á  balaustrada  de  pedra  enramada  d"hera, 
galhofou,  louvando  o  areado  alinho,  o  relusente  viço 
do  jardim: 

— Com  efteito,  para  um  discípulo  de  S.  Bruno, 
que  escândalo,  todo  este  asseio!  IMas  para  um  pecca- 
dor  como  eu,  que  delicia! ...  O  jardim  da  Torre  anda 
um  chavascal. 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  263 


—  A  prima  Jesuina  gosta  de  flores.  Tu  não  co- 
nheces a  prima  Jesuina?  Uma  velha  parenta  da 
mamã,  que  governa  agora  a  casa.  Coitada!  e  com 
um  escrúpulo,  com  um  amor ...  Se  não  fosse  a  santa 
creatura,  os  porcos  fossavam  nos  canteiros...  Meu 
filho,  onde  não  ha  saia,  não  ha  ordem  1 

Desceram  a  escadaria  redonda,  por  entre  os  vasos 
de  louça  azul  que  trasl)ordavam  de  gerânios,  de 
secias,  de  canas  da  índia.  Gonçalo  recordou  a  vés- 
pera de  S.  João  em  que  rolara  por  aquelles  degraus, 
n'ura  trambulhão  tremendo,  com  os  braços  carre- 
gados de  foguetes.  E  lentamente,  atravez  do  jardim, 
evocavam  memorias  da  camaradagem  antiga.  Lá  se 
conservava  o  trapézio,  dos  tempos  em  que  ambos 
cultivavam  a  religião  heróica  da  força,  da  gymnastica, 
do  banho  frio...  N'aquelle  banco,  sob  a  magnólia, 
lera  uma  tarde  André  o  primeiro  canto  do  seu  Poe- 
ma, o  Fronteiro  d'Arzilla.  E  o  alvo?  O  alvo  onde 
se  exerciam  á  pistola,  para  os  futuros  duellos,  ine- 
vitáveis na  campanha  que  ambos  meditavam  contra 
o  velho  Syndicato  Constitucional?...  — Oh!  toda  essa 
parte  do  muro,  que  pegava  com  o  lavadoiro,  fora 
derrubada  depois  da  morte  da  mamã,  para  alargar 
a  estufa ... 

—  De  resto  o  alvo  era  inútil!  accrescentou  o  Ca- 
valleiro.   Eu  logo  por  esse  tempo  entrei  também  no 


264  A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


Syndicato  . . .  E  agora  entras  tu,  pela  porta  que  eu  te 
abro! 

Então  Gonçalo,  que  colhera  e  esmagava  entre  os 
dedos,  para  lhe  sorver  o  perfume,  folhas  de  lucia- 
lima  —  acudiu  com  uma  franqueza,  que  aquelle  des- 
enterrar de  recordações  tornava  mais  penetrante  e 
sentida: 

—  E  eu  desejo  entrar,  e  ardentemente,  bem  sa- 
bes. ]Mas  tu  afianças  a  eleição,  com  segurança?  Não 
surgirá  diíficuldade,  Andrésinho? . . .  Esse  Pitta  é  um 
hábil! 

O  Cavalleiro  murmurou  apenas,  mergulhando  os 
dedos  nas  cavas  do  coUete: 

—  Da  habilidade  dos  Pittas  se  ri  a  força  dos  Ca- 
valleiros . . . 

Por  trez  degraus  de  tijolo  baixaram  ao  outro  jar- 
dim, desafogado  de  arvoredo  e  sombra,  onde  desabro- 
chava desde  Maio,  com  explendor,  o  tão  celebrado 
bosque  de  roseiras,  orgulho  da  quinta  de  Corinde, 
que  deleitara  uma  Rainha.  Aquelle  íacil  desdém  pelo 
Pitta  confirmava  a  segurança  da  Eleição.  Gonçalo, 
caminhando  respeitosamente  como  n  um  Museu,  re- 
gou de  louvores  deslumbrados  as  rosas  do  Caval- 
leiro : 

—  Uma  belleza,  André,  uma  maravilha!  Tens  aqui 
rosas  sublimes . .  .  Aquellas  repolhudas,  além,  que 
luxo !  E  estas  amarellas  ?  deliciosas ! . . .  Olha  este  en- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  265 


canto!  o  ruborsinho  a  surdir,  a  raiar,  do  íundo  das 
pétalas  brancas . . .  Oh,  que  escarlate!  Oh,  que  divino 
escarlate! 

O  Cavalleiro  cruzara  os  braços,  com  gracejadora 
melancolia : 

—  Pois  vê  tu !  Tal  é  a  minha  solidão  social  e  sen- 
timental que,  com  todas  estas  rosas  abertas,  não  te- 
nho a  quem  mandar  um  ramo!...  Estou  reduzido  a 
llorir  as  Louzadas! 

Um  escarlate,  mais  %ivo  do  que  as  rosas  que  ga- 
bava, cobriu  as  laces  do  Fidalgo: 

—  As  Louzadas!  Oh  que  desavergonhadas! 
André  atirou  ao   seu  amigo  os  lustrosos  olhos, 

n'um  inquieto  reparo  de  curiosidade: 

—  Por  quê?...  Desavergonhadas,  por  que? 

—  Por  quê  ?  Por  que  o  são !  Pela  sua  natureza, 
e  pela  vontade  de  Deus ! . . .  São  desavergonhadas 
como  estas  rosas  são  vermelhas. 

E  o  Cavalleiro,  tranquillisado : 

—  Ah,  genericamente . . .  Com  effeito  têm  immensa 
peçonha.  Por  isso  eu  as  cubro  de  rosas.  E  em  Oli- 
veira, todas  as  semanas,  meu  filho,  tomo  com  ellas 
um  chá  respeitoso! 

—  Pois  não  as  amansas,  rosnou  o  Fidalgo. 

^las  o  Matheus  apparecêra  nos  degraus  de  tijolo 
com  o  guardanapo  na  mão,  a  calva  rebrilhando  ao 
sol.  Era  o   almoço.   O  Cavalleiro  colheu  para  Gon- 


266  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


çalo  uma  «rosa  triumphal» — e  para  si  um  a  botão 
innocente ...»  E,  enflorados,  subiam  para  o  terraço 
entre  o  brilho  e  o  perfume  de  outras  roseiras — quan- 
do o  Cavalleiro  parou  com  uma  ideia: 

—  A  que  horas  vaes  ta  para  Oliveira,  Gonçalinho? 
O  Fidalgo  hesitou.  Para  Oliveira?...  Não  tencio- 
nava apparecer  em  Oliveira,  toda  essa  semana . . . 

—  Por  quê?  É  urgente  que  vá  a  Oliveira? 

—  Pois  certamente,  filho !  Áraanhâ  mesmo  preci- 
samos conversar  com  o  Barrôlo,  combinarmos,  por 
causa  dos  votos  da  Murtosa!...  Meu  querido  Gon- 
çalo, não  podemos  adormecer.  Não  é  pelo  JuIio,  c 
pelo  Pitta ! 

—  Bem!  bem!  acudio  logo  Gonçalo,  assustado. 
Parto  para  Oliveira. 

— Por  que  então,  continuava  André,  vamos  am- 
bos logo,  a  cavallo.  É  um  bonito  passeio  pelos  Frei- 
xos, sempre  com  sombra...  Tens  talvez  de  mandar 
á  Torre,  por  causa  de  roupa... 

Não!  Gonçalo,  para  evitar  a  importunidade  de 
malas,  conservava  nos  Cunhaes  um  bragal  inteiro, 
desde  a  chinella  até  á  casaca.  E  entrava  em  Oli- 
veira como  o  Philosopho  Bias  em  Athenas — com  uma 
simples  bengala  e  paciência  infinita . . . 

— Delicioso !  declarou  André.  Fazemos  então  logo 
a  nossa  entrada  official  em  Oliveira.  É  o  começo  da 
campanha. 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  267 


O  Fidalgo  torcia  o  bigode,  consternado,  pensan- 
do nos  risinhos  perversos  das  Louzadas,  de  toda  a 
cidade,  perante  uma  entrada  tão  apparatosamente 
íraternal.  E,  quando  o  Cavalleiro  recommendou  ao 
Matheus  que  mandasse  apromptar  o  Rossilho  e  a 
egoa  do  Fidalgo  para  as  quatro  horas  e  meia,  Gonçalo 
exagerou  o  seu  receio  do  calor,  da  poeira.  Antes 
partissem  ás  sete,  pela  íresca !  (Assim  esperava  pene- 
trar em  Oliveira  desapercebidamente,  esbatido  no 
crepúsculo).   Mas  André  protestou: 

— Não,  é  uma  secca,  chegamos  á  noite.  Precisa- 
mos entrar  com  solemnidade,  á  hora  da  musica  no 
Terreiro...  Ás  cinco,  hein? 

E  Gonçalo,  vergando  os  hombros  sob  a  Fatali- 
dade: 

—  Pois  sim,  ás  cinco. 

Na  sala  de  jantar,  esteirada,  com  denegridos 
painéis  de  flores  e  fructas  sobre  um  papel  verme- 
lho imitando  damasco,  André  occupou  a  veneranda 
cadeira  de  braços  do  avô  Martinho.  O  brilho  das 
pratas,  a  frescura  das  rosas  numa  floreira  de  Saxe, 
revelavam  os  desvelos  da  prima  Jesuina  —  que,  com 
dòr  d' entranhas  n'essa  manhã,  não  se  vestira,  almo- 
çava no  quarto.  Gonçalo  louvou  aquella  elegante 
ordem,  tão  rara  n*uma  casa  de  solteirão,  lamentando 
a  falta  de  uma  prima  Jesuina  na  Torre . . .  E  André 
sorria   deliciadamente,   desdobrando,  o    guardanapo. 


268  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


com  a  esperança  que  Gonçalo  contasse  aos  Barrô- 
los  o  confortável  luxo  de  Corinde.  Depois,  picando 
com  o  garfo  uma  azeitona: 

— Pois  é  verdade,  meu  querido  Gonçalo,  lá  es- 
tive n"essa  grande  Capital,  depois  um  dia  em 
Cintra.. . 

O  Matheus  entre-abriu  a  porta  para  recordar  a 
S.  Ex."  o  amanuense  do  Governo  Civil,  que  esperava. 

—  Pois  que  espere!  gritou  S.  Ex.*. 

Gonçalo  lembrou  que  talvez  o  digno  homem  se 
impacientasse,  com  fome... 

—  Pois  que  almoce!  gritou  S.  Ex.' 

Aquelle  secco  desprezo  de  André  pelo  pobre  em- 
pregado, esquecido  no  banco  d'entrada,  com  a  sua 
pasta  sobre  os  joelhos  —  constrangia  o  Fidalgo.  E 
espetando  também  uma  azeitona: 

— Dizias  então,  Cintra... 

—  Semsabor,  resumiu  André.  Poeirada  horrenda, 
lemeaço  medíocre...  E  já  me  esquecia.  Sabes  quem 
lá  encontrei,  na  estrada  de  Collares?  O  Castanheiro, 
o  nosso  Castanheiro,  o  dos  Annaes,  de  chapéo  alto. 
Ergueu  logo  os  braços  ao  céo,  desolado  :  —  «  E  então 
esse  Gonçalo  Mendes  Ramires  não  me  manda  o  ro- 
mance ? »  Parece  que  o  primeiro  numero  da  Re- 
vista sae  em  Dezembro,  e  elle  precisa  o  original  em 
começos  d'Outubro...  Lá  me  supplicou  que  te  sac- 
cudisse,  que  te  recordasse  a  gloria  dos  Ramires.  E  tu 


A  ILLUSTRE   CASA  DE   RAMIRES  269 


devias  acabar  a  Novella...  Até  convém  que,  antes 
d'entrares  na  Camará,  appareça  um  trabalho  teu, 
um  trabalho  serio,  d'erudiçâo  forte,  bera  portu- 
guez . . . 

—  Pois  convém!  concordou  vivamente  Gonçalo. 
E  á  Novella  só  falta  o  Capitulo  quarto.  Mas  esse  jus- 
tamente demanda  mais  preparação,  mais  pesquizas... 
Para  o  acabar  precisava  o  espirito  bem  socegado,  a 
certeza  d'esta  infernal  eleição . . .  Não  é  o  animal  do 
Júlio  que  me  inquieta.  Mas  a  canalha  intrigante  de 
Lisboa...  Que  te  parece? 

Cavalleiro  riu,  estendendo  de  novo  o  garfo  para 
as  azeitonas: 

—  Que  me  parece,  Gonçalinho?  Que  estás  como 
uma  creança  pequena,  aí  flicta,  com  medo  que  te  não 
chegue  o  prato  de  arroz  doce.  Socega,  menino,  apa- 
nhas o  teu  arroz  doce!...  Mas  com  eííeito,  encontrei  o 
José  Ernesto  muito  teimoso.  Já  existiam  compromis- 
sos antigos  com  o  Pitta.  A  Verdade  tem  sido  furio- 
samente ministerial . . .  E  esse  Pitta,  agora  quando 
souber  que  lhe  tapei  Villa-Clara,  arde  em  furor  con- 
tra mim.  O  que  me  é  soberanamente  indiíferente; 
colerasinhas  ou  piadinhas  do  Pitta  não  me  tiram  o 
appetite...  Mas  o  José  Ernesto  admira  o  Pitta,  ne- 
cessita do  Pitta,  está  empenhado  em  pagar  ao  Pitta 
com  um  circulo . . .  Ainda  no  ultimo  dia  me  disse  na 
Secretaria,   até  lhe  achei  graça: — «Eu  vejo  que  os 


270  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


deputados  por  Villa-Clara  morrem;  ora  se,  por  esse 
bom  costume,  o  teu  Ramires  morrer  em  breve,  então 
entra  o  Pitta.  » 

Gonçalo  recuou  a  cadeira: 

— Se  eu  morrer!...  Que  animal! 

—  Oh,  se  morreres  para  o  Circulo!  atalhou  o  Ca- 
valleiro  rindo.  Por  exemplo,  se  nos  zangássemos,  se 
amanhã  entre  nós  surgisse  uma  dissidência . . .  Em- 
fim  o  impossível! 

O  Matheus  entrava  com  a  terrina  de  caldo  de 
gallinha,  que  rescendia. 

—  A  elle!  exclamou  André.  E  não  se  falle  mais 
de  Círculos,  nem  de  Pittas,  nem  de  Julios,  nem  da 
negregada  Politica!...  Conta  antes  o  enredo  da  tua 
Novella...  Histórica,  hein?...  Meia-idade?  D.  João  V?... 
Eu,  se  tentasse  agora  um  Romance,  escolhia  uma 
opocha  deliciosa,  Portugal  sob  os  Philippes ... 


Os  três  quartos,  depois  das  seis,  batiam  no  reló- 
gio sempre  adeantado  da  Egreja  de  S.  Christovâo,  era 
Oliveira,  quando  André  Cavalleiro  e  Gonçalo,  descen- 
do da  rua  Velha,  penetraram  no  Terreiro  da  Louça 
(agora  Largo  do  Conselheiro  Costa  Barroso). 

Todos  os  Domingos,  tocando  n'um  coreto  que 
o  Conselheiro,  quando  Presidente  da  Camará,  man- 
dara construir  sobre  o  velho  Pelourinho  demolido. 


A  ILLUSTRE  CASA    DE  BAMIRES  271 


a  charanga  do  Regimento  ou  a  philarnionica  Leal- 
dade tornavam  aquelle  Largo  o  centro  mais  sociá- 
vel da  quieta  e  caseira  cidade.  N'essa  tarde,  po- 
rém, como  começara  no  Convento  de  Santa  Eri- 
gida o  bazar  patrocinado  pelo  Bispo,  as  senhoras 
rareavam  nos  bancos  de  pedra  e  nas  cadeiras  do 
4sylo  espalhadas  por  sob  as  acácias.  As  Louzadas 
faltavam  no  seu  pouso  reservado,  superiormente  es- 
colhido para  espiarem  todo  o  Terreiro,  as  casas  que 
o  cerram  do  lado  de  S,  Christovão  e  do  lado  das  Tri- 
nas, a  rua  Velha  e  a  rua  das  Vellas,  a  barraca 
da  limonada,  e  até  outro  retiro  pudicamente  dis- 
farçado por  uma  canniçada  de  heras.  E  o  único 
rancho  conhecido,  D.  alaria  Mendonça,  a  Baroneza 
das  Marges,  as  duas  Alboins,  conversavam  com  as 
costas  para  o  Terreiro,  junto  da  grade  de  ferro  que 
o  limita  sobre  a  antiga  muralha  —  d'onde  se  domi- 
nam campos,  a  cerca  do  Seminário  Novo,  todo  o  pi- 
nhal da  Estevinha  e  as  voltas  lustrosas  da  ribeira  de 
Crede. 

Mas  entre  os  cavalheiros  que  trilhavam  vagaro- 
samente a  alêa  do  Largo  denominada  o  «Picadeiro», 
gosando  a  Marcha  do  Proplteta,  o  espanto  reviveu 
(apezar  de  todos  conhecerem  a  reconciliação  famo- 
sa do  Governo  Civil)  quando  os  dous  amigos  appa- 
receram,  ambos  de  chapéos  de  palha,  ambos  de  po- 
lainas  altas,  ao  passo  solemne  das  duas  egoas  —  a  de 


A   ILLISTRE   CASA   DE   RA^riRES 


Gonçalo  airosa  e  baia  de  cauda  curta  á  ingleza.  a 
do  Cavalleiro  pesada  e  preta,  de  pescoço  arqueado, 
a  cauda  farta  rojando  as  lages.  Mello  Alboim,  o 
Barão  das  Marges,  o  Dr.  Delegado,  pararam  n'uma 
fila  pasmada,  a  que  se  juntou  ura  dos  Villa- Velhas, 
depois  o  morgado  Pestana,  depois  o  gordo  major 
Piibas  com  a  farda  desabotoada,  rebolando  e  galhofan- 
do sobre  «aquella  amigação...»  O  tabellíão  Guedes, 
o  Guedes  popa,  derrubou  a  cadeira  no  alvoroço  com 
que  se  ergueu,  indignado  mas  respeitoso,  descobrin- 
do a  calva  n'uma  cortesia  immensa  em  que  o  cha- 
péu branco  lhe  tremia.  E  o  velho  Cerqueira,  o  advo- 
gado, que  sabia  do  retiro  encanniçado  d'hera  e  se 
abotoava,  embasbacou,  com  os  óculos  na  ponta  do 
nariz  alçado,  os  dedos  esquecidos  nos  botões  das 
calças. 

No  emtanto  os  dous  amigos,  gravemente,  seguiam 
pela  correnteza  de  casas  que  o  palacete  de  D.  Ar- 
minda Villegas  domina,  com  o  pesado  brazão  dos 
Villegas  na  cimalha,  as  suas  dez  nobres  varandas  de 
ferro  opulentadas  por  cortinas  de  damasco  amarello. 
Na  varanda  d'esquina,  o  Barrôlo  e  José  Mendonça 
íumavam,  sentados  em  mochos  de  palhinha.  E  ao  sen- 
tir as  patas  lentas  das  egoas,  ao  avistar  tão  ines- 
peradamente o  cunhado  —  o  bom  Barrôlo  quasi  se 
despenhou  da  varanda: 


A  ILI.USTnE  CASA  DE  RAMIRES  273 


— Oh  Gonçalo!  Oh  Gonçalo!...  Vaes  lá  para 
■casa  ? 

E  nem  esperou  uma  certeza,  berrou  de  novo, 
bracejando: 

—  Nós  já  vamos!  Jantámos  cá  esta  tarde...  A 
Gracinha  está  lá  em  cima,  com  a  tia  Arminda. 
Vamos  já  também!  E  um  momento! 

O  Cavalleiro  acenou  risonhamente  ao  capitão 
Mendonça.  Já  Barrôlo  mergulhara  com  enthusiasmo 
para  dentro  dos  damascos  amarellos.  E  os  dois  ami- 
gos, deixando  peJo  Terreiro  aquelle  sulcft  de  espanto, 
penetraram  na  rua  das  Vellas  onde  um  Policia  se 
perfilou  com  a  mão  no  bonet — o  que  foi  agradá- 
vel ao  Fidalgo  da  Torre. 

O  Cavalleiro  acompanhou  Gonçalo  ao  Largo  d'El- 
Rei.  Deante  do  Palacete  um  homem  de  boina  ver- 
melha remoía  no  seu  realejo  o  coro  nupcial  da  Lú- 
cia, espiando  as  janellas  desertas.  O  Joaquim  da  Porta 
correu  do  pateo  a  segurar  a  egoa  do  Fidalgo.  Com  um 
mudo  sorriso  o  tocador  estendera  a  boina.  E  depois 
de  lhe  atirar  um  punhado  de  cobre  —  Gonçalo  hesi- 
tou, murmurou  emfim,  com  embaraço  e  corando: 

—  Não  queres  entrar  e  descançar,  André?... 

—  Não,  obrigado...  Então  amanhã  ás  duas,  no 
Governo  Civil,  com  o  Barrôlo,  para  combinarmos 
sobre  os  votos  da  Murtosa . . .  Adeus,  minha  ílòr ! 
J3ómos  um  bello  passeio  e  espantamos  os  povos ! 

18 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


E  S.  Ex.^  envolvendo  o  Palacete  n"um  demorado 
olhar,  desceu  pela  rua  das  Tecedeiras. 

No  seu  quarto  (sempre  preparado,  com  a  cama 
feita)  Gonçalo  acabava  de  se  lavar,  de  se  escovar, 
quando  Barrôlo  se  precipitou  pelo  corredor,  esbo- 
lado,  sofírego  —  e  atraz  d'elle  Gracinha,  oílegante 
também,  desapertando  nervosamente  as  fitas  es- 
carlates do  chapéu.  Desde  a  tarde  em  que  Bar- 
roto « presenceára  com  os  olhos  bem  acordados  i » 
a  palestra  de  Gonçalo  e  de  André  na  varanda  do 
Governo  Civil  — íervera  n'elle  e  em  Gracinha  uma 
impaciência  desesperada  por  penetrar  os  motivos,  a 
encoberta  historia  d'aquella  reconciliação  surprehen- 
dente.  Depois  a  fuga  de  Gonçalo  na  caleche  para  a 
Torre,  sem  parar  nos  Cunhaes;  a  repentina  jornada 
do  Cavalleiro  a  Lisboa;  o  silencio  que  sobre  aquelle 
caso  se  abatera  mais  pesado  que  uma  tampa  de  íerro 
—  quasi  os  aterrou.  Gracinha  ú  noite,  no  Oratório, 
murmurava  atravez  das  resas  distrahidas:  —  «Oh, 
minha  rica  Nossa  Senhora,  que  será?»j  —  Barrôlo  não 
ousara  correr  á  Torre;  mas  até  sonhava  com  a  va- 
randa do  Governo  Civil,  que  lhe  apparecia  enorme, 
crescendo,  atravancando  Oliveira,  roçando  já  as  ja- 
nellas  dos  Cunhaes  d"onde  elle  a  repellia  cora  o  ca- 
ito  (fuma  vassoura...  E  eis  agora  Gonçalo  e  André 
que  entram  na  cidade  a  cavallo,  muito  serenamente. 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  2/ O 


ambos  de  chapéus  de  palha,  como  compaQheh'Os  cons- 
tantes recolhendo  d*um  passeio! 

Logo  á  porta  do  quarto,  Barrôlo  atirou  os  braços, 
rompeu  aos  brados : 

—  Então  que  tem  sido  tudo  isto?...  Não  se  falia 
n'outra  coisa ! . . .  Tu  cora  o  André ! 

Gracinha,  arfando,  tão  vermelha  como  as  fitas 
do  chapéu,  só  balbuciava: 

—  E  nem  vens,  nem  escreves...  Nós  com  tanto 
cuidado . . . 

E  mesmo  rente  da  porta  aberta,  sem  se  senta- 
rem, o  Fidalgo  aclarou  o  « Mysterio »,  com  a  toalha 
ainda  nas  m.ãos : 

— Uma  cousa  muito  inesperada,  mas  muito 
natural.  O  Sanches  Lucena  morreu,  como  vocês 
sabem.  Ficou  vago  o  circulo  de  Yilla-CIara.  É  um 
circulo  por  onde  só  pôde  sahir  um  homem  da  terra, 
com  propriedade,  com  influencia.  O  governo  im- 
mediatamente  me  mandou  perguntar,  pelo  telegra- 
pho,  se  eu  me  desejava  propor . . .  Ora  eu,  no  fundo, 
estou  de  bem  com  os  Históricos,  sou  amigo  do  José 
Fa-nesto  . . .  Estimava  entrar  na  Gamara . . .  Acceitei. 

O  Barrôlo  esmagou  a  coxa  com  uma  palmada 
triumphal: 

—  Então  era  certo,  caramba ! 

O  Fidalgo  continuava,  enxugando  interminavel- 
mente as  mãos : 


276  A  ILLUSTUE  CASA  UE  RAMIRES 


—  Acceitoi,  está  claro,  com  condições;  e  muito 
íortes.  Mas  acceitei . . .  N'este  caso,  como  vocês 
sabem,  convém  que  o  candidato  se  entenda  com  o 
Governador  Civil.  Eu,  ao  principio,  não  queria  reno- 
var relações.  Instado  porém,  muito  instado  de  Lis- 
boa, e  por  considerações  superiores  de  Politica,  con- 
senti n'esse  sacrifício.  Nas  diíficuídades  em  que  se 
encontra  o  paiz  todos  devem  fazer  sacrifícios.  Eu 
íiz  esse...  O  André,  de  resto,  íoi  muito  amável, 
muito  aftectuoso.  De  sorte  que  estamos  outra  vez 
amigos.  Amigos  politicos:  mas  muito  bem,  muito 
lealmente . . .  Almocei  hoje  com  elle  era  Corinde, 
viemos  juntos  pelos  Freixos.  Uma  tarde  linda!... 
Emfim  renasceu  a  antiga  harmonia.  E  a  eleição  está 
segura. 

—  Venham  de  lá  esses  ossos!  berrou  o  Barròlo, 
transportado. 

Gracinha  terminara  por  se  sentar  á  borda  do 
leito,  com  o  chapéu  no  regaço,  enlevada  para  o  ir- 
mão, n'um  silencioso  enternecimento  em  que  os  seus 
doces  olhos  se  humedeciam  e  riam.  O  Fidalgo,  que 
se  desprendera  do  abraço  do  Barròlo,  dobrava  a  toa- 
lha com  um  vagar  distrahido: 

—  A  eleição  está  segura,  mas  precisamos  tra- 
balhar. Tu,  Barròlo,  tens  de  conversar  também  com 
o  Cavalleiro.  Já  combinei.  Amanhã  no  Governo  Ci- 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


^"il,  ás  duas  horas.  E  necessário  que  vocês  se  enten- 
dam por  causa  dos  votos  da  Murtosa... 

—  Prompto,  menino!  o  que  vocês  quizerem !  Vo- 
tos, dinheiro... 

E  Gonçalo,  borrifando  vagamente  o  jaquetão  com 
agua  de  Colónia  que  pingava  no  soalho: 

'  — Desde  o  momento  em  que  eu  me  reconciliei 
com  o  André,  tudo  acabou.  Tu,  Barròlo,  immediata- 
mente  te  reconcilias  também . . . 

Barrôlo  quasi  pulou,  no  seu  deslumbramento: 
— Pois   está  claro !  E  ainda  bem,  que  eu  gosto 
immensamente   do  Cavalleiro !   Até  sempre  teimava 
com  Gracinha...  a  Oh  senhores,  esta  tolice,  por  causa 
da  Politica ! . . . » 

—  Bem!  concluiu  o  Fidalgo.  A  Politica  nos  se- 
parou, a  Politica  nos  reúne. ..  É  o  que  se  chama  a 
inconstância  dos  Tempos  e  dos  Impérios. 

E  agarrou  Gracinha  pelos  hombros,  com  um 
beijo  brincalhão,  estalado  em  cada  face: 

—  A  tia  Arminda  ?  Boa,  da  escaldadella  ?  Já  vol- 
tou ás  façanhas  de  Leandro  o  Bello  ? 

Gracinha  resplandecia,  com  o  lento  sorriso  que  se 
não  desfizera,  a  envolvia  toda  em  claridade  e  doçura : 

—  A  tia  Arminda  está  melhor,  já  anda.  Per- 
LTuntou  por  ti . . .  !Mas,  oh  Gonçalo,  tu  de  certo  que- 
res jantar! 

—  Não,    almocei  tremendamente  em  Corinde... 


278  A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


Vocês,  como  jantaram  á  hora  antiga  da  tia  Arminda, 
ceiam,  hein?  Então  logo  ceio...  Agora  apenas  uma 
chávena  de  chá,  muito  forte! 

Gracinha  correu,  no  alvoroço  de  servir  o  heroe 
querido.  E  pela  escada,  descendo  com  Barròlo  que  o 
contemplava,  o  Fidalgo  da  Torre  lamentou  os  seus 
sacrifícios: 

— É  verdade,  menino,  é  uma  raassada...  Mas 
que  diabo!  todos  devemos  concorrer  para  tirar  o 
paiz  do  atoleiro! 

Barròlo,  maravilhado,  murmurava: 

—  E  sem  dizeres  nada...  Assim  á  capucha!  As- 
sim á  capucha! . .. 

—  E  agora  outra  cousa,  Barròlo.  Amanhã,  no  Go- 
verno Civil,  deves  convidar  o  André  a  jantar... 

—  Com  certeza!  gritou  o  Barròlo.  Jantar  d'es- 
trondo? 

— Não,  homem!  Jantar  muito  quieto,  muito  in- 
timo. Unicamente  o  André  e  o  João  Gouveia.  Tele- 
graphas  ao  João  Gouveia.  Também  podes  convidar 
os  Mendonças . . .  Mas  jantar  muito  discreto,  só  para 
conversarmos,  para  tirmar  a  reconciliação  d'um 
modo  mais  sociável,  mais  elegante. 

Ao  outro  dia,  no  Governo  Civil,  Barròlo  e  o  Ca- 
valleiro  apertaram  as  mãos  com  tanta  singelleza,  co- 
mo se  ambos,  ainda  na  véspera,  andassem  jogando 
o  bilhar  e   caturrando  no  club  da  rua   das  Pegas. 


A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES  279 


])e  resto  conversaram  siimmariamente  sobre  a  Elei- 
ção. Apenas  o  Cavalleiro  alludira  com  indolência  aos 
votos  de  Murtosa  —  o  bom  Barrôlo  quasi  se  engasgou, 
na  anciã  de  os  offerecer: 

—  E  o  que  vocês  quizerem  . . .  Votos,  dinheiro, 
o  que  vocês  quizerem! . . .  Vocês  digam  1  Eu  vou  para 
a  Murtosa,  e  é  comezaina,  e  pipa  de  vinho  aberta,  e 
a  freguezia  inteira  a  votar  no  meio  de  foguetorio . . . 

O  Cavalleiro,  rindo,  amansou  aquelle  fervor  faus- 
toso: 

—  Não.  meu  caro  Barrôlo,  não!  Nós  preparamos 
uma  eleição  muito  sóbria,  muito  socegada.  Villa  Clara 
elege  Gonçalo  Mendes  Ramires  deputado,  natural- 
mente, como  o  seu  melhor  homem.  Não  ha  combate, 
o  Julinho  é  uma  sombra.  Portanto... 

O  Barrôlo  persistia,  radiante,  gingando : 

—  Perdão,  André,  perdão!  Lá  isso  vinhaça,  e  vi- 
vorio,  e  foguetorio,  e  festança  magna... 

Mas  Gonçalo,  embaraçado,  ancioso  por  suster  a 
garrulice  do  Barrôlo,  as  palmadas  carinhosas  com 
que  elle  se  atufava  na  intimidade  do  Cavalleiro, 
apontou  para  a  mesa  de  S.  Ex.": 

—  Tu  tens  que  fazer,  André.  Vejo  ahi  uma  pa- 
pelada pavorosa . . .  Não  roubemos  mais  tempo  ao 
chefe  illustre  do  Districto!  Ao  trabalho! 

Trabalhar,  meu  irmão,  que  o  trabalho 
E  André,  é  virtude,  é  valor  I  . . . 


280  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Agarrara  o  chapéu,  acenando  ao  cunhado.  En- 
tão Barrôlo,  com  as  bochechas  a  estalar  de  gosto, 
balbuciou  o  convite  que  firmaria  a  reconciliação 
d*um  modo  sociável  e  elegante : 

—  Cavalleiro,  para  conversarmos  melhor,  se 
você  nos  quizer  dar  o  gosto  de  vir  jantar...  Quinta 
feira,  ás  seis  e  meia . . .  Mós,  quando  cá  está  o  Gon- 
çalo, jantámos  sempre  mais  tarde. 

.  O   Cavalleiro,   que  corara,  agradeceu  com  dis- 
creta ceremonia: 

—  É  para  mim  um  immenso  prazer,  uma  im- 
mensa  honra  . . . 

E  á  porta  da  antesala  onde  os  acompanhara,  se- 
gurando o  pesado  reposteiro  de  baeta  escarlate  com 
as  Armas  Reaes  bordadas  —  supplicou  ao  Barròlo  que 
pozesse  os  seus  respeitos  aos  pés  da  snr.'^  D.  Gra- 

Çã... 

Barrôlo,  descendo  a  larga  escadaria  de  pedra, 
limpava  a  testa,  o  pescoço,  humedecidos  pela  emo- 
ção. E  no  páteo  desabafou : 

—  Muito  sympathico  este  André!  Rapaz  franco, 
de  quem  sempre  gostei . . .  Piealmente  estava  morto 
que  acabassem  estas  historias . . .  E  mesmo  lá  para 
os  Cunhaes,  para  a  companhia,  para  o  cavaco,  que 
bella  acquisição! 


A    ILLLSTOE    CASA   DE   RAMIRES  281 


Quinta  íeiru  de  manhã  depois  do  almoço,  no  ter- 
raço do  jardim  onde  tomavam  cate,  Gonçalo  re- 
commendoLi  ao  Barròlo  que  «para  accentuar  mais 
completamente  a  intimidade  simples  do  jantar  não 
pozesse  casaca ...» 

—  E  tu,  Gracinha,  vestido  afogado.  Mas  vestidi- 
nho claro,  alegre... 

Gracinha  sorriu,  indecisamente,  continuando  a 
lolhear  um  Almanach  de  Lembranças  estendida 
n'uma  cadeira  de  verga,  com  um  gatinho  hranco 
no  regaço. 

Depois  do  alvoroço  e  pasmo  de  Domingo,  ella 
apparentava  agora  um  desinteresse  silencioso  pela  re- 
conciliação que  ainda  abalava  Oliveira,  pela  Eleição, 
pelo  jantar.  Mas  n'esses  dias  não  socegára  —  tão  im- 
paciente e  sensível  que  o  bom  Barròlo  incessante- 
mente lhe  aconselhava  o  grande  remédio  da  Ma- 
mã contra  os  nervos,  «flores  d'alecrira,  cosidas  em 
vinho  branco.» 

Gonçalo  percebia  claramente  a  perturbação  em 
que  a  lançava  aquella  entrada  triumphal  de  André, 
do  antigo  André,  na  sua  casa  de  casada,  nos  Cu- 
nhaes.  E  para  se  tranquillisar  evocava  (como  na  es- 
trada do  cemitério  em  Villa-Clara)  a  seriedade  de 
Gracinha,  o  seu  rigido  e  puro  pensar,  a  altivez  da 
sua  alm asinha  heróica.  ]N"essa  manhã  mesmo,  todo 


282  A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


no  fresco  e  soffrego  cuidado  da  sua  Eleição,  só  re- 
ceava que  Gracinha,  por  embaraço  ou  cautella,  aco- 
lhesse seccamente  o  Cavalleiro,  o  esfriasse  no  seu 
renovado  íervor  pela  casa  de  Ramires,  no  seu  pa- 
trocinato  Politico.  E  insistiu,  gracejando : 

—  Ouviste,  Gracinha?  Um  vestido  branco.  Um 
vestidinho  alegre,  que  sorria  aos  hospedes .  . . 

EUa  murmurou,  mergulhada  no  sen  Al/nanac/i : 

—  Sim,  realmente,  com  este  calor . . . 

Mas  Barrôlo  bateu  uma  palmada  na  coxa.  Que 
pena!  que  pena  não  ter  em  Oliveira,  «para  o  brinde 
de  reconciliação»,  um  famoso  vinho  do  Porto,  da  gar- 
rafeira da  Mamã,  preciosissimo,  velhíssimo,  do  tempo 
de  D.  João  lí . . . 

—  D.  João  II?  rosnou  Gonçalo.  Está  estragado! 
Barrôlo  hesitou: 

—  D.  João  II  ou  D.  João  VI...  Um  d'esses  Reis. 
Emfim  um  vinho  único,  do  século  passado!  Só  restam 
á  mamã  oito  ou  dez  garrafas...  E  hoje,  era  dia  para 
uma,  hein? 

O  Fidalgo  deu  um  sorvo  lento  ao  café: 

—  O  André,  antigamente,  também  gostava  muito 
d'bvos  queimados . . . 

Bruscamente  Gracinha  fechou  o  Al/ticoiach  —  e, 
com  uma  fuga  (^  um  silencio  que  emmudeceram 
Gonçalo,  sacudiu  do  collo  o  gato  dorminhoco,  atra- 


A  ILLUSTRE   CASA  DE  RAMIRES  283 


vessoii  O  terraço,  desappareceu  entre  os  teixos  altos 
do  jardim. 

Mas  á  tarde,  quando  o  Fidalgo  occupou  o  seu 
logar  na  mesa  oval,  junto  da  prima  Maria  Mendon- 
ça—  logo  notou,  entre  duas  compoteiras,  uma  tra- 
vessa d'ovos  queimados.  Apesar  de  jantar  tão  intimo 
■"serviam,  com  a  louça  da  China,  os  famosos  talheres 
dourados  da  baixella  do  tio  Melchior.  E  duas  jarras 
de  Saxe  transbordavam  de  cravos  brancos  e  ama- 
rellos,  cores  heráldicas  dos  Ramires. 

D.  Maria,  que  não  encontrara  o  querido  primo 
desde  os  annos  de  Gracinha,  murmurou  com  um 
sorriso,  uma  grave  cortezia,  n"aquelle  cerimonioso 
silencio  em  que  se  desdobravam  os  guardanapos: 

—  Ainda  lhe  não  dei  os  parabéns,  primo  Gon- 
çalo . . . 

Elle  acudiu,  mechendo  nervosamente  nos  copos: 

—  Chut!  prima,  chut!  Hoje  aqui,  já  está  decidi- 
do, não  se  allude  sequer  a  Politica. . .  Está  muito  ca- 
lor para  Politica. 

Ella  suspirou  de  leve,  como  desíallecida  :  Ai,  o 
calor...  Que  horrível  calor!  Desde  que  entrara  nos 
Cunhaes  com  aquelle  vestido  preto  que  «era  o  seu 
pallio  rico» — ainda  não  cessara  de  invejar  a  íres- 
cura  do  vestido  branco  de  Gracinha . . . 

—  Que  bem  que  lhe  fica!  Está  hoje  linda! 

Era    um    vestido    liso    de    crepon   branco,   que 


28i  A   ILLLSTP.E    CASA   DE   RAMIRES 


aclarava,  remoçava  a  sua  graça  quasi  virginal.  E 
nunca  realmente  tanto  prendera,  assim  clara  e  fina, 
com  os  verdes  olhos  refulgindo  como  esmeraldas  la- 
vadas, uma  ondulação  mais  lustrosa  nos  pesados  ca- 
bellos,  um  macio  rubor  transparente,  todo  mu  fresco 
brilho  de  ílôr  regada,  de  ílôr  revivida,  apesar  do  aca- 
nhamento que  lhe  immobilisava  os  dedos  ao  erguer  a 
colher  de  prata  dourada.  E  ao  lado,  superiormente 
robusto  e  largo,  com  o  peitilho  arqueado  como  uma 
couraça  e  cravejado  de  duas  saphiras,  uma  rosa  bran- 
ca desabrochada  na  lapella,  André  Cavalleiro,  que  re- 
cusara a  sopa  (oh,  no  verão  nunca  comia  sopa  1)  do- 
minava a  mesa,  levemente  commovido  também,  pas- 
sando sobre  o  reluzente  bigode  um  lenço  tão  perfu- 
mado que  afogava  o  perfume  dos  cravos.  Mas  foi  elle 
que  encadeou  a  animação  com  risonhos  queixumes 
sobre  o  calor — o  escandaloso  calor  d'01iveira.. .  Ahl 
que  Purgatório  abrasado  —depois  dos  seus  dois  dias 
de  Paraiso,  na  frescura  deliciosa  de  Cintra! 

D.  Maria  Mendonça  adoçou  os  espertos  olhos 
para  o  Snr.  Governador  Civil.  —  E  então  Cintra? 
Animada?  Muitos  ranchos  á  tarde,  em  Setiaes?  En- 
contrara a  Condessa  de  Chellas  -  a  prima  Chel- 
las?... 

Sim,  na  Pena,  na  sua  visita  á  Rainha,  Caval- 
leiro conversara  durante  um  momento  com  a  Snr." 
Condessa  de  Chellas... 


A   ILLISTRE    CASA   DK   RAMIRES  285 


—  Ah!  e  a  Rainha  ? . . . 

—  Oh,  sempre  encantadora  . . . 

A  Snr."  Condessa  de  Chellas,  essa,  um  pouco 
magra.  Mas  tão  amável,  tão  intelligente,  tão  verda- 
deiramente grande  dame  —  não  é  verdade?  E,  como 
se  inclinara  para  Gracinha,  com  uma  doçura  infinita 
no  simples  mover  da  cabeça  —  ella,  perturbada,  mais 
vermelha,  balbuciou  que  não  conhecia  a  Condessa 
de  Chellas...  —  D.  Maria  Mendonça  accusou  logo  a 
inércia  dos  primos  Barrôlos,  sempre  encafurnados 
nos  Cunhaes,  sem  nunca  se  aventurarem  a  Lisboa 
no  inverno,  para  conviver,  para  conhecer  os  paren- 
tes.. . 

—  E  a  culpa  é  do  primo  José,  que  detesta  Lis- 
boa... 

Oh  não  1  Barròlo  não  detestava  Lisboa !  Se  po- 
desse  acarretar  para  Lisboa  as  suas  commodidades, 
o  seu  quarto,  a  sua  cocheira,  a  boa  agua  do  po- 
mar, a  rica  varanda  sobre  o  jardim  —  até  se  rega- 
lava ! 

—  Mas  entalado  n"aquelles  quartinhos  do  Bra- 
gança... E  depois  a  má  comida,  o  barulho...  A  Gra- 
cinha em  Lisboa  nunca  dorme . . .  E  a  massada  das 
manhãs?...  Não  ha  nada  que  fazer  em  Lisboa,  de 
manhã ! 

O  Cavalleiro  sorria  para  o  Barròlo,  como  enle- 


286  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


vado  na  sua  graça  e  razão.  Depois  confessou  que 
ello,  apesar  de  habitar  também  (mercê  do  Estado!)  um 
palacete  confortável,  e  gozar  também  uma  agua  ex- 
cellente,  a  finíssima  agua  do  Poço  de  S.  Domingos, 
lamentava  que  os  deveres  de  Politica,  a  disciplina 
de  Partido  o  amarrassem  a  Oliveira.  E  toda  a  sua  es- 
perança era  a  queda  do  }.Iinisterio,  para  se  liber- 
tar, passar  três  mezés  divinos  em  Itália . . . 

Do  outro  lado  de  Gracinha,  João  Gouveia  (sem- 
pre acanhado  e  mudo  deante  de  senhoras)  excla- 
mou, num   impulso  d'amisade,  de  convicção: 

—  Pois,  Andrésinho,  vae  perdendo  a  esperan- 
ça! O  S.  Fulgencio  não  arreia !  Ainda  cá  te  apa- 
nhamos uns  três  ou  quatro  annos! 

E  insistiu,  debruçado  sobre  Gracinha,  n'um  es- 
forço d'amabilidade  que  o  esbraseava: 

—  OS.  Fulgencio  não  arreia.  Ainda  cá  temos 
o  nosso  André  mais  três  ou  quatro  annos. 

André  protestava,  com  um  requebro,  as  espessas 
pestanas  quasi  cerradas  : 

—  Oh  meu  João!  não  me  queiras  mal,  não  me 
queiras  mal !. . . 

E  teimava.  Ah,  com  certeza!  ainda  que  deser- 
tasse o  seu  partido  (e  que  importa  em  hoste  pode- 
rosa uma  lança  ferrugenta?)  esses  niezes  d'Italia 
no  in\erno  já  os  sonhara,  já  os  preparava...  —  E  a 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Snr.'^  D.    Graça  não   permittia   que   elle   a  servisse 
d'Lim  pouco  de  vinho  branco? 

Barròlo  estendeu  o  braço,  com  effusão: 

—  Oh  Cavalleiro !  eu  tenho  empenho  em  que 
você  prove  esse  vinho  com  cuidado ...  É  da  minha 
propriedade  do  Corvello...  Faço  muito  gosto  n"elle. 
Mas  prove  com  attençâo! 

S.  Ex.'"'  provou  com  devoção,  como  se  commun- 
gasse.  E  com  uma  cortezia  compenetrada  para  Bar- 
ròlo que  reluzia  de  gosto : 

—  Uma  delicia!  uma  verdadeira  delicia! 

—  Hein?  Não  é  verdade?  Eu,  para  mim,  pre- 
tiro este  vinho  do  Corvello  a  todos  os  vinhos  fran- 
cezes,  os  mais  finos  . . .  Até  alli  o  nosso  amigo  Padre 
Sueiro,  que  é  um  Santo,  o  aprecia! 

Silencioso,  esbatido  por  traz  d'uma  das  altas  jar- 
ras de  cravos,  Padre  Sueiro  corou,  sorriu: 

—  Com  muita  agua,  infelizmente,  Snr.  José  Bar- 
roto... O  gosto  pede,  mas  o  rheumatismo  não  con- 
sente . 

Pois  José  Mendonça,  que  não  temia  rheumatis- 
mos,  atacava  sempre  bravamente  aquelle  bemdito 
Corvello ... 

-  Que  lhe  parece  a  você,  João  Gouveia  ? 

Oh!  João  Gouveia  já  o  conhecia,  louvado  Deus! 
E  certamente  nunca  encontrara  em  Portugal,  como 


:288  A  iLLi:sTRE  casa  de  ramiues 


vinho    branco,    nenhum   comparável  pela   frescura. 
pelo  aroma,  pela  seiva  . . . 

—  E  cá  lhe  vou  atiçando  com  íervor,  Barròlo 
amigo!  Esta  bella  garrafa  de  crystal  vae  de  ven- 
cida! 

Barròlo  exultava.  O  seu  desgosto  era  que  Gon- 
çalo nunca  honrasse  «aquelle  néctar.»  —  Não!  Gon- 
çalo não  tolerava  vinhos  brancos  . . . 

— E  então  hoje  estou  com  uma  d*estas  sedes 
que  só  me  satisfaz  vinho  verde,  assim  um  pouco 
espumante,  e  com  gelo...  Que  este  de  Vidainhos 
também  é  do  Barròlo.  Oh,  eu  não  desprezo  os  vi- 
nhos da  familia . . .  Este  Vidainhos  sinceramente  o 
considero  sublime. 

Então  Cavalleiro  desejou  provar  esse  sublime 
vinho  verde  da  quinta  de  Vidainhos,  em  Amarante. 
()  escudeiro,  a  um  aceno  enthusiasmado  do  Barròlo. 
apresentou  a  Sua  Ex.''  um  copo  esguio,  especial 
para  aquelle  vinho  que  espumava.  Mas  o  Cavalleiro, 
acariciando  o  íresco  copo  sem  o  erguer,  repisou  a 
idéa  de  lerias,  de  viagens,  como  accentuando  o  seu 
cançasso  e  fastio  d'01iveira.— E  sabia  a  Snr."  D.  Graça  , 
para  onde  elle  seguiria,  depois  da  Itália,  nesse  in- 
verno, se  por  caridade  de  Deus  o  Ministério  ca- 
hisse  ? . . .  Para  a  Ásia  Menor. 

—  E  era  uma  viagem  para  que  eu,  com  certesa, 
tentava  o  nosso  (ioncalo...  Tão  íacil,  agora,  com  os 


A  irXUSTllE  CAS.V  DE  IIAMIUES  289 


caminhos  de  ferro ! . . .  De  Veneza  a  Constantinopla  um 
mero  passeio.  Depois,  de  Constantinopla  a  Smyr- 
na,  um  dia,  dous  dias,  n'um  vapor  excellente.  E 
d'ahi  n'uma  bôa  caravana,  por  Tripoli,  pela  antiga 
Sidónia,  penetrávamos  em  Galiléa...  Galiléa!  Hein 
Gonçalo?  Que  bclleza! 

Padre  Sueiro,  suspendendo  o  garfo,  lembrou  ti- 
midamente—  que  em  Galiléa  o  Snr.  Gonçalo  Rami- 
res pisaria  terra  que  outr'ora,  por  pouco,  pertencera 
á  sua  Casa: 

—  Um  dos  antepassados  de  V.  Ex.^  Gutierres 
Ramires,  companheiro  de  Tancredo  na  primeira  Cru- 
zada, recuzou  o  ducado  de  Galiléa  e  de  Além-Jordâo... 

—  Fez  pessimamente!  gritou  Gonçalo,  rindo.  Oh, 
esse  avô  Gutierres  andou  pessimamente !  Por  que  não 
existia  agora,  n'este  mundo,  disparate  mais  diver- 
tido do  que  eu  Duque  de  Galiléa!  O  Snr.  Gon- 
çalo Mendes  Ramires,  Duque  de  Galiléa  e  d'Além- 
•Tordão!...  Era  simplesmente  de  rebentar  1 

Cavalleiro  protestou,  com  sympathia: 

—  Ora  essa!  Por  que? 

—  Nâo  acredite!  acudiu,  com  os  olhos  coruscan- 
tes,  D.  Maria  Mendonça.  O  primo  Gonçalo,  com  to- 
das estas  graças,  no  íundo,  é  rauitissimo  aristocra- 
ta.. .  Mas  terrivelmente  aristocrata ! 

O  Fidalgo  da  Torre  pousou  o  copo  de  Vidainhos, 
depois  d'um  trago  saboreado  e  fundo: 

19 


290  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Aristocrata...  Está  claro  que  sou  aristocrata. 
Sentiria  com  effeito  certo  desgosto  em  ter  nascido, 
como  ama  herva,  d'outras  hervas  vagas.  Gosto  de 
saber  que  nasci  de  meu  pae  Vicente,  que  nasceu  de 
seu  pae  Damião,  que  nasceu  de  seu  pae  Ignacio,  e 
assim  sempre  até  não  sei  que  Rei  Suevo . . . 

—  Recesvinto !  informou  respeitosamente  Padre 
Sueiro. 

—  Pois  até  esse  Recesvinto.  O  peor  é  que  o 
sangue  de  todos  esses  pães  não  differe  realmente  do 
sangue  dos  pães  do  Joaquim  da  Porta.  E  que  depois 
do  Recesvinto,  para  traz,  até  Adão,  não  tenho  mais 
pães! 

E,  emquanto  todos  riam,  D.  Maria  Mendonça, 
debruçada  para  elle,  por  traz  do  leque  largamente 
aberto,  murmurou: 

—  O  Primo  está  com  esses  deprezos...  Pois  eu 
sei  d' uma  senhora  que  tem  a  maior  admiração  pela 
casa  de  Ramires  e  pelo  seu  representante. 

Gonçalo  enchia  de  novo  o  copo,  com  amor,  at- 
tento  á  espuma: 

—  Bravo!  Mas  «convém  distinguir»,  como  diz  o 
Manoel  Duarte.  Por  quem  tem  ella  a  verdadeira 
admiração,  por  mim  ou  pelo  Suevo,  pelo  Reces- 
vinto? 

— Por  ambos. 

—  Diabo ! 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  291 


Depois,  pousando  a  garrafa,  mais  sério: 

—  Quem  é? 

Oh!  ella  não  podia  confessar.  Não  era  ainda 
bastante  velha  para  andar  com  recadinhos  de  senti- 
mento. Mas  Gonçalo  dispensava  o  nome — só  dese- 
java as  qualidades...  Nova?  Bonita? 

— Bonita?  exclamou  D.  Maria.  É  uma  das  mu- 
lheres mais  formosas  de  Portugal! 

Espantado,  Gonçalo  lançou  o  nome : 

—  A  D.  Anna  Lucena! 

—  Por  quê? 

—  Por  que  mulher  assim  tão  formosa,  e  vivendo 
n'estes  sitios,  e  tão  conhecida  da  prima  que  lhe  faz 
confidencias,  só  a  D.  Anna. 

D.  Maria,  ageitando  as  duas  rosas  que  lhe  ale- 
gravam o  corpete  de  seda  preta,  sorria: 

—  Talvez  seja,  talvez  seja . . . 

—  Pois  estou  immensamente  lisongeado.  Mas 
ainda  distingo,  como  o  Manoel  Duarte.  Se,  da  parte 
d'ella,  essa  sympathia  toda  é  para  o  bom  fim,  não! 
Xão,  santo  Deus,  não!...  Mas  se  é  para  o  mau  fim, 
então,  prima,  cumprirei  honradamente  o  meu  dever 
dentro  das  minhas  forças . . . 

D.  Maria  escondeu  a  face  no  leque,  escandali- 
sada.  Depois,  espreitando,  com  os  agudos  olhos  a 
faiscar : 

—  Oh  primo,  mas  o  bom  fim  é  que  convinha. 


Í\)Í  A  ILLUSTKE  CASA  UE  HA.MIUES 


por  que  a  cousa  é  a  mesma  e  são  duzentos  contos 
a  mais! 

Gonçalo  gritou  d'admiraçâo : 

—  Oh!  esta  prima  Maria!  Não  ha  em  toda  a  Eu- 
ropa ninguém  mais  esperto! 

Todos  curiosamente  anciaram  por  saber  a  nova 
graça  da  Snr,*^  D.  Maria.  Mas  Gonçalo  deteve  as  cu- 
riosidades : 

—  Não  se  pôde  contar.  É  casamento. 

Então  José  Mendonça  recordou  a  novidade  pi- 
cante que  desde  a  véspera  remexia  Oliveira: 

—  Por  casamento ! . . .  Que  me  dizem  ao  casa- 
mento da  D.  Rosa  Alcoforado? 

Barrôlo,  depois  o  Gouveia,  até  Gracinha,  todos 
o  proclamaram  «um  horror.»  Aquella  perfeita  rapa- 
riga, de  pelle  tão  còr  de  rosa,  de  cabello  tão  còr  d'ou- 
rO,  amarrada  ao  Teixeira  de  Carredes,  um  patriarcha 
carregado  de  netos...  Que  desastre! 

Pois  ao  Cavalleiro  o  casamento  não  parecia  as- 
sim «desastrado.»  O  Teixeira  de  Carredes,  além  de 
muito  fino,  de  muito  intelligente,  era  uni  velho  ver- 
dejante, quasi  sem  rugas  —  até  bonito  com  aquelle 
contraste  do  bigode  escuro  e  da  grenha  riçada  e  bran- 
ca. E  na  Snr."  D.  Rosa,  com  todas  as  rosas  da  sua 
pelle  e  todo  o  ouro  dos  seus  cabellos,  dominava  «um 
não  sei  què»  de  amollentado  e  de  sorvado...  Depois 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  293 


pouco  esperta.  E  pouco  cuidadosa  —  sempre  mal  pen- 
teada, sempre  mal  pregada . . . 

—  Euifim,  V.  Ex.**' perdoem .. .  Mas  quem  faz  um 
casamento  muito  desenxabido  é  o  pobre  Teixeira  de 
Carredes. 

D.  Maria  Mendonça  considerava  o  Governador 
Civil  com  um  espanto  amável: 

— Pois  se  o  Snr.  Cavalleiro  nâo  admira  a  Rosi- 
nha Alcoforado,  não  sei  então  que  rapariga  admire 
dentro  do  seu  Districto  . . . 

EUe,  logo,  com  galante  rasgo : 

—  Mas,  além  de  V.  Ex.''",  não  admiro  ninguém! 
Realmente  eu  governo,  em  Portugal,  o  Districto  mais 
daprovido  de  belleza . . . 

Todos  protestaram.  E  a  Maria  Marges?  E  a  pe- 
quena Reriz,  da  Riosa?  E  a  Mellosinho  Alboim, 
com  aquelles  olhos?...  Mas  o  Cavalleiro  nâo  con- 
sentia, a  todas  demolia  com  um  sarcasmo  leve,  ou 
pela  pelle  sem  frescura,  ou  pelo  pisar  desairoso,  ou 
pelo  provincianismo  de  gosto  e  modos,  sempre  pela 
carência  das  bellezas  e  graças  que  ornavam  Gra- 
cinha— lançando  assim  disfarçadamente,  aos  pés  de 
Gracinha,  ura  rolo  de  senhoras  vencidas  e  amarfa- 
nhadas. Ella  percebera  a  subtil  adulação,  os  seus 
olhos  allumiaram  com  um  íulgor  mais  enternecido 
o  rubor  que  a  afogueava.   Desejou  repartir  incenso 


29i  A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


tâo  accumulado  —  lembrou  timidamente  outra  belleza 
de  que  se  orgulhava  o  Districto : 

—  A  filha  do  Visconde  de  Pvio-Manso,  a  Rosinha 
Rio-Mauso . . .  É  linda! 

O  Cavalleiro  triumphou  com  facilidade: 

—  Mas  tem  doze  annos,  minha  senhora!  Nem  é 
rosinha,  é  botâosinho  de  rosa!... 

Quasi  humildemente,  Gracinha  recordou  a  Luiza 
Moreira,  filha  d" um  lojista,  muito  admirada  aos  do- 
juingos  na  missa  da  Sé  e  no  Terreiro  da  Louça: 

— É  uma  bella  rapariga. . .  Sobretudo  a  figura . . . 

Cavalleiro  triumphou  ainda,  com  requebrada 
segurança : 

—  Sim,  mas  os  dentes  tortos,  Sur.*^  D.  Graça!  Os 
dentes  acavallados!  Y.  Ex."  nunca  reparou...  Oh!  uma 
boca  muito  desagradável!  E,  além  dos  dentes,  o  ir- 
mão, o  Evaristo,  com  aquella  cara  mais  chala  que  a 
alma,  e  a  caspa,  e  a  porcaria,  e  o  jacobinismo...  Não 
ha  mulher  bonita  com  irmão  tão  feio! 

Mendonça  estendera  o  braço,  com  outra  curiosi- 
dade que  occupava  Oliveira : 

—  E  por  Evaristo!...  Ello  sempre  funda  o  novo 
jornal  republicano,  o  Rebfde? 

O  Snr.  Governador  Civil  encolheu  «s  hombros 
com  uma  ignorância  superior  e  risonha.  Mas  João 
Gouveia,  vermelho  e  luzidio  depois  da  sua  garrafa 
de   Corvello   e  da  sua  garrafa  de  Douro,  affiancou 


A  ILLISTRE  CASA  PE  RAMIRES  295 


que.  o  Rebate  apparecia  em  Novembro.  Até  elle  co- 
nhecia o  patriota  que  esportulava  a  «massa.»  E  a 
campanha  do  Rebate  começava  com  cinco  artigos 
esmagadores  sobre  a  Tomada  da  Bastilha. 

O  espanto  de  Gonçalo  era  como  o  Republicanis- 
mo alastrara  em  Portugal — até  na  velhota,  na  de- 
vota Oliveira . . . 

—  Quando  eu  andava  em  preparatórios  existiam 
simplesmente  dois  republicanos  em  Oliveira,  o  velho 
Salema,  lente  de  Rhetorica,  e  eu.  Agora  ha  partido, 
ha  comité,  ha  dous  jornaes...  E  ha  mesmo  o  Barão 
das  Marges  com  a  Voz  Publica  na  mão,  debaixo  da 
Arcada , . . 

Mendonça  não  receava  a  Republica,  gracejava: 

—  Ainda  vem  longe,  muito  longe...  Ainda  nos 
dá  tempo  de  comermos  estes  bellos  ovos  queimados. 

—  Deliciosos,  murmurou  o  Cavalleiro. 

—  Sim,  concordou  Gonçalo,  ainda  temos  tempo 
para  os  ovos...  Mas  que  rebente  uma  revolução  em 
Hespanha,  ou  que  morra  o  Reisinho  na  sua  menori- 
dade, que  naturalmente  morre... 

—  Credo!  Coitadinho!  Pobre  mãe!  murmurou 
Gracinha  sensibilisada. 

Immediatamente  o  Cavalleiro  a  tranquillisou. 
Porquê,  morrer  o  Reisinho  d'Hespanha?  Os  republi- 
canos espalhavam  boatos  sombrios  sobre  os  males  da 
excellente  creanca.   INIas  elle  conhecia  a  realidade  — 


296  A   ILUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


assegurava  á  Snr."  D.  Graça  que,  felizmente  para 
a  Hespanha,  ainda  reinaria  um  Aftonso  XIII  e  mes- 
mo um  Affonso  XIV.  Em  quanto  aos  nossos  republi- 
canos, esses...  Meu  Deus!  mera  questão  de  guarda 
municipal !  Portugal,  nas  suas  massas  profundas,  per- 
manecia monarchico,  de  raiz.  Apenas  ao  de  cima,  na 
burguezia  e  nas  escolas,  íluctuava  uma  escuma  li- 
geira, e  bastante  suja,  que  se  limpava  facilmente 
com  um  sabre . . . 

—  V.  Ex.",  Snr.*^  D.  Graça,  que  é  uma  dona  de 
casa  perfeita,  conhece  esta  operação  que  se  faz  á 
panella  do  caldo...  Escumar  a  panella.  É  com  uma 
colher.  Aqui  é  com  um  sabre.  Pois  assim,  com  toda 
a  simplicidade,  se  clarifica  Portugal.  E  foi  isto  que 
ainda  ultimamente  eu  declarei  a  El-rei. 

Alteara  a  cabeça— o  seu  peitilho  resplandecia, 
mais  largo,  como  couraça  bastante  rija  para  defen- 
der toda  a  Monarchia.  E,  no  compenetrado  silencio 
que  se  alargou,  duas  rolhas  de  Champagne  estalaram, 
por  traz  do  biombo,  na  copa.  • 

Apenas  o  escudeiro,  apressado,  enchera  as  taças 
—  o  Fidalgo  da  Torre  com  uma  gravidade  que  o  sor- 
riso adoçava : 

—  André,  á  tua  saúde.  Não  é  ao  Governador  Ci- 
vil, é  ao  amigo! 

Todos  os  copos  se  ergueram  n'um  susuro  aca- 
riciador.  João  Gouveia  agitou   o  seu,  com  especial 


A  ILLUSTHE  CASA  DE  RAMIRES  297 


effiisâo,  gritando  :  —  «  Andrésinho,  meu  velho  !  » 
S.  Ex.'^  apenas  tocou  de  leve  no  cálice  de  Gracinha. 
Padre  Sueiro  murmurou  as  «graças.»  E  Barròlo, 
atirando  o  guardanapo: 

—  Caíé  aqui  ou  na  sala?...  Na  sala  estamos 
mais  frescos. 

Na  sala  grande,  a  sala  dos  velludos  vermelhos, 
o  lustre  rebrilhava  solitariamente ;  pelas  três  janellas 
abertas  penetrava  a  serenidade  da  noite  quente,  o  re- 
colhido silencio  d'01iveira;  e  em  baixo,  no  Largo,  al- 
guns sujeitos,  mesmo  duas  senhoras  de  manta  de  lã 
branca  pela  cabeça,  pasmavam  para  aquella  claridade 
de  festa  que  jorrava  dos  Cunhaes.  O  Cavalleiro  e  Gon- 
çalo accenderam  os  charutos  na  varanda,  respirando 
a  frescura  escassa.  E  o  Cavalleiro,  com  beatitude: 

— Pois  sempre  te  digo,  Gonçalinho,  que  se  janta 
sublimemente  em  casa  de  teu  cunhado!... 

Gonçalo  desejou  que,  no  domingo,  elle  jantasse 
na  Torre.  Ainda  restavam  umas  garrafas  de  Ma- 
deira do  tempo  do  avô  Damião  —  a  que  se  daria,  com 
soccorro  do   Gouveia  e  do  Tito,  um  assalto  heróico. 

O  Cavalleiro  prometteu,  já  deliciado — tomando 
da  pesada  bandeja  de  prata,  que  derreava  o  escudei- 
ro, a  sua  chávena  de  café,  sem  assucar. 

—  E  tu,  com  effeito,  Gonçalo,  agora  não  deves 
arredar  da  Torre.  O  teu  papel  é  todo  de  presença 
na  localidade.  O  Fidalgo  da  Torre  está  no  meio  das 


298  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


suas  terras,  por  onde  vae  ser  eleito  para  as  Cortes. 
É  o  teu  papel . . . 

O  Barrôlo  com  um  riso  enlevado,  surdiu  entre 
os   dous  amigos  que  enlaçou  ternamente  pela  cinta: 

—  E  nós  cá  ficamos,  ambos  a  trabalhar,  o  Ca- 
valleiro  e  eu ! . . . 

Mas  D.  Maria,  do  canapé  onde  se  enterrara,  re- 
clamou o  primo  Gonçalo  « para  negócios. »  .Tunto 
d'uma  console,  João  Gouveia  e  Padre  Sueiro,  re- 
mexendo o  seu  caíé.  concordavam  na  necessidade 
d"um  Governo  forte.  E  Gracinha,  com  o  primo  Men- 
donça, revolvia  as  musicas  sobre  a  tampa  do  piano, 
procurando  o  Fado  dos  Ramires.  Mendonça  tocava 
com  corredio  brilho,  composera  valsas,  um  hymno 
ao  Coronel  Trancoso,  o  heroe  de  Machumba  —  e  mes- 
mo o  primeiro  acto  d"uma  opera,  A  Pegureiro.  E 
como  não  doscortinavam  o  Fado  com  as  quadras 
do  Videirinha  —  foi  justamente  uma  das  suas  valsas, 
a  Pérola,  d'uma  cadencia  amorosa  e  cançada  lem- 
brando a  valsa  do  Fausto,  que  elle  atacou,  sem  lar- 
gar o  charuto. 

Então  André  Cavalleiro,  que  repenetrára  vaga- 
rosamente na  sala,  repuxou  o  coUete,  afagou  o  bigo- 
de, e  avançando  para  Gracinha,  com  um  modo  meio 
grave,  meio  lolgazâo: 

—  Se  V.  Ex."  me  quer  dar  a  grande  honra?... 
Offerecia,  abria  os  braços.  E  Gracinha,  toda  es- 


A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES  299 


carlate,  cedeu,  levada  logo  nos  largos  passos  desli- 
sados  que  o  Cavalleiro  lançou  sobre  o  tapete. 
Barròlo  e  João  Gouveia  correram  a  afastar  as  pol- 
tronas, clareando  um  espaço,  onde  a  valsa  se  des- 
enrolou com  o  suave  sulco  branco  do  vestido  de  Gra- 
cinha. Pequenina  e  leve,  toda  elia  se  perdia,  como  se 
fundia,  na  força  máscula  do  Cavalleiro,  que  a  arre- 
batava em  giros  lentos,  com  a  face  pendida,  respi- 
rando os  seus  cabellos  magníficos. 

Da  borda  do  canapé,  com  os  finos  olhos  a  fu- 
silar,  D.  Maria  Mendonça  pasmava: 

—  Mas  que  bem  que  valsa,  que  bem  que  valsa 
o  Snr.  Governador  Civil ! . . . 

Ao  lado  Gonçalo  torcia  nervosamente  o  bigode, 
na  surpreza  d'aquella  íamiliaridade,  assim  renovada 
pelo  Cavalleiro  com  tão  serena  confiança,  por  Graci- 
nha com  tanto  abandono...  Elles  torneavam,  enlaça- 
dos. Dos  lábios  do  Cavalleiro  escorregava  um  sorriso, 
um  murmúrio.  Gracinha  arfava,  os  seus  sapatos  de 
verniz  reluziam  sob  a  saia  que  se  enrolava  nas  cal- 
ças do  Cavalleiro.  E  Barrôlo,  em  extasi,  quando  elles 
o  roçavam,  atirava  palmas  carinhosas,  bradava: 

—  Bravo!  Bravo!  Lindamente!...  Bravíssimo! 


VII 


Gonçalo  recolhia  para  o  almoço  depois  d'uni  pas- 
seio no  pomar  percorrendo  a  Gazeta  do  Porto,  quan- 
do avistou  no  banco  de  pedra,  rente  á  porta  da  co- 
sinha,  onde  a  Rosa  mudava  o  painço  na  gaiola  do 
seu  canário,  o  Casco,  o  José  Casco  dos  Bravaes,  que 
esperava,  pensativo  e  abatido,  com  o  chapéu  sobre  os 
joelhos.  Vivamente,  para  se  esquivar,  remergulhou 
no  jornal.  Mas  percebeu  a  esgalgada  magreza  do  ho- 
mem, que  surdia  da  sombra  da  latada,  avançava  na 
claridade  faiscante  do  pateo,  hesitando,  como  assus- 
tada... E,  animado  pela  visinhança  da  Piosa,  parou, 
forçando  um  sorriso— em  quanto  o  Casco  enrolava 
nas  mãos  tremulas  a  aba  dura  do  chapéu,  balbu- 
ciava : 

—  Se  o  Fidalgo  me  fizesse  a  esmola  de  uma  pa- 
lavra ... 


302  A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


—  Ah!  é  vossê,  Casco!  Homem,  não  o  conheci... 
E  então? 

Dobrou  o  jornal,  tranquillisado — gozando  mes- 
mo a  submissão  d'aquelle  valente  que  tanto  o  apa- 
vorara, erguido  e  negro  como  um  pinheiro,  na  soli- 
dão do  pinheiral.  E  o  Casco,  engasgado,  repuchava, 
esticava  o  pescoço  de  dentro  dos  grossos  collarinhos 
bordados  —  até  que  atirou  toda  a  alma  n'uma  sup- 
plica  soluçada,  retendo  as  lagrimas  que  marejavam: 

—  Ai,  meu  Fidalgo,  perdoe  por  quem  é!  Perdoe, 
que  eu  nem  lhe  sei  pedir  perdão ! . . . 

Gonçalo  atalhou  o  homem,  com  generosidade 
e  doçura.  Elle  bem  o  avisara!  Nada  se  emenda,  a 
gritar,  com  o  pau  alçado . . . 

—  E  olhe.  Casco !  Quando  vossè  me  sahiu  ao  pi- 
nhal eu  levava  um  revólver  na  algibeira...  Trago 
sempre  um  revólver.  Desde  que  uma  noite  em 
Coimbra,  no  Choupal,  dous  bêbados  me  assaltaram, 
ando  sempre  á  cautella  com  o  revólver...  Pense  você 
agora  que  desgraça  se  tiro  o  revólver,  se  desfe- 
cho! ...  Que  desgraça,  hein?...  Felizmente,  n  um  re- 
lance, pensei  que  me  perdia,  que  o  matava,  e  fugi. 
Foi  por  isso  que  íugi,  para  não  desfechar  o  revól- 
ver... Emfim  tudo  passou.  E  eu  não  sou  homem 
de  rancores,  já  esqueci.  Coratanto  que  vossè,  agora 
socegado  e  no  seu  juizo,  esqueça  também. 

O  Casco  amassava  as  abas  do  chapéu,  com  a  ca- 


A  ILUSTRE  CASA  DK  RAMIRES  303 


beça  derrubada.  E  sem  a  erguer,  sem  ousar,  rouco 
dos  soluços  que  o  entalavam: 

—  Pois  agora  é  que  eu  me  lembro,  meu  Fidal- 
go! Agora  é  que  me  ralo  por  aquella  doidice!  Ago- 
ra! depois  do  que  o  Fidalgo  íez  pela  mulher  e  pelo  pe- 
queno!. . . 

Gonçalo  sorriu,  encolheu  os  hombros: 

—  Que  tolice.  Casco!...  Pois  a  sua  mulher  appa- 
rece  ahi  n'uma  noite  d'agua. ..  E  o  pequenito  doente, 
coitadito,  com  febre...  Como  vae  elle,  o  Manelsinho?" 

O  Casco  murmurou  do  fundo  da  sua  humildade : 

—  Louvado  seja  Deus,  meu  senhor,  muito  são- 
sinho,  muito  rijinho. 

—  Ainda  bem . . .  Ponha  o  chapéu.  Ponha  o  cha- 
péu, homem !  E  adeus ! . . .  Vossè  não  tem  que  agra- 
decer, Casco . . .  E  olhe !  Traga  cá  um  dia  o  pequeno. 
Eu  gostei  do  pequeno.  É  espertinho. 

Mas  o  Casco  não  se  arredava,  pregado  ás  lages. 
Por  íira,  n'um  soluço  que  rebentou: 

—  E  que  eu  não  sei  como  hei-de  dizer,  meu  Fi- 
dalgo... Lá  o  dia  de  cadeia,  acabou!  Tenho  génio, 
íiz  a  asneira,  com  o  corpo  a  paguei.  E  pouco  paguei, 
graças  ao  Fidalgo . . .  ilas  depois  quando  sahi,  quando 
soube  que  a  mulher  viera  de  noite  á  Torre,  e  que  o 
Fidalgo  até  a  embrulhara  n'uma  capa,  e  que  não  dei- 
xara sahir  o  pequeno ... 

Estacou,  afogado  pela  emoção.  E  como  Gonçalo, 


304  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RA.MIRES 


também  commovido,  lhe  batia  risonhamente  no  hom- 
bro,  «para  acabar,  não  se  tallar  mais  n"essas  baga- 
tellas.  ..»~o  Casco  rompeu,  n'Lima  grande  voz  do- 
lorosa e  quebrada: 

—  Mas  é  que  o  Fidalgo  não  sabe  o  que  é  para 
mim  aquelle  pequeno!...  Desde  que  Deus  m'o  man- 
dou tem  sido  uma  paixão  cá  por  dentro  que  até  pa- 
rece mentira!...  Olhe  que  na  noite  que  passei  na 
cadeia  da  villa  não  dormi...  E  Deus  me  perdoe,  não 
pensei  na  mulher,  nem  na  pobre  da  velha,  nem  na 
pouquita  terra  que  amanho,  tudo  ao  desamparo. 
Toda  a  noite  se  foi  a  gemer:— «ai  o  meu  querido 
filhinho!  ai  o  meu  querido  filhinho!. . .»  Depois  quando 
a  mulher,  logo  pela  estrada,  me  diz  que  o  Fidalgo 
ficara  com  elle  na  Torre,  e  o  deitara  na  melhor  ca- 
ma, e  mandara  recado  ao  medico.. .  E  depois  quando 
soube  pelo  snr.  Bento  que  o  Fidalgo  de  noite  subia 
a  vêr  se  elle  estava  bem  coberto,  e  lhe  entalava  a 
roupa,  coitadinho... 

E  arrebatadamente,  n'um  choro  solto,  gritan- 
do:—  «Ai  meu  Fidalgo!  meu  Fidalgo!...»  —  o  Casco 
agarrou  as  mãos  de  Gonçalo,  que  beijava,  rebeijava, 
alagava  de  grossas  lagrimas. 

—  Então,  Casco!  Que  tolice!...  Deixe  homem! 

Pallido,  Gonçalo  saccudia  aquella  gratidão  fu- 
riosa—até que  ambos  se  encararam,  o  Fidalgo  com 
as  pestanas  molhadas  e  tremulas,  o  lavrador  dos  Bra- 


A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES  305 


vaes  soluçando,  n'uma  confusão.  E  íoi  elle  por  fim  que, 
recalcando  um  derradeiro  soluço,  se  recobrou,  des- 
afogou da  idéa  que  o  trouxera,  que  de  certo  funda- 
mente o  trabalhara,  e  que  agora  lhe  enrijava  a  face 
C!  o  gesto  n'uma  determinação  que  nunca  vergaria: 

—  Meu  Fidalgo,  eu  não  sei  fallar,  não  sei  dizer... 
Mas  se  d'hoje  em  deante,  seja  para  que  fôr,  o  Fidalgo 
necessitar  da  vida  d'um  homem,  tem  aqui  a  minha! 

Gonçalo  estendeu  a  mão  ao  lavrador,  muito  sim- 
plesmente—  como  um  Ramires  d'outr'ora  recebendo 
a  preitezia  d' um  vassallo: 

—  Obrigado,  José  Casco. 

—  Entendido,  meu  Fidalgo,  e  que  Deus  nosso 
Senhor  o  abençoe! 

Gonçalo,  perturbado,  galgou  pela  escadinha  da 
varanda  —  emquanto  o  Casco  atravessava  o  páteo 
vagarosamente,  com  a  cabeça  bem  erguida,  como 
homem  que  devera  e  que  pagara. 

E  em  cima,  na  livraria,  Gonçalo  pensava  com 
espanto  :  —  «  Ahi  está  como  n'este  mundo  sentimen- 
tal se  ganham  dedicações  gratuitamente!...»  Por  que 
emfim !  quem  não  impediria  que  uma  criancinha  com 
febre  aíírontasse  de  noite  uma  estrada  negra,  sob  a 
chuva  e  o  vendaval?  Quem  a  não  deitaria,  não  lhe 
adoçaria  um  grog,  não  lhe  entalaria  os  cobertores 
para  a  conservar  bem  abafada?  E  por  esse  grog  e 
por  essa  cama  —  corre  o  pae,  tremendo  e  chorando, 


306  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


a  oííerecer  a  sua  vida!  Ah!  como  era  fácil  ser  Rei  — 
e  ser  Rei  popular! 

E  esta  certeza  mais  o  animava  a  obedecer  ás 
recommendações  do  Cavalleiro  ~  a  começar  imme- 
diatamente  as  suas  visitas  aos  Influentes  eleitoraes, 
essas  aduladoras  visitas  que  assegurariam  á  Elei- 
ção uma  unanimidade  arrogante.  Logo  ao  fim  do 
almoço,  mesmo  sobre  a  toalha,  arredando  os  pra- 
tos, copiou  a  lista  d'esses  Magnates  —  por  um  rascu- 
nho annotado  que  lhe  fornecera  o  João  Gouveia. 
Era  o  Dr.  Alexandrino;  o  velho  Gramilde,  de  Ra- 
milde;  o  Padre  José  Vicente,  da  Finta;  outros  me- 
nores:—  e  o  Gouveia  marcara  com  uma  cruz,  como 
o  mais  poderoso  e  mais  difficil,  o  Visconde  de  Rio- 
Manso,  que  dispunha  da  immensa  freguezia  de  Can- 
ta-Pedra.  Gonçalo  conhecia  esses  senhores,  homens 
de  propriedade  e  de  dinheiro  (com  todos  outr'ora  o 
papá  andara  endividado)— mas  nunca  encontrara  o 
Visconde  de  Rio-Manso,  ura  velho  brazileiro,  dono 
da  quinta  da  Varandínha,  onde  vivia  solitariamente 
com  uma  neta  de  onze  annos,  essa  linda  Rosinha  que 
chamavam  «o  botão  de  Rosa»,  a  herdeira  mais  rica 
de  toda  a  Província.  E  logo  n'essa  tarde,  em  Villa- 
Clara,  reclamou  ao  João  Gouveia  uma  carta  d"apre- 
sentaçâo  para  o  Rio-Manso : 

O  Administrador  hesitou : 

— Vossê  não  precisa  carta...   Que  diabo!  Vossè 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  307 


é  O  Fidalgo  da  Torre !  Chega,  entra,  conversa. . .  Além 
d'isso  na  Eleição  passada  o  Rio-Manso  ajudou  os  Re- 
generadores;  de  modo  que  estamos  um  pouco  sêc- 
cos.  O  Rio-Manso  é  um  casmurro...  Mas  com  effeito, 
Gonçalinho,  convém  começar  essa  caça  á  populari- 
dade! 

N'essa  noite,  na  Assembleia,  o  Fidalgo,  ence- 
tando a  a  caça  á  popularidade»,  acceitou  um  convite 
do  Commendador  Romão  Barros  (do  massador,  do 
burlesco  Barros  )  para  o  bródio  íaustoso  com  que  elle 
celebrava,  na  sua  quinta  da  Roqueira,  a  festa  de  S.  Ro- 
mão. E  essa  semana  inteira,  depois  outra,  as  gastou 
assim  por  Villa-Clara,  amimando  eleitores  —  a  ponto 
de  comprar  horrendas  camisas  de  chita  na  loja  do 
Ramos,  de  encommendar  um  sacco  de  café  na  mer- 
cearia do  Tello,  de  offerecer  o  braço  no  largo  do 
Chafariz  á  nojenta  mulher  do  bebedissirao  Marques 
Rosendo,  e  de  frequentar,  de  chapéu  para  a  nuca, 
o  bilhar  da  rua  das  Pretas.  João  Gouveia  não  ap- 
provava  estes  excessos  —  aconselhando  antes  «boas 
visitas,  com  todo  o  chie,  aos  influentes  sérios. »  Mas 
Gonçalo  bocejava,  adiava,  na  insuperável  preguiça 
de  afírontar  a  maledicência  rabujenta  do  velho  Gra- 
milde  ou  a  solemnidade  forense  do  Dr.  Alexandrino. 

Agosto  findava: — e  por  vezes,  na  livraria,  Gon- 
çalo, coçando  desconsoladamente  a  cabeça,  conside- 
rava as  brancas  tiras  d'almaço,  o  Capitulo  III  da  Tor- 


308  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


re  de  D.  Ramires  encalhado . . .  Mas  quê !  não  podia, 
com  aquelle  calor,  com  o  afan  da  Eleição,  remergu- 
Ihar  nas  eras  Affonsinas! 

Quando  refrescavam  as  tardes  lentas  montava, 
alongava  o  passeio  pelas  freguezias,  não  se  descui- 
dando das  recommendações  do  Cavalleiro — enchendo 
sempre  o  bolso  de  rebuçados  d'avenca  para  atirar  ás 
creanças.  Mas,  n'uma  carta  ao  querido  André,  já  con- 
fessara que  «  a  sua  popularidade  não  crescia,  não  en- 
funava...»—  «Nãot  positivamente,  velho  amigo,  não 
«tenho  o  dom!  Sei  apenas  palestrar  familiarmente 
«com  os  homens,  comprimentar  pelo  seu  nome  as  ve- 
«Ihas  ás  soleiras  das  portas,  gracejar  com  a  peque- 
«nada,  e  se  encontro  uma  boeirinha  de  saiasita  rota 
«dar  cinco  tostões  á  boeirinha  para  uma  saiasita  nova... 
«Ora  todas  estas  cousas  tão  naturaes  sempre  as  fiz 
«naturalmente,  desde  rapaz,  sem  que  me  conquisías- 
«sem  influencia  sensível...  Necessito  portanto  que 
essa  querida  Authoridade  m'empurre  com  o  seu 
braço  possante  e  destro ...» 

Todavia  já  uma  tarde,  encontrando  junto  da 
Torre  o  velho  Cosme  de  Nacejas,  e  depois,  n'um  do- 
mingo, crusando  ás  Ave-Marias  na  Bica-Santa  o 
Adrião  Pinto  do  logar  da  Levada,  ambos  lavradores 
considerados  e  remexedores  d'eleições  —  lhes  pedira 
os  votos,  desprendidamentc  e  rindo.  E  quasi  se  as- 
sombrara da  promptidão,  do  fervor,  com  que  ambos  se 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  309 


offereceram.  —  «Para  o  Fidalgo?  Pois  isso  está  en- 
tendido! Ainda  que  se  votasse  contra  o  Governo,  que 
é  pae!» — E  em  Villa-Clara,  com  o  Gouveia,  Gonçalo 
deduzia  d'estas  offertas  tâo  acaloradas  «a  intelligen- 
cia  politica  da  gente  do  campo»: 

— Está  claro  que  não  é  pelos  meus  lindos  olhos! 
Mas  sabem  que  eu  sou  homem  para  fallar,  para  lu- 
ctar  pelos  interesses  da  terra...  O  Sanches  Lucena 
não  passava  d'um  Conselheiro  muito  rico  e  muito 
mudo!  Esta  gente  quer  deputado  que  grite,  que  lide, 
que  imponha . . .  Votam  por  mim  por  que  sou  uma 
intelligencia. 

E  o  Gouveia  volvia,  contemplando  pensativa- 
mente o  Fidalgo : 

— Homem!  quem  sabe?  Vossê  nunca  experimen- 
tou, Gonçalo  Mendes  Ramires.  Talvez  seja  realmente 
pelos  seus  lindos  olhos! 


N'um  d'esses  passeios,  n'uma  abrazada  sexta- 
feira,  com  o  sol  ainda  alto,  Gonçalo  atravessava  o  lo- 
garejo  da  Velleda,  no  caminho  de  Canta-Pedra.  Ao 
fim  dos  casebres  que  se  apertam  á  orla  da  estrada 
alveja,  muito  caiada,  n'um  terreiro  defronte  da  Egre- 
a,  a  taverna  famosa  «do  Pintainho»,  onde  os  cara- 
manchões do  quintal  e  a  nomeada  do  coelho  gui- 
zado   attrahem   vasto    povo   nos   dias   da   feira    da 


310  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Velleda.  N'essa  manhã  o  Tito,  depois  d' uma  madru- 
gada ás  perdizes,  em  Valverde,  apparecera  na  Torre 
para  almoçar,  urrando,  d'esíomeado.  Era  sexta-íeira 
—  a  Rosa  preparara  uma  pescada  com  tomates,  depois 
um  bacalhau  assado,  formidáveis.  E  Gonçalo,  toda  a 
tarde  torturado  com  sede,  mais  resequido  pela  poeira 
da  estrada,  parou  avidamente  deante  do  portão  da 
venda,  gritou  pelo  Pintainho. 

— Oh  meu  Fidalgo  ! . . . 

—  Oh  Pintainho!  depressa!  Uma  sangria!  Uma 
grande  sangria  bem  fresca,  que  morro . . . 

O  Pintainho,  velhote  roliço  de  cabello  amarello, 
não  tardou  com  o  copo  appetitoso  e  fundo  onde  boia- 
va, na  espumasinha  do  assucar,  uma  rodella  de  li- 
mão. E  Gonçalo  saboreava  a  sangria  com  ineffavel 
delicia  —  quando  da  janella  térrea  da  venda  partiu 
um  assobio  lento,  fino  e  trinado,  como  os  dos  arriei- 
ros que  animam  as  bestas  a  beber  nos  riachos.  Gon- 
çalo deteve  o  copo,  varado.  A  janella  assomara  um 
latagão  airoso,  de  face  clara  e  suissas  louras,  que, 
com  os  punhos  sobre  o  peitoril  e  a  cabeça  levantada, 
n'um  descarado  modo  de  pimponico  e  desafio,  o  fita- 
va atrevidamente.  E  n'ura  lampejo  o  Fidalgo  reco- 
nheceu aquelle  caçador  que  já  uma  tarde,  no  logar 
de  Nacejas,  ao  pé  da  Fabrica  de  vidros,  o  mirara 
com  arrogância,  lhe  raspara  a  espingarda  pela  per- 
na, e  ainda  depois,  parado  sob  a  varanda  d'uma  ra- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  311 


pariga  de  jaqué  azul,  lhe  acenara  chasqueando  em- 
quanto  elle  descia  a  ladeira . . .  Era  esse !  Como  se 
não  percebesse  o  ultraje  —  Gonçalo  bebeu  apressada- 
mente a  sangria,  atirou  uma  placa  ao  pobre  Pintai- 
nho enfiado,  e  picou  a  fina  egoa.  Mas  então  da  ja- 
nella  rolou  uma  risadinha,  cacarejada  e  troçante, 
que  o  colheu  pelas  costas  como  o  estalo  d'uma  ver- 
gasta. Gonçalo  soltou  a  galope.  E  adiante,  sopeando 
a  egoa  no  refugio  d'uma  azinhaga,  pensava,  ainda 
tremulo: — a  Quem  será  o  desavergonhado?...  E  que 
lhe  fiz  eu.  Santo  Deus?  que  lhe  fiz  eu?...»  Ao  mesmo 
tempo  todo  o  seu  ser  se  desesperava  contra  aquelle 
desgraçado  medo,  encolhimento  da  carne,  arrepio  da 
pelle,  que  sempre,  ante  um  perigo,  uma  ameaça,  ura 
vulto  surdindo  d' uma  sombra,  o  estonteava,  o  impel- 
lia  furiosamente  a  abalar,  a  escapar!  Por  que  á  sua 
alma,  Deus  louvado,  não  faltava  arrojo!  Mas  era  o 
corpo,  o  traiçoeiro  corpo,  que  n'um  arrepio,  n'um 
espanto,  fugia,  se  safava,  arrastando  a  alma — em- 
quanto  dentro  a  alma  bravejava! 

Entrou  na  Torre,  mortificado,  invejando  a  afou- 
teza  dos  seus  moços  da  quinta,  remoendo  um  ran- 
cor soturno  contra  aquelle  bruto  de  suissas  lou- 
ras, que  certamente  denunciaria  ao  Cavalleiro  e 
enterraria  n'uma  enxovia!  —  Mas,  logo  no  corre- 
dor,   o    Bento   lhe    debandou   os    pensamentos,   ap- 


312  A  ILLUSTRE   CASA   DE  RAMIRES 


parecendo  com  uma  carta  «que  trouxera  um  moça 
da  Feitosa ...» 

—  Da  Feitosa? 

—  Sim  senhor,  da  quinta  do  snr.  Sanciíes  Lu- 
cena, que  Deus  haja.  Diz  que  vinha  de  mandado 
das  senhoras... 

—  Das  senhoras!...  Que  senhoras? 

Sem  tarja  de  luto,  a  carta  nâo  era  da  bella 
D.  Anna...  Mas  era  de  D.  Maria  Mendonça,  que 
assignava — «prima  muito  amiga,  Maria  Severim.» 
N'um  relance  a  leu,  colhido  logo  por  esta  surpreza 
nova,  distrahido  da  venda  do  Pintainho  e  da  aííron- 
ta:  —  «Meu  querido  Primo.  Estou  ha  três  dias  aqui 
«com  a  minha  amiga  Annica,  e  como  passou  o  mez 
«inteiro  do  nojo  e  ella  já  pôde  sahir  (e  até  precisa 
«porque  tem  andado  fraca)  eu  aproveito  a  occasiâo 
«para  percorrer  estes  arredores  que  dizem  tão  boni- 
«tos,  e  pouco  conheço.  Tencionamos  no  Domingo 
« visitar  Santa  Maria  de  Craquêde,  onde  estão  os  tu- 
« mulos  dos  antigos  tios  Ramires.  Que  impressão  me 
« vae  fazer ! . . .  Mas,  ao  que  parece,  além  dos  tumu- 
«los  do  claustro,  ha  outros,  ainda  mais  antigos,  que 
«foram  arrombados  no  tempo  dos  Francezes,  e  que 
«ficam  n'um  subterrâneo,  onde  se  nâo  pôde  entrar 
«sem  licença  e  sem  que  tragam  a  chave.  Peço  pois. 
«querido  Primo,  que  dè  as  suas  ordens  para  que 
«no  Domingo  possamos  descer  ao  subterrâneo,  que 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  3i3 


«todos  affiançam  muito  interessante,  por  que  ainda 
«lá  restam  ossos  e  armas.  Se  na  Torre  houvesse 
«uma  senhora,  eu  mesma  iria,  para  lhe  fazer  este 
«pedido...  Mas  não  se  pôde  visitar  um  solteirão  tão 
«perigoso.  Case  depressa!...  D'01iveira  boas  noti- 
«cias.  Creia-me  sempre,  etc. » 

Gonçalo  encarou  o  Bento  —  que  esperava,  inte- 
ressado com  aquelle  assombro  do  Snr.  Doutor: 

—  Tu  sabes  se  era  Santa  Maria  de  Craquêde  ha 
outros  túmulos,  n'um  subterrâneo? 

O  assombro  então  saltou  para  o  Bento: 

—  N'ura  subterrâneo?...  Túmulos? 

—  Sim,  homem!  Além  dos  que  estão  no  claustro 
parece  que  ha  outros,  mais  antigos,  debaixo  da  ter- 
ra... Eu  nunca  vi,  não  me  lembro.  Também  ha 
que  annos  não  entro  em  Santa  Maria  de  Craquêde! 
Desde  pequeno!...  Tu  não  sabes? 

O  Bento  encolheu  os  hombros. 

— -E  a  Rosa  não  saberá? 

O  Bento  abanou  a  cabeça,  duvidando. 

—  Também,  vossés  nunca  sabem  nada!  Bem! 
Amanhã  cedo  corre  a  Santa  Maria  de  Craquêde  e 
pergunta  na  Egreja,  ao  sachristão,  se  existe  esse 
subterrâneo.  Se  existir  que  o  mostre  no  Domingo  a 
umas  senhoras,  á  snr."  D.  Anna  Lucena,  e  á  snr.*' 
D.  Maria  Mendonça,  minha  prima  Maria...  E  que 
tenha  tudo  varrido,  tudo  decente! 


314  A   ILLUSTRE   CASA  DE  RAMIRES 


Mas,  repassando  a  carta,  reparou  n'um  Post- 
Scripiuni  em  lettra  mais  miudinha,  ao  canto  da  fo- 
lha:—«No  Domingo,  não  se  esqueça,  a  visita  será 
« entre  as  cinco  e  cinco  e  meia  da  tarde ! » 

Gonçalo  pensou: —«Será  uma  entrevista?»  E 
na  livraria,  atirando  para  uma  cadeira  o  chapéu  e  o 
chicote,  assentou  que  era  uma  entrevista,  hem  clara, 
bem  marcada!  E  talvez  nem  existisse  esse  subterrâ- 
neo—  e  Maria  Mendonça,  com  a  sua  tortuosa  esper- 
teza, o  inventasse,  como  natural  motivo  de  lhe  es- 
crever, de  lhe  annunciar  que  no  Domingo,  ás  cinco 
e  meia,  a  bella  D.  Anna  e  os  seus  duzentos  contos 
o  esperavam  em  Santa  Maria  de  Craquêde.  Mas  en- 
tão a  prima  Maria  não  gracejara,  em  Oliveira?  Gos- 
tava d'e]le,  realmente,  essa  D.  Anna?...  E  uma  emo- 
ção, uma  curiosidade  voluptuosa  atravessaram  Gon- 
çalo á  idéa  de  que  tão  formosa  mulher  o  desejava. 

—  Ah!  mas  certamente  o  desejava  para  marido,  por 
que  se  o  appetecesse  para  amante  não  se  soccorria 
dos  serviços  da  D.  Maria  Mendonça  —  nem  a  prima 
Maria,  apesar  de  tão  sabuja  com  as  amigas  ricas,  os 
prestaria  assim  descaradamente  como  uma  alcovi- 
teira de  Comedia!  E  caramba!  casar  com  a  D.  Anna 

—  não ! 

E  subitamente  anciou  por  conhecer  a  vida  da 
D.  Anna !  Aturara  ella  tantos  annos,  em  severa  fideli- 
dade, o  velho  Sanches?  Sim,  talvez,  na  Feitosa,  na  so- 


A  ILLUSTUE  CASA  DE  RAMIRES  313 


lidâo  dos  grandes  muros  da  Feitosa  —  por  que  nunca 
sobre  ella  esvoaçara  um  rumor,  em  terriolas  tão  gu- 
losas de  rumores  malignos.  Mas  em  Lisboa?...  Es- 
ses «amigos  estimabilissimos»  de  que  se  ufanava  o 
pobre  Sanches,  o  D.  João  não  sei  quê,  o  pomposo 
Arronches  Manrique,  o  Philippe  Lourençal  com  o 
seu  cornetim?...  Algum  de  certo  a  attacára  —  tal- 
vez o  D.  João,  por  dever  tradicional  do  nome.  E 
ella?...  Quem  o  informaria  sobre  a  historia  senti- 
mental da  D.  Anna? 

Depois,  ao  jantar,  de  repente  pensou  no  Gou- 
veia. Uma  irmã  do  Gouveia,  casada  em  Lisboa  com 
certo  Cerqueira  (arranjador  de  Magicas  e  empre- 
gado na  Misericórdia)  costumava  mandar  ao  mano 
Administrador  relatórios  Íntimos  sobre  todas  as  pes- 
soas conhecidas  d'Oliveira,  de  Villa-Clara,  que  se  de- 
moravam em  Lisboa  —  e  que  interessavam  o  mano 
ou  por  Politica,  ou  por  mexeriquice.  E  de  certo, 
pela  irmã  Cerqueira,  o  querido  Gouveia  conhecia 
miudamente  os  annaes  da  D.  Anna,  durante  os  seus 
invernos  de  Lisboa,  nas  delicias  da  sua  «roda  fina.» 

N'essa  noite,  porém,  o  Administrador  não  appa- 
recera  na  Assembleia.  E  Gonçalo,  desconsolado,  re- 
colhia á  Torre  — quando  no  Largo  do  Chafariz  o  en- 
controu com  o  Videirinha,  ambos  sentados  n'um  ban- 
co, sob  as  olaias  escuras. 

—  Chegou  lindamente!  exclamou  o  Gouveia.  Es- 


316  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


tavamos  mesmo  a  marchar  para  minha  casa,  tomar 
chá.  Quer  vossê,  também?...  Vossê  costuma  gostar 
das  minhas  torradinhas. 

O  Fidalgo  acceitou  —  apezar  de  cançado.  E  logo 
pela  Calçadinha,  enlaçando  o  braço  do  Administrador, 
contou  que  recebera  uma  carta  de  Lisboa,  d'um 
amigo,  com  uma  nova  estupenda...  O  que? — O  ca- 
samento da  D.  Anna  Lucena. 

O  Gouveia  parou,  assombrado,  atirando  o  coco 
para  a  nuca: 

—  Com  quem?l 

Gonçalo  que  inventara  a  carta  —  inventou  o 
noivo : 

—  Com  um  vago  parente  meu,  ao  que  parece,. 
um  D.  João  Pedroso- ou  da  Pedrosa.  ^Muitas  vezes 
o  Sanches  Lucena  me  íallou  n'elle . . .  Conviviam 
muito  em  Lisboa . . . 

Gouveia  bateu  com  a  ponta  da  bengala  nas 
pedras : 

—  Não  pôde  ser!...  Oue  disparate!  A  D.  Anna 
não  ajustava  casamento  sete  semanas  depois  de  lhe 
morrer  o  marido . . .  Olho  que  o  Lucena  morreu  no 
meado  do  Julho,  homem!  Ainda  nem  teve  tempo  de 
se  acostumar  á  sepultura! 

—  Sim,  com  efíeito!  murmurou  Gonçalo. 

E  sorria,  sob  uma  doce  baforada  de  vaidade  — 
pensando  que,    sete  semanas  depois  de  viuva,  ella, 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  317 


sem  resistir,  calcando  decência  e  luto,  lhe  offerecia  a 
elle  uma  entrevista  nas  ruinas  de  Craquède. 

A  mentira  de  resto,  apesar  de  disparatada,  apro- 
veitara—  porque,  depois  de  subirem  á  saleta  verde 
do  Administrador,  o  espanto  recomeçou.  Videirinha 
esfregava  as  mãos,  divertido: 

— Oh  snr.  Dr.,  olhe  que  tinha  graça!...  Se  a  snr.* 
D.  Anna,  depois  d'apanhar  os  duzentos  contos  do 
velhote,  logo  passadas  semanas,  zás,  se  engancha 
com  um  rapazote  novo... 

Não,  não ! . . .  Gonçalo  agora,  reparando,  também 
considerava  despropositada  a  noticia  do  casamento, 
assim  com  o  pobre  Sanches  ainda  morno... 

—  Naturalmente  entre  ella  e  esse  D.  João  havia 
namorico,  olhadella...  Por  isso  imaginaram.  Com 
efíeito,  alguém  me  contou,  ha  tempos,  que  o  tal 
D.  João  se  atirava  valentemente,  como  cumpre  a 
um  D.  João,  e  que  ella... 

—  Mentira!  atalhou  o  Administrador,  debruçado 
sobre  a  chaminé  do  candieiro  para  accender  o  cigar- 
ro. Mentira!  Sei  perfeitamente,  e  por  excellente  canal... 
Emfim,  sei  por  minha  irmã!  Nunca,  em  Lisboa,  a 
D.  Anna  deu  azo  a  que  se  rosnasse.  Muito  séria, 
muitíssimo  séria.  Está  claro,  não  faltou  por  lá  ma- 
ganão que  lhe  arrastasse  a  aza  languida . . .  Talvez 
esse  D.  João,  ou  outro  amigo  do  marido,  segundo  a 
boa  lei  natural.  Mas  ella,  nada!  Nem  olho  de  lado! 


318  A  ILLUSTRE   CASA  DE  RAMIRES 


Esposa  romana,  meu  amigo,  e  dos  bons  tempos  ro- 
manos ! 

Gonçalo,  enterrado  no  camapé,  torcia  lentamente 
o  bigode,  regalado,  recolhendo  as  revelações.  E  o 
Gouveia,  no  meio  da  sala,  com  um  gesto  conven- 
cido e  superior: 

—  Nem  admira!  Estas  mulheres  muito  formosas 
são  insensíveis.  Bellos  mármores,  mas  frios  marmo- 
res...  jNão,  Gonçalinho,  lá  para  o  sentimento,  e  para 
a  alma,  e  mesmo  para  o  resto,  venham  as  mulheres 
pequeninas,  magrinhas,  escurinhas  !  Essas  sim  ! . . . 
Mas  os  grandes  mulherões  brancos,  do  género  Vé- 
nus, só  para  vista,  só  para  museo. 

Videirinha  arriscou  uma  duvida: 

—  Uma  senhora  tâo  bonita  como  a  snr.^  D.  Anna, 
e  com  aquelle  sangue,  assim  casada  com  um  ve- 
lhote ... 

—  Ha  mulheres  que  gostam  de  velhotes  por  que 
ellas  mesmas  teem  sentimentos  velhotes!  —  declarou 
o  Gouveia,  de  dedo  erguido,  com  immensa  auctori- 
dade  e  immensa  philosophia. 

Mas  a  curiosidade  de  Gonçalo  não  se  contentava. 
E  na  Feitosa  ?  Nunca  se  rosnara  d'alguraa  aventura 
escondida?  Parece  que  com  o  Dr.  Júlio... 

De  novo  o  Fidalgo  inventava.  De  novo  Gouveia, 
repelliu  a  «mentira»: 

—  Nem  na  Feitosa^  nem  em  Oliveira,  nem  em 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIUES  319 


Lisboa...  De  resto,  é  o  que  lhe  digo,  Gonçalo  Men- 
des. Mulher  de  mármore! 

Depois,  saudando,  em  submissa  admiração: 

—  Mas,  como  mármore...  Yossês,  meninos,  não 
imaginam  a  belleza  d'aquella  mulher  decotada! 

Gonçalo  pasmou: 

—  E  onde  a  viu  vossè  decotada? 

—  Onde  a  vi  decotada?  Em  Lisboa,  n*um  baile 
do  Paço . . .  Até  foi  justamente  o  Lucena  que  me  ar- 
ranjou o  convite  para  o  Paço.  Lá  me  espanejei,  de 
calção . . .  Uma  serasaboria.  E  mesmo  uma  vergonha, 
toda  aquella  turba  acavallada  por  cima  dos  buffe- 
tes,  aos  berros,  a  agarrar  furiosamente  pedaços  de 
peru . . . 

—  }.Ias  então,  a  D.  Anna? 

—  Pois  a  D.  Anna  uma  belleza!  Yossês  não 
imaginam ! . . .  Santo  nome  de  Deus !  que  hombros  1 
que  braços!  que  peito!  E  a  brancura,  a  perfeição... 
De  endoidecer!  Ao  principio,  como  havia  muita  gente, 
e  ella  estava  para  um  canto,  acanhadota,  não  íez  sen- 
sação. Mas  depois  lá  a  descobriram.  E  eram  corre- 
rias, magotes  embasbacados...  E  «quem  será?»  E 
«que  encanto!»  Todo  o  mundo  perdidinho,  até  o  Reil 

E  um  momento  os  três  homens  emmudeceram 
na  impressão  do  formoso  corpo  evocado,  que  entre 
elles  surgia,  quasi  despido,  inundando  com  o  ex- 
plendor  da  sua  brancura  a  modesta  sala  mal  alu- 


320  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


miada.  Por  fim  Videiriuha  acercou  a  cadeira,  em 
confidencia,  para  íornecer  também  a  sua  informa- 
ção : 

—  Pois,  por  mim,  o  que  posso  affirmar  é  que  a 
snr."  D.  Anna  é  uma  mulher  muito  aceada,  muito 
lavada . . . 

E  como  os  outros  s"espantavam,  rindo,  de  uma 
certeza  tão  intima  —  Videirinha  contou  que  todas  as 
semanas  apparecia  um  moço  da  Feitosa,  na  botica 
do  Pires,  a  comprar  três  e  quatro  garrafas  de  agua 
de  Colónia  portugueza,  da  receita  do  Pires. 

—  Até  o  Pires  dizia  sempre,  a  esfregar  as  mãos, 
que  na  Feitosa  regavam  as  terras  com  agua  de  Co- 
lónia. Depois  é  que  soubemos  pela  creada  ...  A 
snr.*  D.  Anna  toma  todos  os  dias  um  grande  banho, 
que  não  é  só  para  lavar,  mas  para  prazer.  Fica  uma 
hora  dentro  da  tina.  Até  lê  o  jornal  dentro  da  tina. 
E  em  cada  banho,  zás,  meia  garrafa  d*agua  de  Coló- 
nia... Já  é  luxo! 

Então  Gonçalo  sentiu  como  um  aborrecimento  de 
todas  aquellas  revelações  do  Administrador,  do  aju- 
dante da  Pharmacia,  sobre  os  decotes  e  as  lavagens 
da  linda  mulher  que  o  esperava  entre  os  túmulos 
dos  Ramires  seculares.  Saccudiu  o  jornal  com  que 
se  abanava,  exclamou: 

—  Bem!  E  passando  a  cantiga  mais  séria...  Oh 


A   ILUSTRE   CASA  DE   RA>fIRES  321 


Gouveia,  vossè  que  tem  sabido  do  Dr.  Júlio?  O  ho- 
mem trabalha  na  eleição? 

A  creada  entrara  com  a  bandeja  do  chá.  E  em 
torno  da  mesa,  trincando  as  torradas  famosas,  con- 
versaram sobre  a  Eleição,  sobre  os  informes  dos  Pie- 
gedores,  sobre  a  reserva  do  Rio-Manso  —  e  sobre  o 
Dr.  Júlio,  que  Videirinha  encontrara  nos  Bravaes 
pedinchando  votos  pelas  portas,  acompanhado  por 
um  moço  com  a  machina  photographica  ás  costas. 

Depois  do  chá  Gonçalo,  cançado  e  já  provido 
«de  revelações»,  accendeu  o  charuto  para  recolher 
á  Torre. 

—  Vossè  não  acompanha,  Videirinha? 

—  Hoje,  Snr.  Dr.,  não  posso.  Parto  de  madrugada 
para  Oliveira,  na  diligencia. 

—  Que  diabo  vae  vossè  fazer  a  Oliveira? 

— Por  causa  d' uns  sapatos  de  praia  e  d' um  íato 
de  banho  lá  da  minha  patroa,  da  D.  Josepha  Pires . . . 
Tenho  de  os  trocar  nos  Emilios,  levar  as  medidas. 

Gonçalo  ergueu  os  braços,  desolado: 

—  Ora  vejam  este  paiz!  Um  grande  artista,  como 
o  Videirinha,  a  carregar  para  Oliveira  com  os  sapa- 
tos de  banho  da  patroa  Pires! ...  Oh  Gouveia!  quan- 
do eu  fôr  deputado  precisamos  arranjar  um  bom 
legar  para  o  Videirinha,  no  Governo  Civil.  Um  lo- 
gar  íacil  e  com  vagares,  para  elle  não  esquecer  o 
violão ! 


322  A-   ILLUSTRE    CASA  DE   RAMIRES 


Videirinha  corou  de  gosto  e  de  esperança  — cor- 
rendo a  despendurar  do  cabide  o  chapéo  do  Fidalgo. 

Pela  estrada  da  Torre,  os  pensamentos  de  Gon- 
çalo esvoaçaram  logo,  com  irresistida  tentação,  para 
D.  Anna  —  para  os  seus  decotes,  para  os  languidos  ba- 
nhos em  que  se  esquecia  lendo  o  jornal.  Por  lim,  que 
diabo!...  Essa  D.  Anna  assim  tão  honesta,  tão  per- 
fumada, tão  oxplendidamente  bella,  só  apresentava, 
mesmo  como  esposa,  um  feio  senão  —  o  papá  carni- 
ceiro. E  a  voz  também  —  a  voz  que  tanto  o  arri- 
piára  na  Bica-Santa. . .  Mas  o  Mendonça  assegurava 
que  aquelle  timbre  rolante  e  gordo,  na  intimidade, 
se  abatia,  liso  e  quasi  doce...  Depois,  mezes  de  con- 
vivência habituam  ás  vozes  mais  desagradáveis  — 
e  elle  mesmo,  agora,  nem  percebia  quanto  o  Manoel 
Duarte  era  fanhoso!  Não!  mancha  teimosa,  real- 
mente, só  o  pae  carniceiro.  Mas  n'esta  Humanidade 
nascida  toda  d' um  só  homem,  quem,  entre  os  seus  mi- 
lhares d'avós  até  Adão,  não  tem  algum  avô  carniceiro? 
Elle,  bom  fidalgo,  d' uma  casa  de  Reis  d'onde  Dynas- 
tias  irradiavam,  certamente,  escarafunchando  o  Pas- 
sado, toparia  com  o  Ramires  carniceiro.  E  que  o  car- 
niceiro avultasse  logo  na  primeira  geração,  n'nm  ta- 
lho ainda  aíreguezado,  ou  que  apenas  s'estumasse, 
atravez  d'espessos  séculos,  entre  os  trigésimos  avós 
— lá  estava,  com  a  faca,  e  o  cepo,  e  as  postas  de  car- 
ne, e  as  nódoas  do  sangue  no  braço  suado ! .  . . 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  323 


E  este  pensamento  não  o  abandonou  até  á  Tor- 
re—nem ainda  depois,  á  janella  do  quarto,  acabando 
o  charuto,  escutando  o  cantar  dos  ralos.  Já  mesmo 
se  deitara,  e  as  pestanas  lhe   adormeciam,  e  ainda 
sentia  que  os  seus  passos  impacientes  se  embrenha- 
vam para  traz,  para  o  escuro  passado  da  sua  Casa,  por 
entre  a  emmaranhada  Historia,  procurando  o  carni- 
ceiro. . .  Era  já  para  além  dos  confins  do  Império  Vi- 
sigodo, onde  reinava  com  um  globo  d'ouro  na  mão 
o  seu  barbudo  avô  Recesvinto.  Esfalfado,  arquejando, 
transpozera  as  cidades  cultas,  povoadas  de  homens 
cultos  —  penetrara  nas  florestas  que   o  mastodonte 
ainda  sulcava.    Entre   a  húmida  espessura  já  cru- 
sára  vagos  Ramires,  que  carregavam,  grunhindo,  re- 
zes mortas,  molhos  de  lenha.  Outros  surdiam  de  to- 
cas fumarentas,  arreganhando  agudos  dentes  esver- 
deados para  sorrir  ao  neto  que  passava.    Depois  por 
tristes  ermos,  sob  tristes  silêncios,  chegara  a  uma 
lagoa  ennevoada.  E  á  beira  da  agoa  limosa,  entre  os 
canaviaes,  um  homem  monstruoso,  pelludo  como  uma 
fera,  agachado  no  lodo,   partia  a  rijos  golpes,  com 
um  machado    de   pedra,   postas   de  carne  humana. 
Era  um  Ramires.  No  ceu  cinzento  voava  o  Açor  ne- 
gro. E  logo,  d'entre  a  neblina  da  lagoa,  elle  acenava 
para  Santa  Maria  de   Craquêde,  para  a  formosa  e 
perfumada  D.  Anna,  bradando  por  cima  dos  Impé- 
rios e  dos  Tempos:— «Achei  o  meu  avô  carniceiro!» 


324  A   ILLUSTRE   CASA  DE   RAMIRES 


No  Domingo,  Gonçalo  acordou  com  uma  a  esper- 
ta ideia!»  Não  correria  a  Santa  Maria  de  Craquêde 
com  uma  pontualidade  sôfrega,  ás  cinco  horas  (as 
cinco  horas  marcadas  no  Post-Scnptum  da  prima 
Maria) — mostrando  o  seu  alvoroço  em  encontrar  a 
tão  bella  e  tão  rica  D,  Anna  Lucena!  Mas  ás  seis 
horas,  quando  findasse  a  romaria  das  senhoras  aos 
túmulos,  appareceria  elle  indolentemente,  como  se, 
recolhendo  d' um  passeio  pelas  frescas  cercanias,  se 
recordasse,  parasse  nas  ruinas  para  conversar  com  a 
prima  Maria. 

Logo  ás  quatro  horas  porém  se  começou  a  ves- 
tir com  tantos  esmeros,  que  o  Bento,  cançado  das 
gravatas  que  o  Snr.  Dr,  experimentava  e  arremes- 
sava amarfanhadas  para  o  divan,  não  se  conteve: 

—  Ponha  a  de  sedinha  branca,  Snr.  Dr. !  Ponha 
a  branca,  que  lhe  fica  melhor!  E  refresca  mais,  com 
este  calor. 

jXa  escolha  d' um  ramo  para  o  casaco  ainda  re- 
quintou, juntando  as  cores  heráldicas  dos  Rami- 
res, ura  cravo  amarello  com  um  cravo  branco.  Ao 
portão,  apenas  montara  na  egoa,  temeu  qile  as  se- 
nhoras (não  o  encontrando  no  Claustro)  encurtas- 
sem a  visita,  estugou  o  trote  pelo  atalho  da  Portella. 
Depois  adiante,  ao  desembocar  na  antiga  estrada  real, 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  oÍÕ 


soltou  n'am  galopo  impaciente  que  o  branqueou  de 
poeira. 

Só  retomou  um  passo  indifíerente,  ao  acercar  da 
linha  do  Caminho  de  Ferro,  onde  ura  carro  de  le- 
nha e  dois  homens  esperavam  deante  da  cancella, 
que  se  fechara  para  a  lenta  passagem  d' um  trem  car- 
regado de  pipas.  Um  d'esses  homens,  d'alíorge  aos 
hombros,  era  o  Mendigo  —  o  vistoso  Mendigo  que 
passeava  por  aquellas  aldeias  a  rendosa  magestade 
das  suas  barbaças  de  Deus  fluvial.  Erguendo  grave- 
mente o  chapéo  de  vastas  abas,  desejou  ao  Fidalgo 
a  companhia  de  Nosso  Senhor. 

—  Então  hoje  a  ganhar  a  rica  vida  por  Craquê- 
de  ?  . . . 

— Cá  me  arrasto  ás  vezes  para  a  passagem  do 
comboio  d'01iveira,  meu  Fidalgo.  Os  passageiros 
gostam  de  mo  vêr  de  pé  no  talude,  correm  sempre 
ás  janellas . . . 

Gonçalo,  rindo,  recordou  que  o  encontro  d'aquelle 
ancião  precedia  sempre  um  encontro  seu  com  a  bella 
D.  Anna. — «Quem  sabe?  pensou.  E'  talvez  o  Des- 
tino !  Os  antigos  pintavam  assim  o  Destino,  com  lon- 
gas barbas  e  longas  guedelhas,  e  o  alforge  ás  costas 
contendo  as  sortes  humanas...»  —  E  com  effeito  ao 
cabo  do  pinheiral  silencioso,  que  estiradas  resteas  de 
sol    docemente    douravam  —  avistou   a   caleche    da 


326  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Feitosa,  parada  sob  uma  carvalha,  com  o  cocheiro 
fardado  de  negro  dormitando  na  ahnofada.  A  estrada 
real  de  Oliveira  costeia  ahi  o  antigo  adro  do  mosteiro 
de  Craquêde,  queimado  pelo  fogo  do  céo,  n'aquella 
irada  tempestade  que  chamam  de  S.  Sebastião,  e  que 
aterrou  Portugal  em  1616.  Uma  herva  agora  alíom- 
bra  o  chão,  crescida  e  verde,  entre  os  poderosos  tron- 
cos dos  castanheiros  velhíssimos.  A  Egrejinha  nova 
alveja,  bem  caiada,  ao  fundo  da  ramaria:  e,  ligada  a 
ella  por  um  muro  esbrechado  que  densa  hera  veste, 
tomando  todo  o  lado  nascente  do  Terreiro — sobe,  en- 
che ainda  magnificamente  o  céo  lustroso,  a  tachada 
da  Egreja  do  vetusto  Mosteiro,  suavemente  amarelle- 
cida  e  brunida  pelos  tempos,  com  o  seu  immenso  por- 
tal sem  portas,  a  rosácea  desmantelada,  e  esvasiados 
os  nichos  d'enterramento  onde  outr'ora  se  estiraça- 
vam  as  imagens  dos  fundadores,  Froylas  Ramires  e 
sua  mulher  Estevaninha,  condessa  d"Orgaz,  por  al- 
cunha a  Queixa-perra.  Duas  casas  térreas  povoam  o 
lado  fronteiro  do  adro— uma  limpa,  com  as  hom- 
breiras  das  janellas  pintadas  d'azul  estridente,  a  ou- 
tra deserta,  quasi  sem  telhado,  afogada  na  verdura 
d' um  quinteiro  bravo  ondo  gira-soes  resplandecem. 
Um  pensativo  silencio  envolvia  o  arvoredo,  as  altivas 
ruinas.  E  nem  o  quebrava,  antes  serenamente  o  em- 
ballava,  o  susurro  d'uma  íoníe,  que  a  estiagem  adel- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  327 


gaçára  em  fio  lento,  e  mal  enchia  o  seu  tanque  de 
pedra,  toldado  pela  pallida  e  rala  folhagem  d' um  cho- 
rão multo  alto. 

O  trintanario  da  Feitosa,  ao  enxergar  o  Fidalgo, 
saltou  risonhamente  da  borda  do  tanque  onde  picava 
tabaco,  para  segurar  a  egoa.  E  Gonçalo,  que  desde 
pequeno  não  penetrava  nas  ruínas  de  Craquêde,  se- 
guia por  um  carreirinho  cortado  na  relva,  attenta- 
mente,  encantado  com  aquella  romântica  solidão  de 
lenda  e  verso,  quando,  sob  o  arco  do  portal,  appare- 
ceram  as  duas  senhoras  voltando  do  velho  Claustro. 
D.  Maria  Mendonça,  com  a  sua  sacudida  vivacidade, 
agitou  logo  o  guarda-sol  de  xadrezinho,  semelhante 
ao  vestido,  cujas  mangas,  tufando  desmedidamente 
nos  hombros,  lhe  vincavam  mais  a  elegância  esgal- 
gada. E  ao  lado,  na  claridade,  D.  Anna  era  uma  si- 
lenciosa e  esvelta  íórma  negra,  de  lã  negra  e  d'es- 
cumilha  negra,  onde  apenas  transparecia,  suavisada 
sob  o  véo  negro,  a  brancura  explendida  da  sua  face 
sensual  e  séria. 

Gonçalo  correra,  erguendo  o  chapéo  de  palha, 
balbuciando  o  seu  «prazer  por  aquelle  encontro...» 
Mas  já  D.  iMaria  o  reprehendia,  sem  lhe  consentir  a 
fabula  do  «encontro»: 

—  O  primo  não  c  nada  amável,  nada  amável... 

—  Oh  prima! . . . 

-T-Pois  sabia  que  vínhamos,  pela  minha  carta! 


328  A   ILLUSTRE    CASA  DE   RAMIRES 


E  nem  está  á  hora  aprazada,  para  fazer  as  honras, 
como  devia. . . 

Elle,  rindo,  com  o  seu  desembaraço  airoso,  ne- 
gou esse  dever!  Aquella  casa  não  era  sua,  mas  do 
Bom  Deus!  Ao  Bom  Deus  competia  «fazer  as  hon- 
ras»—  acolher  tão  doces  romeiras  com  algum  mila- 
gre amável . . . 

— E  então,  gostaram?  V.  Ex.^  Snr.'^  D.  Anna,  gos- 
tou das  ruinas  ? . . .  Muito  interessantes,  não  é  ver- 
dade? 

Através  do  véo,  com  uma  lentidão  que  a  espessa 
renda  negra  tornava  mais  grave,  ella  murmurou : 

—  Eu  já  conhecia...  Vim  cá  uma  tarde,  com  o 
pobre  Sanches  que  Deus  haja. 

—  Ah... 

Áquella  evocação  do  pobre  morto,  Gonçalo  su- 
mira todo  o  sorriso,  com  polida  tristeza.  Mas  D.  Maria 
Mendonça  acudio,  atirando  um  dos  seus  magros  ges- 
tos, como  para  arredar  a  sombra  importuna: 

— Ai!  não  imagina  o  que  gostei,  primo!  É  d'ap- 
petite  todo  o  claustro.. .  Logo  aquella  espada  enfer- 
rujada, chumbada  por  cima  do  tumulo. . .  Não  ha 
nada  que  impressione  como  estas  cousas  antigas. . . 
Oh  primo,  e  pensar  que  estão  alli  antepassados  nossos  1 

O  sorriso  de  Gonçalo  de  novo  lampejou,  alegre  e 
acolhedor,  como  sempre  que  D.  ]\Iaria  se  empurrava 
com  desesperada  gula  para  dentro  da  Casa  de  Ra- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  329 


mires.  E  gracejou,  affavelmente.  Oh,  antepassados... 
Simples  punhados  de  cinsa  vã! — Pois  não  era  ver- 
dade, Snr.'^  D.  Anna?...  Realmente!  quem  conce- 
beria que  a  prima  Maria,  tão  viva,  tão  sociável,  tão 
engraçada,  descendesse  d'uma  poeira  tristonha  guar- 
dada dentro  d'uma  pia  de  pedra?  Não!  nâo  se  podia 
ligar  tanto  ser  a  tanto  não-ser. . .  —  E  como  D.  Anna 
sorria,  n'uma  vaga  concordância,  encostando  as  duas 
mãos  íortes  e  muito  apertadas  na  pellica  negra  ao 
alto  cabo  d'aljofar  da  sombrinha,  elle  atalhou  com 
interesse : 

—  V.  Ex.*^  está  talvez  cançada,  Snr.^  D.  iVnna  ? 

—  Nâo,  nâo  estou  cançada. .  .  Ainda  vamos  mes- 
mo entrar  na  capella,  um  bocadinho. . .  Eu  nunca  me 
canço. 

E  pareceu  a  Gonçalo  que  a  voz  da  formosa  crea- 
tura  nâo  rolava  do  papo,  tão  grossa  e  gorda  —  mas 
que  se  afinara,  adoçada  e  velada  pelo  luto  d'escomi- 
Iha  e  lã,  como  esses  grossos  e  rolantes  rumores  que  a 
noite  e  o  arvoredo  adelgaçam.  Mas  D.  Maria  confes- 
sou o  seu  immenso  cançasso !  Nada  a  esfalfava  como 
visitar  curiosidades. . .  E  além  d'isso  a  emoção,  a  ideia 
de  heroes  tâo  antigos! 

—  Se  nos  sentássemos  n'aquelle  banco,  hein?  E' 
muito  cedo  para  recolhermos,  nâo  é  verdade,  Anni- 
ca?  E  está  tâo  agradável  n'este  socego,  n"esta  fres- 
cura. . . 


330  A  ILLUSTRE  CASA  DE  «AMIRES 


Era  um  banco  de  pedra,  rente  ao  muro  esbre- 
cbado  que  a  hera  afogava.  Em  torno  a  relva  crescia, 
mais  silvestre  e  florida  com  os  derradeiros  malmeque- 
res e  botões  d'ouro  que  o  sol  d'Agosto  poupara.  Um 
aromasinho  fino,  d'algum  jasmineiro  emmaranhado  na 
hera,  errava,  adocicava  a  serena  tarde.  E  na  rama 
d'um  álamo,  defronte  do  portão  da  Capella,  duas  ve- 
zes um  melro  cantara.  Gonçalo  sacudiu  todo  o  banco 
cuidadosamente,  com  o  lenço.  E  sentado  na  ponta, 
junto  de  D.  Maria,  louvou  também  a  írescura,  o  re- 
colhimento d'aque]le  cantinho  de  Craquéde. . .  E  elle 
que  nunca  se  aproveitara  de  refugio  tão  santo,  e  quasi 
seu,  nem  mesmo  para  um  almoço  bucólico!  Pois 
agora  certamente  voltaria  fumar  um  charuto,  revol- 
ver ideias  de  paz  sob  a  paz  das  carvalheiras,  na  vi- 
sinhança  dos  vovós  mortos. . .  Depois,  com  uma  cu- 
riosidade: 

—  É  verdade,  prima!  E  o  subterrâneo? 

Oh!  não  existia  subterrâneo!...  Sim,  existia  — 
mas  entulhado,  sem  sepulturas,  sem  antiguidades.  E 
o  sachristâo  logo  lhes  affiançára  que  anão  valia  a 
pena  sujarem  as  saias. . .» 

—  É  verdade,  oh  Annica,  deste  alguma  cousa  ao 
sachristâo  ? 

—  Oh  filha,  dei  cinco  tostões...  Não  sei  se  foi 
bastante. 

Gonçalo  assegurou  que  se  pagara  sumptuosa- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  331 


mente  ao  sachristâo.  E,  se  prevesso  tamanha  gene- 
rosidade da  Snr.''  D.  Anna,  agarrava  elle  um  molho 
de  chaves,  até  enfiava  uma  opa  preta,  para  mostrar 
—  e  para  embolsar. .  . 

—  Pois  é  o  que  devia  ter  feito!  exclamou  D.  Ma- 
ria, com  um  corisco  nos  espertos  olhos.  E  decerto  se 
lhe  davam  os  cinco  tostões !  Porque  sempre  seria 
mais  instructivo  que  o  homerasinho,  que  mascava, 
nâo  sabia  nada!...  Semelhante  morcão !  E  eu  com 
tanta  curiosidade  por  aquelle  tumulo  aberto,  com 
a  tampa  rachada...  O  mono  só  soube  resmungar 
que  «eram  historias  muito  antigas  lá  do  Fidalgo  da 
Torre. . . » 

Gonçalo  ria: 

— Pois  essa  historia  por  acaso  sei  eu,  prima  Ma- 
ria! Sei  agora  pelo  Fado  dos  Ramires ^  o  fado  do 
Videirinha. . . 

D.  Maria  Mendonça  levantou  as  compridas  mãos 
aos  céos,  revoltada  com  aquella  indifferença  pelas 
tradições  heróicas  da  Casa.  Conhecer  somente  os  seus 
Annaes  doede  que  elles  andavam  repicados  n'um 
íado!. . .  O  primo  Gonçalo  nâo  se  envergonhava? 

— Mas  por  quê,  prima,  porquê?  O  íado  do  Vi- 
deirinha está  fundado  em  documentos  authenticos 
que  o  Padre  Sueiro  estudou.  Todo  o  recheio  histó- 
rico foi  fornecido  pelo  Padre  Sueiro.  O  Videirinha 
só  poz  as  rimas.    Além  d'isso  antigamente,  prima,  a 


332  A  ILLCSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Historia  era  perpetuada  em  verso  e  cantada  ao  som  da 
lyra. . .  Era  fim  quer  saber  esse  caso  do  tumulo  aber- 
to, segundo  as  quadras  do  Videirinha?  Eu  sempre 
conto!  Mas  só  para  a  Snr.*  D.  Anna,  que  não  soffre 
d'esses  escrúpulos. . . 

—  Não!  acudiu  D.  Maria.  Se  o  Videirinha  tem 
essa  auctoridade  histórica  então  conte  tam.bem  para 
mim,  que  sou  da  Casa! 

Gonçalo,  por  gracejo,  tossio,  passou  o  lenço  pe- 
los beiços: 

—  Pois  eis  o  caso!  N'esse  tumulo  habitava,  na- 
turalmente morto,  um  dos  meus  avós. . .  Não  me 
lembro  o  nome,  Guticrres  ou  Lopo.  Creio  que  Gu- 
tierres. .  .  Emfira,  lá  jazia  quando  íoi  da  batalha  das 
Navas  de  Tolosa. . .  A  prima  Maria  conhece  a  bata- 
lha das  Navas,  os  cinco  reis  mouros,  etc. . .  Como  o 
tal  Guticrres  soube  da  batalha  não  contam  os  versos 
do  Videirinha.  Mas,  apenas  lá  dentro  lhe  cheirou  a 
carnificina,  arromba  o  tumulo,  sahe  por  este  pateo 
como  um  desesperado,  desenterra  o  seu  cavallo  que 
fora  enterrado  no  adro  onde  agora  crescem  estes 
carvalhos,  monta  n'elle  todo  armado,  e,  Cavalleiro 
morto  sobre  cavallo  morto,  larga  a  galope  através 
da  Hespanha,  chega  ás  Navas,  arranca  a  espada, 
e  destroça  os  mouros .  .  .  Oue  lhe  parece,  Snr.*^ 
D.  Anna? 

Dedicara  a  historia  a  D.  Anna,  procurando  nos 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  333 


seus  bellos  olhos  a  attençâo  e  o  interesse.  E  ella, 
que  a  furto,  através  do  decoro  melancólico  a  que 
se  esforçava,  adoçara  o  sorriso,  attrahida  e  levada, 
murmurou  apenas: — a  Tem  graça!»  — D.  Maria,  po- 
rém, quasi  esvoaçou  sobre  o  banco  de  pedra,  n'ura 
extasis: — «Lindo!  Lindo!  Que  poesia!...  Oh!  uma 
lenda  de  todo  o  appetite!»  —  E,  para  que  Gonçalo 
desenrolasse  ainda  a  graça  do  seu  dizer,  outras  ma- 
ravilhas da  sua  Chronica : 

—  Conte,  primo,  conte. . .  E  voltou  para  Craquè- 
de  esse  tio  Ramires? 

—  Ouem,  prima,  o  Gutierres  ? . .  .  Ou  fosse  elle 
tolo!  Apenas  se  apanhou  livre  da  massada  da  sepul- 
tura não  appareceu  mais  em  Santa  Maria  de  Cra- 
quêde.  O  tumulo  vasio,  como  está,  e  elle  por  Hespa- 
nha  n'uma  pandega  heróica!...  Imagine!  um  de- 
funto que  por  milagre  se  safa  do  seu  jazigo,  d'aquella 
postura  eterna,  tão  apertada,  tão  esticada ! . . . 

Subitamente  emmudeceu,  lembrando  o  Sanches 
Lucena,  também  esticado  no  seu  caixote  do  chumbo, 
sob  o  seu  vistoso  jazigo  d'01iveira. . .  —  D.  Anna 
baixara  a  íace,  mais  sumida  no  véo,  esfuracando 
a  herva  com  a  ponta  da  sombrinha.  E  a  esperta 
D.  Maria,  para  desfazer  a  sombra  impertinente  que 
de  novo  os  roçara,  rompeu  n'outra  curiosidade,  que 
ainda  se  encadeava  na  nobreza  dos  Ramires: 

— E'  verdade!  Sempre  me  esquece  de  lhe  per- 


331  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


guntar.  O  primo  ainda  tem  muitos  parentes  em 
França. . .  Talvez  também  não  saiba  ? 

Sim!  Gonçalo,  casualmente,  conhecia  essa  histo- 
ria dos  seus  parentes  de  França  —  apezar  de  que  o 
Videirinha  os  não  cantara  no  Fado ! 

— Então  conte!  Mas  que  seja  historia  alegre! 

Oh,  não  era  prodigiosamente  divertida!  Um  avô 
Ramires,  Garcia  Ramires,  acompanhara  nas  suas  fa- 
mosas jornadas  o  Infante  D.  Pedro,  o  filho  d"Ei-Rei 
D.  João  I...  A  Prima  Maria  sabia — o  Infante  D.  Pe- 
dro, o  que  correu  as  Sete  Partidas  do  mundo...  Pois  o 
Infante  D.  Pedro  e  os  seus  fidalgos,  de  volta  da  Pales- 
tina, pousaram  um  anno  inteiro  na  Flandres,  com  o 
Duque  de  Borgonha.  Até  se  celebraram  então  testas 
maravilhosas,  com  um  banquete  que  durou  sete  dias,  e 
que  anda  nos  compêndios  da  Historia  de  França.  Onde 
ha  danças  ha  amores.  A  avô  Ramires  sobejava  ima- 
ginação e  arrojo . . .  Fora  elle  que  deante  de  Je- 
rusalém, no  Valle  de  Josaphat,  lembrara  que  se  er- 
guesse um  sigtial  para  que  o  Infante  e  os  seus  com- 
panheiros de  romagem  se  reconhecessem  no  grande 
Dia  de  Juízo.  Depois,  naturalmente,  bello  mocetão, 
de  barba  negra  e  cerrada  á  Portugueza . . .  Emfim 
casara  com  uma  irmã  do  Duque  de  Clèves,  uma 
tremenda  Senhora,  sobrinha  do  Duque  de  Borgo- 
nha e  Brabante.  Mais  tarde,  através  d'essas  ligações, 
uma  avó  Ramires,  já  viuva,  casou  também  em  França 


A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES  335 


com  O  conde  de  Tancarville.  Esses  Tancarvilles,  Gran- 
Mestres  de  Franca,  possuíam  o  mais  íormidavel  cas- 
tello  da  Europa,  e. .  . 

D.  Maria  bateu  as  palmas,  rindo: 

— Bravo!  lindamente!  Sim,  senhor!...  Então  o 
primo  que  se  gaba  de  não  saber  nada  do  fidalguias. , . 
Olho  como  conhece  pelo  miúdo  a  historia  d'esses 
grandes  casamentos!  Hein,  Annica?  .  . .  É  uma  Chro- 
nica  viva! 

Gonçalo  vergou  os  hombros,  confessou  que  se 
occupára  de  toda  essa  heráldica  historia  por  um 
motivo  bem  rasteiro  —  por  miséria! ..  . 

—  Por  miséria? 

—  Sim,  prima  Maria,  por  penúria  de  moeda,  de 
cobres. . . 

—  Conte!  conte!  Olhe,  a  Annica  está  anciosa. . . 

—  Quer  saber,  Snr.'*^  D.  Anna?  .  ..  Pois  foi  em 
Coimbra,  no  meu  segundo  anno  de  Coimbra.  Os  com- 
panheiros e  eu  chegamos  a  não  juntar  entre  todos 
um  vintém.  Nem  para  cigarros !  Nem  para  o  sagrado 
decilitro  de  carrascâo  e  as  três  azeitonas  do  dever... 
Um  d'elles  então,  rapaz  muito  engraçado,  de  Mel- 
gaço, surdiu  com  a  idéa  estupenda  de  que  eu  escre- 
vesse aos  meus  parentes  de  França,  a  esses  Clcves, 
a  esses  Tancarvilles,  senhores  de  certo  immensa- 
mente  ricos,  e  sollicitasse,  com  desembaraço,  um 
emprestimosinho  de  trezentos  trancos. 


336  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


D.  Anna  não  conteve  um  riso,  sinceramente  di- 
vertido : 

—  Ai!  tem  muita  graça! 

—  Mas  nâo  teve  resultado,  minha  senhora . , . 
Já  não  existem  Clòves,  nem  Tancarvilles !  Todas 
essas  grandes  familias  feudaes  findaram,  se  íundi- 
ram  n'outras  casas,  até  na  Casa  de  França.  E  o 
meu  padre  Sueiro,  apezar  de  todo  o  seu  saber  ge- 
nealógico, nunca  conseguiu  descobrir  quem  as  re- 
presentava com  bastante  affmidade  para  me  empres- 
tar, a  mim  parente  pobre  de  Portugal,  esses  trezen- 
tos francos. 

Aquella  penúria  de  Gonçalo,  de  tamanho  fidalgo, 
quasi  enternecera  D.  Anua: 

—  Ora  estarem  assim  sem  vintém !  Quem  sou- 
besse . . .  Mas  tem  graça  !  Essas  historias  do  Coimbra 
teem  sempre  muita  graça.  O  D.  João  de  Pedrosa, 
em  Lisboa,  também  contava  muitas... 

D.  Maria  iVIendonça,  porém,  através  d'essa  fa- 
cécia d'estudantes,  descortinara  outra  prova  inespe- 
rada da  grandeza  dos  Ramires.  E  immediatamente  a 
estendeu  deante  de  D.  Anna  com  habilidade: 

—  Ora  vejam! . . .  Todas  essas  grandes  casas  de 
França,  tão  ricas,  tão  poderosas,  acabaram,  desappa- 
receram.  E  cá  no  nosso  Portugalsinho  ainda  dura  a 
casa  de  Ramires! 

Gonçalo  acudiu: 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  337 


—  Acaba  agora,  prima! . . .  Não  olhe  para  mim 
assim  espantada.  Acaba  agora. . .  Pois  se  eu  não  caso ! 

Então  D.  Maria  recuou  o  magro  peito  —  como 
se  esse  casamento  do  primo  dependesse  de  doces  in- 
fluencias, que  convinha  se  trocassem  bem  chegada- 
mente,  sem  Marias  Mendonças  de  permeio  no  estreito 
banco  com  grandes  mangas  bufantes  tolhendo  as 
correntes  de  eífluvio.  E  sorria,  quasi  languida- 
mente : 

—  Ora  não  casa. . .  Mas  por  quê,  primo,  por  quê? 
— Por  que  não  tenho  geito,  prima.  O  casamento 

é  uma  arte  m.uito  delicada  que  necessita  vocação, 
génio  especial.  As  Fadas  não  me  concederam  esse 
génio.  E  se  me  dedicasse  a  semelhante  obra,  ai  de 
mim!  com  certeza  a  estragava. 

D.  Anna,  como  se  outra  idéa  a  occupasse,  puxara 
lentamente  do  cinto  o  relógio  preso  por  uma  fita  de 
cabello.  E  D.  Maria  insistia,  recusava  os  motivos  do 
Fidalgo : 

—  São  tolices.  O  primo  que  gosta  tanto  de 
creanças.  .  . 

—  Gosto,  gosto  muito  de  creanças,  até  de  crean- 
€inhas  de  mama.  As  creanças  são  os  únicos  seres  di- 
vinos que  a  nossa  pobre  humanidade  conhece.  Os 
outros  anjos,  os  d'azas,  nunca  apparecem.  Os  san- 
tos,  depois  de  santos,  ficam  na  Bemaventurança  a 


338  A  ILLUSTRE  CASA  DE  U-\MIRES 


preguiçar,  ninguém  mais  os  enxerga.  E,  para  con- 
cebermos uma  ideia  das  cousas  do  céo,  só  temos 
realmente  as  creancinhas. . .  Sim,  com  eííeito,  prima, 
gosto  muito  de  creanças.  Mas  também  gosto  de  flo- 
res, e  não  sou  jardineiro,  nem  tenho  geito  para  a 
jardinagem. 

E  D.  Maria  com  uma  faísca  no  olhar  promettedor : 

—  Socegue,  que  ainda  vem  a  aprender! 
Depois,  para  D.  Anna  que  se  esquecera  na  con- 
templação do  relógio: 

—  Achas  que  vão  sendo  horas?  Então,  se  queres, 
entramos  na  Capella. . .  Oh  primo,  veja  se  está  aberta. 

Gonçalo  correu,  empurrou  a  porta  da  Capella. 
Depois  acompanhou  as  duas  senhoras  pela  pequenina 
nave  soalhada,  entre  delgados  pilares  recobertos 
de  uma  cal  áspera  e  crua  —  que  recamava  também 
as  paredes  lisas,  apenas  guarnecidas,  na  sua  rigida 
nudez,  por  lithographias  de  Santos  dentro  de  caixilhos 
de  pinho.  Deante  do  altar  as  senhoras  ajoelharam 
—  a  prima  Maria  enterrando  a  face  nas  mãos  jan- 
tas como  n'um  vaso  de  Piedade.  Gonçalo  dobrou  o 
joelho  de  leve,  engrolou  uma  Ave-Maria. 

Depois  voltou  para  o  adro,  accendeu  um  cigarro. 
E,  pisando  lentamente  a  relva,  considerava  quanto  a 
viuvez  melhorara  D.  Anna.  Sob  o  negrume  do  luto. 
como  n"uma  penumbra  que  esfuma  a  grosseira  des- 


I 


A  ILLUSXnE  CASA  DE  «VMiUES  339 


elegância  das  cousas,  todos  os  seus  defeitos  se  íun- 
diam  —  os  defeitos  que  tanto  o  horripilavam  na  tarde 
da  Bica  Santa,  o  rolar  gordo  da  voz,  o  peito  empi- 
nado, a  ostentação  de  burgaeza  ricassa  pingueraente 
repimpada  na  vida.  Até  já  nem  dizia  —  «o  cavalhei- 
ro!» E  alli,  no  adro  melancólico  de  Craquède,  cer- 
tamente parecia  interessante  e  desejável. 

As  senhoras  desciam  os  dois  degraus  da  Capella. 
Um  melro  esvoaçou  na  ramagem  dos  alamos.  E  Gon- 
çalo encontrou  o  lampejo  dos  olhos  sérios  de  D.  An- 
na  que  o  procuravam. 

—  Peço  perdão  de  não  lhes  ter  offerecido  agua 
benta  á  sabida,  mas  a  concha  está  secca. . . 

—  Jesus,  primo,  que  Egreja  tão  íeia! 
D.  Anna  arriscou,  com  timidez: 

—  Depois  das  ruinas  e  dos  túmulos,  até  parece 
pouco  religiosa. 

A  observação  impressionou  Gonçalo,  como  muito 
fma.  E  junto  d'ella,  demorando  os  passos  com  agra- 
do, sentia,  esparzido  pelos  seus  movimentos,  pelo  ro- 
çar do  vestido,  um  aroma  também  fino,  que  não  era 
o  da  horrenda  agua  de  Colónia  da  botica  do  Pires. 
Em  silencio,  sob  a  ramagem  das  carvalhas,  cami- 
nharam para  a  caleche,  onde  o  cocheiro  se  apruma- 
ra, bem  estilado,  tirando  o  chapéu.  Gonçalo  notou 
que  elle  rapara  o  bigode.  E  a  parelha  reluzia,  atre- 
lada com  esmero. 


3i0  A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIKES 


—  E  então,  prima  Maria,  ainda  se  demora  pelos 
nossos  sitios? 

—  Sim,  primo,  mais  uns  quinze  dias. . .  A  An- 
nica  é  tão  amável,  quiz  que  eu  trouxesse  os  peque- 
nos. O  que  elles  se  têm  divertido  na  quinta,  não 
imagina ! 

D.  Anna  murmurou,  sempre  séria : 

—  São  muito  engraçados,  íazem  muita  compa- 
nhia. . .  Eu  também  gosto  muito  de  creanças. 

—  Ai,  a  Annica  adora  creanças!  accudiu  D.  Ma- 
ria com  fervor.  O  que  ella  atura  os  pequenos!  Até 
joga  com  elles  o  maíarrico. 

Perto  da  caleche,  Gonçalo  pensou  que  outra  volta 
pelo  adro,  mais  lenta,  com  a  D.  Anna  e  o  seu  fino 
aroma,  seria  doce,  u'aquelle  socego  da  tarde  que  fin- 
dava, tingida  de  tão  lindas  cores  de  rosa  sobre  os 
pinhciraes  escurecidos.  INIas  já  o  trintanario  se  acer- 
cava segurando  a  sua  egoa.  E  D.  Maria,  depois  de 
admirar  e  acariciar  a  egoa,  chamou  o  primo  discre- 
tamente—  para  saber  a  distancia  da  Feitosa  a  Trei- 
xedo,  a  outra  quinta  histórica,  dos  Ramires. 

—  A  Treixedo,  prima?...  Cinco  legoas  fartas, 
com  maus  caminhos. 

E  immediatamente  se  arrependeu,  antevendo  um 
passeio,  um  novo  encontro: 

—  Mas  na  estrada  ultimamente  andaram  obras. 
E   c  muito  bonito   sitio,  n'um  alto,  com  um  resto 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  3il 


de  muralhas..  .  Treixedo  era  um  castello  enorme... 
Na  quinta  ha  uma  lagoa  entre  arvoredo  antigo...  Oh! 
sitio  delicioso  para  um  pic-nic! 

D.  Maria  hesitou : 

—  É  um  pouco  longe,  veremos,  talvez. 

E  como  D.  Anna  esperava  em  silencio —  Gonçalo 
abriu  a  portinhola,  tomou  ao  trintanario  as  rédeas 
da  egoa.  D.  Maria  Mendonça,  no  seu  contentamento 
por  tão  proveitosa  tarde,  sacudiu  ardentemente  a 
mão  do  primo  jurando  «que  ia  apaixonada  por  Cra- 
qutíde!»  D.  Anna  mal  roçou  os  dedos  de  Gonçalo, 
acanhada  e  corando. 

Sozinho,  com  a  rédea  da  egoa  enfiada  no  braço, 
Gonçalo  sorria.  Na  verdade,  n'essa  tarde,  D,  Anna 
não  lhe  desagradara.  Outros  modos,  outra  singeleza 
grave,  outra  doçura  na  sua  possante  belleza  de  Vé- 
nus rural . . .  E  aquella  observação  sobre  a  Capella, 
«pouco  religiosa»  depois  das  ruinas  seculares  do 
claustro,  era  uma  observação  fina.  Ouem  sabe?  Tal- 
vez sob  carne  tão  sensual  se  escondesse  uma  natu- 
reza delicada.  Talvez  a  influencia  d'outro  homem, 
que  não  o  estupidissimo  Sanches,  desenvolvesse  na 
fdha  explendida  do  carniceiro  qualidades  de  muito 
encanto . . .  Oh,  evidentemente,  a  observação  sobre 
os  túmulos  e  a  sua  religiosidade  emanando  da  Lenda 
e  da  Historia  —  era  fina. 


312  A   ILLUSTUE    CASA   DE   RAMIRES 


E  então  também  o  tomou  a  curiosidade  de  visi- 
tar esse  claustro  onde  não  entrara  desde  pequeno 
—  quando  ainda  a  Torre  conservava  as  suas  car- 
ruagens montadas  e  a  romântica  Miss  Rhodes  esco- 
lhia sempre  o  passeio  de  Craquêde  para  as  tardes 
pensativas  d'outomno.  Puxou  a  egoa,  transpoz  o  por- 
tal, atravessou  o  espaço  descoberto  que  fora  a  nave — 
atulhado  de  caliça,  de  cacos,  de  pedras  despegadas 
da  abobada  e  afogadas  nas  hervas  bravas.  E  pela 
brecha  d'um  muro  a  que  ainda  se  amparava  um  pe- 
daço d'altar — penetrou  na  silenciosa  crasta  Affonsina. 
Só  d'ella  restam  daas  arcadas  em  anguio,  atarraca- 
das sobre  rudes  pilares,  lageadas  de  poderosas  lages 
poidas  que  n'essa  manhã  o  sachristâo  cuidadosa- 
mente varrera.  E  contra  o  muro,  onde  rijas  nervu- 
ras desenham  outros  arcos,  avultam  os  sete  iraraen- 
sos  túmulos  dos  antiquíssimos  Ramires,  denegridos, 
lisos,  sem  um  lavor,  como  toscas  arcas  de  granito, 
alguns  pesadamente  encravados  no  lagodo,  outros 
pousando  sobre  bolas  que  os  séculos  lascaram.  Gon- 
çalo seguia  um  carreiro  de  tijolo,  rente  aos  arcos, 
recordando  quando  elle  outr'ora  e  Gracinha  pulavam 
ruidosamente  por  sobre  essas  campas,  em  quanto  no 
pateo  do  claustro,  entre  as  pilastras  tombadas  e  a 
verdura  das  ruinas,  a  boa  Miss  Rhodes  agachada 
procurava  florinhas  silvestres.  Na  abobada,  sobre  o 


A  ILLUSTr.E  CASA  DE  RAMIRES  3i3 


mais  vasto  tumulo,  lá  negrejava  chumbada  a  espada, 
a  famosa  espada,  com  a  sua  corrente  de  ferro  pen- 
dendo do  punho,  a  folha  roída  pela  ferrugem  das  lon- 
gas idades.  Sobre  outro  lá  ardia  a  lâmpada,  a  estra- 
nha lâmpada  mourisca,  que  não  se  apagara  desde  a 
tarde  remota  em  que  algum  monge,  cora  uma  tocha 
de  sahimento,  silenciosamente  a  accendera. . .  Quan- 
do se  accendera  ella,  a  eterna  lâmpada?  Que  Ramires 
jazeriam  n'esses  cofres  de  granito,  a  que  o  tempo 
raspara  as  inscripções  o  as  datas,  para  que  n"ellas 
toda  a  Historia  se  sumisse,  e  mais  escuramente  se 
volvessem  em  leve  pó  sem  nome  aquelles  homens  de 
orgulho  e  de  força  ? . . .  Depois  na  ponta  do  claustro 
era  o  tumulo  aberto,  e  ao  lado,  derrubada  em  dous 
pedaços,  a  tampa  que  o  esqueleto  de  Lopo  Ramires 
arrombara  para  correr  ás  Navas  de  Tolosa  e  bater 
os  cinco  Reis  mouros.  Gonçalo  espreitou  para  dentro, 
curiosamente.  A  um  canto  da  funda  arca  alvejava 
um  montão  d'ossos,  limpos  e  bem  arrumados!  Es- 
íjuecera  o  velho  Lopo,  na  sua  pressa  heróica,  esses 
poucos  ossos,  já  despegados  do  seu  esqueleto?...  O 
crepúsculo  cerrara,  e  com  elle  uma  melancólica  som- 
bra que  se  adensava  sob  as  abobadas  da  crasta,  co- 
bria de  tristeza  morta  aquella  jazida  de  mortos.  En- 
tão Gonçalo  sentiu  a  desolada  solidão  que  o  envolvia, 
o  separava  da  vida,  alli  desgarrado,  e  sem  soccorro 


344  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


entre  a  poeira  e  a  alma  errante  dos  seus  avós  te- 
merosos !  E  de  repente  estremeceu,  no  arripiado  me- 
do de  que  outra  tampa  estalasse  com  fragor  e  atra- 
vez  da  fenda  surdissem  lividos  dedos  sem  carne!  Re- 
puxou desesperadamente  a  egoa  pelo  muro  desman- 
telado, nas  ruinas  da  nave  pulou  para  o  selim,  e 
varou  n'um  trote  o  portal,  galgou  o  adro  com  anciã 
—  só  socegou  ao  avistar,  ao  fim  do  pinhal,  a  cancella 
do  Caminho  de  Ferro  aberta,  e  uma  velha  que  a 
passava  tangendo  o  seu  burro  carregado  d'herva. 


VÍIÍ 


Ao  fim  da  semana  Gonçalo,  que  desde  a  visita 
a  Santa  IMaria  de  Craquêde  arrastava  o  remorso  in- 
commodo  da  sua  preguiça,  do  tão  longo  abandono 
da  Novella  —  recebeu  de  manbâ,  ao  sahir  do  banho, 
uma  carta  do  Castanheiro.  Era  curta:— e  declarava 
ao  amigo  Gonçalo  que,  se  era  meado  de  Outubro 
não  chegassem  a  Lisboa  três  Capítulos  do  original, 
elle,  com  pezar  seu  e  da  Arte,  publicaria  no  primeiro 
numero  dos  Annaes,  em  vez  da  Torre  de  D.  Rami- 
res j,  um  drama  do  Nuno  Carreira  n'um  acto,  intitu- 
lado Em  Casa  do  Temerário...  «Apezar  de  drama 
«e  de  phantasia  (accrescentava)  convém  á  Índole  eru- 
«  dita  dos  Annaes  por  que  este  Temerário  é  Carlos  o 
«Temerário,  e  a  acção  toda,  íortemente  tecida,  se 
«passa  no  Castello  de  Peronne,  onde  se  encontram 
«nada  menos  que  Luiz  XI  de  França,  e  o  nosso  po- 


3i6  A  iLLLSrr.E  casa  dk  ra.mires 


«bre  Afíonso  V,  e  Pêro  da  Covilhan  que  o  acompa- 
«nhava,  e  outros  figurões  de  rija  estatura  histórica, 
a  Imagine!...  Está  claro,  o  chie  supremo  ^<?x\ò.Tructe- 
« zindo  Mendes  Ramires  contado  pelo  nosso  Gonçalo 
«Mendes  Ramires!  Mas,  pelo  que  vejo,  esse  chie  su- 
« premo  está  impedido  por  uma  indolência  suprema. 
«  Su)it  Lacnjmce  Reoistarum ! » 

Gonçalo  atirou  a  carta,  gritou  pelo  Bento : 
—  Leva  para  a  livraria  chá  verde,  íorte,  com  tor- 
radas. Hoje  só  almoço  tarde,  ás  duas. . .  Talvez  nem 
almoce ! 

E,  enfiando  o  roupão  de  trabalho,  decidiu  amar- 
rar á  banca,  como  um  captivo  ao  remo,  até  que  re- 
matasse esse  difficil  Capitulo  III,  onde  resaltava  o  bár- 
baro e  sublime  rasgo  do  avô  Tructezindo.  Não,  que 
diabo !  não  lhe  convinha  perder  a  appariçâo  da  Novel- 
la  em  tão  proveitoso  momento,  nas  vésperas  da  sua 
chegada  a  Lisboa,  quando  para  a  inlluencia  Politica  e 
para  o  prestigio  social  necessitava  d'esse  brilho  que, 
segundo  o  velho  Vigny,  «uma  penna  de  aço  accres- 
centa  a  um  elmo  dourado  de  Fidalgo...»  Felizmente, 
n"ossa  luminosa  manhã  em  que  as  agoas  da  horta  far- 
tamente cantavam,  elle  sentia  também  a  veia  borbu- 
lhando, contente  em  se  soltar  e  correr.  Depois  da  vi- 
sita á  crasta  de  Craquêde  a  sua  imaginação  conce- 
bia monos  ennevoadamente  os  seus  avós  Afíonsinos: — 
e  como  que  os  palpava  emfim  no  seu  viver  e  pensar 


A  ILLfSTllIÍ  CASA  DE  UAMIUES  347 


desde  que  contemplara  os  grandes  túmulos  onde  se 
desfaziam  as  suas  grandes  ossadas. 

Na  Livraria  retomou  com  appetite,  depois  de  lhes 
sacudir  a  poeira,  as  tiras  da  Novella  sobre  que  em- 
perrara, n'aquelle  atarantado  lance  dft  susto  e  alar- 
me—  quando  o  Villico,  o  velho  Ordonho,  reconhecia 
o  pendão  do  Bastardo  surgindo  á  borda  da  Ribeira 
do  Coice  entre  o  coriscar  de  lanças  empinadas,  pas- 
sando a  antiga  ponte  de  madeira,  e,  um  momento 
sumido  na  verdura  dos  alamos,  de  novo  avançando, 
alto  e  tendido,  até  ao  rude  Cruzeiro  de  pedra  de  Gon- 
çalo Ramires  o  Cortador. . .  O  gordo  Ordonho  então, 
atirando  o  brado  de — aPrestes,  prestes!  que  é  gente 
de  Bayão!» — descambava  pelo  escalão  da  maralha 
como  um  íardo  que  rola. 

No  emtanto  Tructezindo  Ramires,  no  empenho 
d'aprestar  a  sua  mesnada  e  abalar  sobre  IMonte- 
mór,  regera  já  com  o  Adail  a  ordem  da  arrancada, 
mandando  que  as  buzinas  soassem  mal  o  sol  batesse 
na  margella  do  Poço  grande.  E  agora,  na  sala  alta 
da  Alcáçova,  conversava  com  o  seu  primo  de  Riba- 
Cav^ado  e  costumado  camarada  d'armas,  D.  Garcia 
Viegas — ambos  sentados  nos  poiaes  de  pedra  d'uma 
funda  janella,  onde  uma  bilha  d'agoa  cora  o  seu  pú- 
caro refrescava  entre  vasos  de  manjaricão.  D.  Garcia 
Viegas  era  um  velho  esgalgado  e  ágil,  d'escuro  ca- 


3'i8  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


râo  rapado,  com  uns  miados  olhos  coruscantes  — 
que  merecera  a  alcunha  de  Sabedor  pela  viveza  e 
succLilencia  do  seu  dizer,  as  suas  infinitas  manhas  de 
guerra,  e  a  prenda  de  fallar  latim  mais  doutamente 
que  um  Clerig©  da  Cúria.  Convocado  por  Tructczindo, 
como  os  outros  parentes  de  solar,  para  engrossar  a 
mesnada  dos  Ramires  em  serviço  das  Infantas,  correra 
logo  a  Santa  Ireneia  fielmente  com  o  seu  pequeno 
poder  de  dez  lanças  —  começando  por  saquear  no 
caminho  a  herdade  de  Palha-Câ,  dos  de  Severosa, 
que  andavam  com  pendão  alto  na  Hoste  Real  con- 
tra as  Donas  opprimidas.  Tão  rijamente  se  apressara 
que,  desde  a  madrugada,  apenas  comera  sobre  a  sella, 
em  Palha-Cã,  duas  rodelas  dos  chouriços  roubados. 
E  com  a  sede  da  afogueada  correria,  ainda  na  emo- 
ção de  tão  amarga  nova,  a  derrota  de  Lourenço  Ra- 
mires seu  afilhado,  novamente  enchia  d'agoa  o  pú- 
caro de  barro  —quando  pela  porta  da  sala  de  armas, 
que  três  cabeças  de  javali  dominavam,  rompeu  o  ve- 
lho Ordonho  esbaforido: 

—  Snr.  Tructezindo !  Snr.  Tructezindo  Ramires ! 
o  Bastardo  de  Bayâo  passou  a  Ribeira,  vem  sobre  nós 
com  grande  troço  de  lanças ! 

O  velho  Rico-Homem  saltou  do  poial.  E  arremes- 
sando a  mão  cabelluda,  cerrada  com  sanha,  como  se 
já  pela  gorja  empolgasse  o  Bastardo: 


A  ILIAISTUE  CASA  DE  RAMIRES  349 


—  Pelo  Sangue  de  Christo !  em  boa  hora  vem 
que  nos  poupa  caminho!  Hein,  Garcia  Viegas?  A  ca- 
vallo  e  sobre  elle . . .  ? 

Mas,  rente  aos  trôpegos  calcanhares  de  Ordonho, 
correra  iim  Coudel  de  Besteiros,  que  gritou  dos  hum- 
braes,  saccudindo  o  capello  de  couro : 

—  Senhor!  Senhor!  A  gente  de  Bayâo  parou  ao 
Cruzeiro!  E  um  cavalleiro  moço,  com  um  ramo  ver- 
de, está  deante  das  barbacans,  como  trazendo  men- 
sagem . . . 

Tructesindo  bateu  o  sapato  de  ferro  sobre  as  la- 
ges,  indignado  com  tal  embaixada  mandada  por  tal 
villâo  . . .  —  Mas  Garcia  Viegas,  que  d'um  sorvo  en- 
xugara o  púcaro,  recordou  serenamente  e  lealmente 
os  preceitos: 

—  Tende,  tende,  primo  e  amigo!  Que,  por  uso  e 
lei  d'aquem  e  d'além  serras,  sempre  mensageiro  com 
ramo  se  deve  escutar  . . . 

—  Seja  pois!  bradou  Tructesindo.  Ide  vós  fora  ás 
barreiras  com  duas  lanças,  Ordonho,  e  sabei  do  re- 
cado ! 

O  Villico  rebolou  pela  denegrida  escada  de  ca- 
racol até  ao  patim  da  Alcáçova.  Dous  accostados,  de 
lança  ao  hombro,  recolhendo  d'alguma  roída,  con- 
versavam com  o  armeiro,  que  sarapintara  de  ama- 
rello  e  escarlate  cabos  d'ascumas  novas  e  as  enfdei- 
rava  contra  o  muro  para  seccarem. 


3o0  A  ILLUSTKE  CASA  DE  n.VMlRES 


—  Por  ordem  do  Senhor!  gritou  Ordonho.  Lança 
direita,  e  commigo  ás  barbacans,  a  receber  mensa- 
gem ! . . . 

Ladeado  pelos  dous  homens  que  se  aprumaram, 
atravessou  as  barreiras;  e  pelo  postigo  da  barbacan, 
que  uma  quadrilha  de  besteiros  guardava,  sahiu  ao 
terreiro  da  Honra,  largueza  de  terra  calcada,  sem 
relva  ou  arvore,  onde  se  erguiam  ainda  as  traves 
carcomidas  d'uma  antiga  forca,  e  se  amontoavam 
agora,  para  os  concertos  da  Alcáçova,  ripas  de  ma- 
deira, e  grossas  cantarias  lavradas.  Depois,  sem  arre- 
dar do  humbral,  empinando  o  ventre  entre  os  dous 
accostados,  bradou  ao  moço  Cavalleiro,  que  espera- 
va sob  o  rijo  sol,  sacudindo  os  moscardos  com  o  seu 
ramo  d'amoreira: 

—  Dizei  de  que  gente  sois!  e  a  que  vindes!  e 
que  credencia  trazeis ! . . . 

E  como  arqueara  logo  a  mão  inquieta  sobre  a 
orelha — o  Cavalleiro,  serenamente,  entalando  o  ra- 
mo entre  o  coxoto  e  o  arção,  arqueou  também  os 
dous  guantes  relusentes  d'escamas  na  abertura  do 
casco,  bradou: 

—  Cavalleiro  do  solar  de  Bayâo ! . . .  Credencia 
não  trago  que  não  trago  embaixada...  Mas  o  Snr. 
D.  Lopo  ficou  além  ao  Cruzeiro,  e  deseja  que  o  no- 
bre senhor  da  Honra,  o  Snr.  Tructezindo  Ramires,  o 
escute  do  eirado  da  barbacan  . . . 


A  IIXLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  3oI 


O  Villico  saudou  —  recolheu  pela  poterna  aboba- 
dada da  torre  albarran,  murmurando  para  os  dous 
accostados : 

—  O  Bastardo  vem  a  tratar  o  resgate  do  Snr.  Lou- 
renço Ramires. .. 

Ambos  rosnaram: 

— Feio  íeito. 

Mas,  quando  Ordonho  oífegante  se  apressava 
para  a  Alcáçova,  encontrou  no  pateo  Tructezindo 
Ramires — que,  na  irada  impaciência  d*aquel!as  de- 
longas do  Bastardo,  descera,  todo  armado.  Sobre  o 
comprido  brial  de  lá  verde-negra,  que  recobria  a 
vestidura  de  malha,  as  suas  barbas  rebrilhavam,  mais 
brancas,  atadas  n"um  grosso  nó  como  a  cauda  d'um 
corcel.  Do  cinturão  tauxeado  de  prata  pendia  a  um 
lado  o  punhal  recurvo,  a  bozina  de  marfim  —  ao  ou- 
tro uma  espada  goda,  de  íolha  larga,  com  alto  pu- 
nho dourado  onde  scintillava  uma  pedra  rara  tra- 
zida outr'ora  da  Pelestina  por  Gutierres  Piamires,  o 
d'Ultramar.  Um  sergente  conduzia  sobre  uma  almo- 
íada  de  couro  os  seus  guantes,  o  seu  capello  redondo, 
de  vizeira  gradada,  como  usara  El-Rei  D.  Sancho: 
outro  carregava  o  immenso  broquel,  da  forma  d'um 
coração,  revestido  de  couro  escarlate,  com  o  Açor 
negro  rudemente  pintado,  esgalhando  as  garras  fu- 
riosas. E  o  Alferes,  Afíonso  Gomes,  seguia  com  o  guião 
enrolado  na  funda  de  lona. 


3.j2  a  illustre  casa  de  ramires 


Com  o  velho  Rico-Homem  descera  D.  Garcia 
Viegas,  e  os  outros  parentes  do  Solar  —  o  decrépito 
Ramiro  Ramires,  um  veterano  da  tomada  de  Santa- 
rém, torcido  pelos  rheumatismos  como  a  raiz  de  um 
roble,  e  arrimando  os  passos  trémulos,  não  a  um 
bastão,  mas  a  um  chusso;  o  formoso  Leonel,  o  mais 
moço  dos  Samoras  do  Cendufe,  o  que  matara  os  dois 
ursos  nos  brejos  de  Cachamúz  e  que  tão  bem  tro- 
vava; Mendo  de  Briteiros,  o  das  barbas  vermelhas, 
grande  queimador  de  bruxas,  ledo  arranjador  de  fol- 
gares e  danças;  e  o  agigantado  Senhor  dos  Paços  de 
Avellim,  todo  coberto,  como  um  peixe  fabuloso,  de 
-escamas  que  reluziam.  Como  o  sol  se  acercava  da 
margella  do  Poço  grande,  marcando  a  hora  da  ar- 
rancada sobre  Monte-mór  — já,  dos  fundos  alpendres 
que  escondiam  os  campos  do  tavolado,  os  cavallari- 
ços  puxavam  os  ginetes  de  guerra,  com  as  suas  altas 
sellas  pregueadas  de  prata,  as  ancas  e  os  peitos 
resguardados  por  coberturas  de  couro  franjado  que 
rojavam  nas  lagens.  Por  todo  o  Castello  se  espalhara 
que  o  Bastardo,  depois  da  lide  fatal  aos  Ramires, 
correra  de  Canta-Pedra,  ameaçava  a  Honra:  —  e  de- 
bruçados dos  passadiços  que  ligavam  a  muralha  aos 
contrafortes  da  Alcáçova,  ou  mettidos  por  entre  os 
engenhos  d'arremesso  que  atulhavam  as  corredoiras, 
os  moços  da  ucharia,  os  servos  das  hortas,  os  villões 
acolhidos  para  dentro  das  barbacans,  espreitavam  o 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  3o3 


Senhor  de  Santa  Ireneia  e  aquelles  Cavalleiros  fortes, 
cora  anciedade,  tremendo  do  assalto  dos  de  Bayâo  e 
d'essa8  horrendas  bolas  de  ferro,  cheias  de  fogo,  que 
agora  as  mesnadas  Christâs  arrojavam  tão  destra- 
mente como  as  hordas  Sarracenas.  —  No  emtanto 
com  a  sua  gorra  esmagada  contra  o  peito,  Ordonho, 
arfando,  apresentava  a  Tructesindo  o  recado  do  Bas- 
tardo : 

—  É  cavalleiro  moço,  não  traz  credencia...  O 
Snr.  Bastardo  espera  ao  Cruzeiro . . .  E  pede  que  o 
attendaes  da  quadrella  das  barbacans . . . 

— Oue  se  acerque  pois!  gritou  o  velho.  E  com 
quantos  queira  dos  villões  que  o  seguem! 

Mas  Garcia  Viegas,  o  Sabedor,  sempre  avisado, 
€om  a  sua  esperta  mansidão: 

—  Tende,  primo  e  amigo,  tende!  Não  subaes  vós 
á  tranqueira  antes  que  eu  me  assegure  se  Bayão  nos 
vem  com  arteirice  ou  falsura. 

E  entregando  a  sua  pesada  lança  de  faia  a  um 
douzel,  enfiou  peia  escada  soturna  da  Torre  albar- 
ran.  Em  cima  no  eirado,  sussurrando  um  chuta! 
chuta  t  á  fila  de  besteiros  que  guarnecia  as  ameias, 
attenta  e  com  a  besta  encurvada —penetrou  no  mi- 
radouro, espiou  pela  setteira.  O  arauto  de  Bayâo  galo- 
para para  o  Cruzeiro,  que  uma  selva  movediça  de  lan- 
ças rodeava  coriscando.  E  curto  recado  lançou  —  por- 
que logo,  no  seu  fouveiro  acobertado  por  uma  rede 

23 


3o4  A   ILLl'STUE    CASA    DE   RAMIRES 


de  malha  acairellada  d'ouro,  Lopo  de  Bayâo  despe- 
gou do  denso  troço  de  cavalleiros,  com  a  viseira  er- 
guida, sem  lança  ou  ascuraa  de  monte,  e  ociosas  so- 
bre o  arção  da  sella  mourisca  as  mãos  onde  se  en- 
rodilhavam as  bridas  de  couro  escarlate.  Depois,  a 
um  toque  arrastado  de  buzina,  avançou  para  as  bar- 
bacans  da  Honra,  vagarosamente,  como  se  acompa- 
nhasse um  sahimento.  Não  movera  o  seu  pendão 
amarello  é  negro.  Apenas  seis  infanções  o  escolta- 
vam, também  sem  lança  ou  broquel,  com  sob  reves- 
tes de  panno  roxo  sobre  os  saios  de  malha.  Atraz 
quatro  alentados  besteiros  carregavam  aos  hombros 
umas  andas,  toscamente  armadas  com  troncos  de  ar- 
vores, onde  um  homem  jazia  estirado,  como  morto, 
coberto,  contra  o  calor  e  os  moscardos,  por  leves  fo- 
lhagens de  acácia.  E  um  monge  seguia  n'uma  mula 
branca,  segurando  misturadamente  com  as  rédeas  um 
crucifixo  de  ferro,  sobre  que  pendia  a  orla  do  seu  ca- 
puz e  uma  ponta  de  barba  negra. 

Da  settoira,  mesmo  sem  descortinar  por  entre 
a  camada  de  ramagens  a  face  do  homem  estendida 
nas  andas,  o  Sabedor  adivinhou  Lourenço  Ramires, 
o  doce  afilhado  que  tanto  amara,  que  tão  bem  ensi- 
nara a  terçar  lanças  e  a  treinar  falcões.  E  cerrando 
os  punhos,  gritando  surdamente  —  «Bem  prestos! 
besteiros,  bem  prestos!»  — desceu  a  escura  escada- 
ria, tão  arremessado  pela  cólera  e  pela  magoa  que 


A  ILIXSTRE  CASA  DE  RAJIIRES  3o5 


O  seu  elmo  cavamente  bateu  contra  o  arco  da  por- 
ta, onde  o  esperava  Tructesindo  com  os  Cavalleiros 
parentes. 

—  Senhor  primo!  bradou.  Vosso  filho  Lourenço 
está  deante  das  barreiras  da  Honra  deitado  sobre 
umas  andas! 

Com  um  rosnar  d'espanto,  um  atropelo  dos  sa- 
patos de  ferro  sobre  as  lages  sonoras,  todos  segui- 
ram pela  poterna  da  albarran  o  Rico  Homem  —  até 
ao  escadâo  de  madeira  que  se  empurrava  contra  a 
quadrella  das  barbacans.  E,  quando  o  enorme  velho 
surdio  no  eirado,  um  silencio  pesou,  tão  ancioso,  que 
se  sentia  para  além  do  vergel  o  chiar  triste  e  lento 
da  nora  e  o  latir  dos  mastins. 

No  terreiro,  em  frente  á  cancella  gateada,  o  Bas- 
tardo esperava,  immovel  sobre  o  seu  ginete,  com  a 
formosa  face  bem  levantada,  a  face  de  Claro-soJ, 
onde  as  barbas  anelladas,  cahindo  nas  solhas  do  ar- 
nez,  rebrilhavam  como  ouro  novo.  Vergando  o  ca- 
pello  d'ouropel,  saudou  Tructesindo  com  gravidade  e 
preito.  Depois  alçou  a  mão,  que  descalçara  do  guan- 
te. E  n'um  considerado  e  sereno  fallar: 

— Senhor  Tructesindo  Ramires,  n'estas  andas 
vos  trago  vosso  filho  Lourenço,  que  em  lide  leal,  no 
valle  de  Canta-Pedra,  colhi  pristoneiro  e  me  per- 
tence pelo  foro  dos  Ricos-Homens  d'Hespanha.  E 
de  Canta-Pedra  caminhei  com  elle  para  vos  pedir  que 


356  A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


entre  nós  findem  estes  homizios  e  estas  feias  brigas 
que  malbaratam  sangue  de  bons  Christâos  . . .  Senhor 
Tructesindo  Ramires,  como  vós  venho  de  Pveis.  De 
D.  Affonso  de  Portugal  recebi  a  pranchada  de  Ca- 
valleiro.  Toda  a  nobre  raça  de  Rayão  se  honra  em 
mim...  Consenti  em  me  dar  a  mão  de  vossa  filha 
D.  Violante,  que  eu  quero  e  que  me  quer,  e  mandae 
erguer  a  levadiça  para  que  Lourenço  ferido  entre  no 
seu  solar  e  eu  vos  beije  a  mão  de  pae. 

Das  andas,  que  estremeceram  sobre  os  hombros 
dos  besteiros,  um  desesperado  brado  partio: 

— Não,  meu  pae! 

E  hirto  na  borda  do  eirado,  sem  descrusar  os 
braços,  o  velho  Tructesindo  retomou  o  brado  — que 
por  todo  o  terreiro  da  Honra  rolou,  mais  arrogante 
e  mais  cavo : 

— Meu  filho,  antes  de  mim,  te  respondeu,  villão! 

Como  se  uma  pontoada  de  lança  lhe  topasse  o 
peito,  o  Bastardo  vacillou  na  alta  sella :  e,  colhido  pelo 
repuKâo  das  rédeas,  o  seu  fouveiro  recuou  alteando  a 
testeira  dourada.  Mas,  a  um  novo  arremesso,  repu- 
lou  contra  a  oancella.  E  Lopo  de  Bayâo  erguido  so- 
bre os  estribos,  gritava  com  anciã,  com  íuror: 

—  Snr.  Tructesindo  Ramires,  não  me  tenteis!... 

—  Arreda,  villâo  e  filho  de  villóa,  arreda!  —  cla- 
mou soberbamente  o  velho,  sem  desprender  os  bra- 
ços de  sobre  o  levantado  peito,  na  sua  rija  immobilidade 


A  ILLUSTRE  C.VS.V  DE  RAMIRES  3o7 


e  teima,  como  se  todo  o  corpo  e  alma  fossem  de  rijo 
íerro. 

Então  o  Bastardo,  arrojando  o  guante  con- 
tra o  muro  da  barbacan,  rugio,  chammejante  e 
rouco : 

—  Pois  pelo  sangue  de  Christo  e  pela  alma  de 
todos  os  meus  te  juro,  que  se  me  não  dás  n'este  ins- 
tante essa  mulher  que  eu  quero  e  que  me  quer, 
sem  filho  ficas,  que  por  minhas  mãos,  deante  de  ti  e 
nem  que  todo  o  Céo  accuda,  lhe  acabo  o  resto  da 
vida ! 

Já  na  mão  lhe  lampejava  um  punhal.  Jlas  n'um 
Ímpeto  de  sublime  orgulho,  um  Ímpeto  sobrehumano, 
em  que  cresceu  como  outra  escura  torre  entre  as  tor- 
res da  Honra,  Tructesindo  arrancara  a  espada: 

—  Com  esta,  covarde!  com  esta!  Para  que  seja 
puro,  não  vil  como  o  teu,  o  ferro  que  atravessar  o 
coração  de  meu  filho! 

Furiosamente,  com  as  duas  possantes  mãos,  ar- 
remessou a  espada,  que  rodopiou  silvando  e  fais- 
cando,  se  cravou  no  duro  chão,  onde  tremia,  ainda 
faiscava,  como  se  uma  cólera  heróica  também  a  ani- 
masse. E  no  mesmo  relance,  com  um  urro,  um  salto 
do  ginete,  o  Bastardo,  debruçado  do  arção,  enterrara 
o  punhal  na  garganta  de  Lourenço  —  em  golpe  tão 
cravado  que  o  esguicho  do  sangue  lhe  salpicou  a 
clara  íace,  as  barbas  d'ouro. 


358  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Depois  foi  uma  bruta  abalada.  Os  quatro  bestei- 
ros sacudiram  para  o  chão  as  andas,  o  corpo  morto 
enrodilhado  nos  ramos  —  e  atiraram  pelo  terreiro, 
como  lebres  em  clareira,  atraz  do  monge  que  se 
agachava  agarrado  ás  crinas  da  mula.  N'uma  curta 
desfdada  o  Bastardo,  os  seis  cavalleiros,  gritando  o 
alarme,  mergulharam  no  arraial  que  estacara  ao  , 
Cruzeiro.  Ura  tumulto  remoinhou  em  torno  ao  de-  ' 
voto  pilar.  E  em  rodilhado  tropel  a  mesnada  desen- 
freou para  a  Ribeira,  varou  a  velha  ponte,  logo  en- 
nublada  em  pó  e  sumida  para  além  do  arvoredo. 
n"um  íugidio  coriscar  de  capellinas  e  de  lanças  api- 
nhadas. 

Uma  alta  grita,  no  emtanto,  atroara  as  muralhas  í 
de  Santa  Ireneia!  Virotes,  llechas,  balas  de  fundas  as- 
sobiavam, despedidas  no  mesmo  furioso  repente,  sobre  ^ 
o  bando  de  Bayâo:  —  mas  apenas  um  dos  besteiros 
que  carregara  as  andas  tombou,  estrebuchando,  com 
uma  flecha  na  ilharga.  Pela  cancella  das  barreiras  já 
Cavalleiros  e  donzeis  d'armas  se  empurravam  deses- 
peradamente para  recolher  o  corpo  de  Lourenço  Ra- 
mires. E  Garcia  Viegas,  os  outros  parentes,  galgaram 
ao  eirado  da  barbacan,  d"onde  Tructesindo  se  não  ar- 
redara, rigido  e  mudo,  fitando  as  andas  e  seu  filho 
estatelado  com  ellas  sobre  o  terreiro  da  sua  Honra. 
Quando,  ao  rumor,  elle  pesadamente  se  voltou  —  to- 
dos emmudeceram   ante  a  serenidade  da  sua  face, 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  HAMIRES  359 


mais  branca  que  as  brancas  barbas,  d'unia  morta 
brancura  de  lapide,  com  os  olhos  resequidos  e  côr 
de  braza,  a  latejar,  a  refulgir,  como  os  dous  bura- 
cos d' um  íorno.  Com  a  mesma  sinistra  serenidade,  to- 
cou no  hombro  do  velho  Ramiro,  que  tremia  arrima- 
do ao  seu  chusso.  E  n'uma  vagarosa  e  vasta  voz: 

—  Amigo!  cuida  tu  do  corpo  de  meu  filho,  que  a 
alma  ainda  hoje,  por  Ucus!  lh'a  vou  eu  socegar!  .  .  . 

Afastou  aquelles  senhores  emmudecidos  d'as- 
sombro  e  d'emoção  —  e  baixou  pela  gasta  escada  de 
madeira,  que  rangia  sob  o  peso  do  enorme  Rico- 
Homem  carregado  de  ira  e  dor. 

N'esse  momento,  entre  besteiros  e  serviçaes  que 
se  atropellavam— o  corpo  de  Lourenço  Ramires  trans- 
punha o  portello  das  barbacans,  segurado  pelo  for- 
moso Leonel  e  por  Mendo  de  Briteiros,  ambos  affo- 
gueados  de  lagrimas  e  rouquejando  ameaças  furiosas 
contra  a  raça  de  Bayâo.  Atraz  o  trôpego  Ordonho 
gemia,  abraçado  á  espada  de  Tructesindo,  que  apa- 
nhara no  chão  do  Terreiro  e  que  beijava  como  para 
a  consolar.  Á  borda  do  fosso  uma  aveleira  espalhava 
a  sombra  leve  n'um  bronco  taboão  pregado  sobre 
toros  —  d'onde,  aos  domingos,  com  o  adanel  dos 
besteiros,  Lourenço  dirigia  os  jogos  de  besta  e  fre- 
cha, distribuindo  fartamente  as  recompensas  de  bo- 
los de  mel  e  de  vinho  em  picheis.  Sobre  essas  ta- 
boas  o  estiraram  —  recuando  todos  depois,  em  quan- 


360  A   ILLLSTRE   CASA   DE  RAMIRES 


to  aterradamente  se  benziam.  Um  cavalleiro  de  Bri- 
teiros,  temendo  por  aquella  alma  desamparada  e  sem 
confissão,  correra  á  capella  da  Alcáçova  procurar 
Frei  Muncio.  Outros,  rodeando  toda  a  muralha  até 
ao  Baluarte-Velho,  gritavam,  com  desesperados  ace- 
nos, para  o  torreão  escalavrado,  onde,  como  um 
mocho,  habitava  o  Physico,  INIas  o  certeiro  punhal 
do  Bastardo  acabara  o  denodado  Lourenço,  flor  e  re- 
gra de  cavalleiros  por  toda  a  terra  de  Riba-Cavado... 
E  que  lastimoso  e  desíeito  —  com  suja  terra  na  íace, 
a  garganta  empastada  de  sangue  negro,  as  malhas  do 
saio  rotas  sobre  os  hombros  e  embebidas  nas  carnes 
retalhadas,  e  nua,  sem  grêva,  toda  inchada  e  roxa, 
a  perna  ferida  em  Canta-Pedra,  onde  mais  sangue 
e  lama  se  empastavam! 

Tructesindo  descia,  lento  e  rigido.  E  as  seccas 
brazas  dos  seus  olhos  mais  se  incendiam,  em  quanto, 
atravez  do  dorido  silencio,  se  acercava  do  corpo  de 
seu  filho.  Deante  do  banco  ajoelhou,  agarrou  a  ar- 
refecida mão  que  pendia;  e,  junto  á  face  manchada 
de  sangue  e  terra,  segredou,  de  alma  para  alma,  n'um 
abalado  murmúrio,  que  não  era  de  despedida  mas 
d'alguma  suprema  promessa,  e  que  findou  n'um  beijo 
demorado  sobre  a  testa,  onde  uma  restea  de  sol  rebri- 
lhou, dardejada  d'entre  as  folhas  da  aveleira.  Depois 
erguido  n'um  arrebate,  atirando  o  braço  como  para 
n'elle  recolher  toda  a  força  da  sua  raça,  gritou: 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  361 


—  E  agora,  senhores,  a  cavallo,  e  vingança 
brava ! 

Já  pelos  páteos,  em  torno  da  Alcáçova,  corria 
um  precipitado  fragor  d'armas.  Aos  ásperos  comraan- 
dos  dos  almocadens  as  tilas  de  besteiros,  d'archeiros,  de 
fundibularios,  rolavam  dos  adarves  dos  mm'0s  para 
cerrar  as  quadrilhas.  Rapidamente,  os  cavallariços 
da  carga  amarravam  sobre  o  dorso  das  mulas  os 
caixotes  do  almazem,  os  alforges  da  trebalha.  Pelas 
portas  baixas  da  cosinha,  peões  e  sergentes,  antes 
de  largar,  bebiam  á  pressa  uma  conca  de  cerveja.  E 
no  campo  das  barreiras  os  cavalleiros,  chapeados  de 
ferro,  carregadamente  se  içavam,  com  a  ajuda  dos 
donzeis,  para  as  altas  sellas  dos  ginetes — logo  ladea- 
dos pelos  seus  infanções  e  acostados,  que  aprumavam 
a  lança  sobre  o  coxote  assobiando  aos  lebreus. 

Emfim  o  Alferes,  Affonso  Gomes,  saccou  da  funda 
e  desfraldou  o  pendão  n'um  embala  nço  largo  em  que 
as  azas  do  Açor  negrejaram,  abertas,  como  soltando 
o  vôo  enfurecido.  O  grito  agudo  do  Adail  resoára  por 
toda  a  cerca  —  ala!  ala!  De  cima  de  um  marco  de 
pedra,  junto  ao  postigo  do  barbacan,  Frei  Muncio  es- 
tendia as  magras  mãos  ainda  tremulas,  abençoava  a 
hoste.  Então  Tructèsindo,  sobre  o  seu  murzello,  rece- 
beu do  velho  Ordonho  a  espada,  de  que  tão  terrivel- 
mente se  apartara.  E  estendendo  a  reluzente  folha  para 
as  torres  da  sua  Honra  como  para  um  altar,  bradou: 


362  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Muros  de  Santa  Ireneia,  não  vos  torne  eu  a 
vâr,  se  em  três  dias,  de  sol  a  sol,  ainda  restar  san- 
gue maldito  nas  veias  do  traidor  de  Bayâo! 

E,  escancaradas  as  barreiras,  a  cavalgada  tro- 
peou em  torno  ao  pendão  solto,  —  em  quanto,  na 
torre  d'Almenara,  sob  o  parado  explendor  da  sesta 
d' Agosto,  o  sino  grande  começava  a  tanger  a  finados. 


Quando  Gonçalo  á  tarde,  enterrado  na  poltrona 
á  varanda,  releu  este  Capitulo  de  sangue  e  furor  so- 
bre que  se  esfalfara  durante  a  seaiana,  pensou  «que 
o  lance  impressionaria.» 

Sentiu  então  o  appetite  de  recolher  sem  demora 
os  louvores  merecidos  — e  de  mostrar  a  Gracinha  e 
ao  Padre  Sueiro  os  três  Capítulos  completos  antes 
de  remetter  o  manuscripto  para  os  AniiRes.  E 
mesmo  lhe  convinha  —  porque  a  erudição  archeolo- 
gica  do  Padre  Sueiro  íorneceria  talvez  algum  traço 
novo,  bem  Afíonsino,  que  mais.  avivasse  aquella  re- 
surreição  da  Honra  de  Santa-íreneia  e  dos  seus  se- 
nhores formidáveis.  Immediatamente  resolveu  par- 
tir de  manhã  para  Oliveira  com  o  seu  trabalho — que, 
depois  de  esmiuçado  pelo  Padre  Sueiro,  confiaria  ao 
procurador  de  D.  Arminda  Viegas  para  elle  o  copiar 
n'aquella  sua  formosa  lettra,  tão  celebrada  em  todo  o 


A  ILLUSTIIE  CASA  DE  RAMIRES  363 


Districto,  e  apenas  egualada  (nas  maiúsculas)  pela 
do  Escrivão  da  Camará  Ecciesiastica. 

Sacudia  já  da  poeira  uma  antiga  pasta  de  mar- 
roquim para  transportar  a  Obra  amada  —  quando  o 
Bento  empurrou  a  porta,  ajoujado  com  uma  cesta  de 
vime  que  uma  toalha  de  rendas  cobria. 

—  Um  presente, 

—  Um  presente...  De  quem? 

—  Da  Feitosa,  das  senhoras. 

—  Bravo ! 

—  E  com  uma  carta,  que  vem  pregada  na  toa- 
lha. 

Com  que  curiosidade  Gonçalo  despedaçou  o  so- 
brescripto!  Mas,  apezar  de  lacrado  com  um'  pom- 
poso sello  d'Armas,  apenas  continha  linhas  a  lápis 
n'um  bilhete  de  visita  da  prima  Maria  Mendonça: 
—  «Hontera  ao  jantar  contei  quanto  o  primo  Gon- 
«çalo  gosta  de  pécegos  sobretudo  aboborados  em 
avinho,  e  a  Annica  toma  por  isso  a  liberdade  de 
«lhe  mandar  esse  cestinho  de  pêcegos  da  Feitosa, 
«que  como  sabe  são  fallados  em  todo  o  Portugal... 
«Mil  saudades.» — Gonçalo  imaginou  logo  no  fundo 
da  cesta,  debaixo  dos  pècegos,  docemente  escondida, 
uma  cartinha  da  D.  Anna ! 

—  Bemi  São  pècegos.. .  Deixa  ahi  sobre  uma  ca- 
deira. . . 


364  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Era  melhor  que  os  levasse  já  para  a  copa,  Snr. 
Dr.,  para  os  arrumar  na  prateleira. . . 

—  Deixa  sobre  a  cadeira! 

Apenas  o  Bento  cerrara  a  porta,  estendeu  no  chão 
a  toalha,  entornou  cuidadosamente  por  cima  os  pé- 
cegos  formosos  que  perfumavam  a  livraria.  No  fundo 
da  cesta  encontrou  apenas  folhas  de  parra.  Leve- 
mente desconsolado,  cheirou  um  pêcego.  Depois  con- 
siderou que  os  pécegos,  arranjados  por  ella,  com 
parra  que  ella  apanhara  na  latada,  sob  toalha  que 
ella  escolhera  no  armário,  formavam  na  sua  mudez 
cheirosa  um  recadinho  sentimental.  Ainda  agachado 
na  esteira,  comeu  o  pêcego:  —  e  recollocou  os  outros 
na  cesta  para  os  levar  a  Gracinha. 

Mas,  ao  outro  dia,  ás  duas  horas,  já  com  a  pa- 
relha do  Torto  engatada  á  caleche,  já  com  as  luvas 
calçadas  para  a  jornada  d'01iveira,  recebeu  uma  ines- 
perada visita — a  visita  do  Snr.  Visconde  de  Rio-Man- 
so.  Descalçando  as  luvas  o  Fidalgo  pensava:  —  «O 
Rio-Manso!  Que  me  quererá  esse  casmurro?»  —  Na 
sala,  pousado  á  beira  do  canapé  de  velludo  verde  e 
esfregando  os  joelhos,  o  Visconde  contou  que  de 
volta  de  Villa  Clara  e  deante  do  portão  da  Torre 
vencera  o  seu  teimoso  acanhamento  para  apresen- 
tar os  seus  respeitos  ao  Snr.  Gonçalo  Ramires.  E  não 
só   para  esse  gostoso  dever— mas  também  (como 


A  ILLISTUE  CASA  DE  UAMIRES  365 


soubera  que  S.  Ex.*^  se  propunha  Deputado  pelo  Cir- 
culo) para  lhe  offerecer  na  freguezia  de  Canta-Pedra 
o  seu  préstimo  e  os  seus  votos. . . 

Gonçalo,  risonho  e  pasmado,  saudava,  torcia  em- 
baraçadamente o  bigode.  E  o  Visconde  de  Rio-Manso 
nâo  estranhava  aquelle  pasmo  por  que  de  certo 
o  Snr.  Gonçalo  Ramires  o  conhecera  sempre  como 
ferrenho  Regenerador . . .  Mas  então !  Elle  pertencia 
á  geração,  agora  bem  rareada,  que  antepunha  aos 
deveres  da  Politica  os  deveres  da  gratidão:  —  e 
além  da  sympathia  que  lhe  merecia  o  Snr.  Gonçalo 
Ramires  (pelo  que  constava  em  todo  o  Districto  do 
seu  talento,  da  sua  affabil idade,  da  sua  caridade) 
também  conservava  para  com  S.  Ex.'''  uma  divida 
de  gratidão,  ainda  aberta,  não  por  indiííerença,  mas 
por  timidez , . . 

—  V.  Ex.*^  não  adivinha,  Snr.  Gonçalo  Mendes 
Ramires?...  Nâo  se  lembra? 

— Nâo,  realmente,  Snr.  Visconde,  não  me... 

Pois  uma  tarde  o  Snr.  Gonçalo  Mendes  Rami- 
res passava  a  cavallo  pela  quinta  da  VarancUnlia, 
quando  a  sua  neta,  brincando  no  terraço  (aquelle 
terraço  gradeado  d'onde  se  curva  uma  magnólia), 
deixou  escapar  uma  péla  para  a  estrada.  O  Snr.  Gon- 
çalo Mendes  Ramires,  rindo,  apeou  immediatamente, 
apanhou  a  péla,  e,  para  a  restituir  á  menina  debru- 


366  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


cada  da  grade,   abeirou  a  egoa  do  muro  depois  de 
montar — e  com  que  ligeiresa  e  garbo!... 

—  V.  Ex.^  não  se  lembrava? 

—  Sim,  sim,  agora. . . 

Pois  no  ladrilho  do  terraço,  rente  da  grade,  pou- 
sava um  jarro  cheio  de  cravos.  O  Snr.  Gonçalo  Men- 
des, depois  de  gracejar  com  a  menina  (que,  louvado 
Deus,  não  era  acanhada!)  pediu  um  cravo^  que  ella 
escolheu  —  e  que  lhe  deu,  toda  séria,  como  uma  se- 
nhora. E  elle,  que  observara  da  janella  do  seu  quar- 
to, pensava:  —  «Ora  ahi  está!  Este  Fidalgo  da  Tor- 
re, um  tão  grande  Fidalgo,  que  amável ! »  —  Oh 
S.  Ex.*  não  tinha  que  rir  e  corar. . .  A  gentileza  fora 
grande  —  e  a  elle,  avò,  parecera  immensa !  Mas  não 
ficara  somente  na  péla  apanhada . . . 

—  O  Snr.  Gonçalo  Mendes  Ramires  não  se  re- 
corda?... 

—  Sim,  Snr.  Visconde,  com  effeito,  agora... 

Pois,  logo  no  outro  dia,  o  Snr.  Gonçalo  Men- 
des Ramires  mandara  da  Torro  um  precioso  cesto  de 
rosas,  com  o  seu  bilhete,  e  n'uma  linha  este  grace- 
jo:—  «Em  agradecimento  d'um  cravo,  rosas  á  Snr.'' 
D.  Rosa.» 

Gonçalo  quasi  pulou  na  cadeira,  divertido: 

—  Sim,    sim,   Snr.    Visconde,    perfeitamente!.. 
Asjora  me  recordo! 


A  ILLUSTRK  CAS.V  DE  RAMIRES  367 


Pois  desdo  essa  tarde  elle  sempre  almejara  por 
uma  opportunidade  de  mostrar  ao  Sm\  Gonçalo  Men- 
des Ramires  o  seu  reconhecimento,  a  sua  sympathia. 
Alas  que!  era  tímido,  vivia  muito  retirado...  N'essa 
manhã  porém,  em  Villa  Clara,  soubera  pelo  Gouveia 
que  S.  Ex.*  se  apresentava  deputado  pelo  Circulo. 
Apezar  de  ser  eleição  tão  segura,  já  pela  influencia 
do  Snr.  Piam  ires,  já  pela  influencia  do  Governo,  logo 
pensara — «Bem,  ahi  está  a  occasiâo!»  E,  agora  oí- 
ferecia  a  S.  Ex.^  na  treguezia  de  Canta-Pedra,  o  seu 
préstimo  e  os  seus  votos. 

Gonçalo  murmurou,  enternecido: 

—  Realmente,  Snr.  Visconde,  nada  me  podia  sen- 
sibilisar  mais  do  que  uma  oííerta  tão  espontânea, 
tão. . . 

—  Sou  eu  que  me  sensibiliso  por  V.  Ex.*^  accei- 
tar.  E  agora  não  fallemos  mais  n'esse  meu  pobre 
préstimo  e  n'esses  meus  pobres  votos. . .  Pois  V.  Ex.*" 
tem  aqui  uma  venerável  vivenda. 

E  como  o  Visconde  alludia  ao  desejo,  já  n'elle 
antigo,  de  admirar  de  perto  a  famosa  torre,  mais  ve- 
lha que  Portugal  —  ambos  desceram  ao  pomar.  O 
Visconde,  com  o  guarda-sol  ao  hombro,  pasmou  em 
silencio  para  a  torre;  reconheceu  (apezar  de  libe- 
ral) o  prestigio  que  resulta  d"uma  tão  alta  linhagem 
como  a  dos  Piamires;  e  gabou  sinceramente  o  laranjal. 
Depois,  sabendo  que  o  Pereira  da  Riosa  arrendara  a 


368  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


quinta,  invejou  ao  Snr.  Ramires  tão  cuidadoso  e  hon- 
rado rendeiro...  —  Deante  do  portão,  o  char-à-hancs 
do  Visconde  esperava,  atrelado  de  duas  mulas  lus- 
trosas e  nédias.  Gonçalo  admirou  as  mulas.  E,  abrin- 
do a  portinliola,  supplicou  ao  Snr.  Visconde  que  bei- 
jasse por  elle  a  mâosinha  da  Snr.''  D.  Rosa.  Commo- 
vido,  o  Visconde  confessou  uma  ousadia,  uma  espe- 
rança—  e  era  que  S.  Ex."  um  dia,  á  sua  escolha,  pa- 
rasse em  Canta-Pedra,  jantasse  na  quinta,  para  conhe- 
cer mais  intimamente  a  menina  da  péla  e  do  cravo... 

—  Mas  com  immensa  honra!...  E  desde  já  me 
proponho  a  ensinar  á  Snr.''  D.  Rosa,  se  ella  o  não 
sabe,  o  jogo  da  péla  á  antiga  portugueza. 

O  Snr.  Visconde  saudou,  banhado  de  gosto  e 
riso,  com  a  mão  sobre  o  coração. 

Gonçalo,  trepando  as  escadas,  murmurava:  — 
«Oh  senhores,  que  sympathico  homem!  E  que  ge- 
neroso homem,  que  paga  rosas  com  votos!  Ora  ve- 
jam como  ás  vezes,  por  uma  pequenina  attençâo,  se  ' 
ganha  ura  amigo!  Com  certeza,  para  a  semana  vou 
a  Canta-Pedra  jantar!...  Homem  encantador!» 

E  foi  n'um  ditoso  estado  d'alma  que  accommodou 
na  caleche  a  pasta  de  marroquim,  com  o  manuscri- 
pto,  o  cesto  sentimental  dos  pécegos  da  D.  Anna  — 
e  accendeu  um  charuto,  e  saltou  á  almofada,  e  to- 
mou as  rédeas  para  lançar,  n"um  troto  alegre  até 
Oliveira,  a  parelha  branca  do  Russo. 


A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES  360 


No  largo  cFEl-Piey,  antes  d'apear,  perguntou  logo 
ao  Joaquim  da  Porta  noticias  dos  senhores.  Os  se- 
nhores todos  muito  bem,  graças  a  Deus...  O  Snr.  José 
Barrôlo  partira  de  manhã  a  cavallo  para  a  quinta  do 
Snr.  Barão  das  Marges,  só  recolhia  á  noite... 

—  E  o  Snr.  Padre  Sueiro? 

—  O  Snr.  Padre  Saeiro,  creio  que  está  para  casa 
da  Snr.**  D.  Arminda... 

—  E  a  Snr.'''  D.  Graça? 

—  A  Snr.'^  D.  Graça  desceu  ha  um  bocadinho 
grande  para  o  Mirante,  de  chapéu...  Naturalmente  ia 
á  Egreja  das  Monicas. 

—  Bem.  Leva  esse  cesto  de  pêcegos  e  dize  ao 
Joaquim  da  Copa  que  o  ponha  na  mesa,  assim  mes- 
mo no  cesto,  com  as  folhas...  E  que  me  subam  ao 
quarto  agoa  quente. 

O  relógio  de  parede,  na  sala  de  espera,  gemia 
preguiçosamente  as  cinco  horas.  O  palacete  repou- 
sava n'ura  claro  silencio.  E  depois  da  poeira  e  dos 
solavancos  da  estrada,  pareceu  mais  doce  a  Gonçalo 
a  frescura  do  seu  quarto  com  as  quatro  janellas 
abertas  sobre  o  jardim  rcigado  e  sobre  a  cerca  das 
Monicas.  Cuidadosamente,  guardou  logo  n'uma  ga- 
veta da  commoda  a  pasta  preciosa  de  marroquim. 
Uma  creada  de  olhos  repolhudos  entrara  com  o  jar- 
rão   d'agua   quente :  —  e    o   Fidalgo,   como   sempre, 

24 


370  A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


chasqueoLi  a  moça  sobre  os  lindos  sargentos  de  Ca- 
vallaria,  cujo  quartel  tentador  dominava  o  lavadou- 
ro da  quinta,  e  retinha  as  raparigas  da  casa  ensa- 
boando todo  o  dia  com  paixão.  Depois  ainda  se  de- 
morou, mudando  o  lato  empoeirado,  assobiando  va- 
gamente, encostado  á  varanda  sobre  a  callada  rua 
das  Tecedeiras.  O  sino  das  Monicas  lançou  um  lindo 
repique...  E  Gonçalo,  enfastiado  da  sua  solidão,  de- 
cidiu descer  pelo  terraço  do  jardim,  e  surprehender 
Gracinha  nas  suas  devoções,  na  Egrejinha. 

Em  baixo,  no  corredor,  crusou  o  Joaquim  da 
Copa : 

—  Então  o  Snr.  Barrôlo  hoje  não  janta? 

—  O  Snr.  Barrôlo  foi  jantar  com  o  Snr.  Barão 
das  Marges,  na  quinta . . .  São  os  annos  da  menina. 
Naturalmente  só  recolhe  á  noite. 

Gonçalo,  no  jardim,  ainda  tardou  por  entre  os 
alegretes,  compondo  para  o  casaco  um  ramo  de  flo- 
res ligeiras.  Depois  rodeou  a  estufa,  sorrindo  da 
porta  com  que  o  Barrôlo  a  enriquecera,  uma  porta 
envidraçada,  arqueada  em  ferradura,  com  um  mo- 
nogramma  de  cores  rutilantes:  e  metteu  pela  rua 
que  conduzia  ao  repuxo,  coberta  de  silencio  e  pe- 
numbra pela  rama  enlaçada  dos  seus  altos  loureiros. 
Adiante,  circumdado  de  bancos  de  pedra,  d'arvores 
de  aroma  e  flor,  cantava  dormentemente  o  fino  re- 
puxo n'uni   tanque   redondo,   de  borda  larga,  onde 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  371 


s'espaçavam  grossos  vasos  de  louça  branca  com  o 
brazâo  ramalhudo  dos  Sás.  Certamente  na  véspera 
ou  de  manhã  se  lavara  o  tanque,  por  que  na  agoa 
muito  transparente,  sobre  as  lages  muito  claras,  na- 
davam com  redobrada  vivacidade,  em  lampejos  ro- 
sados, os  peixes  que  Gonçalo  assustou  mergulhan- 
do e  agitando  a  bengala.  E  d'aquella  borda  do  tan- 
que já  elle  avistava  ao  íundo  de  outra  rua,  debrua- 
da de  dhalias  abertas,  o  Mirante  —  uma  construcçâo 
do  século  XVIII,  simulando  um  Templosinho  grego, 
côr  de  rosa  desbotada,  com  um  gordo  Cupido  sobre 
a  cúpula,  e  janellinhas  de  rocalha  entre  o  meio  re- 
levo das  columnas  caneiladas  por  onde  trepavam 
jasmineiros. 

Gonçalo  arrancou,  como  costumava,  folhas  d' um 
ramo  de  lucia-liraa,  para  esmagar  e  perfumar  as 
mãos:  e  continuou  para  o  Mirante,  vagarosamente, 
por  entre  as  dhalias  apinhadas.  Na  allea,  novamente 
ensaibrada,  os  sapatos  finos  de  verniz  que  calçara 
pousavam  sem  rumor  no  saibro  molle.  E  assim, 
n"um  silencio  de  sombra  indolente,  se  acercou  do 
Mirante  —  e  d'uma  das  janellinhas  que,  mal  cerrada, 
conservava  corrida  por  dentro  a  persiana  de  taboi- 
nhas  verdes.  Rente  d'essa  janella  era  a  escada  de 
pedra,  que,  do  elevado  e  comprido  terraço  sobre  que 
se  estendia  o  jardim,  communicava  com  a  encova- 
da rua  das  Tecedeiras,   quasi  em  írente  á  Capella 


372  A  ILLUSTBE  CASA  DE  RAMIRES 


das  ^Nlonicas.  E  Gonçalo,  sem  pressa,  descia  —  quan- 
do, atravez  da  persiana  rala,  sentiu  dentro  do  Mi- 
rante um  su surro,  um  cochichar  perturbado.  Sor- 
rindo, pensou  que  alguma  das  creadas  da  casa  se 
refugiara  n'es5e  Templosinho  de  Amor  com  ura  dos 
sargentos  terríveis  de  Cavallaria...  Mas,  não!  impos- 
sível !  Pois  se,  momentos  antes.  Gracinha  roçara 
aquella  janella  e  pisara  aquella  escada,  no  seu  ca- 
minho para  as  Monicas!  E  então  outra  idéa  o  va- 
rou como  uma  espada  —  e  tão  dolorosa  que  recuou 
com  terror  da  beira  do  Mirante  d'onde  ella  perver- 
samente o  assaltara.  Já  porém  uma  desesperada  cu- 
riosidade a  agarrara,  o  empurrava — e  collou  a  face 
á  persiana  com  a  cautella  d'um  espião.  O  ÒMirante 
recahira  em  silencio  -^  Gonçalo  temia  que  o  trahis- 
sem  as  pancadas  do  seu  coração...  Santo  Deus!  De 
novo  o  murmúrio  recomeçara,  mais  apressado,  mais 
turbado.  Alguém  supplicava,  balbuciava  :  —  a  Não, 
não,  que  loucura!»  —  Alguém  urgia,  impaciente  e 
ardente:  —  «Sim,  meu  amor!  sim,  meu  amori»  E 
a  ambos  os  reconheceu  —  tão  .claramente  como  se  a 
persiana  se  erguesse  e  por  ella  entrasse  toda  a  vasta 
claridade   do  jardim.  Era  Gracinha!  Era  o   Caval- 


lcn'o 


Colhido  por  uma  immensa  vergonha,  no  ataran- 
tado pavor  de  que  o  surprchendessem  junto  do  Mi- 
rante  e  da  torpeza  escondida  —  enfiou  pela  rua  das 


A   ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  373 


dhalias.  encolhido,  com  os  sapatos  leves  no  saibro 
molle,  costeou  o  repuxo  por  sob  a  raraaria  dos  ar- 
bustos, remergulhou  na  escuridão  dos  loureiros,  des- 
lisou  surra teiramente  por  traz  da  estufa — penetrou 
no  socego  do  Palacete.  Mas  o  murmúrio  do  Mirante 
ainda  o  envolvia,  mais  desfallecido,  mais  rendido  — 
«Não,  não,  que  loucura!...  Sim,  sim,  meu  amor!...» 

Abalou  atravez  das  salas  desertas  como  uma 
sombra  acossada;  escorregou  abafadamente  pela  es- 
cadaria de  pedra,  varou  o  portão  n'uma  carreira,  es- 
preitando, com  medo  do  Joaquim  da  Porta.  No  Lar- 
go parou,  deante  da  grade  do  relógio  do  sol.  Mas  o 
susiiro  do  Mirante  errava  por  todo  o  Largo  como 
um  vento  enroscado,  raspando  as  lages,  batendo  as 
barbas  dos  Santos  sobre  o  portal  da  Egreja  de  S.  Ma- 
theus,  redomoinhando  nos  telhados  musgosos  da  Cor- 
doaria...—  «Não,  não,  que  loucura!  Sim,  sim!  meu 
amor!»  Então  Gonçalo  sentiu  a  anciedade  desespe- 
rada d"escapar  para  longe,  para  immensamente  lon- 
ge do  Largo,  do  Palacete,  da  cidade,  de  toda  aquella 
vergonha  que  o  trespassava.  Mas  uma  carruagem?... 
Pensou  na  alquilaria  do  Maciel,  a  mais  retirada,  para 
além  das  ultimas  casas,  na  estrada  do  Seminário.  E 
cosido  com  os  muros  baixos  d'essas  ruas  pobres,  cor- 
reu, mandou  engatar  uma  caleche  fechada. 

Emquanto  esperava  á  porta,  n'um  banco,  passou 
pela  estrada  uma  lenta  carroça  com  moveis,  panellas 


374  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


de  cosinha,  um  grande  colxâo  onde  se  alastrava  uma 
nódoa.  Bruscamente  Gonçalo  recordou  o  divan  que 
guarnecia  o  Mirante.  Era  enorme,  de  mogno,  lodo 
coberto  de  riscadinho,  com  mollas  lassas  que  ran- 
giam. E  de  repente  o  murmúrio  recomeçou,  cresceu, 
rolando  com  fragor  de  trovão  por  sobre  os  casebres 
visinhos,  por  sobre  a  cerca  do  Seminário,  por  sobre 
Oliveira  espantada:  —  a  Não,  não,  que  loucura!  Sim, 
sim,  meu  amor!» 

Com  um  salto,  Gonçalo  gritou  para  dentro,  para 
a  çavallariça  escura: 

—  Então,  que  inferno!  não  acaba,  essa  carroa- 
gem? 

—  Já  a  largar,  meu  Fidalgo. 

No  relógio  da  Piedade  sete  horas  batiam — quando 
elle  se  atirou  para  a  caleche,  e  fechou  as  stores  per- 
ras, e  se  enterrou  no  fundo,  bem  sumido,  esmagado, 
com  a  sensação  que  o  Mundo  tremera,  e  as  mais  for- 
tes almas  se  abatiam,  e  a  sua  Torre,  velha  como  o 
Reino,  rachava,  mostrando  dentro  um  montão  igno- 
rado de  lixo  e  de  saias  sujas. 


ÍX 


Á  porta  da  cosinha,  saccudindo  um  sobrescripto 
já  amarrotado,  Gonçalo  ralhava  com  a  Rosa  cosi- 
nheira : 

—  Oh  Piosa!  pois  tanto  lhe  recommendei  que  não 
escrevesse  á  mana  Graça?.. .  Que  teimosa!  Então  não 
arranjávamos  a  pequena,  sem  essas  lamurias  para 
Oliveira?  Graças  a  Deus,  a  Torre  é  larga  bastante 
para  mais  uma  creancinha! 

É  que  morrera  a  Crispola  —  a  desgraçada  viuva, 
visinha  da  Torre,  que  com  um  rancho  miúdo  de  dous 
pequenos,  três  raparigas,  definhava  no  catre  desde  a 
Paschoa.  E  agora  Gonçalo,  que  mantivera  o  casebre 
em  fartura,  andava  accommodando  as  pobres  crean- 
ças — já  por  cuidado  d'elle  muito  aceadamente  ves- 
tidas de  luto.  A  rapariga  mais  velha  (também  Cris- 
pola),  sempre  encaíuada  na  cosinha  da  Torre,  pas- 


376  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


sava  regularmente  a  «ajudanta  da  Rosa»,  com  sol- 
dada. Um  dos  rapazes,  de  doze  annos,  espigado  e  es- 
perto, também  Gonçalo  o  empregava  na  Torre  como 
andarilho,  para  os  recados,  cora  fardeta  de  botões 
amarellos.  O  outro,  moUe  e  ranhoso,  mas  com  o 
geito  e  o  amor  de  carpinteirar,  já  Gonçalo,  sob  o 
patrocínio  da  tia  Louredo,  o  collocára  em  Lisboa, 
na  Officina  de  S.  José.  D'uma  das  outras  raparigas 
se  encarregava  a  mãe  de  Manoel  Duarte,  amora- 
vel  senhora  que  habitava  uma  quinta  formosa  junto 
a  Treixedo,  e  adorava  Gonçalo  de  quem  se  consi- 
derava avassallayy.  Mas  para  a  mais  novinha  e  a 
mais  íraquinha  não  se  arranjava  amparo  solido.  A 
Rosa  lembrara  então  — « que  certamente  a  Snr.'' 
D.  Maria  da  Graça  recolheria  a  creaturinha...»  Gon- 
çalo rosnara  com  seccura:  —  «Oh!  por  uma  côdea 
mais  de  pão  não  se  necessita  encommodar  a  cidade 
d'Oliueira!»  Rosa,  porém,  enlevada  na  obra,  dese- 
jando para  pequerrucha  tão  franzina  e  loira  o  aga- 
salho d"uma  senhora,  escrevera  a  Gracinha,  pela  es- 
merada lettra  do  Bento,  uma  verbosa  carta  com  o 
pedido,  e  toda  a  historia  lamentosa  da  Crispola,  e 
louvores  devotos  ú  caridade  do  Snr.  Doutor.  E  era 
a  resposta  de  Gracinha,  demorada  mas  enternecida, 
com  a  recommendaçâo  «  de  lhe  mandarem  logo  a  po- 
bre creança»  —  que  impacientava  o  Fidalgo. 

Por  que,  desde  a  tarde  abominável  do  Mirante, 


A  ILLUSTIIE  CASA  DE  RAMIRES  377 


estranhamente  se  apoderara  d'ello  uma  repugnância 
quasi  pudica  em  communicar  com  os  Cunhaes!  Era 
como  se  esse  ^íirante  e  a  torpeza  abrigada  dentro 
das  suas  paredes  còr  de  rosa  empestassem  o  jardim, 
o  palacete,  o  Largo  d'El-Rei,  toda  a  cidade  d'01i- 
veira,  e  elle  agora,  por  aceio  moral,  recuasse  ante 
essa  região  empestada  onde  o  seu  coração  e  o  seu 
orgulho  suílocavam...  Logo  depois  da  sua  fuga  rece- 
bera do  bum  Barròlo  uma  carta  espantada:  —  aQue 
«telha  foi  essa?  Porque  não  esperaste?  Eu,  quando 
«voltei  á  noite  da  quinta  do  Marges,  até  fiquei  com 
«cuidado.  E  não  imaginas  como  a  Gracinha  anda  ner- 
«vosa!  Soubemos  da  partida,  por  acaso,  por  um  co- 
«  cheiro  do  Maciel.  Já  hoje  comemos  os  pécegos,  mas 
«não  comprehendemos  ! . . . »  —  Gonçalo  respondeu 
seccamente  n'um  bilhete:  —  «Negócios».  Depois  re- 
cordou que  deixara  na  gaveta  do  seu  quarto  o  ma- 
nuscripto  da  Novella:  e  mandou  um  moço  da  quinta, 
de  madrugada,  com  um  recado  quasi  secreto  ao  Pa- 
dre Sueiro,  «  para  que  entregasse  a  pasta  ao  portador, 
bem  embrulhada,  sem  contar  aos  senhores...»  Entre  a 
Torre  e  os  Cunhaes  só  desejava  separação  e  silencio. 
E  nos  encerrados  dias  que  passou  na  Torre 
(sem  se  arriscar  a  Villa-Clara,  no  terror  de  que  a 
vergonha  do  seu  nome  já  andasse  rosnada  pelo  es- 
tanco do  Simões  ou  pelo  armazém  do  Ramos)  não 
cessou  de  vibrar  n"uma  cólera  espalhada  que  a  todos 


378  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


varava...  Cólera  contra  a  irmã  que,  calcando  pudor, 
altivez  de  raça,  receio  dos  escarneos  d'01iveira,  tão 
fácil  e  estouvadamente  como  se  calcam  as  flores  des- 
botadas d'um  tapete,  correra  ao  Mirante,  ao  macho 
da  bigodeira,  apenas  elle  lhe  acenara  com  o  lenço 
almiscarado!  Cólera  contra  o  Barrôlo,  o  bochechudo 
bacoco,  que  empregava  os  seus  bacocos  dias  cele- 
brando o  Cavalleiro,  arrastando  o  Cavalleiro  para  o 
Largo  d'El-Rei,  escolhendo  na  adega  os  vinhos  mais 
finos  para  que  o  Cavalleiro  aquecesse  o  sangue,  agei- 
tando  as  almofadas  de  todos  os  camapés  para  que  o 
Cavalleiro  saboreasse  estiradamente  o  seu  charuto  e 
a  graça  presente  de  Gracinha!  Emfim  cólera  contra 
si,  que,  pela  baixa  cubica  de  uma  cadeira  em  S.  Ben- 
to, abatera  a  única  muralha  segura  entre  a  irmã  e  o 
homem  da  marrafa  lusente  —  que  era  a  sua  inimi- 
zade, aquella  escarpada  inimizade,  sempre,  desde 
Coimbra,  tão  rijamente  reforçada  e  recaiada!...  Ah! 
todos  três  horrendamente  culpados! 

Depois  uma  tarde,  enfastiado  da  solidão,  ou- 
sou um  passeio  por  Villa-Clara.  E  reconheceu  que 
na  Assembleia,  no  estanco  do  Simões,  na  loja  do  Ra- 
mos, os  amores  de  Gracinha  eram  certamente  tão 
ignorados  como  se  passassem  nas  profundidades  da 
Tartaria.  Immediatamente  a  sua  alma  doce,  agora 
socegada,  se  abandonou  á  doçura  de  tecer  des- 
culpas subtis  para  todos  os  culpados  d'aquella  queda 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  379 


triste...  Gracinha,  coitada,  sem  filhos,  com  tâo  mol- 
lengo  e  ensosso  marido,  alheia  a  todos  os  interesses 
da  intelligencia,  indolente  mesmo  para  uma  costura 
ou  bordado — cedera,  que  mulher  não  cederia?  á  cré- 
dula e  primitiva  paixão  que  lhe  brotara  na  alma, 
n'ella  se  enraizara,  lhe  dera  as  suas  únicas  alegrias 
do  mundo  e  (infiuencia  ainda  mais  poderosa!)  lhe 
arrancara  as  suas  únicas  lagrimas!  O  Barròlo,  coi- 
tado, era  o  Bacoco  —  e  como  o  apilriteiro»  da  can- 
tiga, incapaz  de  mais  nobres  fructos,  só  produzia  os 
«pilritos»  da  sua  Bacoquice.  E  elle,  coitado  d'elle,  po- 
bre, ignorado,  irresistivelmente  se  rendera  á  íatal  Lei 
d'Accrescentamento,  que  o  levara,  como  a  iodos  leva 
na  anciã  de  fama  e  fortuna,  a  furar  precipitadamente 
pela  porta  casual  que  se  abre,  sem  reparar  na  es- 
truraeira  que  atravanca  os  humbraes...  x\h  realmente 
todos  bem  pouco  culpados  deante  de  Deus  que  nos 
creou  tâo  variáveis,  tâo  frágeis,  tâo  dependentes  de 
forças  por  nós  ainda  menos  governadas  do  que  o 
Vento  ou  do  que  o  Sol! 

Não,  irremissivelmente  culpado,  —  só  o  outro,  o 
malandro  da  grenha  ondeada!  Esse,  em  toda  a  sua 
conducta  com  Gracinha,  desde  estudante,  mostrara 
sempre  um  egoísmo  atrevido,  só  punivel  como  puniam 
os  antigos  Ramires,  com  a  morte  depois  dos  tormen- 
tos, e  a  carcassa  posta  aos  corvos.  Em  quanto  lhe 
agradou,  na  ociosidade  dos  longos  estios,  um  namoro 


380  A   ILLUSTRE    CASA   DE   UAMIBES 


bocolico  sob  OS  arvoredos  da  Torre  —  namorara. 
Quando  considerou  que  uma  mulher  e  filhos  lhe 
atravancariam  a  vida  ligeira  — trahira.  Logo  que  a 
antiga  bem  amada  pertenceu  a  outro  homem  —  re- 
começara o  cerco  languido  para  colher,  sem  os  en- 
cargos da  paternidade,  as  emoções  do  sentimento.  E 
apenas  esse  marido  lhe  entreabre  a  sua  porta— não 
se  demora,  íende  brutamente  sobre  a  prezai  Ah  co- 
mo o  avô  Tructesindo  trataria  villâo  de  tal  vilianial 
Certamente  o  assava  n'uma  rugidora  fogueira  dean- 
te  das  barbacans— ou,  nas  masmoras  da  Alcáçova, 
lhe  entupia  as  guellas  falsas  com  bom  chumbo  der- 
retido . . . 

Pois  elle,  neto  de  Tructesindo,  nem  sequer  podia, 
quando  encontrasse  o  Cavalleiro  nas  ruas  d'01iveira, 
carregar  o  chapéu  sobre  a  testa  e  passar!  A  menor 
diminuição  n'essa  intimidade  tão  desastradamente 
reatada — seria  como  a  revelação  da  torpeza  ainda 
abafada  nas  paredes  do  Mirante !  Toda  Oliveira  co- 
chicharia, riria. —  a  Olha  o  Fidalgo  da  Torre!  Mette 
o  Cavalleiro  nos  Cunhaes  com. a  irmã,  e  logo,  pas- 
sadas semanas,  rompe  de  novo  com  o  Cavalleiro! 
Houve  escândalo,  e  gordo !»^ — Que  delicia  para  as 
Lousadas!  Não,  ao  contrario!  agora  devia  ostentar 
pelo  Cavalleiro  uma  fraternidade  tâo- larga  e  tão  rui- 
dosa —  que,  pela  sua  largueza  e  o  seu  ruido,  intei- 
ramente tapasse  e  abafasse  o  sujo  enredo  que  por 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  381 


traz  latejava.  Fingimento  torturante — e  imposto  pela 
honra  do  nome!  O  sujo  enredo  bem  guardado  en- 
tre os  mais  densos  arvoredos  do  jardim,  na  mais  cer- 
rada penumbra  do  ^lirante!— e  por  íóra,  ao  sol,  nas 
praças  d'01iveira  elle  sempre  com  o  braço  carinho- 
samente enlaçado  no  braço  do  Cavalleiro! 

Os  dias  rolavam — e  no  espirito  de  Gonçalo  não 
se  estabelecia  serenidade.  E  sobretudo  o  amargurava 
sentir  que  era  forçado  a  essa  intimidade  vistosa 
com  o  Cavalleiro  —  tanto  pelo  cuidado  do  sen  nome, 
como  pela  conveniência  da  sua  Eleição.  Toda  a  sua 
altivez  por  vezes  se  revoltava: — «Que  me  importa 
a  Eleição!  Oue  valor  tem  uma  encardida  cadeira 
em  S.  Bento?...»  Mas  logo  a  secca  Piealidade  o 
emmudecia.  A  Eleição  era  a  única  íenda  por  onde 
elle  lograria  escapar  do  seu  buraco  rural;  e,  se  rom- 
pesse com  o  Cavalleiro,  esse  villâo,  vezeiro  a  villa- 
nias,  immediatameníe,  com  o  appoio  da  horda  intri- 
gante de  Lisboa,  improvisaria  outro  Candidato  por 
Villa-Clara...  Desgraçadamente  elle  era  um  d"esses 
seres  vergados  que  dependem.  E  a  triste  dependên- 
cia d'onde  provinha?  Da  pobreza  —  d"essa  escassa 
renda  de  duas  quintas,  abastança  para  um  simples, 
mas  pobreza  para  elle,  com  a  sua  educação,  os  seus 
gostos,  os  seus  deveres  de  fidalguia,  o  seu  espirito 
de  sociabilidade. 

E    estes   pensamentos  lenta  e  capciosamente  o 


382  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


empurraram  a  outro  pensamento  —  á  D.  Anna  Lu- 
cena, aos  seus  duzentos  contos...  Até  que  uma  manhã 
encarou  corajosamente  uma  possibilidade  perturba- 
dora:— casar  com  a  D.  Anna!  —  Por  que  não?  Elia 
claramente  lhe  mostrara  inclinação,  quasi  consenti- 
mento... Por  que  não  casaria  com  a  D.  Anna? 

Sim!  o  pae  carniceiro,  o  irmão  assassino...  Mas 
também  elle,  entre  tantos  avós  até  aos  Suevos  fero- 
zes, descortinaria  algum  avô  carniceiro;  e  a  occu- 
pação  dos  Ramires,  atravez  dos  séculos  heróicos, 
consistira  realmente  em  assassinar.  De  resto  o  car- 
niceiro e  o  assassino,  ambos  mortos,  sombras  re- 
motas, pertenciam  a  uma  Lenda  que  se  apagava. 
D.  Anna,  pelo  casamento,  subira  da  Populaça  para  a 
Burguesia.  Elle  não  a  encontrava  no  talho  do  pae, 
nem  no  velhacouto  do  irmão  —  mas  na  quinta  da 
Feitosa,  já  Piica-Uona,  com  procurador,  com  capel- 
lão,  com  lacaios,  como  uma  antiga  Fiamires.  Ah !  sin- 
ceramente, toda  a  hesitação  era  pueril— desde  que 
esses  duzentos  contos,  de  dinheiro  muito  limpo,  de 
bom  dinheiro  rural,  os  trazia  com  o  seu  corpo,  mu- 
lher tão  formosa  e  séria.  Com  esse  puro  ouro,  e  o  seu 
nome,  e  o  seu  talento,  não  necessitaria  para  dominar 
na  Politica  a  refalsada  mão  do  Cavalleiro ...  E  de- 
pois que  vida  nobre  e  completa!  A  sua  velha  Torre 
restituída  ao  explendor  sóbrio  d'outras  eras;  uma 
lavoura  de  luxo  no  histórico  torrão  de  Treixedo;  as 


A   ÍLLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  383 


viagens  fecundas  ás  terras  que  educam!.,.  E  a  mu- 
lher quo  fornecia  estes  regalos  não  lhes  amargava 
o  goso,  como  em  tantos  casamentos  ricos,  com  a 
sua  fealdade,  os  seus  agudos  ossos,  ou  a  sua  pelle 
relentada...  Não!  Depois  do  brilho  social  do  dia  não 
o  esperava  na  alcova  um  mostrengo  —  mas  Vénus. 
E  assim,  lentamente  trabalhado  por  estas  tenta- 
ções, mandou  uma  tarde  um  bilhete  á  prima  Maria, 
á  Feitosa,  pedindo  —  «para  se  encontrarem,  sós, 
«  n'algum  passeio  dos  arredores,  por  que  desejava  ter 
«com  ella  uma  conversasinha  séria  e  intima...»  Mas 
três  immensos  dias  se  arrastaram  —  e  não  appareceu 
a  almejada  carta  da  Feitosa.  Gonçalo  concluiu  que  a 
prima  Maria,  tão  esperta,  farejando  a  natureza  da 
conoerífcis/nha  e  sem  uma  certeza  para  o  alegrar, 
retardava,  se  recusava.  Atravessou  então  uma  deso- 
lada semana,  remoendo  a  melancolia  d' uma  vida  que 
sentia  òca  e  toda  feita  dMncertezas.  O  orgulho,  um 
pudor  complicado,  não  lhe  consentiam  voltar  a  Oli- 
veira, ao  quarto  d'onde  implacavelmente  avistaria, 
por  sobre  o  arvoredo,  a  cúpula  do  Mirante  cora  o 
seu  gordo  Cupido:  —  e  quasi  o  arrepiava  a  idéa  de 
beijar  a  irmã  na  face  que  o  outro  babujára!  Sobre 
a  Eleição  descera  um  silencio  de  abobada  —  e  outra 
repugnância,  mais  acerba,  lhe  vedava  escrever  ao 
Cavalleiro.  João  Gouveia  gozava  as  suas  férias  na 
Costa,    de    sapatos   brancos,   apanhando  conchinhas 


:58't  A   ILLUSTRE    CASA   DE   P.AMIRES 


na  praia.  E  Villa-Clara  não  se  tolerava  n'esse  meado 
ardente  de  Septembro  —  cora  o  Tito  no  Alemtejo 
onde  o  levara  uma  doença  do  velho  Morgado  de 
Cidadelhe,  o  Manoel  Duarte  na  quinta  da  mãe  di- 
rigindo as  vindimas,  e  a  Assembleia  deserta  e  ador- 
mecida sob  o  innumeravel  susurro  das  moscas... 


Para  se  occupar  e  atulhar  as  horas,  mais  que 
por  dever  ou  gosto  d'Arte,  retomou  a  sua  Novel- 
la.  Mas  sem  fervor,  sem  veia  ágil.  Agora  era  a  sa- 
nhuda  arrancada  de  Tructesindo  e  dos  seus  caval- 
leiros,  correndo  sobre  o  Bastardo  de  Bayâo.  Lance 
ditticultoso — reclamando  fragor,  um  rebrilhante  co- 
lorido Medieval.  E  elle  tão  molle  e  tão  apagado!... 
Felizmente,  no  seu  Poemeto,  o  Tio  Duarte  recheara 
esse  violento  trecho  de  bem  apinceladas  paisagens, 
d'interessantes  rasgos  de  guerra. 

Logo  na  Ribeira  do  Coice,  Tructesindo  encon- 
trava cortada  a  machado  a  decrépita  ponte,  cujos 
rotos  barrotes  e  taboões  carcomidos  entulhavam  no 
fundo  a  corrente  escassa.  Na  sua  fuga  o  Bastardo 
acautelladamente  a  desmantelara  para  deter  a  ca- 
valgada vingadora.  Então  a  pesada  hoste  de  Santa 
Ireneia  avançou  pela  esguia  ourela,  ladeando  os 
renques  de  choupos  em  demanda  do  vau  do  Espi- 
gai...   Mas    que    tardança!    (juando  as  derradeiras 


A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES  380 


malas  de  carga  choutaraiií  na  terra  d'além- ribeira 
já  a  tarde  se  adoçava,  e  nas  poças  d"agua,  entre  as 
poldras,  o  brilho  esmorecia,  umas  ainda  d"ouro  pal- 
lido,  outras  apenas  rosadas.  Immediatamente  Dom 
Garcia  Viegas,  o  Sabedor,  aconselhou  que  a  mes- 
nada  se  dividisse: — a  peonagem  e  a  carga  avan- 
çando para  Montemor,  esgueirada  e  callada,  para 
esquivar  recontros;  os  senhores  de  lança  e  os  bes- 
teiros de  cavallo  arrancando  em  dura  carreira  para 
colher  o  Bastardo.  Todos  louvaram  o  ardil  do  Sa- 
bedor:  e  a  cavalgada,  aligeirada  das  fdas  tardas 
de  archeiros  e  íundibularios,  largou,  soltas  as  rédeas, 
atravez  de  terras  ermas,  depois  por  entre  barrocaes, 
até  aos  Tres-CamhiJios,  desolada  chan  onde  se  er- 
gue solitariamente  aquelle  car\alho  velhíssimo  que 
outr'ora,  antes  d'exorcisado  por  S.  Froalengo,  abri- 
gava no  sabbado  mais  negro  de  Janeiro,  ao  clarão 
<i'archotes  enxofrados,  a  Grande  Ronda  de  todas  as 
bruchas  de  Portugal.  Junto  do  carvalho  Tructesindo 
sopeou  a  arrancada:  e,  alçado  nos  estribos,  farejava 
as  três  sendas  que  se  trifurcam  e  se  encovam  entre 
ásperos,  lobregos  cerros  de  bravio  e  de  tojo.  Passara 
ahi  o  Bastardo  malvado?...  Ah!  por  certo  passara 
e  toda  a  sua  maldade  —  porque  no  respaldo  d'uma 
fraga,  junto  a  três  cabras  magras  retouçando  o 
malto,  jazia,  com  os  braços  abertos,  um  pobre  pas- 
torinho  morto,   varado  por  uma  frecha!  Para  que  o 


386  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


triste  cabreiro  não  soprasse  novas  da  gente  de 
Bayâo  —  uma  bruta  setta  lhe  atravessara  o  peito  es- 
carnado de  íome,  mal  coberto  de  trapos.  Mas  por 
qual  das  sendas  se  embrenhara  o  malvado  ?  Na  terra 
solta,  raspada  pelo  vento  suão  que  rolava  d'en- 
tre-montes,  não  appareciam  pegadas  revoltas  de  tro- 
pel fugindo.  E,  em  tal  solidão,  nem  choça  ou  pa- 
lhoça d'onde  villâo  ou  velha  alapada  espreitassem  a 
levada  do  bando . . .  Então,  ao  mando  do  Alferes  Af- 
fonso  Gomes,  três  almogavres  despediram  pelos  três 
caminhos  á  descoberta  —  em  quanto  os  Cavalleiros^ 
sem  desmontar,  desafivelavam  os  morriões  para  lim- 
par nas  íaces  barbudas  o  suor  que  os  alagava,  ou 
abeiravam  os  ginetes  d'um  sumido  fio  d'agua  que  á 
orla  da  chan  se  arrastava  entre  ralo  caniçal.  Tru- 
ctesindo  não  se  arredou  de  sob  a  ramaria  do  car- 
valho de  S.  Froalengo,  immovel  sobre  o  murzello 
imraovel,  todo  cerrado  no  ferro  da  sua  negra  ar- 
madura, as  mãos  juntas  sobre  a  sella  e  o  elmo  pe- 
sadamente inclinado  como  em  magua  e  oração.  E 
ao  lado,  com  as  colleiras  errissadas  de  pregos,  as 
sangrentas  linguas  penduradas,  arquejavam,  estira- 
dos, os  seus  dous  mastins. 

Já  no  emtanto  a  espera  se  alongava,  inquieta, 
enfadonha  —  quando  o  almogavre  que  mettera  pela 
senda  de  Nascente  reappareceu  n'um  rolo  de  poeira, 
atirando   logo    o   alarde   de  longe,    com    a    ascuma 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIIíES  387 


alta.  A  hora  escassa  de  carreira  avistara  n'Qm  ca- 
beço uma  hoste  acampada,  em  arraial  seguro,  ro- 
deado d'estaca  e  valia!... 

—  Que  pendão? 

—  As  treze  arruellas. 

—  Deus  louvado!  gritou  Tructesindo,  que  estre- 
meceu como  acordando.  É  D.  Pedro  de  Castro,  o  Cas- 
íellão,  que  entrou  com  os  Leonezes  e  vem  pelas  se- 
nhoras Infantas ! 

Por  esse  caminho  pois  não  se  atrevera  o  Bas- 
tardo!... Mas  já  pela  senda  de  Poente  recolhia 
outro  almogavre  contando  que  entre-cerros,  n'um 
pinhal,  topara  um  bando  de  bufarinheiros  genove- 
zes,  retardados  desde  alv^a,  por  que  um  d'elles  es- 
morecera com  mal  de  íebres.  E  então?..,  —  Então, 
pela  borda  do  pinheiral  apenas  passara  em  todo  o 
dia  (no  jurar  dos  genovezes)  uma  companhia  de 
truões  voltando  da  feira  de  Grajelos.  Só  restava  pois 
o  trilho  do  Qieio,  pedregoso  e  esbarrancado  como  0 
leito  enxuto  d'uma  torrente.  E  por  elle,  a  um  bra- 
do de  Tructesindo,  tropeou  a  cavalgada.  Mas  já  o 
crepúsculo  tristíssimo  descia  —  e  sempre  o  cami- 
nho se  estirava,  agreste,  soturno,  infindável,  entre 
os  cerros  de  urze  e  rocha,  sem  uma  cabana,  um 
muro,  uma  sebe,  rasto  de  rez  ou  homem.  Ao  lon- 
ge, mais  ao  longe,  emfim,  enchergaram  a  campi- 
na  árida,  coberta  de  solidão  e  penumbra,  dilatada 


388  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


na  sua  mudez  até  a  um  ceii  remoto,  onde  já  se 
apagava  uma  derradeira  tira  de  poente  còr  de  cobre 
e  còr  de  sangue.  Então  Tructesindo  deteve  a  aba- 
lada, rente  d'espinheiros  que  se  torciam  nas  lufadas 
mais  rijas  do  suão: 

—  Por  Deus,  senhores,  que  corremos  em  pressa 
vã  e  sem  esperança!...  Qi-ie  pensaes,  Garcia  Viegas? 

Todo  o  bando  se  apinhara :  e  uma  fumarada 
subia  dos  ginetes  arquejantes  sob  as  coberturas  de 
malha.  O  Sabedor  estendeu  o  braço: 

—  Senhores!  O  Bastardo,  antes  de  nós,  galgou 
d'escapada  essa  campina  além,  e  metteu  a  Valle-Mur- 
tinho  para  pernoitar  na  Honra  de  Agredel,  que  é 
bem  afortalezada  e  parenta  de  Bayâo ... 

—  E  nós,  pois,  D.  Garcia? 

—  Nós,  senhores  e  amigos,  só  nos  resta  também 
pernoitar.  Voltemos  aos  Tres-Caminhos.  E  de  lá,  em 
boa  avença,  ao  arraial  do  Snr.  D.  Pedro  de  Castro,  a 
pedir  agasalho ...  A  par  de  tamanho  senhor  encon- 
traremos mais  fartamente  que  nos  nossos  alforges 
o  que  todos,  christâos  e  brutos,  vamos  necessitando, 
cevada,  um  naco  de  vianda,  e  de  vinhos  três  golpes 
rijos... 

Todos  bradaram  com  alvoroço:  —  «Bem  traçado! 
bem  traçado ! . . . » —  E  de  novo,  pelo  barranco  pedre- 
goso, a  cavalgada  trotou  pezadamente  para  os  Três- 
Cam/nJios — onde  já  dous  corvos  se  encarniçavam 
sobre  o  corpo  do  pastorinho  morto. 


A  ILLUSTHE  CASA  DE  RAMIRES  389 


Em  breve,  ao  cabo  do  caminho  do  Nascente,  no 
cabeço  alto,  alvejaram,  as  tendas  do  arraial,  ao  cla- 
rão das  fogueiras  que  por  todo  elle  fumegavam. 
O  Adail  de  Santa  Ireneia  arrancou  da  bosina  três 
sons  lentos  annunciando  Filho-d'Algo.  Logo  de  den- 
tro da  estacada  outras  businas  soaram,  claras  e 
acolhedoras.  Então  o  Adail  galopou  até  ao  vallado,  a 
annunciar  ás  atalaias  postadas  nas  barreiras,  entre 
luzentes  fogos  d'almenara,  a  mesnada  amiga  dos 
Ramires.  Tructcsindo  parara  no  córrego  escuro,  que 
o  pinheiral  cerrado  mais  escurecia  movendo  e  ge- 
mendo no  vento.  Dous  cavalleiros,  de  sobreveste  ne- 
gra e  capuz,  logo  correram  pelo  pendor  do  outeiro  — 
bradando  que  o  Snr.  D.  Pedro  de  Castro  esperava 
o  nobre  senhor  de  Santa  Ireneia  e  muito  se  prazia 
para  todo  seu  regalo  e  serviço !  Silenciosamente 
Tructesindo  desmontou;  e  com  D.  Garcia  Viegas,  e 
Leonel  de  Camora  e  Mendo  de  Briteiros  e  outros 
parentes  de  solar,  todos  sem  lança  ou  broquel,  des- 
calçados os  guantes,  galgaram  o  cabeço  até  á  esta- 
cada, cujas  cancellas  se  escancararam,  mostrando 
na  claridade  incerta  dos  íogareus  sombrios  magotes 
de  peões  —  onde,  por  entre  os  bassinetes  de  ferro, 
surdiam  toucas  amarellas  de  mancebas  e  gorros 
enguisalhados  de  jograes.  Apenas  o  velho  assomou 
aos  barrotes  dous  infanções,  sacudindo  a  espada, 
bradaram : 


390  A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


—  Honra !  honra !  aos  Ricos-Homens  de  Portugal ! 
As  trompas  misturavam  o  clangor  ríspido   aos 

rufos  lassos  dos  tambores.  E  por  entre  a  turba,  que 
calladamente  recuara  em  alas  lentas,  avançou,  pre- 
cedido por  quatro  cavalleiros  que  erguiam  archotes 
accesos,  o  velho  D,  Pedro  de  Castro,  o  Castellào,  o 
homem  das  longas  guerras  e  dos  vastos  senhorios. 
Um  corselete  d'anta  com  lavores  de  prata  cinjia  o 
seu  peito  já  curvado,  como  consumido  por  tama- 
nhas fadigas  de  pelejar  e  tamanhas  cubicas  de  rei- 
nar. Sem  elmo,  sem  armas,  appoiava  a  mão  cabel- 
luda  de  rijas  veias  a  um  bastão  de  marfim.  E  os 
olhos  encovados  faiscavam,  com  afiavel  curiosidade, 
na  requeimada  magreza  da  face,  de  nariz  mais  re- 
curvo que  o  bico  d'um  falcão,  repuxada  a  um  lado 
por  um  fundo  gilvaz  que  se  sumia  na  barba  crespa, 
aguda  e  quasi  branca. 

Deante  do  senhor  de  Santa  Ireneia  alargou  vaga- 
rosamente os  braços.  E  com  ura  grave  riso  que  mais 
lhe  recurvou,  sobre  a  barba  espetada,  o  nariz  de  ra- 
pina : 

—  Viva  Deus!  Grande  é  a  noite  que  vos  traz, 
primo  e  amigo!  Oue  não  a  esperava  eu  de  tanta 
honra,  nem  sequer  de  tanto  gosto ! . . . 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  391 


Ao  rematar  este  daro  Capitulo,  depois  de  três 
manhãs  de  trabalho,  Gonçalo  arrojou  a  penna  com 
um  suspiro  de  cansaço.  Ah!  já  lhe  entrava  a  fartura 
d'essa  interminável  Novella,  desenrolada  como  um 
novello  solto— sem  que  elle  lhe  podesse  encurtar 
os  fios,  tão  cerradamente  os  emmaranhára  no  seu 
denso  Poema  o  Tio  Duarte  que  elle  seguia  gemendo  l 
E  depois  nem  o  consolava  a  certeza  de  construir 
obra  forte.  Esses  Tructesindos,  esses  Bastardos,  es- 
ses Castros,  esses  Sabedores,  eram  realmente  varões 
Aííonsinos,  de  solida  substancia  histórica?...  Talvez 
apenas  oucos  titeres,  mal  engonçados  em  erradas  ar- 
maduras, povoando  inveridicos  arraiaes  e  castellos, 
sem  um  gesto  ou  dizer  que  datassem  das  velhas 
edades ! 

E  ao  outro  dia  não  reuniu  em  todo  o  seu  ser 
coragem  para  rotomar  aquella  soírega  correria  dos 
de  Santa  Ireneia  sobre  o  bando  escapadiço  de  Bayâo. 
De  resto  já  remettera  três  Capitulos  da  Novella  — 
já  calmara  as  anciãs  do  Castanheiro.  Mas  a  ociosi- 
dade mais  lhe  pesou  n'essa  semana,  arrastada  pelos 
canapés  ou  por  entre  os  buxos  do  jardim,  íumando 
e  tristemente  sentindo  que  a  Vida  lhe  tugia  em  fu- 
mo. Para  o  enervar  accrescia  um  aborrecimento  de 
dinheiro  —  uma  lettra  de  seiscentos  mil  réis,  do  der- 
radeiro anno  de  Coimbra,  sempre  reformada,  sempre 


392  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


avolumada,  e  que  agora  o  emprestador,  um  certo 
Leite,  d'01iveira,  reclamava  com  dureza.  O  seu  al- 
íaiate  de  Lisboa  também  o  importunava  com  uma 
conta  pavorosa,  atulhando  duas  laudas.  Mas  sobre- 
tudo o  desolava  a  solidão  da  Torre.  Todos  os  ale- 
gres amigos  dispersos  pela  beira-mar  ou  nas  quintas. 
A  Eleição  encalhada  como  uma  barca  no  lodo.  A  ir- 
mã de  certo  com  o  outro  no  Mirante.  Até  a  prima 
Maria  desattendendo  ingratamente  o  seu  timido  pe- 
dido d'uma  «conversasinha.»  E  elle  no  seu  quente 
casarão,  sem  energia,  immobilisado  n'uma  inércia 
crescente,  como  se  cordas  o  travassem,  cada  dia  mais 
apertadas  —  e  d'homem  se  volvesse  em  fardo. 

Uma  tarde  no  seu  quarto,  vagaroso  e  sombrio, 
sem  mesmo  parolar  cora  o  Bento,  acabava  de  se  ves- 
tir para  montar  a  cavallo,  espairecer  n'um  galope 
pelos  caminhos  de  Valverde  —  quando  o  pequeno  da 
Crispola  (já  estabelecido  na  Torre  como  pagem,  de 
fardeta  de  botões  amarellos)  bateu  esbaforidamente 
á  porta. —  Era  uma  senhora  que  parara  ao  portão, 
dentro  d'uma  carruagem,  pedia,  ao  Fidalgo  para  des- 
cer . . . 

—  Não  disse  o  nome? 

—  Não,  senhor.  É  uma  senhora  magra,  puxada 
a  dous  cavallos,  com  redes . . . 

A  prima  Maria!  Com  que  alvoroço  correu,  agar- 
rando no  cabide  do  corredor   um  velho  chapéu  de 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  KAMIRES  393 


palha !    E    em   baixo    foi  como    se    contemplasse    a 
Deusa  da  Fortuna  na  sua  roda  ligeira. 

—  Oh  prima  Maria,  que  surpreza!...  Que  felici- 
dade! 

Debruçada  da  portinhola  da  carruagem  (a  ca- 
leche azul  da  Fe/fosa),  D.  Maria  Mendonça,  com  um 
chapéu  novo  enramalhetado  de  lila*zes,  desculpou 
atrapalhadamente  e  rindo  o  seu  silencio.  Recebera  a 
carta  do  primo  muito  atrasada...  Sempre  o  íatal 
carteiro,  trôpego  e  bêbedo . . .  Depois  uns  dias  muito 
atarefados  em  Oliveira  com  a  Annica,  que  preparava 
para  o  inverno  a  casa  da  rua  das  Vellas. 

—  E  finalmente,  como  devia  uma  visita  em  Vil- 
la-Clara  á  pobre  Venancia  Rios,  que  tem  estado 
doente,  achei  mais  simples  e  mais  completo  parar 
na  Torre. . .  E  então? 

Gonçalo  sorria,  embaraçado : 

—  Então,  nada  de  grave,  mas...  É  que  desejava 
conversar  comsigo...  Por  que  não  entra? 

Abrira  a  portinhola.  EUa  preteria  passear  na  es- 
trada. E  ambos  s'encaminharam  para  o  velho  banco 
de  pedra  que  os  alamos  abrigavam  em  frente  ao  por- 
tão da  Torre.  Gonçalo  sacudiu  com  o  lenço  a  ponta 
do  banco. 

—  Pois,  prima  Maria,  eu  desejava  conversar... 
^las  é  difficil,  tão  difíicil!...  Talvez  o  melhor  seja 
atacar  a  questão  brutalmente. 


394  A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


—  Ataque. 

—  Então  lá  vae!...  A  prima  acha  que  ou  perco 
o  meu  tempo  se  me  dedicar  á  sua  amiga  D.  Anna? 

Pousada  de  leve  á  borda  do  banco,  enrolando 
attentamente  a  seda  preta  do  guardasolinho,  Maria 
Mendonça  tardou,  murmurou: 

—  Não,  acho  que  o  primo  não  perde  o  seu  tempo. . . 

—  Ah!  acha? 

Ella  considerava  Gonçalo,  gozando  a  sua  pertur- 
bação e  anciedade. 

—  Jesus,  prima!...  Diga  alguma  cousa  mais! 

—  Mas  que  quer  que  lhe  diga  mais?  Já  lhe  de- 
clarei em  Oliveira.  Ainda  sou  muito  nova  para  an- 
dar com  recadinhos  de  sentimento.  Mas  acho  que  a 
Annica  é  bonita,  é  rica,  é  viuva . . . 

Gonçalo  arrancou  do  banco,  erguendo  os  bra- 
ços, em  desolação.  E,  como  D.  Maria  também  se  er- 
guera, ambos  seguiram  pela  tira  de  relva  que  orla 
os  alamos.  Elle  quasi  gemia,  desconsolado: 

—  Ora  bonita,  viuva,  rica . . .  Para  conhecer  es- 
ses grandes  segredos  não  a  incommodava  eu,  pri- 
ma!... Que  diabo!  seja  boa  rapariga,  soja  franca! 
A  prima  sabe,  de  certo  já  ambas  conversaram... 
Seja  tranca.   Ella   tem  por  mim  alguma  sympathia? 

]).  Maria  parou,  murmurou,  riscando  com  a 
ponta  do  guardasolinho  o  trilho  amarellado  da  relva : 

—  Pois  está  claro  que  tem... 


A  ÍLLUSTRE   CASA   DE   R.\MIRES  395 


—  Bravo!  Então,  se  d'aqui  a  um  tempo,  passa- 
dos estes  primeiros  mezes  de  luto,  eu  me  decla- 
rasse, me... 

Elia  dardejou  a  Gonçalo  os  espertos  olhos: 

—  Santo  Deus,  como  o  primo  por  ahi  vae,  a 
galope...  Então  é  uma  paixão? 

Gonçalo  tirou  o  seu  velho  chapéu  de  palha, 
passou  lentamente  os  dedos  pelos  cabellos.  E  n'um 
immenso  e  triste  desabafo : 

—  Olhe,  prima!  E'  sobretudo  a  necessidade  de 
me  accommodar  na  vida!  Pois  não  lhe  parece? 

—  Tanto  me  parece  que  lhe  indiquei  o  bom 
poizo. . .  E  agora  adeus,  passa  das  cinco  horas.  Não 
me  quero  demorar  por  causa  dos  creados. 

Gonçalo  protestou,  supplicou : 

—  Mais  um  bocadinho!...  E'  tão  cedo!  Só  outra 
cousa,  com  franqueza.  Ella  é  boa  rapariga? 

D.  Maria  voltara,  ao  cabo  do  renque  d'alamos, 
recolhendo  á  caleche : 

—  Uma  pontinha  de  génio,  para  animar  a  exis- 
tência. Mas  muito  boa  rapariga...  E  uma  dona  de 
casa  admirável!  O  primo  não  imagina  como  anda  a 
Feitosa.  A  ordem,  o  acceio,  a  regularidade,  a  disci- 
plina... Ella  olha  por  tudo,  até  pela  adega,  até  pela 
cocheira! 

Gonçalo  esfregou  radiantemente  as  mãos: 

—  Pois  se  d'aqui  a  um  anno  se  realisar  o  gran- 


396  A    ILLISTRE    CASA   DE   RAMIRES 


de  acontecimento  hei  de  gritar  por  toda  a  parte  que 
íoi  a  prima  Maria  que  salvou  a  casa  de  Ramires! 

—  Por  isso  eu  trabalho,  para  servir  o  brazáo  e  o 
nome!  exclamou  ella,  saltando  ligeiramente  para  a 
caleche,  como  se  fugisse,  arremessada  aquella  clara 
confissão. 

O  trintanario  trepara  á  almofada.  E  em  quanto 
os  cavallos  folgados  largavam,  aos  corcovos,  D.  Ma- 
ria ainda  gritou: 

—  Sabe  quem  encontrei  em  Villa  Clara?  O  Titót 

—  O  Tito?... 

— Chegou  do  x\lemtejo,  vem  jantar  comslgo.  Eu 
não  o  trouxe  na  carruagem  por  decência,  para  o  não 
comprometter... 

E  a  caleche  rolou  —  entre  os  risos  e  os  doces 
acenos  com  que  ambos  se  afagavam,  n'aquella  nova 
concordância  mais  calorosa  d' uma  conspiração  sen- 
timental. 

Gonçalo  largou  logo  alegremente  para  Villa- 
Clara,  ao  encontro  do  Tito.  E  já  o  alvoroçava  a  idéa 
de  colher  do  Tito,  intimo  da  Feitora,  informações  so- 
bre a  D.  Anna,  o  seu  génio,  os  seus  modos.  A  prima 
Maria,  por  amor  dos  Ramires  (sobretudo,  coitada, 
para  proveito  dos  Mendonças!),  idealisava  a  noiva. 
Mas  o  Tito,  o  homem  mais  verídico  do  Reino,  amando 
a  Verdade  com  a  antiga  devoção  de  Epaminondas, 
apresentaria  D.  Anna  sem  um  enteite  nem  um  des- 


A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES  39i 


eníeitc.  E  o  Tito ...  Ah !  sob  o  seu  vozeirão  troante,  a 
sua  indolência  bovina,  o  Tito  possuia  um  espirito 
muito  attento,  muito  penetrante. 

Logo  á  Portella  os  dons  amigos  s'encontraram.  E, 
apesar  de  separação  tão  curta,  o  abraço  íoi  estron- 
doso. 

—  Oh  sô  Gonçalâo!... 

—  Oh  Titósinho  querido!  tens  feito  cá  uma  falta 
enorme!...  E  teu  h'mão? 

O  mano  melhor,  mas  arrasado.  Muito  cartapa- 
cio  e  muito  fêmea  para  velho  de  sessenta  annos. 
E  elle  iá  o  avisara: —  «Mano  João,  mano  João!  olhe 
que  assim  sempre  agarrado  aos  papeis  velhos  e  ás 
cachopas  novas,  o  mano  rebenta!» 

— E  por  cá?  Essa  eleição? 

—  A  eleição  agora  para  outubro,  nos  começos 
d'outubro...  De  resto,  semsaboria  universal.  Gouveia 
na  Costa,  Manoel  Duarte  na  vindima...  Eu  secca- 
dote,  murchote,  sem  veia,  até  sem  appetite. 

—  Olha  que  eu  venho  jantar  e  convidei  o  Vi- 
deirinha. 

—  Bem  sei,  já  me  disse  a  prima  Maria,  que  pa- 
rou um  bocado  na  Torre. . .  Ella  está  na  Fe/tosa 
com  a  D.  Anna. 

Durante  um  momento  repisou  sobre  a  intimi- 
dade da  prima  Maria  na  Feitosa,  com  a  tentação  de 
desabafar,  logo  alli  na  estrada,  sobre  o  inesperado 


398  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


romance  que  desabrochara.  Mas  não  ousou!  Era 
um  angustiado  acanhamento,  como  a  vergonha  de 
cubicar  assim  todos  os  restos  do  pobre  Lucena  —  o 
Circulo  e  a  viuva. 

Então,  conversando  do  Alemtejo  e  do  mano  João 
(que  contara  muitas  antigualhas  massadoras  sobre  a 
genealogia  dos  Piamires),  desceram  da  Portella  á 
Torre,  com  tenção  de  estirar  o  passeio  até  aos  Bra- 
vaes.  Mas,  na  Torre,  Gonçalo  desejou  avisar  a  Rosa 
dos  dous  convivas  inesperados,  senhores  de  tão  po- 
deroso garfo.  Entraram  pela  porta  do  pomar  onde 
um  fio  lento  d'agoa  s'atardava  nos  regueiros.  Aos 
brados  galhofeiros  do  Fidalgo  a  Rosa  accudio,  lim- 
pando as  mãos  ao  avental.  O  que!  dous  convidados! 
Mesmo  quatro,  e  mais  valentes,  que  graças  a  Deus 
nosso  Senhor  o  jantarinho  sobrava!  Ainda  de  tarde 
comprara  a  uma  mulher  da  Costa  um  cesto  de  sardi- 
nhas, graúdas  e  gordas  que  regalavam ! . . .  O  Tito 
reclamou  logo  uma  fritada  tremenda  de  sardinha  e 
ovos.  E  os  dois  amigos  atravessavam  o  pateo  — 
quando  Gonçalo  reparou  no  Bento,  escarranchado  no 
banco  da  latada,  deante  d'uma  tigella,  e  areando 
com  enthusiasmo  um  castão  de  prata  lavrada,  que 
emergia  de  dentro  d'uma  toalha  enrolada  como  d' uma 
bainha. 

—  Que  castão  é  esse,  Bento?  assim  embrulhado? 

O   Bento  lentamente  saccou   da  toalha   torcida 


A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES  399 


um    chicote,   escuro   e  comprido,   com  três   arestas 
afiadas  como  as  d'um  florete. 

—  Nem  o  Snr.  Dr.  sabia!  Estava  no  sótão.  Agora 
de  tarde  andava  lá  a  escaraíunchar  por  causa  d'uma 
ninhada  de  gatos,  e  detraz  d'um  bahu  dou  com 
umas  esporas  de  prateleira  e  com  este  arrocho... 

Gonçalo  estudou  o  macisso  castão  de  prata,  sa- 
cudio  a  fina  vara  que  zinia: 

—  Explendido  chicote...  Oh  Tito,  hein?...  Afia- 
do como  um  cutello.  E  antigo,  muito  antigo,  com  as 
minhas  armas...  De  que  diabo  é  feito?  baleia? 

—  De  cavallo-marinho  . . .  Uma  arma  terrível. 
Mata  um  homem...  O  mano  João  tem  um,  mas  com 
castão  de  metal...  Mata  um  homem! 

—  Bem,  rematou  Gonçalo.  Limpa  e  põe  no  meu 
quarto.  Bento!  Passa  a  ser  o  meu  chicote  de  guerra! 

Á  porta  do  pomar  ainda  encontraram  o  Pereira 
da  Piiosa,  de  quinzena  de  cutim  deitada  aos  hombros. 
Em  breve,  no  dia  de  S.  Miguel,  o  Pereira  tomava 
emfim  a  lavra  da  Torre.  E  Gonçalo  gracejou,  mos- 
trando ao  Tito  o  lavrador  famoso.  Eis  o  homem! 
eis  o  grande  homem  que  se  preparava  a  tornar  a 
Torre  luna  íallada  maravilha  de  ceara,  vinha  e 
horta!  O  Pereira  coçava  a  barba  rala: 

—  E  também  a  enterrar  bom  dinheiro!  Emfim 
um  gosto  sempre  valeu  mais  que  um  vintém!  E  o 
Fidalgo,  como  patrão,  merece  terra  em  que  os  olhos 
se  esqueçam  de  regalados!... 


400  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Oh,  Snr.  Pereira!  rebombou  o  Tito.  Então  não 
se  esqueça  de  cuidar  dos  melões.  É  uma  vergonha! 
Nunca  na  Torre  se  comeu  um  bom  melão! 

—  Pois  para  o  anno,  assim  Deus  nos  conserve, 
já  V.  Ex."  comerá  na  Torre  um  bom  melão! 

Gonçalo  abraçou  ainda  o  esperto  lavrador  —  e 
apressou  para  a  estrada,  decidido  a  desenrolar  toda  a 
confidencia  ao  Tito,  na  solidão  favorável  do  arvoredo 
dos  Bravaes.  Mas,  apenas  recomeçaram  a  caminhada, 
o  mesmo  enleio  o  travou  —  quasi  temendo  agora  as 
iníormaçòes  do  Tito,  homem  tão  severo,  de  Moral  tão 
escarpada.  E  todo  o  demorado  giro  pelos  Bravaes  o 
findaram  sem  que  Gonçalo  desafogasse.  O  crepúsculo 
descera,  molle  e  quente,  quando  recolheram  —  con- 
versando sobre  a  pesca  do  sável  no  Guadiana. 

Defronte  do  portão  da  Torre  Videirinha  espe- 
rava, dedilhando  o  violão  na  penumbra  dos  alamos. 
Como  a  noite  se  conservava  abafada,  scni  uma  ara- 
gem, jantaram  na  varanda,  com  dous  candieiros 
accesos.  Logo  ao  desdobrar  o  guardanapo  o  Tito, 
vermelho  e  espraiado  sobre  a  cadeira,  declarou  «que 
graças  ao  Senhor  da  Saúde,  a  sede  era  boa!»  Elle  e 
Gonçalo  praticaram  as  usadas  façanhas  de  garfo  e 
de  copo.  Quando  o  Bento  sérvio  o  café  uma  im- 
mensa  e  lustrosa  lua  nova  surgia,  ao  íundo  da 
quinta  escura,  por  traz  dos  outeiros  de  Valverde. 
Gonçalo,  enterrado  n'uma  cadeira  de  vime,  accen- 


A  ILLISTHE  CASA  DE  RAMIRES  401 


<leu  o  charuto  com  beatitude.  Todos  os  tédios  e  in- 
certezas d'essas  semanas  se  despegavam  da  sua  alma 
como  cinza  apagada,  brevemente  varrida.  E  íoi  sen- 
tindo menos  a  doçura  da  noite,  que  um  sabor  me- 
lhor á  vida  desanuviada,  que  exclamou: 

— Pois,  senhores,  agora,  está  uma  delicia!... 

Videirinha,  depois  d'um  curto  cigarro,  retomara 
o  violão.  Atravez  da  quinta,  pedaços  de  muros  caia- 
dos, algum  trilho  de  rua  mais  descoberto,  a  agua 
do  Tanque-Grande,  rebrilhavam  ao  luar  que  resva- 
lava dos  cerros;  e  a  quietação  do  arvoredo,  da  cla- 
ridade, da  noite,  penetravam  n'alma  com  adormece- 
dora  caricia.  Tito  e  Gonçalo  saboreavam  o  famoso 
cognac  de  Moscatel,  preciosa  antigualha  da  Torre, 
silenciosamente  enlevados  no  Videirinha  —  que  re- 
cuara para  o  fundo  da  varanda,  se  envolvera  em 
sombra.  Nunca  o  bom  cantador  ferira  as  cordas  com 
inspiração  mais  enternecida.  Até  os  campos,  o  ceu 
inclinado,  a  lua  cheia  sobre  as  collinas,  escutavam 
os  queixumes  do  fado  da  Ariosa.  E  no  escuro,  sob 
a  varanda,  o  pigarro  da  Rosa,  os  passos  abafados 
dos  creados,  algum  sumido  riso  de  rapariga,  o  bater 
das  orelhas  d'um  perdigueiro  —  eram  como  a  pre- 
sença d'um  povo  suavemente  attrahido  pelo  descante 
formoso. 

Assim  a  noite  se  alongou,  a  lua  subio  com  soli- 


26 


402  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


tario  fulgor.  Tito,  pesado  do  bródio,  adormecera.  E 
como  sempre,  para  lindar,  Videirinha  atacou  arden- 
temente o  Fado  dos  Ramires: 


Quem  te  verá  sem  que  estremeça, 
Torre  de  Santa  Ireneia, 
Assim  tão  negra  e  callada 
Por  noites  de  lua  cheia . . . 


E  lançou  então  uma  quadra  nova,  que  traba- 
lhara n'essa  semana  com  amor  sobre  uma  erudita 
nota  do  bom  Padre  Sueiro.  Era  a  gloria  magnifica 
de  Paio  Ramires,  Mestre  do  Templo  —  a  quem  o 
Papa  Innocencio,  e  a  Rainha  Branca  de  Castella,  e 
todos  os  Príncipes  da  Christandade  supplicam  que  se 
arme,  e  corra  em  dura  pressa,  e  liberte  S.  Luiz  Pici 
de  França,  captivo  nas  terras  de  Egypto... 

Que  só  em  Paio  Ramires 
Põe  agora  o  mundo  a  esperança... 
Que  junte  os  seus  Cavalleiros 
E  que  salve  o  Rei  de  França! 

E  por  este  avô  e  tal  façanha  até  Gonçalo  se 
interessou  —  acompanhando  o  canto,  n'um  tremulo 
esganiçado,  de  braço  erguido: 

Ai,  que  junte  os  seus  cavalleiros 
E  que  salve  o  Rei  de  França  ! . . . 


A  ILLUSTnE  CASA  DE  RAMIRES  403 


Ao  rolar  mais  forte  do  coro  Tito  descerrou  as 
pálpebras,  arrancou  do  canapé  o  corpansil  iramenso 
—  e  declarou  que  marchava  para  Villa  Clara: 

—  Estou  derreado!  Sempre  em  jornada  e  sem 
dormir,  desde  hontem  ás  quatro  da  manhã  que  lar- 
guei de  Cidadelhe . . .  Caramba,  dava  agora,  como 
aquelle  rei  grego,  um  crusado  por  um  burro ! 

Então  Gonçalo,  animado  pelo  cognac,  também 
se  ergueu  com  uma  resolução  quasi  alegre : 

—  Oh  Tito,  antes  de  sahires  anda  cá  dentro  que 
quero  fallar  comtigo  a  respeito  d'um  caso! 

Agarrara  um  dos  candieiros,  penetrou  na  sala 
de  jantar  onde  errava  o  cheiro  de  magnólias  mor- 
rendo n'um  vaso.  E  ahi,  sem  preparação,  com  os  olhos 
bem  decididos,  bem  cravados  no  Tito  —  que  o  seguira 
arrastadamente,  ainda  se  espreguiçava : 

—  Oh  Tito,  ouve  lá  e  sé  franco.  Tu  ias  muito  á 
Fe/tosa...  Oue  te  parece  aquella  D.  Anna? 

Tito,  que  despertara  como  ao  rebentar  d'um 
morteiro,  considerou  Gonçalo  com  assombro : 

—  Ora  essa!  Mas  a  que  propósito?... 
Gonçalo  atalhou,  na  pressa  de  colher  rapidamente 

uma  certeza: 

—  Olha!  Eu  para  ti  não  tenho  segredos.  rs"es- 
tas  ultimas  semanas  houveram  ahi  umas  conversas, 
uns  encontros...  Emfim,  para  resumir,  se  d'aqui  a 


4('4  A   ILLUSTRE    CASA    DE   RAMIRES 


tempos  eu  pensasse  em  casar  com  a  D.  Anna,  creio 
que    ella,    por   seu   lado,    não    recusava.    Tu   ias   á 
Feitosa.  Tu  sabes...  Que  tal  rapariga  é  ella?, 
Tito  crusára  os  braços  violentamente: 

—  Pois  tu  vaes  casar  com  a  D.  Anna? 

—  Homem,  não  vou  casar.  IS'âo  sigo  esta  noite 
para  a  Egreja.  Por  ora  quero  só  informações...  E 
de  quem  as  posso  ter,  mais  trancas  e  mais  seguras, 
do  que  de  ti,  que  és  meu  amigo  e  que  a  conheces? 

Tito  nâo  descrusára  os  braços — levantando  para 
o  Fidalgo  da  Torre  a  lace  honesta  e  severa: 

—  Pois  tu  pensas  em  casar  com  a  D.  Anna,  tu, 
Gonçalo  Mendes  Ramires?... 

Gonçalo  atirou  um  gesto  de  impaciência  e  far- 
tura: 

—  Oh!  se  me  vens  com  a  fidalguia  e  com  o 
Paio  Ramires.. . 

O  Tito  quasi  berrou,  na  sua  indignação: 

—  Qual  fidalguia!  E'  que  um  homem  de  bem, 
como  tu,  nâo  pensa  em  casar  com  uma  creatura 
como  ella!...  Fidalguia?...  Sim!  Mas  fidalguia  d'al- 
ma  e  de  coração! 

Gonçalo  emmudeceu,  trespassado.  Depois,  com 
uma  serenidade  a  que  se  forçara,  argumentou,  de- 
duzio: 

—  Bem!  tu  então  sabes  outras  cousas...  Eu  por 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  405 


mim  sei  que  ella  é  bonita  e  rica:  sei  também  que  é 
séria,  por  que  nunca  sobre  ella  se  rosnou  nem  aqui 
nem  em  Lisboa :  são  qualidades  para  se  casar  com 
uma  mulher...  Tu  agora  affianças  que  se  não  pode 
casar  com  ella.  Portanto  sabes  outras  cousas...  Dize. 
Foi  então  o  Tito  que  emmudeceu,  immovel 
deante  do  Fidalgo  como  se  o  laço  d' uma  corda  o 
colhesse  e  o  travasse.  Por  fim,  soprando,  com  um 
esforço  enorme: 

—  Tu  não  me  chamaste  para  eu  depor  como 
testemunha...  Em  principio,  sem  explicações,  per- 
guntas se  podes  casar  com  essa  mulher.  E  eu,  sem 
explicações,  em  principio,  declaro  que  não...  Que 
diabo  queres  mais? 

Gonçalo  exclamou,  revoltado: 

—  Que  quero?  Pelo  amor  de  Deus,  Tito!...  Sup- 
põe  tu  que  estou  doidamente  apaixonado  pela  D.  An- 
na,  ou  que  tenho  um  interesse  immenso  em  casar 
com  ella...  Que  não  estou,  nem  tenho:  mas  suppõe! 
N'esse  caso  não  se  desvia  um  amigo  d'um  acto  em 
que  elle  está  tão  lundamente  empenhado,  sem  lhe 
apresentar  uma  razão,  uma  prova... 

Assim  apertado  Tito  baixou  a  cabeça,  que  coçou 
com  desespero.  Depois  acobardadamente,  para  esca- 
par, adiou  a  contenda: 

—  Olha,  Gonçalo,  eu  estou  muito  estafado.  Tu  não 


406  A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


vaes  a  esta  hora  para  a  Egreja:  e  ella  menos,  que 
o  outro  marido  ainda  não  arrefeceu  na  cova.  Então 
amanhã  conversamos. 

Atirou  duas  passadas  enormes,  empurrou  a  porta 
da  varanda,  berrando  pelo  Videirinha: 

—  São  que  horas,  Videira!  Toca  a  abalar,  que 
não  dormi  desde  Cidadelhe. 

Videirinha,  que  preparava  com  esmero  uni  grog 
frio,  esvasiou  atabalhoadamente  o  copo,  recolheu  o 
violão  precioso.  E  Gonçalo  não  os  deteve,  esfregando 
silenciosamente  as  mãos,  amuado  com  aquella  re- 
cusa do  Tito  tão  desamiga  e  teimosa.  Como  sombras 
atravessaram  uma  sala  onde  dormia,  esquecida  desde 
os  Ramires  do  século  xviii,  uma  espineta  de  charão. 
No  patamar  da  escada  que  conduzia  á  portinha  ver- 
de, Gonçalo,  para  os  allumiar,  erguera  um  castiçal. 
Tiíó  accendeu  um  cigarro  á  vela.  A  sua  mão  cabel- 
luda  tremia. 

—  Então,  entendido...  Appareco  amanhã,  Gonçalo. 

—  Ouando  quizeres,  Tito. 

E  no  secco  assentimento  do  Fidalgo  transpare- 
cia tanto  despeito  —  que  Tito  hesitou  nos  estreitos 
degraus  que  atulhava.   Por  fim  desceu  pesadamente. 

Videirinha,  já  na  estrada,  considerava  o  ceu,  a 
luminosa  serenidade: 

—  Que  linda  noite,  snr.  Doutor! 


A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES  407 


—  Linda,  Videirinha...  E  obrigado.  Vossè  hoje 
tocou  divinamente! 

Gonçalo  entrara  na  sala  dos  retratos,  pousara 
apenas  o  castiçal  —  quando,  por  baixo  da  varanda 
aberta,  o  vozeirão  do  Tito  retumbou: 

—  Oh  Gonçalo,  desce  cá  abaixo. 

O  Fidalgo  rolou  pelos  degraus  com  soffregui- 
dâo.  Para  além  dos  alamos,  no  luar  da  estrada,  Vi- 
deirinha afinava  o  violão.  E  apenas  a  face  do  Fi- 
dalgo surdio  na  claridade  da  porta  o  Tito,  que  es- 
perava com  o  chapéo  para  a  nuca,  desabafou: 

—  Oh  Gonçalo,  tu  ficaste  amuado...  E'  tolice! 
E  entre  nós  não  quero  sombras.  Então  lá  vael  Tu 
não  podes  casar  com  essa  mulher  por  que  ella  teve 
um  amante.  Não  sei  se  antes  ou  depois  d'esse  teve 
outro.  Não  ha  creatura  mais  manhosa,  nem  mais 
disfarçada.  Não  me  venhas  agora  com  perguntas. 
Mas  fica  certo  que  ella  teve  um  amante.  Sou  eu 
que  t'o  affirmo:  e  tu  sabes  que  eu  nunca  minto! 

Bruscamente  metteu  á  estrada,  com  os  possan- 
tes hombros  vergados.  Gonçalo  não  se  movera  de 
sobre  os  degraus  de  pedra,  deante  dos  mudos  ala- 
mos, como  elle  immoveis.  Uma  palavra  passara, 
irreparável,  no  macio  silencio  da  noite  e  da  lua 
—  e  eis  o  alto  sonho  que  elle  construirá  sobre  a 
D.  Anna  e  a  sua  belleza  e  os  seus  duzentos  contos 
despenhado  no  lodo!   Lentamente  subio,  repenetrou 


408  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


na  sala.  Por  cima  da  chamma  alta  da  vela,  n'um  pai- 
nel fusco,  uma  face  acordara,  uma  secca,  amareliada 
face,  de  altivos  bigodes  negros,  que  se  inclinava,  at- 
tenta  como  reparando.  E  longe,  Videirinha  espalhava 
pelos  campos  adormecidos  os  ingénuos  versos  cele- 
brando a  gloria  tamanha  da  Casa  illustre: 


Que  só  em  Paio  Ramires 
Põe  agora  o  mundo  esperaiK^a . . 
Que  junte  os  seus  cavalleiros 
E  que  salve  o  Rei  de  Fran<,"a ! . . , 


X 


Até  noite  alta  Gonçalo,  passeando  pelo  quarto, 
reiTioeu  a  amarga  certeza  de  que  sempre,  atravez  de 
toda  a  sua  vida  (quasi  desde  o  collegio  de  S.  Fiel!), 
não  cessara  de  padecer  humilhações.  E  todas  lhe 
resultavam  de  intentos  muito  simples,  tão  seguros 
para  qualquer  homem  como  o  vôo  para  qualquer 
ave  —  só  para  elle  constantemente  rematados  por 
dôr,  vergonha  ou  perda!  A'  entrada  da  vida  esco- 
lhe com  enthusiasmo  um  confidente,  um  irmão,  que 
traz  para  a  quieta  intimidade  da  Torre  —  e  logo  esse 
homem  se  apodera  ligeiramente  do  coração  de  Gra- 
cinha e  ultrajosamente  a  ahandona!  Depois  concebe 
o  desejo  tão  corrente  de  penetrar  na  Vida  Politica 
—  e  logo  o  Acaso  o  íórça  a  que  se  renda  e  se  aco- 
lha á  influencia  d'esse  mesmo  homem,  agora  Au- 
ctoridade  poderosa,  por  elle  durante  todos  esses  an- 
nos  de  despeito  tão  detestada  e  chasqueada!  Depois 
abre  ao  amigo,  agora  restabelecido  na  sua   convi- 


410  A   ILLLSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


vencia,  a  porta  dos  Cunhaes,  confiado  na  seriedade, 
no  rigido  orgulho  da  irraâ  —  e  logo  a  irmã  s'aban- 
dona  ao  antigo  enganador,  sem  lucta,  na  primeira 
tarde  em  que  se  encontra  com  elle  na  sombra  fa- 
vorável d'um  caramanchão!  Agora  pensa  era  casar 
com  uma  mulher  que  lhe  oíTerecia  com  uma  grande 
belleza  uma  grande  íortuna  —  e  immediatamente 
um  companheiro  de  Villa-Clara  passa  e  segreda : 
— « A  mulher  que  escolheste,  Gonçalinho,  é  uma 
maratona  cheia  d'amantes!»  De  certo  essa  mulher 
não  a  amava  com  um  amor  nobre  e  forte!  Mas  de- 
cidira accommodar  nos  íormosos  braços  d'ella,  muito 
confortavelmente,  a  sua  sorte  insegura  —  e  eis  que 
logo  desaba,  com  esmagadora  pontualidade,  a  hu- 
milhação costumada.  Realmente  o  Destino  malhava 
sobre  elle  com  rancor  desmedido! 

—  E  por  quê?  murmurava  Gonçalo,  despindo 
melancolicamente  o  casaco.  Em  vida  tão  curta,  tanta 
decepção . . .  Porquê  ?  Pobre  de  mim ! 

Cahio  no  vasto  leito  como  n'uma  sepultura  — 
enterrou  a  face  no  travesseiro  com  um  suspiro,  um 
enternecido  suspiro  de  piedade  por  aquella  sua  sorte 
tão  contrariada,  tão  sem  soccorro.  E  recordava  o 
presumpçoso  verso  do  Videirinha,  ainda  n'essa  noite 
proclamado  ao  violão: 

"Selha  casa  de  Ramires 

Honra  e  flor  de  Portugal!  • 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  411 


Como  a  flor  murchara!  Que  mesquinha  hom-a! 
E  que  contraste  o  do  derradeh'o  Gonçalo,  encolhido 
no  seu  buraco  de  Santa  Ireneia,  com  esses  grandes 
avós  Ramires  cantados  pelo  Videirinha  — todos  elles, 
se  Historia  e  Lenda  não  mentiam,  de  vidas  tão 
triumphaes  e  sonoras!  Não!  nem  sequer  d'elles  her- 
dara a  qualidade  por  todos  herdada  atravez  dos 
tempos — a  valentia  fácil.  Seu  pae  ainda  fora  o  bom 
Ramires  destemido  —  que  na  faltada  desordem  da 
romaria  da  Riosa  avançava  com  um  guardasol  con- 
tra três  clavinas  engatilhadas.  Mas  elle...  Alli,  no 
segredo  do  quarto  apagado,  bem  o  podia  livremente 
gemer  —  elle  nascera  com  a  falha,  a  falha  de  peor 
desdouro,  essa  irremediável  íraqueza  da  carne  que, 
irremediavelmente,  deante  de  um  perigo,  uma  amea- 
ça, uma  sombra,  o  forçava  a  recuar,  a  íugir...  A 
fugir  d'um  Casco.  A  fugir  d'um  malandro  de  suis- 
sas  louras  que,  n"uma  estrada  e  depois  n"uma  venda 
o  insulta  sem  motivo,  para  meramente  ostentar  pim- 
ponice  e  arreganho.  Ah  vergonhosa  carne,  tão  es- 
pantadiça ! 

E  a  Alma...  Wessa  calada  treva  do  quarto  bem 
o  podia  reconhecer  também,  gemendo.  A  mesma  íra- 
queza lhe  tolhia  a  Alma!  Era  essa  fraqueza  que  o 
abandonava  a  qualquer  influencia,  logo  por  ella  le- 
vado como  folha  secca  por  qualquer  sopro.  Por  que 
a  prima  Maria  uma  tarde  adoça  os  espertos  olhos 


412  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


e  lhe  aconselha  por  traz  do  leque  qae  se  interesse 
pela  D.  Anna  —  logo  elle,  íumegando  d'esperança, 
ergue  sobre  o  dinheh'o  e  a  belleza  de  D.  Anna  uma 
presumpçosa  torre  de  ventura  e  luxo.  E  a  Eleição? 
essa  desgraçada  Eleição?  Quem  o  empurrara  para  a 
Eleição,  e  para  a  reconciliação  indecente  com  o  Ca- 
valleiro,  e  para  os  desgostos  d'ahi  manados?  O  Gou- 
veia, só  com  leves  argucias,  murmuradas  por  cima 
do  cache-nez  desde  a  loja  do  Piamos  até  á  esquina 
do  Correio!  Mas  qu^!  mesmo  dentro  da  sua  Torre 
era  governado  pelo  Bento,  que  superiormente  lhe 
impunha  gostos,  dietas,  passeios,  e  opiniões  e  gra- 
vatas!—  Homem  de  tal  natureza,  por  mais  bem  do- 
tado na  Intelligencia,  é  massa  inerte  a  que  o  Mun- 
do constantemente  imprime  formas  varias  e  contra- 
rias. O  João  Gouveia  fizera  d'elle  um  candidato 
servil.  O  Manuel  Duarte  poderia  fazer  d'elle  um  be- 
berrão  immundo.  O  Bento  facilmente  o  levaria  a 
atar  ao  pescoço,  em  vez  d'uma  gravata  de  seda,  uma 
coUeira  de  couro!  Que  miséria!  E  todavia  o  Homem 
só  vale  pela  Vontade  —  só  no  exercício  da  Vontade 
reside  o  goso  da  Vida.  Por  que  se  a  Vontade  bem 
exercida  encontra  em  torno  submissão — então  é  a 
delicia  do  domínio  sereno :  se  encontra  em  torno  re- 
sistência —  então  é  a  delicia  maior  da  lucta  interes- 
sante. Só  não  sahe  goso  forte  e  viril  da  inércia  que 
se  deixa  arrastar  mudamente,  n'um  silencio  e  ma-    ; 


A  ILLIISTUE  CASA  DE  RAMIRES  413 


cieza  de  cera . . .  Mas  elle,  elle,  descendendo  de  tan- 
tos varões  famosos  pelo  Querer  —  não  conservaria, 
escondida  algures  no  seu  Ser,  dormente  e  quente 
como  uma  braza  sob  cinza,  uma  parcella  d'essa  ener- 
gia hereditária?...  Talvez!  nunca  porém  n'esse  peco 
€  encafuado  viver  de  Santa  Ireneia  a  fagulha  des- 
pertaria, resaltaria  em  chamma  intensa  e  útil.  Não! 
pobre  d'elle!  Mesmo  nos  movimentos  da  Alma  onde 
todo  o  homem  realisa  a  liberdade  pura  —  elle  soííre- 
ria  sempre  a  oppressão  da  Sorte  inimiga! 

Com  outro  suspiro  mais  se  enterrou,  s'escondeu 
sob  a  roupa.  Não  adormecia,  a  noite  findava — já  o 
relógio  de  charão,  no  corredor,  batera  cavamente  as 
quatro  horas.  E  então,  atravez  das  pálpebras  cerra- 
das, no  confuso  cançasso  de  tantas  tristezas  revol- 
vidas, Gonçalo  percebeu,  atravez  da  treva  do  quarto, 
destacando  pallidamente  da  treva,  faces  lentas  que 
passavam . . . 

Eram  faces  muito  antigas,  com  desusadas  barbas 
ancestraes,  com  cicatrizes  de  ferozes  ferros,  umas 
ainda  flammejando  como  no  fragor  de  uma  batalha, 
outras  sorrindo  magestosamente  como  na  pompa 
d" uma  gala  —  todas  dilatadas  pelo  uso  soberbo  do 
mandar  e  vencer.  E  Gonçalo,  espreitando  por  sobre 
a  borda  do  lençol,  reconhecia  n'essas  faces  as  verí- 
dicas feições  de  velhos  Ramires,  ou  já  assim  com- 
templadas  em  denegridos  retratos,  ou  por  elle  assim 


414  A  ILLUSTRE  CAS.V  DE  RAMIRES 


concebidas,  como  concebera  as  'de  Tructesindo,  era 
concordância  com  a  rijeza  e  explendor  dos  seus 
íeitos. 

Vagarosas,  mais  vivas,  ellas  cresciam  d'entre 
a  sombra  que  latejava  espessa  e  como  povoada.  E 
agora  os  corpos  emergiam  também,  robustissimos 
corpos  cobertos  de  saios  de  malha  ferrugenta,  aper- 
tados por  arnezes  d'aço  lampejante,  embuçados  em 
fuscos  mantos  de  revoltas  pregas,  cingidos  por  faus- 
tosos gibões  de  brocado  onde  scintillavam  as  pedra- 
rias de  coUares  e  cintos ;  —  e  armados  todos,  com  as 
armas  todas  da  Historia,  desde  e  clava  goda  de  raiz 
de  roble  errissada  de  puas,  até  ao  espadim  de  sarau 
enlaçarotado  de  seda  e  ouro. 

Sem  temor,  erguido  sobre  o  travesseiro,  Gon- 
çalo não  duvidava  da  realidade  maravilhosa!  Sim! 
eram  os  seus  avós  Ramires,  os  seus  formidáveis  avós 
históricos,  que,  das  suas  tumbas  dispersas  corriam, 
se  juntavam  na  velha  casa  de  Santa  Ireneia  nove 
vezes  secular  —  e  íormavam  em  torno  do  seu  leito, 
do  leito  em  que  elle  nascera,  como  a  Assembleia  ma- 
gestosa  da  sua  raça  resurgida.  E  até  mesmo  reconhe- 
cia alguns  dos  mais  esforçados,  que  agora,  com  o 
repassar  constante  do  Poemeto  do  tio  Duarte  e  o 
Videirinha  gemendo  fielmente  o  seu  «fado»,  lhe  an- 
davam sempre  na  imaginação... 

Aquelle  além,  com  o  brial  branco  a  que  a  cruz 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  41Õ 


vermelha  enchia  o  peitoral,  era  certamente  Gutierres 
ílamires  o  d' Ultramar,  como  quando  corria  da  sua 
tenda  para  a  escalada  de  Jerusalém.  No  outro,  tão 
velho  e  formoso,  que  estendia  o  braço,  elle  adivi- 
nhava Egas  Ramires,  negando  acolhida  no  seu  puro 
solar  a  El-Rei  D.  Fernando  e  á  adultera  Leonor! 
Esse,  de  crespa  barba  ruiva,  que  cantava  sacudindo 
o  pendão  real  de  Castella,  quem,  senão  Diogo  Rami- 
res, o  Trovador,  ainda  na  alegria  da  radiosa  manhã 
d' Aljubarrota?  Deante  da  incerta  claridade  do  espe- 
Uio  tremiam  as  íôías  plumas  escarlates  do  morriâo 
de  Paio  Ramires,  que  s'armava  para  salvar  S.  Luiz 
Rei  de  França.  Levemente  balançado,  como  pelas  on- 
das humildes  d* um  mar  vencido,  Ruy  Ramires  sorria 
ás  naus  inglezas  que  ante  a  proa  da  sua  Capitanea 
submissamente  amainavam  por  Portugal.  E,  encos- 
tado ao  poste  do  leito,  Paulo  Ramires,  pagem  do  Guião 
d*El-Rey  nos  campos  íataes  de  Alcácer,  sem  elmo, 
rota  a  couraça,  inclinava  para  elle  a  sua  face  de  don- 
zel,  com  a  doçura  grave  d" um  avó  enternecido... 

Então,  por  aquella  ternura  attenta  do  mais  poé- 
tico dos  Ramires,  Gonçalo  sentio  que  a  sua  Ascen- 
dência toda  o  amava  —  e  da  escuridão  das  tumbas 
dispersas  accudira  para  o  velar  e  soccorrer  na  sua 
fraqueza.  Com  um.  longo  gemido,  arrojando  a  roupa, 
desafogou,  dolorosamente  contou  aos  seus  avós  re- 
surgidos  a  arrenegada  Sorte  que  o  combatia  e  que 


41fi  A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES 


sobre  a  sua  vida,  sem  descanço,  amontoava  tristeza, 
vergonha  e  perda!  E  eis  que  subitamente  um  ferro 
faiscou  na  treva,  com  um  abafado  brado:  —  «Neto, 
doce  neto,  toma  a  minha  lança  nunca  partida!...» 
E  logo  o  punho  d'uma  clara  espada  lhe  roçou  o  peito, 
com  outra  grave  voz  que  o  animava: —«Neto,  doce 
neto,  toma  espada  pura  que  lidou  em  Ourique  !... »  E 
depois  uma  acha  de  coriscante  gume  bateu  no  traves- 
seiro, oftertada  com  altiva  certeza: —  «Que  não  der- 
ribará essa  acha,  que  derribou  as  portas  d'Arzilla?...» 

Como  sombras  levadas  n'um  vento  transcendente 
todos  os  avós  formidáveis  perpassavam — e  arreba- 
tadamente lhe  estendiam  as  suas  armas,  rijas  e  pro- 
vadas armas,  todas,  atravez  de  toda  a  Historia,  enno- 
brecidas  nas  arrancadas  contra  a  Moirama,  nos  tra- 
balhados cercos  de  Castellos  e  Villas,  nas  batalhas 
formosas  com  o  Castelhano  soberbo . . .  Era,  em  torno 
do  leito,  um  heróico  reluzir  e  retinir  do  ferros.  E  to- 
dos soberbamente  gritavam  :  —  «  Oh  neto,  toma  as 
nossas  armas  e  vence  a  Sorte  inimiga!..  .y>  Mas  Gon- 
çalo, espalhando  os  olhos  tristes  pelas  sombras  on- 
deantes, volveu:  —  «Oh  Avós,  de  que  me  servem  as 
vossas  armas  —  se  me  falta  a  vossa  alma?...» 

Acordou,  muito  cedo,  com  a  enredada  lembrança 
d'um  pesadello  em  que  fallára  a  mortos:  —  e,  sem  a  t 
preguiça,  que  sempre  o  amollecia  nos  colchões,  en- 
fiou um  roupão,  escancarou  as  vidraças.  Oue  for- 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  417 


raosa  manhã!  uma  manhã  dos  fins  de  Septembro, 
macia,  lustrosa  e  fina;  nem  uma  nuvem  lhe  des- 
manchava o  vasto,  o  immaculado  azul ;  e  o  sol  já 
pousava  nos  arvoredos,  nos  outeiros  distantes,  com 
uma  doçura  outomnal.  Alas,  apesar  de  lhe  respirar 
allentamente  o  brilho  e  a  pureza,  Gonçalo  permane- 
ceu toldado  de  sombras,  das  sombras  da  véspera, 
retardadas  no  seu  espirito  opprimido,  como  névoas 
em  valle  muito  fundo.  E  foi  ainda  com  um  suspiro, 
arrastanílo  tristonhamente  as  chinellas,  que  puxou 
o  cordão  da  campainha.  O  Bento  não  tardou  com 
a  infusa  da  agoa  quente  para  a  barba.  E  acostumado 
ao  alegre  acordar  do  Fidalgo  tanto  estranhou  aquelle 
silencioso  e  enrugado  mover  pelo  quarto,  que  dese- 
jou saber  se  o  Snr.  Doutor  passara  mal  a  noite... 

—  Pessimamente ! 

Bento  declarou  logo,  com  vivacidade  e  reprova- 
ção—  que  certamente  fizera  mal  ao  Snr.  Doutor  tanto 
cognac  de  moscatel.  Cognac  muito  adocicado,  muito 
excitante...  Bom  para  o  Snr.  D.  António,  homemzar- 
rão  pesado.  Mas  o  Snr.  Doutor,  assim  nervoso,  nunca 
devia  tocar  n'aquelle  cognac.  Ou  então,  meio  cálice 
escasso. 

Gonçalo  ergueu  a  cabeça,  na  surpreza  de  encon- 
trar logo  ao  começo  do  seu  dia  e  tão  flagrante,  aquelle 
dominio  que  todos  sobre  elle  se  arrogavam  —  e  de 
que  tanto  se  lastimava,  atravez  de  toda  a  amarga  noitei 

27 


418  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Eis  ahi  o  Bento  mandando —marcando  a  sua  ração 
de  cognac!  E  justamente  o  Bento  insistia: 

—  O  Snr.  Doutor  bebeu  mais  de  três  cálices. 
Assim  não  convém ...  Eu  também  tive  culpa  em 
não  tirar  a  garra  ia . . . 

Então,  perante  despotismo  tão  declarado,  o  Fi- 
dalgo da  Torro  teve  uma  brusca  revolta: 

—  Homem,  não  dês  tantas  leis.  Bebo  o  cognac 
que  preciso  e  que  quero! 

Ao  mesmo  tempo,  com  a  ponta  dos  dedos,  expe- 
rimentava a  agua  na  iníusa: 

—  Esta  agua  está  morna!  exclamou  logo.  Já  me 
tenho  fartado  de  dizer !  Para  a  barba,  preciso  sempre 
agua  a  íerver. 

O  Bento,  gravemente,  mergulhou  também  o  deda 
na  agua: 

—  Pois  esta  agua  está  quasi  a  ferver...  Nem 
para  a  barba  se  necessita  agua  mais  quente. 

Gonçalo  encarou  o  Bento  com  furor.  O  quel 
mais  objecções,  mais  leis! 

—  Pois  vá  immediatamente  buscar  outra  agua  1 
Quando  eu  peço  agua  quentCj  pretendo  que  venha 
em  cachão.  Irra !  tanta  sentença ! . . .  Eu  não  quero 
moral,  quero  obediência! 

O  Bento  considerou  Gonçalo  atravez  d" um  es- 
panto que  lhe  inchara  a  tace.  Depois;  lentamente, 
com  magoada  dignidade,  empurrou  a  porta,  levando 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  419 


a  infusa.  E  já  Gonçalo  se  arrependia  da  sua  violên- 
cia. Coitado,  não  era  culpa  do  Bento  se  a  vida  lhe 
andava  a  elle  tâo  estragada  e  sacudida!  Depois,  em 
casa  tâo  antiga,  não  destoava  a  tradição  dos  antigos 
aios.  E  o  Bento  com  perfeito  rigor  lhes  reproduzia  a 
rabugice  e  a  lealdade !  Mas  ascendência,  e  livre  fal- 
lar  bem  lhe  cabiam — bem  os  merecia  por  tão  lon- 
ga, tâo  provada  dedicação  . . . 

O  Bento,  ainda  vermelho  e  inchado,  voltava  com 
a  infusa  fumegante.  E  Gonçalo  logo  docemente,  para 
o  adoçar: 

—  Dia  muito  bonito,  hein.  Bento? 
O  velho  rosnou,  ainda  amuado: 

—  Muito  bonito. 

Gonçalo  ensaboava  a  face,  rapidamente,  na  im- 
paciência de  reatar  com  o  Bento,  de  lhe  restabelecer 
a  supremacia  amoravel.  E  por  fim  mais  doce,  quasi 
humilde: 

—  Pois  se  achas  o  dia  assim  bonito,  dou  um 
passeio  a  cavallo  antes  d'almoço.  <Jue  te  parece? 
Talvez  me  laça  bem  aos  nervos . . .  Com  eífeito, 
aquelle  cognac  não  me  convém . . .  Então,  Bento,  fa- 
ze  o  favor,  grita  ahi  ao  Joaquim  que  me  tenha  a  egoa 
prompta  immediatamente.  Com  certeza  me  acalma, 
ama  galopada...  E  no  banho  agora  a  agua  bem  es- 
perta, bem  quente.  Também  me  acalma  a  agua  quen- 
te. Por  isso  necessito  sempre  agua  bem  quente,  a  íer- 


l20  A  ILUJSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


ver.  Mas  tu,  com  essas  tuas  velhas  idéas...  Pois  to- 
dos os  médicos  o  declaram.  Para  a  saúde  agua  quen- 
te, bem  quente,  a  sessenta  graus! 

E  depois  do  rápido  banho,  em  quanto  se  vestia. 
al)riu  mais  familiarmente  ao  velho  aio  a  intimidade 
das  suas  tristezas: 

—  Ah!  Bento,  Bento,  o  que  eu  verdadeiramente 
precisava  para  me  calmar,  nâo  era  um  passeio,  era 
uma  jornada...  Trago  a  alma  muito  carregada,  ho- 
mem !  Depois  estou  farto  d'esta  eterna  Villa-Clara,  da 
eterna  Oliveira.  Muito  mexerico,  muita  deslealdade. 
Precisava  terra  grande,  distracção  grande. 

O  Bento,  já  reconciliado,  enternecido,  lembrou 
que  o  Snr.  Doutor  brevemente,  em  Lisboa,  encon- 
traria uma  linda  distracção,  nas  Cortes. 

—  Eu  sei  hl  se  vou  ás  Cortes,  homem!  Nâo  sei 
nada,  tudo  falha...  Qual  Lisboa!...  O  que  eu  neces- 
sito é  uma  viagem  immensa,  á  Hungria,  á  Rússia,  a 
terras  onde  haja  aventuras. 

O  Bento  sorriu  superiormente  d'aquella  imagi- 
nação. E  apresentando  ao  Fidalgo  o  jaquetão  de  vel- 
vetina  cinzenta: 

—  Com  efTeito,  na  Rússia  parece  que  não  faltam 
aventuras.  Anda  tudo  a  chicote,  diz  o  Século .  .  . 
Mas  aventuras,  Snr.  Doutor,  até  a  gente  as  encon- 
tra na  estrada...  Olho!  o  paesinho  de  V.  Ex.",  que 
Deus  haja,   foi  lá  em  baixo   doante   do    portão   que 


A  n.LUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  421 


teve  a  bulha  com  o  Dr.  Avelino  da  Riosa,  e  que  lhe 
atirou  a  chicotada,  e  que  levou  com  o  punhal  no 
braço... 

Gonçalo  calçava  as  luvas  d'anta,  mirando  o  es- 
pelho : 

— Pobre  papá,  coitado,  também  teve  pouca  sor- 
te.. .  E  por  chicote,  ó  Bento,  dá  cá  aquelle  chicote 
de  cavallo  marinho  que  tu  hontem  areaste.  Parece 
que  é  uma  boa  arma. 


Ao  sahir  o  portão,  o  Fidalgo  da  Torre  metteu  a 
egoa,  sem  destino,  n'um  passo  indolente,  pela  estra- 
da costumada  dos  Bravaes.  Mas  no  Casal  Novo,  onde 
dous  pequenos  jogavam  á  bola  debaixo  das  carva- 
lheiras, pensou  em  visitar  o  Visconde  de  Rio-INIanso. 
Certamente  lhe  concertaria  os  nervos  a  companhia 
de  tão  sereno  e  generoso  velho.  E,  se  ellc  o  convi- 
dasse a  almoçar,  gastaria  os  seus  cuidados  visitando 
essa  fallada  quinta  da  Varaudinha  e  cortejando  «o 
botão  de  Piosa». 

Gonçalo  recordava  apenas  confusamente  que  o 
terraço  da  Varandhiha  dominava  uma  estrada  plan- 
tada de  choupos,  algures,  entre  o  logar  da  Cerda  e 
a  espalhada  aldèa  de  Canta-Pedra.  E  tomou  o  cami- 
nho velho  que  desce  das  carvalheiras  do  Casal  No- 


422  A    ILLISTRE   CASA   DE   RAMIRES 


vo,  e  penetra  no  valle,  entre  o  cabeço  d'Avellan  e 
as  ruínas  do  Mosteiro  de  Ribadaes,  no  solo  histórico 
onde  Lopo  de  Bayão  derrotara  a  mesnada  de  Lou- 
renço Ramires . . .  Ora  enterrada  entre  vallados,  ora 
entre  toscos  muros  de  pedra  solta,  a  vereda  seguia 
sem  belleza,  e  cansativa :  mas  as  madresilvas  nas  se- 
bes, por  entre  as  amoras  maduras,  rescendiam :  o 
fresco  silencio  recebia  mais  frescura  e  graça  dos 
frémitos  d"aza  que  o  roçavam;  e  tanto  era  o  radiante 
azul  nos  céus  serenos  que  um  pouco  do  seu  rebrilho 
e  serenidade  sMnstillava  n'alma.  Gonçalo,  mais  des- 
annuviado,  não  se  apressava :  na  Egreja  dos  Bra- 
vaes,  quando  elle  passara  ao  Casal  Novo,  batiam 
apenas  as  nove  horas:  e  depois  de  costear  um  la- 
meiro d'herva  magra  parou  a  accender  pachorrenta- 
mente um  charuto,  rente  da  velha  ponte  de  pedra 
que  galga  o  riacho  das  Donas,  Quasi  secca  pela  es- 
tiagem, a  agoa  escura  mal  corria,  sob  as  folhas  lar- 
gas dos  nenúfares,  por  entre  os  juncaes  que  a  atu- 
lhavam. Adiante,  á  orla  d'um  hervaçal,  no  abrigo 
d'uma  moita  d'alamos,  relusiam  as  pedras  d'um  la- 
vadouro. Na  outra  margem,  dentro  d'um  velho  bote 
encalhado,  um  rapazito,  uma  rapariguinha  conversa- 
vam profundamente,  com  dous  molhos  d'alfazema 
esquecidos  nos  regaços.  Gonçalo  sorriu  do  idyllio  — 
depois  teve  uma  surpreza  descobrindo,  no  cunhal  da 
ponte,  rudemente  entalhado,  o  seu  Brazâõ-d*Armas, 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  423 


um  Açor  enorme,  que  alargava  as  garras  ferozes. 
Talvez  aquellas  terras  outr'ora  pertencessem  á  Casa: 
—  ou  algum  dos  seus  avós  benéficos  construirá  a 
ponte,  sobre  torrente  então  mais  funda,  para  segu- 
rança dos  homens  e  dos  gados.  Quem  sabe  se  o  avô 
Tructesindo,  em  memoria  piedosa  de  Lourenço  Ra- 
mires, vencido  e  captivo  nas  margens  d'aquella  Ri- 
beira ! 

O  caminho,  para  além  da  ponte,  alteava  entre 
campos  ceifados.  As  medas  lourejavam,  pesadas  e 
cheias,  por  aquelle  anno  de  fartura.  Ao  longe,  dos  te- 
lhados baixos  d"um  logarejo,  vagarosos  fumos  su- 
biam, logo  desfeitos  no  radiante  ceu.  E  lentamente, 
como  aquelles  fumos  distantes,  Gonçalo  sentia  que 
todas  as  suas  melancolias  lhe  escapavam  da  alma, 
se  perdiam  também  no  azul  lustroso...  Uma  revoa- 
da de  perdizes  ergueu  o  vôo  d'entre  o  restolho.  Gon- 
çalo galopou  sobre  ellas,  gritando,  sacudindo  o  seu 
forte  chicote  de  cavallo-marinho,  que  zenia  como 
uma  fina  lamina. 

Em  breve  o  caminho  torceu,  costeando  um  souto 
de  sobreiros,  depois  cavado  entre  silvados  com  largos 
pedregulhos  aflorando  na  poeira;  — e  ao  fundo  o  sol 
faiscava  sobre  a  cal  fresca  d' uma  parede.  Era  uma 
casa  térrea,  com  porta  baixa  entre  duas  janellas  en- 
vidraçadas, remendos  novos  no  telhado  e  um  quin- 
teiro que  uma  escura  e  immensa  figueira  assojnbrea- 


424  A  ILLLSTHE  CASA  DE  RAMIRES 


va.  N'uraa  esquina  pegava  um  muro  baixo  de  pedra 
solta,  continuado  por  uma  sebe,  onde  adiante  uma 
velha  canceila  abria  para  a  sombra  d'uma  ramada. 
Defronte,  no  vasto  terreiro  que  se  alargava,  jaziam 
cantarias,  uma  pilha  de  traves:  passava  uma  estra- 
da, lisa  e  cuidada,  que  pareceu  a  Gonçalo  a  de  Ra- 
milde.  Para  além,  até  a  um  distante  pinheiral,  des- 
ciam chãs  e  lameiros. 

Sentado  n'um  banco,  junto  da  porta,  com  uma 
espingarda  encostada  ao  muro,  um  rapaz  grosso,  de 
barrete  de  lâ  verde,  acariciava  pensativamente  o  fo- 
cinho d'um  perdigueiro.  Gonçalo  parou: 

—  Tem  a  bondade...  Sabe  por  acaso  qual  é  o 
bom  caminho  para  a  quinta  do  Snr.  Visconde  de 
Rio-Manso,  a  Varandinha? 

O  rapasote  ergueu  a  face  morena,  de  buço  leve, 
remechendo  vagamente  no  carapuço. 

—  Para  a  quinta  do  Rio-Manso...  Siga  pela  es- 
trada até  á  pedreira,  depois  á  esquerda  a  seguir,  sem- 
pre rente  da  várzea . . . 

Mas  n'esse  instante  assomava  ú  porta  um  latagâo 
de  suissas  louras  em  mangas  de  camisa,  a  cinta  en- 
faixada em  seda.  E  Gonçalo,  com  um  sobresalto, 
reconheceu  logo  o  caçador  que  o  injuriara  na  es- 
trada de  Nacejas,  o  assobiara  na  venda  do  Pintainho. 
O  homem  relanceou  superiormente  o  Fidalgo.  Depois, 


A    ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES 


com  a  mão  encostada  á  humbreira,  chasqueou  o  ra- 
p  aso  te: 

—  Oh  Manoel,  que  estás  tu  ahi  a  ensinar  o  ca- 
minho, homem!  Este  caminho  por  aqui  não  é  para 
asnos! 

Gonçalo  sentiu  a  pallitlez  que  o  cobriu  —  e  todo 
o  sangue  no  coração,  n"um  tumulto  confuso,  que  era 
de  medo  e  de  raiva.  Um  novo  ultrage,  do  mesmo  ho- 
mem, sem  provocação!  Apertou  os  joelhos  no  sellim 
para  galopar.  E  a  tremer,  n"um  esforço  que  o  engas- 
gava: 

— Vossê  é  muito  atrevido!  É  já  pela  terceira  vez! 
Eu  não  sou  homem  para  levantar  desordens  n'uma 
estrada  . . .  Mas  fique  certo  que  o  conheço,  e  que  não 
escapa  sem  lição. 

Immediatamente,  o  outro  agarrou  a  um  cajado 
curto  e  saltou  á  estrada,  aíírontando  a  egoa,  com  as 
suissas  erguidas,  um  riso  de  immenso  desafio: 

—  Então  cá  estou!  Venha  agora  a  lição...  E 
para  diante  é  que  Vossè  já  não  passa,  seu  Ramires 
de  merd  . . . 

Uma  névoa  turvou  os  olhos  esgaseados  do  Fi- 
dalgo. E  de  repente,  n'um  inconsciente  arranque, 
como  levado  por  uma  furiosa  rajada  de  orgulho  e 
força,  que  se  desencadeava  do  fundo  do  seu  ser,  gri- 
tou, atirou  a  fina  egoa  n'um  galão  terrivel!  E  nem 
comprehendeu !  O  cajado  sarilhara!  A  egoa  empina- 


426  A   ILLUSTRE   CASA   DE    RAMIRES 


va,  n'uma  cabeçada  furiosa!  E  Gonçalo  entreviu  a 
mâo  do  homem,  escura,  immensa,  que  empolgava  a 
camba  do  freio. 

Então,  erguido  nos  estribos,  por  sobre  a  immensa 
mão,  despediu  uma  vergastada  do  chicote  silvante  de 
cavallo-marinho,  colhendo  o  latagâo  na  face,  de  lado. 
n'um  golpe  tão  vivo  da  aresta  aguda  que  a  orelha 
pendeu,  despegada,  n'um  borbutar  de  sangue.  Com 
um  berro  o  homem  recuou,  cambaleando.  Gonçalo 
galgou  sobre  elle,  n'outro  arremesso,  com  outra  ful- 
gurante chicotada,  que  o  apanhou  pela  boca,  lhe  ras- 
gou a  boca,  decerto  lhe  espedaçou  dentes,  o  atirou, 
urrando,  para  o  chão.  As  patas  da  egoa  machucavam 
as  grossas  coxas  estendidas,  —  e,  debruçado,  Gon- 
çalo ainda  vergastou,  cortou  desesperadamente  face. 
pescoço,  até  que  o  corpo  jazeu  molle  e  como  morto, 
com  jorros  de  sangue  escuro  ensopando  a  camisa. 

Um  tiro  atroou  o  terreiro!  E  Gonçalo,  com  um 
salto  no  selim,  avistou  o  rapasote  moreno  ainda  com 
a  espingarda  erguida,  a  fumegar,  mas  já  hesitando 
aterrado. 

—  Ah,  cão ! 

Lançou  a  egoa,  com  o  chicote  alto:  —  o  rapaz, 
espavorido,  corria  lentamente  através  do  terreiro, 
para  saltar  o  vallado,  escapar  para  as  várzeas  cei- 
fadas ! 

—  Ah  cão,  ah  cão!  berrava  Gonçalo.   Estontea- 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  425 


do,  O  rapaz  tropeçara  n'uma  viga  solta.  Mas  já  se 
endireitava,  largava,  quando  o  Fidalgo  o  alcançou 
com  uma  cutilada  do  chicote  no  pescoço,  logo  alaga- 
do de  sangue.  Estendendo  as  mãos  incertas,  ainda 
cambaleou,  abateu,  estalou  contra  a  aresta  d'um  pi- 
lar, a  cabeça  mais  sangue  jorrou.  Então  Gonçalo,  a 
arquejar,  deteve  a  egoa.  Ambos  os  homens  jaziam 
immoveis!  Santo  Deus!  Mortos?  D'ambos  corria  o 
sangue  sobre  a  terra  secca.  O  Fidalgo  da  Torre  sen- 
tia uma  alegria  brutal.  Mas  um  grito  espantado  soou 
do  lado  do  quinteiro. 

—  Ai  que  mataram  o  meu  rapaz! 

Era  um  velho  que  corria  da  cancella,  n'uma 
carreira  agachada,  rente  com  a  sebe,  para  a  porta 
da  casa.  Tão  certeiramente  o  Fidalgo  arremessou  a 
egoa,  para  o  deter  —  que  o  velho  esbarrou  contra  o 
peitoril  que  arfava  coberto  de  suor  e  d'espuraa.  E 
ante  o  inquieto  animal  escarvando,  e  Gonçalo  alçado 
nos  estribos,  com  a  face  chammejante,  o  chicote  a 
descer  —  o  velho,  n'um  terror,  desabou  sobre  os  joe- 
lhos, gritou  anciadamente : 

—  Ai,  não  me  faça  mal,  meu  Fidalgo,  por  alma 
de  seu  pae  Ramires. 

Gonçalo  ainda  o  manteve  assim  um  momento, 
supplicante,  a  tremer,  sob  o  justiceiro  íaiscar  dos 
seus  olhos:  —  e  gosava  soberbamente  aquellas  cal- 
losas  mãos  que  se  erguiam  para  a  sua  misericórdia, 


428  A    ILLISTRE    CASA   DE  RAMIRES 


invocavam  o  nome  de  Ramires,  de  novo  temido,  re- 
possuido  do  seu  prestigio  heróico.  Depois,  recuando 
a  egoa : 

—  Esse  malandro  do  rapazola  desfechou  a  caça- 
deira ! . . .  Vossé  também  não  tem  boa  cara !  Que  ia 
vosso  correndo  para  casa?  Buscar  outra  espingarda? 

O  velho  alargou  desesperadamente  os  braços, 
offerecia  o  peito,   em  testemunho  da   sua  verdade: 

—  Oh  meu  Fidalgo,  não  tenho  em  casa  nem  um 
cajado!  . . .  Assim  Deus  me  ajude  e  me  salve  o  ra- 
paz! 

Mas  Gonçalo  desconfiava,  (juando  descesse  agora 
pela  estrada  de  Ramilde,  bem  poderia  o  velho  cor- 
rer ao  casebre,  agarrar  outra  caçadeira,  desfechar 
traiçoeiramente.  E  então  com  a  presteza  d'espirito 
que  a  lucta  afiara  concebeu  contra  qualquer  embos- 
cada, um  ardil  seguro.  E  até  n'um  relance  sorrio 
recordando  «traças  do  guerra»,  de  D.  Garcia  Vie- 
gas, o  Sabedor. 

—  Marche  lá  deante  de  mim,  sempre  a  direito, 
pela  estrada! 

O  velho  tardou,  sem  se  erguer,  aterrado.  E  ba- 
tia com  as  grossas  mãos  nas  coxas,  n"uma  anciã  que 
o  engasgava: 

—  Oh  meu  Fidalgo,  oh  meu  fidalgo!  mas  deixar 
assim  o  rapaz  sem  acordo  ?  . . . 


A  ILl.USTKE  CASA  DE  RAMIRES  429 


— O  rapaz  está  só  atordoado,  já  se  mecheu. . .  E 
o  outro  malandro  também..  .Marche  vossè! 

E  ao  irresistível  mando  de  Gonçalo,  o  velho, 
depois  de  sacudir  demoradamente  as  joelheiras,  co- 
meçou a  avançar  pela  estrada,  vergado  deante  da 
egoa,  como  um  captivo,  com  os  longos  braços  a  bam- 
bolear, rosnando,  n'um  rouco  assombro:  — Ai  como 
ellas  se  armam !  Ai  Santo  nome  de  Deus,  que  des- 
graça! A  espaços  estacava,  esgaseando  para  Gonçalo 
um  olhar  torvo  onde  negrejava  medo  e  ódio  , . .  Mas 
logo  o  commando  forte  o  empurrava:  «Marche!  . . .» 
E  marchava.  Adiante,  onde  se  erguia  um  cruseiro 
em  memoria  do  Abbade  Paguim,  assassinado,  Gon- 
çalo reconheceu  um  largo  atalho  para  a  estrada  dos 
Bravaes  que  chamavam  o  Caminho  da  Moleira.  E 
para  ahi  enfiou  o  velho,  que  no  pavor  d'aquella  asi- 
nhaga  solitária,  pensando  que  Gonçalo  o  afastava 
de  caminhos  trilhados  para  o  matar  commodamente, 
rompeu  a  gemer.  «Ai  que  isto  é  o  fim  da  minha  vi- 
da! Ai  Nossa  Senhora,  que  é  o  fim  da  minha  vida!» 
E  não  cessou  de  gemer,  emmaranhando  os  passos  trô- 
pegos, até  que  desembocaram  na  estrada  alta  entre 
taludes  escarpados,  revestidos  de  giesta  brava.  Então 
de  repente,  com  outro  terror,  o  homem  bruscamen- 
te revirou,  atirando  as  mãos  ao  barrete: 

—  Oh  meu  senhor,  o  Fidalgo  não  me  leva  pre- 
so ?.. . 


430  A  ILLUSTlíE  CASA  DE  RAMIUES 


—  Marche!  Corra!  Que  agora  a  egoa  trota! 

A  egoa  trotou  —  o  velho  correu,  desengonçado, 
arquejando  como  um  folie  de  forja.  Uma  milha  gal- 
gada, Gonçalo  parou,  farto  do  captivo,  da  lenta  mar- 
cha. De  resto  antes  que  o  homem  agora  corresse  a 
casa,  e  agarrasse  uma  arma,  e  virasse  para  o  alcan- 
çar, se  desforrar  —  entraria  elle,  n'um  galope  soito, 
o  portão  da  Torre !  Então  bradou,  com  o  sobr'olho 
duro : 

— Alto !  Agora  pode  voltar  para  traz  . . .  Mas, 
antes:  Como  se  chama  aquelle  seu  logar? 

—  A  Grainha,  meu  fidalgo. 

—  E  vossè  como  se  chama,  e  o  rapaz? 

O  velho  com  a  boca  aberta,  esperou,  hesitou: 

—  Eu  sou  João,  o  meu  rapaz  Manoel . . .  Manoel 
Domingues,  meu  Fidalgo. 

—  Vossè  naturalmente  mente.  E  e  outro  malan- 
dro, de  suissas  louras? 

D'um  fôlego,  o  velho  gritou: 

—  Esse  é  o  Ernesto  de  Nacejas,  o  valentão  de 
Nacejas,  que  chamam  o  Caç.a-abraços,  e  que  tanto 
me  desencaminhou  o  rapaz... 

—  Bem!  Pois  diga  lá  a  esses  dous  marotos  que 
me  atacaram  a  pau  e  a  tiro,  que  não  ficam  quites 
somente  com  a  sova,  e  que  agora  têm  de  se  enten- 
der com  a  Justiça . . .  EUa  lá  irá !  Largue  ! 

Do  meio  da  estrada,  Gonçalo  ainda  vigiou  o  ve- 


A  ILLrSTRE  CASA  DE  P.AMillES  431 


lho  que  abalara,  forçando  as  passadas  derreadas,  lim- 
pando o  suor  que  lhe  pingava.  Depois,  pela  conhe- 
cida estrada,  galopou  para  a  Torre. 

E  ia  levado,  galopando  n'uma  alegria  tão  fume- 
gante, que  o  lançava  em  sonho  e  devaneio.  Era  co- 
mo a  sensação  sublime  de  galopar  pelas  alturas, 
n'um  corcel  de  lenda,  crescido  magnificamente,  ro- 
çando as  nuvens  lustrosas  . . .  E  por  baixo,  nas  ci- 
dades, os  homens  reconheciam  n'elle  um  verdadeiro 
Ramires,  dos  antigos  na  Historia,  dos  que  derruba- 
vam torres,  dos  que  mudavam  a  configuração  dos 
Reinos,  —  e  erguiam  esse  maravilhado  murmúrio 
que  é  o  sulco  dos  fortes  passando!  Com  razão!  com 
razão!  Que  ainda  de  manhã,  ao  sahir  da  Torre,  não 
ousaria  marchar  para  um  rapazola  decidido  que 
brandisse  um  varapau  . . .  E  depois,  de  repente,  na 
solidão  d'aquella  casa  térrea,  quando  o  bruto  das 
suissas  louras  lhe  atira  a  suja  injuria  —  eis  um  não 
sei  qa('  que  se  desprende  dentro  do  seu  ser,  e  trans- 
borda, e  lhe  enche  cada  veia  de  sangue  ardido  e  lhe 
enrija  cada  nervo  de  força  destra,  e  lhe  espalha  na 
pelle  o  desprezo  e  a  dór,  e  lhe  repassa  fundamente 
a  alma  de  fortaleza  indomável . . .  E  agora  alli  volta- 
va, como  um  varão  novo,  soberbamente  virilisado, 
liberto  emfim  da  sombra  que  tão  dolorosamente  as- 
sombreára  a  sua  vida,  a  sombra  molle  e  torpe  do 
seu  medo!  Por  que  sentia  ((ue,   agora  se  todos  os 


W2  A  ILLLSTHE  CASA  DE  RAMIRES 


valentões  de  Nacejas  o  affrontassem  n'ani  rijo  erguer 
de  cajados  —  esse  não  sei  quê,  lá  dentro,  no  seu  ser, 
de  novo  se  soltaria,  e  o  arremessaria,  cora  cada  veia 
inchada,  cada  nervo  retesado,  para  o  delicioso  fra- 
gor da  briga!  Emflm  era  mn  homem!  (Juando  em 
Villa  Clara  o  Manuel  Duarte,  o  Tito  com  o  peito  al- 
to, contassem  façanhas,  já  elle  não  enrolaria  enco- 
Ihidamente  o  cigarro  —  encolhido,  mudo  não  so- 
mente pela  ausência  desconsoladora  das  valentias, 
mas  sobretudo  pela  liumilhante  recordação  das  íra- 
quezas.  E  galopava,  galopava  apertando  furiosamente 
o  cabo  do  chicote,  como  para  investidas  mais  bellas. 
Para  além  dos  Bravaes,  mais  galopou,  ao  avistar  a 
Torre.  E  singularmente  lhe  pareceu,  de  repente,  que  a 
sua  Torre,  agora  mais  sua,  e  que  uma  affmidade  no- 
va fundada  em  gloria  e  força,  o  tornava  mais  senhor 
da  sua  Torre! 


Como  para  acolher  Gonçalo  mais  dignamente,  o 
portão  grande,  ssmpre  cerrado,  oíTerecia  uma  entra- 
da triumphal  com  os  dons  pesados  batentes  escan- 
carados. Elle  atirou  a  cgoa  para  o  meio  do  pateo, 
bradando: 

—  Oh  Joaquim!  Oh  !\Ianoel!  Eh  lá!  um  de  vossès! 

O  Joaquim  surdiu  da  cavallariça,  de  mangas  ar- 
regaçadas, com  uma  esponja  na  mão. 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  433 


—  Oh  Joaquim,  depressa!  Apparelha  o  Rocilho, 
corre  a  um  sitio  na  estrada  de  líamilde,  a  que  cha- 
mam a  Grainha. ..  Tive  agora  lá  uma  grande  desor- 
dem! Creio  que  dei  cabo  de  dous  homens...  Fica- 
ram n'uma  poça  de  sangue!  Não  digas  que  vaes  da 
Torre,  que  te  podem  atacar!  Mas  sabe  o  que  suc- 
cedeu,  se  estão  mortos...  Depressa,  depressa! 

O  Joaquim,  estonteado,  remergulhou  na  cavai - 
larica  escura.  E  de  cima  d'uma  das  varandas  do  cor- 
redor, partiram  exclamações  assombradas : 

—  Oh  Gonçalo,  o  que  toi?!  santo  Deus!  o  que  foi?! 
Era  o  Barrôlo.    Sem  desmontar,   sem  surpresa 

ante  a  appariçâo  do  Barrôlo,  Gonçalo  atirou  logo 
para  a  varanda  a  historia  da  bulha,  tumultuosa- 
mente. Um  malandro  que  o  insultara...  Depois  ou- 
tro, que  desfechou  a  caçadeira...  E  ambos  derriba- 
dos sob  as  patas  da  egoa,  n'uma  poça  de  sangue... 
O  Barrôlo  despegou  da  varanda  —  e  n'outro  re- 
lance, investia  pelo  pateo,  com  os  curtos  braços  a 
boiar,  enfiado.  Mas  então?  mas  então?...  E  Gonçalo, 
desmontando,  tremulo  agora  do  cançasso  e  da  emo- 
ção, esmiuçou  mais  lances...  Na  estrada  de  Piamilde! 
Um  valentão  que  o  injuriou!  A  esse  rasgara  aboca, 
decepara  a  orelha...  Depois  o  outro,  um  rapasola, 
desfecha  uma  carabina. . .  Elle  corre,  tão  vivamente 
o  colhe  com  uma  cutilada  que  o  estira,  para  cima 
d'uma  pedra,  como  morto... 

2S 


434  A  ILLUSTRE  CAS\  DE  RAMIRES 


—  Uma  cutilada? 

—  Com  este  chicote,  Barròlo!  Arma  terriveli... 
Bem  dizia  o  Tito!...  Estou  perdido  se  não  levo  este 
chicote. 

Esgaseado,  Barrôlo  remirava  o  chicote.  Sim,  com 
effeito  ainda  manchado  de  sangue.  —  Então  Gon- 
çalo attentou  no  chicote,  no  sangue...  Sangue  de 
gente!  sangue  fresco,  que  elle  arrancara!...  E  por 
entre  o  seu  orgulho,  uma  piedade  passou  que  o  em- 
pallideceu : 

—  Que  desgraça,  vejam  que  desgraça! 
Esquadrinhou    vivamente   o   fato,   as  botas,   no 

horror  de  nódoas  de  sangue,  que  o  salpicassem. 
Sim,  santo  Deus!  sangue  na  polaina!...  E  immedia- 
tamente  anciou  por  se  despir,  se  lavar,— galgou  a 
escada,  com  o  Barròlo  que  enxugava  o  suor,  balbu- 
ciava:—  «Ora  uma  d'essas!  E  de  repente!  Assim  na 
estrada!...»  Mas  no  corredor,  subindo  n"uma  car- 
reira da  cosinha,  appareceu  Gracinha,  pallida,  com  a 
Rosa  atraz,  que  enterrava  os  dedos  entre  o  lenço  e 
o  cabello  n'um  pavor  mudo. 

—  One  foi,  Gonçalo?  Jesus,  que  foi?! 

Então,  encontrando  Gracinha  junto  d'elle,  na 
Torre,  n"esse  momento  magnifico  do  seu  orgulho, 
depois  de  tão  rijo  perigo  vencido,  Gonçalo  esqueceu 
o  André,  o  Mirante,  as  sombrias  humilhações,  e  no 
abraço  em  que  a  colheu,  nos  lortos  beijos  que  atirou 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  'hiU 


á  face  querida,  todo  o  sea  amuo  se  fundio  cm  ter- 
nura. Com  ella  ainda  chegada  ao  coração,  suspi- 
rou de  leve,  como  uma  creança  cançada.  Depois 
apertando  as  duas  pobres  mãos  tremulas,  com  um 
lento,  enternecido  sorriso,  em  quanto  os  olhos  se 
lhe  humedeciam  de  confusa  emoção,  de  confusa  ale- 
gria: 

—  Pois  íoi  o  diabo,  filha!  Uma  desordem  horrí- 
vel, eu  que  sou  tão  pacato!  imagina  tu... 

E  pelo  corredor  recomeçou  para  Gracinha,  que 
arfava,  e  para  a  Rosa,  estarrecida,  a  historia  do  encon- 
tro, e  o  sujo  ultrage,  o  tiro  que  falhara  e  os  malan- 
dros lacerados  a  chicote,  e  o  velho  marchando  como 
ura  captivo,  a  gemer  pela  estrada  de  Ramilde.  Aper- 
tando o  peito,  n'um  desmaio.  Gracinha  murmurou: 

—  Ai,  Gonçalo!  E  se  um  dos  homens  estivesse 
morto ! 

O  Barrôlo,  mais  vermelho  que  uma  pionia,  ber- 
rou logo  que  taes  malandros  mereciam  ricamente  a 
morte !  E  mesmo  feridos,  ainda  necessitavam  castigo 
tremendo  d' Africa!  O  Gouveia!  era  necessário  man- 
dar a  Villa-Clara,  avisar  o  Gouveia ! . . .  Mas  largas 
passadas  ávidas  abalaram  o  soalho — e  foi  o  Bento, 
que  se  ergueu  deante  de  Gonçalo,  bracejando  n'uma 
anciã : 

—  Então,  Snr.  Doutor?...  Diz  que  uma  grande 
desordem  ! . . . 


436  A   ILLLSTKE  CAí^A   DE  líAMlKE; 


E  á  porta  do  escriptorio,  onde  todos  pararam, 
novamente  attentos,  a  historia  recomeçou,  especial- 
mente para  o  Bento,  que  a  bebia,  n'um  lento  riso  de 
gosto,  crescendo,  inchando,  com  os  olhinhos  húmi- 
dos a  reluzir,  como  se  também  triumphasse.  Por  fim. 
triumphou,  com  estrondo: 

—  Foi  o  chicote,  Snr.  Doutor!  O  que  serviu  ao 
Snr.  Doutor,  foi  o  chicote  que  eu  lhe  dei ! 

Era  verdade.  E  Gonçalo,  commovido,  abraçou  o 
velho  aio,  que  n'uraa  excitação,  gritava  para  a  Rosa. 
para  Gracinha,  para  o  Barrulo : 

—  O  Snr.  Doutor  deu  cabo  d'elles!.,.  Aquelle 
chicote  mata  um  homem!...  Os  malvados  estão  mor- 
tos!... E  foi  o  chicote!  Foi  o  chicote  que  eu  dei  ao 
Snr.  Doutor! 

Mas  Gonçalo  reclamava  agua  quente  para  se 
lavar  da  poeira,  do  suor,  do  sangue...  E  o  Bento 
correu,  berrando  ainda  pelo  corredor !  depois  pelas  es- 
cadas da  cosinha— «que  fora  o  chicote!  o  chicote,  que 
elle  dera  ao  Snr.  Doutor!»  Gonçalo  entrara  no  quar- 
to, acompanhado  pelo  Barròlo.  E  pousou  o  chapéu  so- 
bre o  mármore  da  commoda,  com  um  immenso  ah 
consolado!  Era  o  consolo  immenso  de  se  encontrar, 
depois  de  tão  violenta  manhã,  entro  as  doces  cousas 
costumadas,  pisando  o  seu  velho  tapeto  azul,  roçan- 
do o  leito  de  pau  preto  em  que  nascera,  respirando 
polas  vidraças  abertas,  onde  as  ramagens  íamiliares 


A  ILLLSraE  CASA  DE  RAMIRES  437 


das  faias  s^empurravam  na  aragem  para  o  saudar. 
Com  que  gosto  se  acercou  do  espelho  de  columnas 
douradas,  se  mirou  e  se  remirou,  como  a  um  Gon- 
çalo novo  e  tão  melhorado,  que  nos  hombros  reco- 
nhecia mais  largueza,  e  até  no  bigode  um  arquear 
mais  crespo. 

E  foi  ao  arredar  do  espelho,  topando  com  o  Bar- 
rôlo,  que  subitamente  despertou  n'uma  curiosidade 
immensa: 

—  Mas,  oh  Barrôlo,  como  é  que  vos  encontro 
esta  manhã  na  Torre? 

Resolução  da  véspera,  ao  chá.  Gonçalo  não  ap- 
parecia,  não  escrevia...  Gracinha  a  matutar,  inquie- 
ta. EUe  também  espantado  d'aquelle  sumiço  depois 
do  cesto  dos  pêcegos.  De  modo  que  ao  chá,  pensan- 
do lambem  que  a  parelha  necessitava  uma  trotada, 
lembrara  a  Gracinha :  —  «  Vamos  nós  amanhã  á  Tor- 
re? no  phaeton?» 

—  Além  d"isso  precisava  íallar  comtigo,  Gonça- 
lo... Tenho  andado  aborrecido. 

O  Fidalgo  juntou  duas  almoíadas  no  divan,  onde 
se  enterrou: 

—  Como  aborrecido?...  Aborrecido  por  que?... 
Barrôlo,   com  as  mãos  nos  bolsos  da  rabona  de 

ílanella,   que  lhe  cingia  as  ancas  gordas,  considerou 
as  flores  do  tapete,  melancolicamente: 


438  A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


—  E'  uma  grande  secca!  A  gente  não  pôde  con- 
fiar em  ninguém . . .  Nem  ter  familiaridades ! . . . 

N'um  lampejo  Gonçalo  imaginou  o  Cavalleiro  e 
Gracinha  mostrando  estouvadamente  nos  Cunhaes, 
como  outr'ora  entre  os  arvoredos  da  Torre,  o  senti- 
mento que  os  dominava.  E  presentiu  um  desabafo, 
alguma  queixa  triste  do  pobre  Barrôlo,  amargurado 
por  suspeitas,  talvez  por  intimidades  que  espreitara. 
Mas  a  emoção  suprema  da  sua  batalha,  sumira  para 
uma  sombra  interior  os  cuidados  que,  ainda  na  vés- 
pera, o  opprimiam:  todas  as  difficuldades  da  vida  lhe 
appareciam  agora,  de  repente,  n'aquelle  frescor  da 
sua  coragem  nova,  tão  fáceis  d'abater  como  os  desa- 
fios dos  valentões;  e  não  se  assustou  com  as  confi- 
dencias do  cunhado,  bem  seguro  d'impôr  áquella 
alma  submissa  de  bacoco  a  confiança  e  a  quietação. 
Até  sorriu,  com  indolência: 

—  Então,  Barrolinho?  Succedeu  alguma  peripé- 
cia? 

—  Recebi  uma  carta. 

—  Ah! 

Gravemente  Barrôlo  desabotoou  o  jaquetão,  pu- 
xou do  bolso  interior  uma  larga  carteira,  de  couro 
verde  e  lustroso,  com  monogramma  d'ouro.  E  foi  a 
carteira  que  elle  mostrou  a  Gonçalo,  com  satisfação. 

— Bonita,  hein?  Presente   do   André,  coitado... 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  439 


Creio  que  até  a  mandou  vir  de  Paris.  O  monogram- 
ma  tem  muito  chie. 

Gonçalo  esperava,  espantado.  Emfim  o  bom  Bar- 
rôlo  tirou  da  carteira  uma  carta— já  amarrotada, 
depois  alisada.  Era,  n'um  papel  pautado,  uma  lettra 
miudinha  que  o  Fidalgo  apenas  relanceou,  declaran- 
do logo  com  segurança: 

—  É  das  Louzadas. 

E  leu,  vagarosamente,  serenamente,  com  o  co- 
tovello  enterrado  na  almofada:  aEx."°  Snr.  José 
«Barrôlo. — V.  Ex.**  apesar  de  todos  os  seus  amigos 
«o  alcunharem  de  Zé  bacoco,  mostrou  agora  muita 
«espertesa,  chamando  de  novo  para  a  sua  intimida- 
«de  e  de  sua  digna  esposa  o  gentil  André  Caval- 
«leiro,  nosso  Governador  Civil.  Com  eííeito  a  esposa 
«de  V.  Ex.^  a  linda  Gracinha,  que  n'estes  últimos 
«tempos  andava  tão  murcha  e  até  desbotada  (o  que 
«  a  todos  nos  inquietava)  immediatamente  reflorio,  e 
«ganhou  cores,  desde  que  possue  a  valiosa  compa- 
«nhia  da  primeira  auctoridade  do  districto.  Portou-se 
«pois  V.  Ex.*  como  marido  zeloso,  e  desejoso  da  íe- 
«licidade  e  boa  saúde  de  sua  interessante  esposa. 
«Nem  parece  rasgo  d'aquelle  que  toda  a  Oliveira 
«considera  como  o  seu  mais  illustre  pateta!  Os  nos- 
«sos  sinceros  parabéns!» 

Gonçalo  guardou  muito  socegadamente  na  algi- 


4Í0  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


beira  aquella  carta  que,  dias  antes,  o  lançaria  era  in- 
finita amargura  e  fúria: 

—  É  das  Louzadas...  E  tu  deste  importância  a 
semelhante  babuseira? 

O  Barròlo  repontou,  com  as  bochechas  abraza- 
das: 

—  Se  te  parece!  Sempre  embirrei  com  bilhe- 
tinhos anonymos...  E  depois  essa  insolência  a  res- 
peito dos  amigos  ine  chamarem  bacoco...  Grande 
infâmia,  hein?  Tu  acreditas?...  Eu  não  acredito! 
mas  lança  sizania  entre  mim  e  os  rapazes...  Nem 
voltei  ao  Club...  Bacoco!  Porquê?  Por  que  eu  sou 
simples,  sempre  franco,  disposto  a  arranchar...  Não! 
se  os  rapazes  no  Club  me  chamam  bacoco  pelas  cos- 
tas, caramba,  mostram  ingratidão !  IMas  eu  não  acre- 
dito !  Rebolou  pelo  quarto,  desconsoladamente,  as 
mãos  cruzadas  sobre  as  gordas  nádegas.  Depois,  es- 
tacando deante  do  divan,  d'onde  Gonçalo  o  consi- 
derava, com  piedade: 

—  Em  quanto  ao  resto  da  carta  é  tão  estúpido, 
tão  atrapalhado  que  ao  principio  nem  comprehendi. 
Agora  percebo...  Querem  dizer  que  a  Gracinha  e  o 
Cavalleiro  teem  namoro...  É  o  que  me  parece  que 
querem  dizer!  Ora  vê  tu  que  disparate!  Até  a  intimi- 
dade do  Cavalleiro  é  mentira.  O  pobre  rapaz,  desde 
que  lá  jantou,  só  appareceu  três  ou  quatro  vezes,  á 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  iU 


noite,  para  a  manilha,  com  o  Mendonça...  E  agora 
abalou  para  Lisboa. 

Então  o  Fidalgo  pulou,  de  surpresa. 

—  O  quê!  o  Cavalleiro  íoi  para  Lisboa? 

—  Pois  partiu  ha  três  dias! 

—  Com  demora? 

—  Com  demora,  com  grande  demora...  Só  volta 
no  meado  d'outubro  para  a  Eleição. 

—  Ah! 

Mas  o  Bento  rompeu  pelo  quarto,  com  o  jarro 
d'agua  quente,  duas  toalhas  de  rendas,  ainda  n'uma 
excitação  que  o  azafamava.  Deante  do  espelho,  len- 
tamente Barrôlo  reabotoava  o  jaquetão : 

—  Bem,  até  logo,  Gonçalinho.  Eu  desço  á  caval- 
lariça,  visitar  a  parelha.  Não  imaginas!  desde  Oli- 
veira, sem  descanso,  uma  trotada  explendida.  E  nem 
um  pello  suado!  Tu  guardas  a  carta? 

—  Guardo,  para  estudar  a  lettra. 

Apenas  Barrôlo  cerrara  a  porta  —  o  Fidalgo  re- 
começou com  o  Bento  a  deliciosa  historia  da  bri- 
ga, revivendo  as  sur prezas  e  os  rasgos,  simulando 
os  arremessos  da  egoa,  arrebatando  o  chicote  para 
representar  as  cutiladas  silvantes,  que  arrancavam 
lebra  e  sangue...  E  de  repente,  em  ceroulas: 

—  Oh  Bento,  traze  o  meu  chapéu...  Estou  des- 
confiado que  a  bala  roçou  pelo  chapéu. 

Ambos  remiraram,  esquadrinharam  o  chapéu.  O 


442  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Bento,  no  seu  encarecimento  da  tacanha,  achava  a 
copa  amolgada  —  até  chamuscada. 

—  A  bala  passou  de  raspão,  Snr.  Doutor! 

O  Fidalgo  negou,  com  a  modéstia  grave  d' um 
íorte : 

—  Não!  Nem  de  raspão!...  Quando  o  malandro 
desfechou  já  o  braço  lhe  tremia...  Devemos  agrade- 
cer a  Deus,  Bento.  Mas  eu  realmente  não  corri  gran- 
de perigo! 

Depois  de  vestido,  Gonçalo,  passeando  no  quarto, 
releu  a  carta.  Sim,  certamente  das  Lousadas.  Mas 
agora  essa  maledicência,  soprada  com  tão  sórdida 
maldade  sobre  as  pobres  bochechas  do  Barrulo,  não 
causava  damno — antes  servia,  quasi  beneficamente, 
como  a  braza  d'um  ferro,  para  sarar  um  damno.  O 
pobre  Barròlo  apenas  se  impressionara  com  a  reve- 
lação da  sua  bacoquice,  essa  ingrata  alcunha  posta 
pelos  rapazes  amigos,  em  galhofas  ingratas  do  Club 
e  debaixo  dos  Arcos.  A  outra  insinuação  terrível. 
Gracinha  reverdecendo  ao  calor  amoroso  do  Caval- 
leiro,  essa  mal  a  comprehendera,  escassamente  a  at- 
tendera  n'um  desdém  distraMdo  e  cândido.  Mas  a 
carta  que  assim  silvava  por  sobre  o  bom  Barrôlo 
como  ílecha  errada  —  acertava  em  Gracinha,  íeriria 
Gracinha  no  seu  orgulho,  no  seu  impressionai  pudor, 
mostrando  á  pobre  tonta  como  o  seu  nome  c  mes- 
mo o  seu  coração,  já  arrastavam  enxovalhadamente. 


A   ILLUSTRE    CASA   DE  RAMIRES  443 


pela  rasteira  mexeriquice  das  Lousadas!...  Certesa 
tão  humilhadora  nâo  apagaria  um  sentimento  —  que 
se  nâo  apagava  com  humilhações  mais  intimas,  tanto 
mais  dolorosas.  Mas  estimularia  a  sua  reserva  e  o 
seu  desconfiado  recato  :  —  e  agora  que  André  se  afas- 
tara para  Lisboa,  operaria  n'ella,  surdamente,  soli- 
tariamente, sem  que  a  presença  tentadora  lhe  des- 
manchasse a  influencia  socegadora  e  salutar.  Assim 
o  torpe  papel  aproveitava  a  Gracinha  como  um  aviso 
temeroso  pregado  na  parede.  E  rancorosamente  pre- 
parada pelas  duas  fêmeas  para  desencadear  nos  Cu- 
nhaes  escândalo  e  dôr  —  talvez  restabelecesse,  na 
ameaçada  casa,  quietação  e  gravidade.  —  Gonçalo 
esfregou  as  mãos  pensando —  que  em  tão  ditosa  ma- 
nhã talvez  até  esse  mal  redundasse  em  bem! 

—  Oh  Bento,  onde  está  a  Snr."  D.  Graça? 

—  A  menina  subiu  agora  ha  pouco  para  o  seu 
quarto,  Snr.  Doutor. 

Era  o  seu  quarto  de  solteira,  claro  e  íresco  so- 
bre o  pomar,  onde  ainda  se  conservava  o  seu  leito 
de  linda  madeira  embutida,  um  toucador  illustre  que 
pertencera  á  Rainha  D.  Maria  Francisca  de  Saboya, 
e  o  sophá,  as  cadeiras  de  casimira  clara  em  que 
Gracinha  bordara,  n'um  arrastado  labor  d"annos,  o 
Açor  negro  dos  Ramires.  E  sempre  que  voltava  á 
Torre  Gracinha  gostava  de  reviver  no  seu  quarto, 
as  horas  de  solteira,  remexendo  as  gavetas,  folhean- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


do  velhos  romances  inglezes  na  estantesinha  envi- 
draçada, ou  simplesmente  da  varanda  contemplando 
a  querida  quinta  estendida  até  aos  outeiros  de  Val- 
verde, a  verde  quinta,  tão  misturada  á  sua  vida  que 
cada  arvore  lhe  susurrava,  cada  recanto  de  verdura 
era  como  um  recanto  do  seu  pensamento. 

Gonçalo  subiu  —  bateu  á  porta  cerrada  com  o 
antigo  aviso: —  «Licença  para  o  mano!»  Ella  correu 
da  varanda,  onde  regava  nos  seus  antigos  vasos  vi- 
drados plantas  sempre  renovadas  e  cuidadas  pela 
Rosa  com  carinho.  E  desabafando  logo  do  pensa- 
mento que  a  enchia:  • 

—  Oh  Gonçalo!  mas  que  felicidade  nós  virmos  á 
Torre,  justamente  hoje,  que  te  succedeu  cousa  ta- 
manha ! 

—  É  verdade,  Gracinha,  grande  sorte!  E  não  me 
admirei  nada  de  te  vèr...  Era  como  se  ainda  vi- 
vesses na  Torre  e  te  encontrasse  no  corredor...  Quem 
estranhei  foi  o  Barrôlo !  E  no  primeiro  momento  de- 
pois de  desmontar,  pensava  assim,  vagamente:  «mas 
que  diabo  faz  aqui  o  Barròlo?  como  diabo  se  acha 
aqui  o  Barròlo?...»  Curioso,  hein?  Foi  talvez  que, 
depois  da  desordem,  me  senti  remoçado,  com  um 
sangue  novo,  e  me  julguei  no  tempo  em  que  dese- 
jávamos uma  guerra  em  Portugal,  e  nós  cercados 
na  Torre,  sob  o  nosso  pendão,  o  nosso  terço  atiran- 
do bombardas  aos  hespanhoes. . . 


A    ILLUSTRE    CASA    DE   HAMIUES  443 


Ella  ria,  lembrada  d'essas  imaginações  heróicas. 
E  com  o  vestido  entalado  entre  os  joelhos  recome- 
çou a  lenta  rega  dos  seus  vasos  —  em  quanto  Gonça- 
lo, encostado  á  varanda,  considerando  a  Torre,  reto- 
mado pela  ideia  d'uma  concordância  mais  intima, 
que  desde  essa  manhã  se  estabelecera  entre  elle  e 
aquelle  heróico  resto  da  Honra  de  Santa  Ireneia,  co- 
mo se  a  sua  força,  tanto  tempo  quebrada,  se  soldasse 
emfim  firmemente  á  íorça  secular  da  sua  raça. 

—  Oh  Gonçalo!  tu  deves  estar  muito  cançado! 
Depois  d'essa  verdadeira  batalha ...     * 

—  Não,  cançado  não  . . .  Mas  com  fome.  Com  ío- 
me,  e  com  uma  sede  explendida! 

Ella  pousou  logo  o  regador,  sacudindo  as  mãos 
alegremente : 

—  Pois  o  almoço  nâo  tarda!...  Já  andei  a  tra- 
balhar na  cosinha,  com  a  Rosa,  n'uma  pescada  á 
hespanhola ...  É  uma  receita  nova  do  Barão  das 
Marges. 

—  Então  insonsa,  como  elle. 

—  Nâo!  até  picante:  foi  o  Snr.  Vigário  Geral 
que  lh'a  ensinou. 

E  como,  deante  do  toucador  da  Rainha  Maria 
Francisca,  ella  arranjava  á  pressa  os  ganchos  do  ca- 
Itello,  para  aproveitar  a  solidão  favorável,  apressou 
com  um  esforço,  a  confidencia  que  o  commovia  : 

— E  em  Oliveira?  Lá  por  Oliveira? 


446  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Em  Oliveira,  nada . . .  Muito  calor ! 
Gonçalo,  movendo  os  dedos  lentos  pela  moldara 

do  espelho,  fino  entrelaçamento  de  açucenas  e  lou- 
ros, murmurou : 

—  Eu  sei  apenas  das  Lousadas,  das  tuas  amigas 
Lousadas.  Continuam  om  plena  actividade . . . 

Gracinha  negou  candidamente: 

—  As  Lousadas?  Não!  Nem  teem  apparecido. 

—  Mas  teem  tecido! 

E  como  os  verdes  olhos  de  Gracinha  se  alarga- 
ram, sem  comprehender,  Gonçalo  arrancou  viva- 
mente da  algibeira  a  carta  que  guardara,  que  agora 
lhe  pesava,  como  uma  chapa  de  ferro; 

—  Olha,  Gracinha !  Mais  vale  desabafarmos !  Ahi 
tens  o  que  ellas  ha  dias  escreveram  a  teu  marido... 

N'um  relance,  Gracinha  devorou  as  linhas  ter- 
ríveis. E  com  ondas  de  sangue  nas  taces,  apertando 
as  mãos  n'uma  aíílicçâo,  um  desespero,  em  que  o 
papel  amarfanhou : 

— Oh  Gonçalo !  pois  . . . 

Gonçalo  accudio : 

— Não!  o  Barròlo  nâo  se  importou!  Até  se  rio! 
E  eu  também,  quando  elle  me  entregou  esse  pape- 
lucho... E  a  prova  que  ambos  o  consideramos  uma 
mexeriquice  insensata,  é  que  eu  t'o  mostro  tão  fran- 
camente. 

Ella  esmagava  a  carta  nas  mãos  juntas  e  tre- 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  44/ 


mulas,  pallida  agora  e  emmudecida  pelo  espanto, 
retendo  grandes  lagrimas  que  rebrilhavam.  E  Gon- 
çalo commovido,  com  gravidade,  com  ternura: 

— Mas  tu.  Gracinha,  sabes  o  que  são  terras  pe- 
quenas. Sobre  tudo  Oliveira!  Precisas  muito  cuida- 
do, muita  reserva ...  Ai  de  mim !  De  mim  vem  a 
culpa.  Reatei  relações  que  nunca  se  deviam  reatar  . . . 
Bem  me  tenho  arrependido !  E  acredita !  por  cau- 
sa d'essa  situação  tão  falsa  e  tão  perigosa,  que  eu 
creei,  levianamente,  por  ambição  tola,  passei  aqui  na 
Torre  dias  amargurados  . . .  Até  nem  m'atrevia  vol- 
tar a  Oliveira.  Hoje,  não  sei  porquê,  depois  d' esta 
aventura,  parece  que  tudo  se  esbateu,  s'afundou. 
para  uma  grande  sombra...  Emfim  já  não  me  arde 
tão  em  braza  no  coração  . .  ,  Por  isso  desabaío  assim, 
serenamente. 

Ella  desatou  n'um  solto,  doloroso  choro  em  que 
a  sua  fraca  alma  se  desfazia.  Com  redobrada  ternu- 
ra Gonçalo  abraçou  os  pobres  hombros  vergados  que 
os  soluços  espedaçavam.  E  íoi  com  ella  toda  refu- 
giada no  seu  peito,  que  ainda  a  aconselhou,  doce- 
mente : 

—  Gracinha,  o  passado  morreu,  e  todos  precisa- 
mos, para  honra  de  todos,  que  continue  morto.  Pelo 
menos  que  por  íóra,  em  cada  gesto  teu,  pareça  bem 
morto !   Sou  eu  que  t'o  peço,  pelo  nosso  nome ! .  . . 

D'entre  os  braços  do  irmão,  ella  gemeu  com  in- 
finita humildade: 


448  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Mas  elle  até  foi  embora ! . , .  Nem  quiz  estar 
mais  em  Oliveira! 

Gonçalo  acariciou  a  acabrunhada  cabeça  que  de 
novo  se  escondera  contra  o  seu  peito,  contra  elle  se 
apertava,  como  procurando  a  fresca  misericordiosa 
que  dentro  sentia  brotar : 

—  Bem  sei.  E  isso  me  mostra  que  tens  sido  for- 
te .. .  Mas  precisas  muita  reserva,  muita  vigilância, 
Gracinha ! . .  .  E  agora  socega.  Não  íallemos  mais, 
nunca  mais,  n'este  incidente...  Por  que  foi  apenas 
um  (ticidente.  E  que  eu  provoquei,  ai  de  mim,  por 
leviandade,  por  illusão.  Passou,  está  esquecido !  So- 
cega, descança.  E  quando  desceres  traze  os  olhos 
bem  seccos. 

Lentamente  a  desprendera  dos  braços,  onde  ella 
se  arraigava  como  ao  abrigo  mais  certo  e  á  conso- 
lação mais  desejada.  E  sahia,  engasgado  pela  emo- 
ção, recalcando  também  as  lagrimas . . .  Um  gemido 
timido,  supplicante,  ainda  o  reteve. 

—  Gonçalo!  mas  tu  pensas  . . . 

Elle  voltou,  de  novo  a  abraçou,  a  beijou  na  tes- 
ta lentamente: 

—  Eu  penso  que  tu,  agora  bem  avisada,  bem 
aconselhada,  vaes  mostrar  muita  dignidade,  muitii 
firmeza. 

Rapidamente  abalou,  cerrou  a  porta.  E  na  esca- 
da estreita,  escassamente  allumiada  por  utna  clara- 


i 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  449 


boia  baça,  limpava  as  pálpebras,  quando  esbarrou 
com  o  Barròlo,  que  procurava  Gracinha,  para  apres- 
sar o  almoço. 

—  A  Gracinha  já  desce!  atabalhoou  o  Fidalgo. 
Está  a  lavar  as  mãos!  Já  desce! . . .  Mas  antes  do  al- 
moço vamos  á  cavallariça.  Devemos  uma  visita  á 
egoa,  a  essa  querida  egoa  que  me  salvou! 

— É  verdade,  caramba!  concordou  logo  Barrôlo 
revirando  nos  degraus,  com  enthusiasmo.  Precisa- 
mos visitar  a  egoa  . . .  Grande,  briosa,  hein  !  Mas 
aposto  que  ficou  mais  suada  que  as  minhas . . .  Ima- 
gina! uma  trotada  d'aquellas,  desde  Oliveira,  e  nem 
«m  pello  molhado!  Grandes  egoas!  Também,  o  que 
e\i  as  olho,  o  que  as  trato! 

Na  cavallariça,  ambos  affagaram  a  egoa.  Barrô- 
lo lembrou  que  se  mimoseasse  com  uma  ração  larga 
de  cenoura.  Depois  —  para  que  Gracinha,  com  vagar 
se  calmasse,  —  o  Fidalgo  arrastou  o  Barrôlo  ao  po- 
mar e  á  horta  . . . 

—  Tu  não  vens  á  Torre  ha  perto  de  seis  mezes, 
Barrolinho!  Precisas  vêr,  admirar  progressos.  Anda 
agora  por  aqui  a  mão  forte  do  Pereira  da  Riosa  . . . 

—  Imagino!  grande  homem,  o  Pereira!  Mas  eu 
tenho  uma  fome,  Gonçalinho ! 

— Também  eu! 


450  A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Uma  hora  batia  quando  entraram  na  varanda 
onde  a  mesa  esperava,  florida  e  em  lesta  —  e  Graci- 
nha, á  beira  do  divan,  percorria  pensativamente  a  ve- 
lha Gazeta  do  Porto.  Apesar  de  muito  banhados,  os 
seus  bellos  olhos  conservavam  um  ardor:  e  para  o 
justificar,  e  o  seu  modo  abatido,  logo  se  lastimou, 
corando,  d' uma  enxaqueca.  Eram  as  emoções,  o  pe- 
rigo de  Gonçalo  . . . 

—  Também  eu  tenho  dòr  de  cabeça!  declarou  o 
Barrôlo,  rondando  a  mesa.  ]\Ias  a  minha  vem  da  fo- 
me ...  Oh  filhos,  é  que  estou  desde  as  sete  da  ma- 
nhã com  uma  chávena  de  café  e  um  ovo  quente! 

Gonçalo  repicou  a  campainha.  Mas  quem  rom- 
peu pela  porta  envidraçada,  esbaforido,  escancarando 
a  bocca  n'um  riso  immenso,  foi  o  Joaquim,  o  moço 
da  cavallariça  que  voltava  da  Grainha. 

Gonçalo  atirou  os  braços,  soffrego: 

—  Então?!  então?! 

—  Pois  lá  estive,  meu  Fidalgo!  exclamou  o  Joa- 
quim com  o  peito  a  estalar  d'importancia.  E  vae  por 
lá  um  povoléu,  todos  já  sabem!  Uma  rapariga  dos 
Bravaes  espreitou  tudo,  de  dentro  do  quinteiro  . .  . 
Depois  correu,  badalou  . .  .  Mas  o  velho,  o  tal  Do- 
mingues que  mora  na  casa,  e  o  filho,  abalaram  am- 
bos. E  o  rapaz,  ao  que  dizem,  pouco  ferido.  Se  ca- 
hio,  sem  sentidos,   foi  com  o  susto.  O  Ernesto  de 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  431 


Nacejas,  esse  sim,  santo  nome  de  Deus,  apanhou.  Lá 
o  levaram  em  braços  para  casa  d'um  compadre  alli 
ao  pé,  na  Arribada.  Parece  que  fica  sem  orelha,  e 
que  fica  sem  bocca !  . . .  Pois  por  todos  aquelles  sí- 
tios era  o  ai-jesus  das  moças ! .  . .  E  logo  lá  o  car- 
regam para  o  Hospital  de  Villa  Clara,  que  na  casa 
do  Compadre  não  pode  sarar.  Um  povoléu,  e  todos 
dão  a  rasâo  ao  Fidalgo.  O  tal  Domingues  era  ma- 
landro. E  o  Ernesto,  esse  ninguém  o  podia  enxergar ! 
Mas  todos  lhe  tinham  medo ...  O  Fidalgo  íez  uma 
limpeza! 

Gonçalo  resplandecia.  Ah!  Ainda  bem!  que  não 
passara  damno  mais  forte,  que  belleza  perdida  do 
D.  Juan  de  Nacejas! 

—  E  então  o  povo  por  lá,  a  f aliar,  a  olhar  para 
o  sitio? 

—  Pois  o  povo  não  se  arreda!  E  a  mostrar  o 
sangue,  no  chão,  e  as  pedras  por  onde  se  atirou  a 
egoa  do  Fidalgo  . . .  E  agora  até  contam  que  foi  uma 
espera,  e  que  desfecharam  três  tiros  ao  Fidalgo,  e 
que  depois  adiante  no  pinhal  ainda  saltaram  três  ho- 
mens mascarados  que  o  Fidalgo  escangalhou .  . . 

—  Eis  a  lenda  que  se  íorma!  declarou  Gonçalo. 
O   Bento   apparecera   com   uma  larga   travessa 

íumegante.  O  Fidalgo  aífagou  risonhamente  o  hom- 
bro  do  Joaquim.  E  em  baixo  a  Rosa  que  abrisse, 
para  o  almoço  da  íamilia,  duas  garrafas  de  vinho  do 


452  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Porto,  velho.  Depois  com  a  mão  nas  costas  da  cadei- 
ra murmurou  gravemente: — Pensemos  um  momento 
em  Deus,  que  me  tirou  hoje  !l'um  grande  perigo ! 
Barrôlo  pendeu  a  cabeça,  reverente.  Gracinha, 
atravez  d'um  leve  suspiro,  pensou  uma  leve  oração. 
E  desdobravam  os  guardanapos;  Gonçalo  acclamava 
a  travessa  de  pescada  á  hespanhola— quando  o  peque- 
no da  Crispola  empurrou  ainda  a  porta  envidraçada 
«com  um  telegramma,  que  viera  da  Villa!»  Uma 
inquietação  deteve  os  garíos.  A  manhã  correra  com 
tantas  agitações  e  espantos !  Mas  já  um  sorriso  de 
gosto,  de  triumpho,  se  espalhara  na  fina  face  de 
Gonçalo : 

—  Não  é  nada...  E  do  Castanheiro,  por  causa 
dos  capítulos  do  Romance  que  eu  lhe  mandei . . . 
Coitado!  Bom  rapaz! 

E,  recostado  na  cadeira,  recitou  vagarosamente 
o  telegramma,  que  os  seus  olhos  afíagavam :  —  «  Ca- 
pítulos romance  recebidos.  Leitura  feita  amigos. 
Enthusiasmo!  Verdadeira  obra  prima!  Abraço!...» 

Barrôlo,  com  a  bocca  cheia,  bateu  as  palmas.  E 
Gonçalo,  sem  reparar  na  travessa  da  pescada  que 
Bento  lhe  apresentava,  mas  enchendo  o  copo  de  vi- 
nho verde,  com  uma  vaga  tremura,  um  sorriso  di- 
toso que  não  se  dissipava : 

—  Emfim,  boa  manhã  . . .  Grande  manhã ! 


A  ILLUSTRE   CASA  DE  RAMIRES  4o3 


Gonçalo,  apesar  das  insistências  de  Gracinha  e 
do  Barròlo,  não  os  acompanhou  para  Oliveira — no 
desejo  de  acabar,  durante  essa  semana,  o  derradeiro 
Capitulo  da  Novella,  e  depois  cerrar  o  preguiçoso 
giro  de  visitas  aos  influentes  Eleitoraes  do  Circulo. 
Assim  rematava  a  Obra  d'Arte  e  a  obra  de  Politi- 
ca,—  e  cumpria,  Deus  louvado,  a  tareia  d'esse  verão 
fecundo ! 

Logo  n'essa  noite  retomou  o  manuscripto  da  No- 
vella—  e  na  margem  larga  lançou  a  data,  uma  no- 
ta:—  if.  Hoje,  na  freguezia  da  Grainha,  tive  uma 
briga  terrível  com  dous  homens  que  me  assaltaram 
a  pau  e  tiro,  e  que  castiguei  severamente  ...»  Depois, 
com  facilidade  atacou  o  lance  de  tanto  sabor  medie- 
val, em  que  Tructesindo  Ramires,  correndo  no  rasto 
do  Bastardo,  penetrava,  ao  espalhado  e  íumarento 
clarão  dos  archotes,  no  arraial  de  D.  Pedro  de  Castro. 

Com  grave  amisade  acolhia  o  velho  homem  de 
guerra  aquelle  seu  primo  de  Portugal,  que  lhe  trou- 
xera a  sua  íorte  mesnada,  de  Santa  Ireneia,  quando 
os  Castros  combateram  um  grande  poder  de  Mouros 
em  Enxarez  de  Sandornin.  Depois,  na  vasta  tenda, 
reluzente  d'armas,  tapizada  de  pelles  de  leão  e  d" ur- 
so, Tructesindo  contava,  ainda  a  aríar  de  dôr  repre- 
sa, a  morte  de  seu  filho  Lourenço,  ferido  na  lide  de 
Canta-Pedra,  acabado  á  punhalada  pelo  Bastardo  de 


454  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Bayào,  deante  das  muralhas  de  Santa  Ireneia,  com  o 
sol  no  ceu  alto  a  olhar  a  traição !  Indignado,  o  velho 
Castro  esmurraçou  a  mesa,  onde  um  rosário  d'ouro 
se  misturava  a  grossas  peças  de  xadrez;  jurou  pela 
vida  de  Christo,  que,  em  sessenta  annos  d'armas  e 
surpresas  nunca  soubera  de  feito  mais  vil !  E  agar- 
rando a  mão  do  senhor  de  Santa  Ireneia,  ardentemen- 
te lhe  oífereceu,  para  a  empreza  da  santa  vingança, 
a  sua  hoste  inteira  —  tresentas  e  trinta  lanças,  vasta 
e  rija  peonagem. 

—  Por  Santa  Maria!  Formosa  arrancada!  bradou 
Mendo  de  Briteiros  com  as  vermelhas  barbas  a  flam- 
mejar  de  gosto. 

Mas  D.  Garcia  Viegas,  o  Sabedor,  entendia  que 
para  colherem  o  Bastardo  vivo,  como  convinha  a 
uma  vingança  vagarosa  e  bem  gosada,  mais  utilmen- 
te serviria  uma  calada  e  curta  fila  de  cavalleiros, 
com  alguns  homens  de  pé  . . . 

—  Porquê,  D.  Garcia? 

—  Porque  o  Bastardo,  depois  de  se  aligeirar, 
junto  da  Bibeira,  da  pionada  e  carriagem  correra, 
com  a  mira  em  Coimbra,  para  se  acolher  á  íorça  da 
Hoste  Beal.  N'essa  noite,  com  o  seu  esfalfado  bando 
de  lanças,  pernoitara  certamente  no  solar  de  Lan- 
dim. E  com  o  luzir  da  alva,  para  encurtar,  certamente 
retomava  a  galopada  pelo  velho  caminho  de  Mira- 
dães,  que  trepa  e  foge  atravez  das  lombas  do  Cara- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  433 


mulo.  Ora  elle,  Garcia  Viegas,  conhecia  para  deante 
do  Poço  da  Esquecida,  certo  passo,  onde  poucos  ca- 
valleiros,  e  alguns  besteiros,  bem  postados  por  entre 
o  bravio,  apanhariam  Lopo  de  Bayão  como  lobo  era 
fojo . . . 

Tructesindo,  incerto  e  pensativo,  mettia  os  dedos 
lentos  pelos  fios  da  barba.  O  velho  Castro  duvida- 
va, preferindo  que  se  pozessse  batalha  ao  Bastardo 
em  campo  bem  liso  onde  se  avantajassem  tantas 
lanças  já  aprestadas,  que  depois  correriam  em  alegre 
levada  a  assolar  as  terras  de  Bayão.  Então  Garcia 
Viegas  rogou  aos  seus  primos  d'Hespanha  e  de  Por- 
tugal que  sahissem  ao  terreiro,  deante  da  tenda, 
com  fartura  de  tochas  para  bem  se  allumiarem.  E 
ahi,  no  meio  dos  cavalleiros  curiosos,  á  claridade  dos 
lumes  inclinados,  D.  Garcia  vergou  o  joelho,  riscou 
sobre  a  terra,  com  a  ponta  d'uma  adaga,  o  roteiro 
da  sua  caçada  para  lhe  comprovar  a  belleza . . . 
D'além  castello  Landim,  largaria  com  a  alva  o  Bas- 
tardo. Por  aqui,  quando  a  lua  nascesse,  abalariam  el- 
les,  com  vinte  cavalleiros  dos  Ramires  e  dos  Castros, 
para  que  lidadores  d'ambas  as  mesnadas  gosassem  a 
lide.  Além,  se  postariam,  alapados  no  mattagal,  bes- 
teiros e  peões  de  frecha.  Por  traz,  d'este  lado,  para 
entaipar  o  Bastardo,  o  senhor  D.  Pedro  de  Castro, 
se  com  tão  gostosa  ajuda  elle  honrasse  o  Senhor  de 
Santa  Ireneia.  Adiante,  acolá,  para  colher  pela  gor- 


4o6  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


ja  O  villâo,  o  Snr.  D.  Tructesindo  que  era  o  pae  e 
Deus  mandava  íosse  o  vingador.  E  alli,  na  estreita- 
ra o  derrubariam  e  o  sangrariam  como  um  porco  — 
e  como  o  sangue  era  vil,  a  um  tiro  de  besta  encon- 
trariam agua  farta  para  lavar  as  mãos,  a  agoa  do 
pego  das  Bichas ! . . . 

—  Famosa  traça!  murmurou  Tructesindo  con- 
vencido. 

E  D.  Pedro  de  Castro  bradou  atirando  um  fais- 
cante olhar  aos  Cavalleiros  d'Hespanha: 

—  Vida  de  Christo,  que  se  meu  tio-avô  Gutier- 
res  tivera  por  Coudel  aqui  o  snr.  D.  Garcia,  não  lhe 
escapavam  os  de  Lara  quando  levaram  o  Rei  Meni- 
no, na  grande  carreira,  para  Santo  Estevam  de  Gu- 
rivaz !  . . .  Entendido  pois,  primo  e  amigo  1  E  a  ca- 
vallo,  para  a  monteria,  mal  reponte  a  lua! 

E  recolheram  as  tendas  —  que  já  nas  fogueiras 
lourejavam  os  cabritos  da  ceia,  e  os  uchões  acarre- 
tavam, d"entre  os  carros  da  sarga,  os  pesados  odres 
de  vinho  de  Tordesillas. 

Com  a  ceia  no  arraial  (grave  e  sem  ruido,  por 
que  um  luto  velava  o  coração  dos  hospedes)  Gon- 
çalo terminou,  n'essa  noute,  o  seu  capitulo  iv,  lan- 
çando á  margem  outra  nota:  —  «Meia  noite...  Dia 
cheio.  Batalhei,  trabalhei. — ».  Depois  no  seu  quarto, 
em  quanto  se  despia,  traçou  todo  o  alvoroto  da  bri- 
ga curta  em  que  o  Bastardo  como  lobo  em  fojo  que- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  4o7 


daria  captivo,  á  mercê  vingadora  dos  de  Santa  Ire- 
neia  . . .  Mas  de  manhã,  antes  d'almoço,  ao  abancar 
com  gosto  para  o  trabalho  —  recebeu  dous  telegram- 
mas,  que  o  desviaram  deliciosamente  da  ardente 
correria  contra  o  Bastardo  de  Bayâo. 

Eram  dois  telegrammas  d'OIiveira,  um  do  Barão 
das  Marges,  outro  do  capitão  Mendonça — ambos 
com  parabéns  ao  Fidalgo  « por  assim  escapar  de  tão 
terrível  espera,  destroçando  os  valentões  de  Nacejas.» 
O  Barão  das  Marges  accrescentava :-«  ^rafmEmo  / 
É  d'heroe ! » 

Gonçalo,  enternecido,  mostrou  os  telegrammas 
ao  Bento.  A  nova  da  sua  façanha,  pois,  já  se  espa- 
lhara, impressionara  Oliveira. 

—  Foi  o  Snr.  José  Barrôlo  que  contou!  acudiu 
o  Bento.  E  o  Snr.  Dr.  verá !  o  Snr.  Dr.  verá . . .  Até 
no  Porto  se  vão  assombrar! 

Ao  bater  meio  dia,  rompeu  pelo  corredor,  com 
estrondo,  o  immenso  Tito,  acompanhado  pelo  João 
Gouveia  que  chegara  na  véspera  á  tarde  da  Costa, 
soubera  da  aventura  na  Assembleia,  corria  á  Torre, 
como  amigo  para  o  abraço,  antes  de  comparecer, 
como  Auctoridade,  para  o  auto.  Então  Gonçalo,  ainda 
nos  braços  do  Gouveia,  pediu  generosamente,  «que 
se  não  procedesse  contra  os  bandidos ...»  O  Admi- 
nistrador recusou,  decidido  e  secco,  proclamando  o 
principio  da  Ordem,  e  necessidade  d' um  escarmento 


4o8  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


rijo,  para  que  Portugal  não  recuasse  aos  tempos  bár- 
baros do  João  Brandão  de  Midões.  Elle  e  Tito  al- 
moçaram na  torre: — e  Tito,  á  sobremesa,  lembrou 
galhofeiramente  a  conveniência  d'um  brinde,  e  bra- 
mou elle  o  brinde,  comparando  Gonçalo  ao  elefante, 
«sempre  bom,  que  tanto  aguenta,  e  de  repente,  zás, 
esmaga  o  mundo!» 

Depois  João  Gouveia  accendendo  um  grande  cha- 
ruto reclamou  a  representação  verídica  da  desordem, 
com  os  pulos,  os  gritos,  para  elle  se  compenetrar  co- 
mo auctoridade.  Então  atravez  da  varanda,  reviveu 
a  historia  heróica,  simulando  com  o  chicote  sobre  o 
divan  (que  terminou  por  esgaçar)  os  golpes  que  ar- 
remessara imitando  os  tombos  meio  desmaiados  do 
valentão  de  Nacejas,  quando  já  o  sangue  o  alagava. 
O  Administrador  e  o  Tito  visitaram  na  cavallariça  a 
egoa  histórica:  e  no  pateo,  Gonçalo  ainda  lhes  mos- 
trou as  duas  polainas  de  couro  seccando  ao  sol,  la- 
vadas do  sangue  que  as  salpicara. 

Deante  do  portão  João  Gouveia  bateu  grave- 
mente no  hombro  do  Fidalgo: 

—  Gonçalo,  vossé  deve  apparecer  esta  noite  na 
Assembleia . . . 

Appareceu  —  e  íoi  acolhido  como  o  vencedor 
d'uma  batalha  illustre.  No  bilhar,  por  proposta  do 
velho  Ribas,  ílammcjou  um  grande  punche— e  o  Com- 
mendador   Barros,   afogueado,  teimava  que  no  do- 


A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES  439 


mingo  se  celebrasse  em  S.  Francisco  um  Te-Deum 
de  graças,  de  que  elle  costearia  as  despezas,  com 
orgulho,  caramba !  Á  sabida,  acompanhado  pelo  Tito, 
pelo  Gouveia,  pelo  Manoel  Duarte,  por  outros  sócios, 
encontraram  o  Videirinha  —  que  não  pertencia  á  As- 
sembleia, mas  ronda\'a,  esperando  o  Fidalgo  para  lhe 
lançar  duas  trovas  do  Fado,  improvisadas  n'essa  tar- 
de, em  que  o  exaltava  acima  dos  outros  Ramires,  da 
Historia  e  da  Lenda ! 

O  rancho  quedou  no  chafariz.  O  violão  gemeu, 
com  amor.  E  o  cantar  do  Videirinha,  elevado  da  al- 
ma, varou  a  muda  ramagem  das  olaias: 

Os  Ramires  d"outras  eras 
Venciam  com  grandes  lanças. 
Este  vence  com  um  chicote, 
Vede  que  estranhas  mudanças'. 

E  que  os  Ramires  famosos, 
Da  passada  geração, 
Tinham  a  força  nas  armas 
E  este  a  tem  no  coração! 

A  tão  requebrado  conceito  —  os  amigos  rompe- 
ram em  vivas  a  Gonçalo,  á  Casa  de  Ramires.  E  o 
Fidalgo  recolhendo  á  Torre,  commovido,  pensava: 

—  É  curioso!  Esta  gente  toda  parece  gostar  de 
mim ! . . . 

Mas  que  emoção  quando,  de  manhã  cedo,  o 
Bento   o   acordou  com  um  teleorramma  de  Lisboa! 


460  A   ILLUSTRE    CASA   DE   RAMIRES 


Era  do  Cavalleiro  —  que  «soubera  pelos  jornaes  at- 
tentado,  lhe  mandava  enthusiastico  abraço  pela  felici- 
dade e  pela  valentia!»  Gonçalo  berrou,  sentado  na 
cama: 

—  Caramba!  então  os  jornaes  em  Lisboa  já  fal- 
iam, Bento!  o  caso  anda  celebrado! 

Certamente  celebrado!  —  por  que  durante  o  de- 
licioso dia,  o  moço  do  Telegrapho,  esbaforido  sobre  a 
perna  manca,  não  cessou  d'empurrar  o  portão  da  Tor- 
re, com  outros  telegrammas,  todos  de  Lisboa,  da  Con- 
dessa de  Chellas;  de  Duarte  Lourençal;  dos  Marque- 
zes  de  Cója  felicitando;  da  tia  Louredo  com  «para- 
béns ao  destemido  sobrinho»;  da  marqueza  d'Espo- 
sende  «esperando  que  o  caro  primo  tivesse  agrade- 
cido a  Deus!»...  E  o  ultimo  do  Castanheiro,  com 
exclamações:  —  Magnifico!  Digno  de  Tniclesindo! — 
Gonçalo,  pela  livraria,  erguia  os  braços,  estonteado: 

— Santo  nome  de  Deus!  mas  que  terão  dito  os 
jornaes? 

E,  por  entre  os  Telegrammas,  accudiam  os  ca- 
valheiros dos  arredores,  os  influentes,— o  Dr.  Ale- 
xandrino, aterrado,  antevendo  um  regresso  ao  Ca- 
bralismo;  o  velho  Pacheco  Valladares  de  Sá,  que 
não  se  espantara  do  seu  nobre  primo,  por  que  san- 
gue de  Ramires,  como  sangue  de  Sás,  sempre  ferve; 
o  padre  Vicente  da  Finta,  que  com  os  seus  parabéns, 
offereceu  um  cestinho  de  cachos  do  seu  famoso  mos- 


A    ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  461 


catei  tinto;  e  por  fim  o  Visconde  de  Rio-Manso,  que 
agarrado  a  Gonçalo,  soluçou,  no  enternecimento  quasi 
ufano  de  que  a  briga  assim  rompesse,  na  estrada, 
quando  «o  querido  amigo,  o  amigo  da  sua  Rosa»  se 
encaminhava  para  a  Varandinha.  Gonçalo,  afoguea- 
do, banhado  de  riso,  abraçava,  recontava  paciente- 
mente a  façanha,  acompanhava  até  ao  portão  aqael- 
les  cavalheiros,  que  ao  montar  as  egoas,  ao  entrar 
nas  caleches,  sorriam  para  a  velha  Torre,  escara  e 
rigida,  na  doce  claridade  da  tarde  de  Setembro,  co- 
mo saudando,  depois  do  heroe,  o  secular  fundamento 
do  seu  heroismo. 

E  o  Fidalgo,  galgando  as  escadas  para  a  livra- 
ria, de  novo  murmurava,  estonteado: 

—  Que  terão  dito  os  jornaes  de  Lisboa? 

Nem  dormiu,  na  anciedade  de  os  devorar.  Quan- 
do o  Bento,  em  alvoroço,  rompeu  pelo  quarto  com  o 
correio  —  Gonçalo  saltou,  arrojou  o  lençol,  como  se 
abafasse.  E  logo  no  Século,  soífregamente  percorrido, 
encontrou  o  telegramma  d'01iveira,  contando  o  as- 
salto! os  tiros  disparados!  a  immensa  coragem  do 
Fidalgo  da  Torre,  que  com  um  simples  chicote...  O 
Bento  quasi  arrebatou  o  Século  das  mãos  tremulas 
do  Fidalgo,  para  correr  á  cosinha,  bramar  á  Rosa  a 
noticia  gloriosa! 

De  tarde,  Gonçalo  correu  a  Villa-Clara,  á  As- 
sembleia, para  devorar  os  outros  jornaes  de  Lisboa, 


462  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


OS  do  Porto.  Todos  contavam,  todos  celebravam!' 
A  Gazeta  do  Porto,  attribuindo  o  attentado  a  Poli- 
tica, ultrajava  furiosamente  o  Governo.  O  Liberal 
Portuense,  porém,  relacionava  « com  certas  vingan- 
ças dos  republicanos  d'01iveira,  o  pavoroso  attenta- 
do que  quasi  causara  a  morte  d' um  dos  maiores  fi- 
dalgos de  Portugal  e  dTIespanha  e  d'um  dos  mais 
pujantes  talentos  da  nova  geração!»  Os  jornaes  de 
Lisboa,  glorificavam  sobre  tudo  «a  coragem  explen- 
dida  do  Snr.  Gonçalo  Ramires.»  E  o  mais  ardente 
era  a  Manhã,  n'um  verboso  artigo  (de  certo  escri- 
I)to  pelo  Castanheiro),  recordando  as  heróicas  tradi- 
ções da  Casa  illustre,  esboçando  as  bellezas  do  Cas- 
tello  de  Santa  Ireneia  e  terminando  por  affirmar  que 
«agora,  se  esperava  com  redobrada  anciedade  a  ap- 
«pariçâo  da  novella  de  Gonçalo  Ramires,  fundada  so- 
«bre  um  feito  de  seu  avô  Tructesindo  no  século  xii, 
«e  promettida  para  o  primeiro  numero  dos  AnnRes 
«de  Litteratura  e  de  Historia^  a  nova  Revista  do 
«nosso  querido  amigo  Lúcio  Castanheiro,  esse  bene- 
« mérito  restaurador  da  Consciência  heróica  de  Por- 
«tugal!»  — As  mãos  de  Gonçalo,  ao  desdobrar  os 
jornaes,  tremiam.  E  o  João  Gouveia,  também  sof- 
frego,  devorando  também  os  artigos,  por  sobre  o 
hombro  do  Fidalgo,  murmurava,  impressionado: 

—  Vossè,  Gonçalinho,  vae  ter  uma  votação  tre- 
menda I 


A   ILLUSrnE    CASA   DE  RAMIRES  4G3 


Depois  n'essa  noute,  recolhendo  á  Torre,  Gon- 
çalo encontrou  uma  carta  que  o  perturbou.  Era  de 
Maria  de  Mendonça,  n'um  papel  perfumado,  com  o  mes- 
mo perfume  que  tão  docemente  espalhava  D.  Anna, 
pelo  adro  de  Santa  Maria  de  Craquéde: — «Só  esta 
«manhã  soubemos  o  grande  perigo  que  passou,  e  fi- 
«camos  ambas  muito  commovidas.  Mas  ao  mesmo 
«tempo  eu  (e  não  só  eu)  muito  vaidosa  da  magni- 
«fica  coragem  do  primo.  É  d'um  verdadeiro  Rami- 
«res!  Eu  não  vou  ahi  abraçal-o  (com  risco  de  me 
« comprometter  e  fazer  invejas)  por  que  um  dos 
«  meus  pequenos,  o  Neco,  anda  muito  constipado.  Fe- 
«lizmente  não  é  cousa  de  cuidado...  Mas  aqui  todos, 
«até  os  pequenos,  anelamos  por  vêr  o  heroe,  e  não 
«creio  que  houvesse  nada  d'extraordinario,  nem 
ad'um  lado  nem  d'outro,  em  que  o  primo  por  aqui 
«apparecesse  além  d'amanhâ  (quinta  feira)  pelas  três 
«horas.  Dávamos  um  passeio  na  quinta,  e  até  se  me- 
« rendava,  á  boa  e  velha  moda  dos  nossos  avós.  Está 
«  dito  ?  Muitos  comprimentos,  muilos,  da  Annica,  e  o 
«  primo  creia-me,  etc.»  —  Gonçalo  sorriu,  pensativa- 
mente, considerando  a  carta,  recebendo  o  aroma. 
Nunca  a  prima  Maria  lhe  empurrara,  tão  claramente, 
a  D.  Anna  para  os  braços...  E  como  D.  Anna  se  dei- 
xava empurrar,  prompta,  e  d'olhos  cerrados . . .  Ah, 
se  íosse  somente  para  a  alcova!  Mas  ai!  era  também 
para  a  Egreja.  E  de  novo  sentia  aquelle  vozeirão  do 


464  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


Tito,  nos  degraus  da  portinha  verde  com  a  lua  cheia 
por  cima  dos  olmos  negros:  «Essa  creatura  teve  um 
amante,  e  tu  sabes  que  eu  nunca  minto?» 

Então  tomou  lentamente  a  penna,  respondeu 
a  D.  Maria  Mendonça:  —  «Querida  prima — Fiquei 
«muito  enternecido  com  o  seu  cuidado,  e  os  seus 
«enthusiasmos.  Não  exaggeremos!  Eu  não  fiz  mais 
«que  correr  a  chicote  uns  valentões  que  me  assal- 
te taram  a  tiro.  É  façanha  íacil  para  quem  tenha,  co- 
«mo  eu,  um  chicote  excellente.  Emquanto  á  visita 
« á  Feitosa,  que  me  seria  tão  agradável,  não  a  posso 
«realisar  com  fundo  pezar  meu,  nem  na  quinta-feira, 
«nem  mesmo  por  todo  este  mez...  Ando  occupadis- 
«simo  cora  o  meu  livro,  a  minha  Eleição,  a  minha 
«mudança  para  Lisboa.  A  era  dos  cuidados  sérios 
«soou  severamente  para  mim, —  cerrando  a  doce  era 
«dos  passeios  e  dos  sonhos.  Peço  que  apresente  á 
«Snr.''  D.  Anna  os  meus  profundos  respeitos.  E  com 
«muitas  amisades  para  si,  e  bons  desejos  pelo  resta- 
«belecimento  d'esse  querido  Neco,  espero  me  creia 
«sempre  seu  dedicado  e  grato  primo,  etc.» 

Fechou  vagarosamente  a  carta.  E  batendo  o  seu 
sinete  d'armas  sobre  o  lacre  verde,  pensava: 

—  Assim  aquelle  maroto  do  Tito  me  rouba  du- 
sentos  contos! . . . 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  '  465 


Durante  toda  essa  macia  semana  dos  fins  de  Se- 
tembro, Gonçalo  trabalhou  no  Capitulo  final  da  sua 
Novella. 

Era  emfim  a  madrugada  vingadora  em  que  os 
Oavalleiros  de  Santa  íreneia,  reforçados  pelas  mais 
nobres  lanças  da  mesnada  dos  Castros,  surprehen- 
diam,  no  bravio  desfiladeiro  marcado  por  Garcia 
Viegas,  o  Sabedor,  o  bando  de  Rayâo,  na  sua  aço- 
dada corrida  sobre  Coimbra  . . .  Briga  curta  e  íalsa, 
sem  destro  e  brioso  terçar  d'armas,  mais  semelhante 
a  montaria  contra  um  lobo  do  que  a  arremettida  con- 
tra um  Filho-de-Algo.  E  assim  a  desejara  Tructe- 
sindo,  com  ruidosa  approvaçâo  de  D.  Pedro  de  Cas- 
tro, por  que  não  se  cuidava  de  combater  um  inimigo, 
mas  de  colher  um  matador. 

Antes  do  luzir  d'alva,  o  Bastardo  abalara  do  cas- 
tello  de  Landim,  em  dura  pressa  e  com  tâo  descui- 
-dada  segurança,  que  nem  almogavar  nem  coudel  lhe 
atalayavam  os  trilhos.  As  cotovias  cantavam  quando 
elle,  em  áspero  trote,  penetrou  por  essa  brecha,  en- 
talada entre  escarpas  de  penedia  e  urze,  que  chamam 
a  Racha  do  Moiro,  desde  que  Maforaa  a  fendeu  para 
<jue  escapassem  as  adagas  christans  de  El-Rei  Fer- 
nando, o  Magno,  o  Alcaide  moiro  de  Coimbra  e  a 
monja  que  elle  arrebatara  á  garupa.  E  apenas  pela 
«sguia  greta  enfiara  a  derradeira  lança  da  fila  —  eis 


466  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMiJtES 


que  da  outra  embocadura  do  valle  surde  o  cerrado 
troço  dos  cavalleiros  de  Santa  Ireneia,  que  Tructe- 
sindo  guia,  com  a  viseira  erguida,  sem  broquel,  sa- 
cudindo apenas  uma  ascuma  de  monte  como  se  íol- 
gadamente  andasse  em  caçada.  Da  selva  arredada 
que  os  encobria,  rompem  por  traz  as  lanças  dos  Cas- 
tros, ristadas  e  cerrando  a  brecha  mais  densamente 
que  as  puas  d'uma  levadiça.  Do  recosto  dos  cerros 
rola,  como  represa  solta,  uma  rude  e  escura  peona- 
gem!  Colhido,  perdido,  o  Bastardo  terrível!  Ainda 
arranca  furiosamente  a  espada,  que  redomoinhando 
o  coroa  de  coriscos.  Ainda  com  um  fero  grito  arre- 
mette  contra  Tructesindo . . .  Mas  bruscamente,  d'en- 
tre  um  escuro  magote  de  fundeiros  baleares,  parte 
ondeando  uma  corda  de  canave,  que  o  laça  pela 
gargalheira,  o  arranca  n'um  brusco  sacão  da  sela 
mourisca,  o  derriba,  sobre  pedregulhos  em  que  a 
sua  larga  espada  se  entala  e  se  parte  rente  ao  pu- 
nho dourado.  E  emquanto  os  cavalleiros  de  Bayào 
aguentam  assombradamente  o  denso  cerco  de  lanças, 
que  os  envolvera  —  um  rolo  de  peões,  em  dura  grita, 
como  mastins  sobre  um  cerdo,  arrastam  o  Bastardo 
para  a  lomba  do  outeiro,  onde  lhe  arrancam  broquel 
e  adaga,  lhe  despedaçam  o  brial  de  lã  roxa,  lhe  que- 
bram os  fechos  do  elmo,  para  lhe  cuspirem  na  face, 
nas  barbas  côr  de  ouro,  tão  bellas  e  de  tanto  orgulho ! 
Depois  a  mesma  bruta  matula  o  iça,  amarrado. 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  467 


para  sobre  o  dorso  d' uma  possante  mula  de  carga,  o 
estende  entre  dous  esguios  caixotes  de  virotões,  co- 
mo rez  apanhada  ao  recolher  da  montaria.  E  servos 
da  carriagem  ficam  guardando  o  Cavalleiro  soberbo, 
o  Claro-Sol  que  aliumiava  a  casa  de  Bayâo,  agora 
entaipado  entre  dois  caixotes  de  pau,  cora  cordas 
nos  pés,  e  cordas  nas  mãos,  e  n'ellas  espetado  um 
triste  ramo  de  cardo  —  emblema  da  sua  traição. 

No  emtanto  os  seus  quinze  Cavalleiros  juncavam 
o  chão,  esmagados  sob  o  furioso  cerco  de  lanças  que 
os  investira — uns  hirtos,  como  adormecidos,  dentro 
das  negras  armaduras,  outros  torcidos,  desfeitos,  com 
as  carnes  retalhadas,  pendendo  horrendamente  entre 
malhas  rotas  dos  lorigaes.  Os  escudeiros,  colhidos, 
empurrados  a  pontoada  de  chuço  para  a  boca  d' uma 
barroca,  sem  resgate  ou  mercê,  como  alcateia  im- 
munda  de  roubadores  de  gado,  acabaram,  decepa- 
dos a  macheta  pelos  barbudos  estafeiros  leonezes. 
Todo  o  valle  cheirava  a  sangue  como  um  pateo  de 
magarefes.  Para  reconhecer  os  companheiros  do  Bas- 
tardo, uma  turma  de  cavalleiros  desafivelava  os  gor- 
jaes,  as  viseiras,  arrancando  furtivamente  as  meda- 
lhas de  prata,  os  bentos,  saquinhos  de  relíquias,  que 
todos  traziam  como  bem-tementes.  N'uma  face,  de  fi- 
na barba  negra,  que  uma  espuma  sangrenta  mancha- 
va, Mendo  de  Briteiros  reconheceu  seu  primo  Sueiro 


468  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


de  Lugilde  com  quem,  pela  fogueira  de  S.  João, 
íolgára  tão  docemente  e  bailara  no  castello  de 
Unhello, —  e  vergado  sobre  a  alta  sella  rezou,  pela  po- 
bre alma  sem  confissão,  uma  devota  Ave-Maria.  Fus- 
cas, tristonhas  nuvens,  abafavam  a  manhã  d'Agosto. 
E  afastados  á  entrada  do  valle,  sob  a  ramagem^  d'um 
velho  azinheiro,  Tructesindo,  D.  Pedro  de  Castro,  e 
Garcia  Viegas,  o  Sabedor,  decidiam  que  morte  lenta, 
e  bem  dorida  e  viltosa,  se  daria  ao  Bastardo,  Aillão 
de  tão  negra  vilta. 

Contando  assim  a  sombria  emboscada  com  o  ge- 
mente esforço  de  quem  empurra  um  arado  por  terra 
pedreira — gastara  Gonçalo  essa  doce  semana  de  Se- 
tembro. E  no  sabbado,  cedo,  na  livraria,  com  os  ca- 
bellos  ainda  molhados  do  banho  de  chuva,  esfregava 
as  mãos  deante  da  banca  —  porque  certamente  com 
duas  horas  de  attento  trabalho,  findaria  antes  d'al- 
moço  a  sua  Novella,  a  sua  Obra!  E  todavia  esse  fi- 
nal, quasi  o  repellia,  com  o  seu  sujo  horror.  O  tio 
Duarte  no  seu  Poemeto  apenas  o  esboçara,  com  es- 
quiva indecisão,  como  nobre  Lyrico  que  ante  uma 
visão  de  bruta  ferocidade  solta  um  lamento,  res- 
guarda a  Lyra,  e  desvia  para  sendas  mais  doces.  E, 
ao  tomar  a  penna,  Gonçalo  também,  realmente  la- 
mentava que  seu  avò  Tructesindo  não  matasse  ou- 
tr'ora  o  Bastardo,  no  fragor  da  briga,  com  uma  d'es- 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  469 


sas  cutiladas  maravilhosas,  e  tão  doces  de  celebrar, 
que  racham  o  cavalleiro  e  depois  racham  o  ginete, 
e  para  sempre  retinem  na  Historia. 

Mas  nâo!  Sob  a  folhagem  do  azinheiro,  os  três 
cavalleiros  combinavam  com  lentidão  uma  vingança 
terrífica.  Tructesindo  desejara  logo  recolher  a  Santa 
Ireneia,  alçar  uma  íorca  deante  das  barbacans,  no 
chão  em  que  seu  filho  rolara  morto,  e  n'ella  enforcar, 
depois  de  bem  açoitado,  como  villâo,  o  villâo  que  o 
matara.  O  velho  D.  Pedro  de  Castro,  porém,  aconse- 
lhava despacho  mais  curto,  e  também  gostoso.  Para 
que  rodear  por  Santa-Ireneia,  desbaratar  esse  dia 
d'Agosto  na  arrancada  que  os  levava  a  ^lontemór,  a 
soccorro  das  Intantas  de  Portugal  ?  Que  se  estendes- 
se o  Bastardo  amarrado  sobre  uma  trave,  aos  pés  de 
D'.  Tructesindo,  como  porco  pelo  Natal,  e  que  um  ca- 
vallariço  lhe  chamuscasse  as  barbas,  e  depois  outro, 
com  facalhâo  de  ucharia,  o  sangrasse  no  pescoço,  pa- 
chorrentamente. 

—  Que  vos  parece,  Snr.  D.  Garcia? 

O  Sabedor  desafivelára  o  casco  de  ferro,  limpava 
nas  rugas  o  suor  e  a  poeira  da  lide: 

—  Senhores  e  amigos!  Temos  melhor,  e  perto 
também,  sem  delongas  de  cavalgada,  logo  adiante 
destes  cerros,  no  Pego  das  Bichas . . .  E  nem  torce- 
mos caminho,  que  de  lá,  por  Tordezello  e  Santa  Ma- 
ria da  Varge,  endireitamos  a  Montemor,  tão  direitos 


470  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


como  v6a  o  corvo...  Confiae  em  mim,  Tructesindo! 
Confiae  em  mim,  que  eu  arranjarei  ao  Bastardo  tal 
morte  e  tâo  vil,  que  d'outra  egual  se  não  possa  con- 
tar desde  que  Portugal  foi  condado. 

—  Mais  vil  que  forca,  para  cavalleiro,  meu  ve- 
lho Garcia? 

—  Lá  vereis,  senhores  e  amigos,  lá  vereis! 

—  Seja!  Mandae  dar  ás  bozinas. 

Ao  commando  d'Aíionso  Gomes,  o  Alferes,  as 
bozinas  soaram.  Um  troço  de  besteiros  e  de  estafei- 
ros  Leoneses  rodearam  a  mula  que  carregava  o 
Bastardo  amarrado  e  entalado  entre  dois  caixotes. 
E  acaudilhada  por  D.  Garcia,  a  curta  hoste  metteu 
para  o  Pego  das  Bichas,  em  desbando,  com  os  se- 
nhores de  lança  espalhados,  como  em  marcha  de  fol- 
gança e  paz,  (?)  e  todos  n'uma  rija  fallada  recordando, 
entre  gabos  e  risos,  as  proezas  da  lide. 

A  duas  léguas  de  Tordezello  e  do  seu  castello 
formoso,  se  escondia  entre  os  cerros  o  Pego  das  Bi- 
chas. Era  um  lugar  de  eterno  silencio  e  de  eterna 
tristeza.  Em  esmerados  versos  lhe  marcara  o  tio 
Duarte  a  desolada  asperidâo : 


Nem  trillo  d'ave  em  balançado  raraol 
Nem  fresca  flor  junto  de  fresco  arroio! 
Só  rocha,  mattagal,  ribas  soturnas, 
E  em  meio  o  Pego,  tenebroso  e  morto ! . 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  471 


E  quando  os  primeiros  cavalleiros,  galgada  a 
lomba  dum  cerro,  o  avistaram,  na  melancholia  da 
manhã  nevoenta,  emmudeceram  da  larga  fallada,  re- 
pudiaram os  freios,  assustados  ante  tão  áspero  ermo, 
tão  propicio  a  Bruxas,  a  Avantesmas  e  a  Almas  pe- 
nadas. Deante  do  escalavrado  barranco,  por  onde  os 
ginetes  escorregavam,  ondulava  uma  ribanceira, 
aberta  com  charcos  lamacentos,  quasi  chupados  pela 
estiagem,  luzindo  pardamente,  por  entre  grossos  pe- 
dregulhos e  o  tojo  rasteiro.  Ao  íundo,  a  meio  tiro  de 
besta,  negrejava  o  Pego,  lagoa  estreita,  lisa,  sem  uma 
ruga  n'agua,  duramente  negra,  com  manchas  mais 
negras,  como  lamina  d'estanho  onde  alastrasse  a  fer- 
rugem do  tempo  e  do  abandono.  Em  torno  subiam 
os  cerros,  eriçados  de  matto  bravio  e  alto,  sulcados 
por  trilhos  de  saibro  vermelho  como  por  fios  de  san- 
gue que  escpresse;  e  rasgados  no  alto  por  pene- 
dias lustrosas,  mais  brancas  que  ossadas.  Tão  pesa- 
do era"  o  silencio,  tão  pesada  a  soledade,  que  o  velho 
D.  Pedro  de  Castro,  homem  de  tanta  jornada,  se  es- 
pantou : 

—  Feia  paragem !  E  voto  a  Christo,  a  Santa  Ma- 
ria, que  nunca  antes  de  nós,  n'ella  entrou  homem 
remido  pelo  baptismo. 

—  Pois,  Snr.  D.  Pedro  de  Castro !  accudiu  o  Sa- 
bedor, já  por  aqui  se  moveu  muita  lança,  e  luzida, 
e  ainda  em  tampos  do  Conde  D.  Sueiro,  e  de  vosso 


A  ILLUSTlíE  CASA  DE  RAMIRES 


rei  D.  Fernando,  se  erguia  n'aqaelia  beira  d'agua, 
uma  castellania  famosa!  Vede  além! — E  mostrava  na 
ponta  do  pego,  fronteira  ao  barranco,  dous  rijos  pi- 
lares de  pedra,  que  emergiam  da  agua  negra,  e  que 
chuva  e  vento  polira  como  mármores  finos.  Um  pas- 
sadiço de  traves,  sobre  estacas  limosas  e  meio  apo- 
drecidas, atava  a  margem  ao  mais  grosso  dos  pilares. 
E  a  meio  d' esse  rude  esteio  pendia  uma  argola  de 
ferro. 

No  em  tanto  já  o  tropel  da  peonagem  se  espa- 
lhara pela  ribanceira.  D.  Garcia  Viegas  desmontou, 
bradando  por  Pêro  Ermigues,  o  Coudel  dos  besteiros 
de  Santa  Ireneia.  E,  ao  lado  do  ginete  de  Tructesindo, 
risonho  e  gozando  a  surpreza,  ordenou  ao  Coudel 
que  seis  dos  seus  rijos  homens  descessem  o  Bastardo 
da  mula,  o  estirassem  no  chão,  o  despissem,  todo  nú. 
como  sua  mãe  barregã  o  soltara  á  negra  vida... 

Tructesindo  encarou  o  Sabedor,  franzindo  as  so- 
brancelhas hirsutas: 

—  Por  Deus,  D.  Garcia!  que  me  ides  simples- 
mente afogar  o  villâo,  e  sujar  essa  agua  innocente!... 

E  alguns  Cavalleiros,  em  redor,  murmuraram 
também  contra  morte  tão  quieta  e  sem  malicia.  Mas 
os  miúdos  olhos  de  D.  Garcia  giravam,  lampejavam 
de  triumpho  e  gosto: 

— Socegae,  socegae !  Velho  estou  certamente, 
mas  ainda  o  senhor  Deus  me  consente  algumas  tra- 


A  ILLUSTRE  CASA  I>E  RAMIRES  473 


ças.  Não!  Nem  enforcado,  nem  degolado,  nem  afo- 
gado... Mas  chupado,  senhores!  Chupado  em  vida,  e 
de  vagar,  pelas  grandes  sanguesugas  que  enchem  toda 
essa  agua  negra! 

D.  Pedro  de  Castro,  maravilhado,  bateu  o  guante 
nas  solhas  do  coxote: 

—  Vida  de  Christo!  Q\ig  ter  n" uma  hoste  o  Snr. 
D.  Garcia,  é  ter  juntamente,  para  marchas  e  conse- 
lho, enrolados  n"um  só,  Annibal  e  Aristóteles! 

Um  rumor  d'admiração  correu  pela  hoste: 

—  Boa  traça,  boa  traça! 

E  Tructesindo,  radiante,  bradava: 

—  Andar,  andar,  besteiros!  E  vós,  senhores,  re- 
cuae  para  a  lomba  do  cerro,  como  para  palanque, 
que  vae  ser  grande  a  vista!  Já  seis  besteiros  descar- 
regavam da  mula  o  Bastardo  amarrado.  Outros  cer- 
cavam, com  molhos  de  cordas.  E,  como  magarefes 
para  esfolar  uma  rez,  toda  a  rude  turma  se  abateu 
sobre  o  malfadado,  arrancando  por  cordas  que  des- 
atavam a  cervilheira,  o  saio,  as  grevas,  os  sapatões 
de  íerro,  depois  a  grossa  roupa  de  linho  encardido. 
Agarrado  pelos  compridos  cabellos,  fdado  pelos  pés, 
onde  se  cravavam  agudas  unhas  no  furor  de  o  man- 
ter, com  os  braços  esmagados  sob  outros  grossos  bra- 
ços retêsos,  o  possante  Bastardo  ainda  se  estorcia, 
urrando,  cuspindo  contra  as  faces  confusas  da  ma- 
tulagem  um  cuspo  avermelhado,  que  espumava! 


474  A  ILLUSTRK  CASA  DE  RAMIRES 


Mas,  por  entre  o  escuro  tropel  que  o  cobria,  o 
seu  corpo,  todo  despido,  branquejava,  atado  com  cor- 
das mais  grossas.  Lentamente  o  seu  furioso  urrar 
esmorecia,  arquejado  e  rouquenho.  E  um  após  outro 
se  erguiam  os  besteiros,  esfalfados,  bufando,  limpando 
o  suor  do  esforço. 

No  emtanto  os  Cavalleiros  d'Hespanha,  de  Santa 
Ireneia,  desmontavam  cravando  o  couto  das  lanças 
entre  o  tojo  e  as  pedras.  Todos  os  recostos  dos  ou- 
teiros se  cubriam  da  mesnada  espalhada,  como  pa- 
lanques em  tarde  de  justa.  Sobre  uma  rocha  mais 
lisa,  que  dous  magros  espinheiros  toldavam  de  folha 
rala,  um  pagem  estendera  pelles  d'ovelha  para  o 
Snr.  D.  Pedro  de  Castro,  para  o  senhor  de  Santa 
Ireneia.  Mas  só  o  velho  Castellão  se  accommodou, 
para  uma  repousada  delonga,  desaíivelando  o  seu 
corselete  de  ferro  tauxeado  d'ouro. 

Tructesindo  permanecera  erguido,  mudo,  com 
os  guantes  apoiados  ao  punho  da  sua  alta  espada, 
os  olhos  fundos  avidamente  cravados  na  tenebrosa 
lagoa  que,  com  morte  tão  fera  e  tão  suja,  vingaria 
seu  filho...  E  pela  borda  do  Pego,  peões,  e  alguns 
cavalleiros  d'Hespanha,  remexiam  com  virotòes,  com 
os  coutos  das  ascumas,  a  agua  lodosa,  na  curiosidade 
das  negras  bichas  escondidas,  que  o  povoavam. 

Subitamente  a  um  brado  de  D.  Garcia,  que  ron- 
dava, toda  a  chusma  de  peões  amontoada  em  torno 


A   ILLUSTRE   CASA    DE   RAMIRES  473 


ao  Bastardo  se  arredou:  —  e  o  íorte  corpo  appareceu, 
nú  e  branco,  sobre  a  terra  negra,  com  um  denso 
pello  ruivo  nos  peitos,  a  sua  virilidade  afogada  n'ou- 
tra  matta  de  pello  ruivo,  e  todo  ligado  por  cordas  de 
canave  que  o  inteiriçavam.  N'aquella  rigidez  de  fardo, 
nem  as  costellas  arfavam —  apenas  os  olhos  reful- 
giam, ensanguentados,  horrendamente  esbugalhados 
pelo  espanto  e  pelo  íuror.  Alguns  cavalleiros  corre- 
ram a  mirar  a  aviltada  nudez  do  homem  famoso  de 
Bayâo.  O  senhor  dos  Paços  d'Argelim  mofou,  com 
estrondo : 

—  Bem  o  sabia,  por  Deus!  Corpo  de  manceba, 
sem  costura  de  lerida ! . . . 

Leonel  de  Çamora  raspou  o  sapato  de  íerro  pelo 
hombro  do  malfadado: 

—  Vede  este  Claro-Sol,  tão  claro,  que  se  apaga 
agora,  em  agua  tão  negra! 

O  Bastardo  cerrava  duramente  as  pálpebras, — 
d'onde  duas  grossas  lagrimas  escaparam,  lentamente 
rolaram . . .  Mas  um  agudo  pregão  resoou  pela  ri- 
banceira: 

—  Justiça!  Justiça! 

Era  o  Adail  de  Santa  íreneia,  que  marchava, 
sacudia  uma  lança,  atroava  os  cerros: 

—  Justiça!  justiça  que  manda  lazer  o  Senhor 
de  Treixedo  e  de  Santa  íreneia,  n'um  perro  mata- 


476  A   ILLLSTRE  CA.SA  DE  RAMIRES 


dor!...  Justiça  num  perro,  filho  de  perra,  que  ma- 
tou vilmente,  e  assim  morra  vilmente  por  ella!... 

Trez  vezes  pregoou  por  deante  da  hoste  api- 
nhada nos  cerros.  Depois  quedou,  saudou  humilde- 
mente Tructesindo  Ramires,  o  velho  Castro,  —  como 
a  julgadores  no  seu  Estrado  de  julgamento. 

— Aviae,  aviae!  bradava  o  Senhor  de  Santa  Ire- 
neia. 

Immediatamente,  a  um  com  mando  do  Sabedor, 
seis  besteiros,  com  as  pernas  embrulhadas  em  man- 
tas da  carga,  ergueram  o  corpo  do  Bastardo  como 
se  ergue  um  morto  enrolado  no  seu  lençol,  e  com 
elle  entraram  na  agua,  até  ao  mais  alto  pilar  de  gra- 
nito. Outros,  arrastando  molhos  de  cordas,  correram 
pelo  limoso  passadiço  de  traves.  Com  um  alarido 
({'aguenta!  endire/ta !  alça!  n'um  desesperado  es- 
forço o  robusto  corpo  branco  foi  mergulhado  n'agua 
até  ás  virilhas,  arrimado  ao  mais  alto  pilar,  depois 
n'elle  atado  com  um  longo  calabre  que,  passando 
pela  argola  de  ferro,  o  suspendia,  sem  escorregar, 
tão  seguro  e  coUado  como  um  rolo  de  vela  que  se 
amarra  ao  mastro.  Rapidamente  os  besteiros  fugiram 
dagoa,  desentrapando  logo  as  pernas,  que  palpa- 
vam, raspavam  no  horror  das  bichas  sugadoras.  Os 
outros  recolheram  pelo  passadiço,  n'uma  fda  que  se 
empurrava.  No  Pego  ficava  Lopo  de  Bayâo  bem  ar- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  477 


ranjado  para  a  vistosa  morte  lenta,  com  a  agoa  que 
já  o  aíogava  até  ás  pernas,  com  cordas  que  o  enros- 
cavam até  ao  pescoço  como  a  um  escravo  no  poste; 
€  uma  espessa  mecha  dos  cabellos  louros  laçada  na  ar- 
gola de  ferro,  repuxando  a  face  clara,  para  que  todos 
n'ella  gozassem  largamente  a  humilhada  agonia  do 
Claro-SoL 

Então  o  attento  da  hoste,  esperando  espalhada 
pelos  recostos  dos  cerros,  mais  entristeceu  o  ene- 
voado silencio  do  ermo.  A  agoa  jazia  sem  um  ar- 
repio, com  as  suas  manchas,  negras  como  uma  la- 
mina d'estanho  eníerrujado.  Entre  as  cristas  das 
rochas,  archeiros  postados  pelo  Sabedor,  atalaiavam, 
para  além,  os  descampados.  Um  alto  vôo  de  gralha 
atrevessou  grasnando.  Depois  um  bafo  lento  agitou 
as  flâmulas  das  lanças  cravadas  no  tojo  denso. 

Para  despertar,  aviar  a  lentidão  das  bichas,  alguns 
peões  atiravam  pedras  á  agoa  lodosa.  Já  alguns  caval- 
leiros  hespanhoes  rosnavam  impacientes  com  a  delon- 
ga, n'aquella  cova  abafada.  Outros,  descendo  agacha- 
dos a  borda  da  lagoa,  para  mostrar  que  falladas  bichas 
nunca  acudiriam,  mergulhavam  lentamente,  n'agoa 
negra,  as  mãos  descalçadas,  que  depois  sacudiam, 
rindo,  e  mofando  o  Sabedor . . .  Mas  de  repente  um 
estremeção  sacudiu  o  corpo  do  Bastardo;  os  seus 
rijos  músculos,  no  furioso  esforço  de  se  desprende- 
rem, inchavam  entre  as  cordas,  como  cobras  que  se 


478  A  ILLUSTRE  CASA  DE  HAMIIÍES 


arqueiam;  dos  beiços  arreganhados  romperam,  em 
rugidos,  em  grunhidos,  ultrages  e  ameaças  contra 
Tructesindo  covarde,  e  contra  toda  a  raça  de  Ra- 
mires, que  elle  emprasava,  dentro  do  anno,  para 
as  labaredas  do  Inferno!  indignado,  um  Cavalleiro 
de  Santa  Ireneia  agarrou  uma  besta  de  garrunche,  a 
que  retesou  a  corda. 

Mas  D.  Garcia  deteve  o  arremesso: 
—  Por  Deus,  amigo!  Não  roubeis  ás  sanguesu- 
gas  nem  uma  pinga  d'aquelle  sangue  fresco!...  Vede 
como  vêem!  vede  como  vêem! 

Na  agoa  espessa,  em  torno  ás  coxas  mergulha- 
das do  Bastardo,  um  frémito  corria,  grossas  bolhas 
empolavam, — e  d'ellas,  mollemente,  uma  bicha  sur- 
dio,  depois  outra  e  outra.  Insidias  e  negras,  que  on- 
dulavam, se  collavam  á  branca  pelle  do  ventre,  d'onde 
pendiam,  chupando,  logo  engrossadas,  mais  lustrosas 
com  o  lento  sangue  que  já  escorria.  O  Bastardo  emr 
mudecêra  —  e  os  seus  dentes  batiam  estridente- 
mente. Enojados,  até  rudes  peões  desviaram  a  íace 
cuspindo  para  as  urzes.  Outros,  porém,  chasqueavam, 
assuavam  as  bichas,  gritando — a  elle,  donzellas!  a 
elle!  E  o  gentil  Çaraora  de  Cendufe,  clamava  rindo 
contra  tão  ensossa  morte!  Por  Deus!  Uma  apostura 
de  bichas,  como  a  enfermo  d"almorreimas.  Nem  era 
sentença  de  Rico-Homem  —  mas  receita  d'herbaaista 
moiro ! 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  479 


—  Pois  que  raais  quereis,  meu  Leonel?  acudio 
alegremente  o  Sabedor,  resplandecendo.  Morte  é  esta 
para  se  contar  em  livros!  E  não  tereis  este  inverno 
serão  á  lareira,  por  todos  os  solares  de  Minho  a 
Douro,  em  que  não  volte  a  historia  d'este  Pego,  e 
d'este  feito!  Olhae  nosso  primo  Tructesindo  Rami- 
res! Formosos  tratos  presenceou  de  certo  era  tão 
longo  lidar  d'armas!...  E  como  goza!  tão  attento!  tão 
maravilhado ! 

Na  encosta  do  outeiro,  junto  do  seu  balsâo,  que 
o  Alferes  cravara  entre  duas  pedras,  e  como  elle 
tão  quedo,  o  velho  Ramires  não  despregava  os  olhos 
do  corpo  do  Bastardo,  com  deleite  bravio,  n'um  ful- 
gor sombrio.  Nunca  elle  esperara  vingança  tão  ma- 
gnifica! O  homem  que  atara  seu  filho  com  cordas, 
o  arrastara  n'umas  andas,  o  retalhara  a  punhal  deante 
das  barbacans  da  sua  Honra  —  agora,  vilmente  nú, 
amarrado  também  como  cerdo,  pendurado  d'um  pi- 
lar, emergido  n'uma  agoa  suja,  e  chupado  por  san- 
guesugas,  deante  de  duas  mesnadas,  das  melhores 
d"Hespanha,  que  miravam,  que  moíavam!  Aquelle 
sangue,  o  sangue  da  raça  detestada,  não  o  bebia  a 
terra  revolta  n'uma  tarde  de  batalha,  escorrendo  de 
ferida  honrada,  atravez  de  rija  armadura — mas,  gota 
a  gota,  escuramente  e  mollemente  se  sumia,  sorvido 
por  nojentas  bichas,  que  surdiam  famintas  do  lodo 
e  no  lodo  recahiam  fartas,  para  sobre  o  lodo  bolsar 


480  A    ILLUSTRE    CASA   DE  RAMIRES 


O  orgulhoso  sangue  que  as  enfartara.  N'um  charco, 
onde  elle  o  mergulhara,  viscosas  bichas  bebiam  so- 
cegadamente  o  cavalleiro  de  Bayâo!  Onde  houvera 
homizio  de  solares  fundado  em  desforra  mais  doce? 
E  a  íera  alma  do  velho  acompanl^ava,  com  ine- 
xorável goso,  as  sanguesugas  subindo,  espalhada- 
mente alastrando  por  aquelle  corpo  bem  amarrado, 
como  seguro  rebanho  pela  encosta  da  collina  onde 
pasta.  O  ventre  já  desapparecia  sob  uma  cam.ada 
viscosa  e  negra,  que  latejava,  relusia  na  humidade 
morna  do  sangue.  Uma  fila  sugava  a  cinta,  encovada 
pela  anciã,  d'onde  sangue  se  esfiava,  n'uma  franja 
lenta.  O  denso  pello  ruivo  do  peito,  como  a  espes- 
sura d' uma  selva,  detivera  muitas,  que  ondulavam, 
com  um  rasto  de  lodo.  Um  montão  ennovelado  san- 
grava um  braço.  As  mais  íartas,  já  inchadas,  mais 
relusentes,  despegavam,  tombavam  mollemente :  mas 
logo  outras,  famintas,  se  aferravam.  Das  chagas  aban- 
donadas o  sangue  escorria  delgado,  represo  nas 
cordas,  d'onde  pingava  como  uma  chuva  rala.  Na 
escura  agoa  boiavam  gordas  postemas  de  sangue 
esperdiçado.  E  assim  sorvido,  ressumando  sangue, 
o  malfadado  ainda  rugia,  atravez  ultrages  immun- 
dos,  ameaças  de  mortes,  de  incêndios,  contra  a  raça 
dos  Ramires!  Depois,  com  um  arquejar  em  que  as 
cordas  quasi  estalavam,  a  bocca  horrendamente  es- 
cancarada e  ávida,   rompia   aos  roucos   urros,   im- 


A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES  48i 


piorando  n<joa,  agoal  No  seu  íuror  as  unhas,  que 
uma  volta  de  amarras  lhe  collára  contra  as  íortes 
coxas,  esfarrapavam  a  carne,  cravavam -se  na  fenda 
esfarrapada,  ensopadas  de  sangue. 

E  o  furioso  tumulto  esmorecia  n'um  longo  ge- 
mer cançado  —  até  que  parecia  adormecido  nos  gros- 
sos nós  das  cordas,  as  barbas  relusindo  sob  o  suor 
que  as  alagara  como  sob  um  grosso  orvalho,  e  entre 
ellas  a  espantada  lividez  d' um  sorriso  delirado. 

No  emtanto  já  na  hoste  derramada  pelos  cerros, 
como  por  um  palanque,  se  embotara  a  curiosidade 
bravia  d'aquelle  supplicio  novo.  E  se  acercava  a 
hora  da  ração  de  meridiana.  O  Adail  de  Santa  íre- 
neia,  depois  o  Almocadem  Hespanhol,  mandaram 
soar  os  anafins.  Então  todo  o  áspero  ermo  se  ani- 
mou com  uma  faina  d'arraial.  O  almazem  das  duas 
mesnadas  parara  por  detraz  dos  morros,  n'uma  curta 
almargem  d'herva,  onde  um  regato  claro  se  arrastava 
nos  seixos,  por  entre  as  raizes  de  amieiros  chorões. 
N'uma  pressa  esfaimada,  saltando  sobre  as  pedras, 
os  peões  corriam  para  a  fila  dos  machos  de  carga, 
recebiam  dos  uchões  e  estaleiros  a  fatia  de  carne,  a 
grossa  metade  d'um  pão  escuro:  e,  espalhados  pela 
sombra  do  arvoredo,  comiam  com  silenciosa  lenti- 
dão, bebendo  da  agoa  do  regato  pelas  concas  de 
pau.  Depois  preguiçavam,  estirados  na  relva,  —  ou 
trepavam  em  bando  pela  outra  encosta  dos  morros, 

31 


482  A  ILI.USTIUÍ  CASA   DE  RAMIltES 


através  do  matto,  na  esperança  d'atravessar  com  um 
virote  alguma  caça  erradia.  Na  ribanceira,  deante 
da  lagòa,  os  cavalleiros,  sentados  sobre  grossas  man- 
tas, comiam  também,  em  roda  dos  alforges  abertos, 
cortando  com  os  punhaes  nacos  de  gordura  nas 
grossas  viandas  de  porco,  empinando,  em  longos  tra- 
gos, as  bojudas  cabaças  de  vinho. 

Convidado  por  D.  Pedro  de  Castro,  o  velho  Sa- 
bedor descançava,  partilhando  d'ama  larga  escudella. 
de  barro,  cheia  de  bolo  papal,  d'um  bolo  de  mel 
e  ílòr  de  farinha,  onde  ambos  enterravam  lentamente 
os  dedos,  que  depois  limpavam  ao  lorro  dos  morriões. 
Só  o  velho  Tructesindo  não  comia,  não  repousava, 
hirto  e  mudo  deante  do  seu  pendão,  entre  os  seus 
dous  mastins,  n'aquclle  fero  dever  de  acompanhar,, 
sem  qae  lhe  escapasse  um  arrepio,  um  gemido,  um 
íio  de  sangue,  a  agonia  do  Bastardo.  Debalde  o  Cas- 
fellão,  estendendo  para  elle  um  pichei  de  prata,  ga- 
bava o  seu  vinho  de  Tordesillas,  fresco  como  ne- 
nhum d'Aquilat  ou  de  Provins,  para  a  sede  de  tão 
rija  arrancada.  O  velho  Rico-Homem  nem  atten- 
dera:  —  e  D.  Pedro  de  Castro,  depois  de  atirar  dous 
pães  aos  alões  fieis,  recomeçou  discorrendo  com 
Garcia  Viegas  sobre  aquelle  teimoso  amor  do  Bas- 
tardo por  Violante  Ramires  que  arrastara  a  tantos 
homizios  e  furores. 

—  Ditosos  nós,  Snr.  D.  Garcia!  Nós   a   quem  a 


A  ILLLSTHE  CASA  DE  RAMIRES  483 


edade  e  o  quebranto  e  a  fartura  já  arredam  d"essas 
tentações...  Que  a  mulher,  como  m'ensinava  certo 
Physico  quando  eu  andava  com  os  moiros,  é  vento 
que  consola  e  clieira  bem,  mas  tudo  enrodilha  e  es- 
bandalha.  Vede  como  os  meus  por  ellas  penaram! 
Só  meu  pae,  com  aquella  desvairança  de  zelos,  em 
que  matou  a  cutello  minha  doce  madre  Estevani- 
nha.  E  cila  tão  santa,  e  filha  do  Imperador!  A  tudo, 
tudo  leva,  a  tonta  ardência !  Até  a  morrer,  como  es- 
te, sugado  por  bichas,  deante  d'uma  hoste  que  me- 
renda e  moía.  E  por  Deus,  quanto  tarda  em  morrer, 
Snr.  D.  Garcia  ! 

—  Morrendo  está,  Snr.  D.  Pedro  de  Castro.  E 
já  com  o  demo  ao  lado  para  o  levar ! 

O  Bastardo  morria.  Entre  os  nós  das  cordas  en- 
sanguentadas todo  elle  era  uma  ascorosa  aventesma 
escarlate  e  negra  com  as  viscosas  pastas  de  bichas 
que  o  cobriam,  latejando  com  os  lentos  fios  de  san- 
gue que  de  cada  ferida  escorriam,  mais  copiosos  que 
os  regos  dhumidade  por  um  muro  denegrido. 

O  desesperado  arquejar  cessara,  e  a  anciã  con- 
tra as  cordas,  e  todo  o  furor.  Molle  e  inerte  como 
um  fardo,  apenas  a  espaços  esbogalhava  horrenda- 
mente os  olhos  vagarosos,  que  revolvia  em  torno 
com  enevoado  pavor.  Depois  a  face  abatia,  livida  e 
flaccida,  cora  o  beiço  pendurado,  escancarando  a  boc- 
ca  em  cova  negra,  d'onde  se  escoava  uma  baba  en- 


484  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


sanguentada.  E  das  pálpebras  novamente  cerradas, 
entumecidas,  um  muco  gotejava,  também  como  de 
lagrimas  engrossadas  com  sangue. 

A  peonagem,  no  emtanto,  voltando  da  ração,  rea- 
tulhava  a  ribanceira,  pasmava,  com  rudes  chulas 
para  o  corpo  pavoroso  que  as  bichas  ainda  suga- 
vam. Já  os  pagens  recolhiam  manteis  e  alforges. 
D.  Pedro  de  Castro  descera  do  cabeço  com  o  Sabe- 
flor  até  â  borda  da  agoa  lodosa,  onde  quasi  mergu- 
lhava os  sapatos  de  íerro,  para  contemplar,  mais  de 
cerca,  o  agonisante  de  tão  rara  agonia !  E  alguns  se- 
nhores, estafados  com  a  delonga,  afivelando  os  giba- 
netes,  murmuravam  :  —  «  Está  morto !  Está  acabado ! » 
Então  Garcia  Viegas  gritou  ao  Coudel  dos  Bes- 
teiros : 

. — Ermigues,  ide  vêr  se  ainda  resta  alento  na- 
quella  postema. 

O  Coudel  correu  pelo  passadiço  de  traves,  e  ar- 
repiado de  nojo  palpou  a  livida  carne,  acercou  da 
bocca,  toda  aberta,  a  lamina  clara  da  adaga  que  des- 
embainhara. 

—  ]Morto !  morto !  —  gritou. 

Estava  morto.  Dentro  das  cordas  que  o  arroxea- 
vam o  corpo  escorregava,  engilhado,  chupado,  esva- 
siado.  O  sangue  já  não  manava,  havia  coalhado  em 
postas  escuras,  onde  algumas  bichas  teimavam  late- 
jando, relusindo.  E  outras  ainda  subiam,  tardias.  Duas, 


A  ILLLSTOE  CASA  DE  RAMIRES  485 


enormes,  remexiam  na  orelha.  Outra  tapava  um  olho. 
O  Claro-Sol  não  era  mais  que  uma  immundice  que 
se  decompunha.  Só  a  madeixa  dos  cabellos  louros, 
repuxada,  presa  na  argola,  relusia  com  um  lam- 
pejo de  chamma,  como  rastro  deixado  pela  ardente 
alma  que  tugira. 

Com  a  adaga  ainda  desembainhada,  e  que  sacu- 
dia, o  Coudel  avançou  para  o  vSenhor  de  Santa  íre- 
neia,  bradou: 

—  Justiça  está  feita,  que  mandastes  fazer  no 
perro  matador  que  morreu! 

Então  o  velho  Rico-Homem  atirando  o  braço,  o 
cabelludo  punho,  com  possante  ameaça,  bradou,  n'um 
rouco  brado  que  rolou  por  penhascos  e  cerros: 

—  Morto  está!  E  assim  morra  de  morte  infame 
quem  traidoramente  me  affronte  a  mim  e  aos  da 
minha  raça! 

Depois,  cortando  rigidamente  pela^  encosta  do 
cerro,  atravez  do  matto,  e  com  um  largo  aceno  ao 
Alteres  do  Pendão: 

—  Aífonso  Gomes,  mandae  dar  as  bozinas.  E  a 
cavallo,  se  vos  praz,  Snr.  D.  Pedro  de  Castro,  pri- 
mo e  amigo,  que  leal  e  bom  me  fostes!... 

O  Caatellào  ondeou  risonhamente  o  guante: 

—  Por  Santa  Maria,  primo  e  amigo!  que  gosto 
e  honra  os  recebi  de  vós.  A  cavallo  pois  se  vos  praz ! 
(Jue  nos  promette  aqui  o  Snr.  D.  Garcia  vermos  ain- 
da, com  sol  muito  alto,  os  muros  de  Monte-mór. 


l86  A   ILUSTRE   CASA   DE  RAMIRES 


Já  a  peonagem  cerrava  as  quadrilhas,  os  don- 
zeis  d'armas  puxavam  para  a  ribanceira  os  ginetes 
folgados  que  a  vasta  agua  escura  assustava.  E,  com 
os  dous  balsões  tendidos,  o  Açor  negro,  as  Treze  Ar- 
ruellas,  a  fila  da  cavalgada  atirou  o  trote  pelo  bar- 
ranco empinado,  d'onde  as  pedras  soltas  rolavam. 
No  alto,  alguns  cavalleiros  ainda  se  torciam  nas 
sellas  para  silenciosamente  remirarem  o  homem  de 
Bayão,  que  lá  ficava,  amarrado  ao  pilar,  na  solidão  do 
Pego,  a  apodrecer.  Mas  quando  a  ala  dos  besteiros 
e  fundibularios  de  Santa  íreneia  desfilou,  uma  rija 
grita  rompeu,  com  chufas,  sujas  injurias  ao  «perro  ma- 
tador». A  meio  da  escarpa,  um  besteiro,  virando,  re- 
tezou  furiosamente  a  besta.  A  comprida  garruncha 
apenas  varou  a  agua.  Outra  logo  zinio,  e  uma  baia 
de  funda,  e  uma  setta  barbada,— que  se  espetou  na 
ilharga  do  Bastardo,  sobre  um  negro  novello  de  bi- 
chas. O  Coudel  berrou;  «cerra!  anda!»  A  recua  das 
azemolas  de  carga  avançava,  sob  o  estralar  dos  lá- 
tegos: os  moços  da  carriagem  apanhavam  grossos 
pedregulhos,  apedrejavam  o  morto.  Depois  os  servos 
carreteiros  marcharam,  nos  seus  curtos  saios  de 
couro  crú,  balançando  um  chuço  curto:  —  e  o  capa- 
taz apanhou  simplesmente  esterco  das  bestas,  que 
chapou  na  íace  do  Bastardo  sobre  as  finas  barbas 
d'ouro. 


XI 


Ouando  Gonçalo,  estafado  e  já  todo  o  ardor  bru- 
xuleando, retocou  este  derradeiro  traço  da  affronta  — 
a  sineta  no  corredor  repicava  para  o  almoço.  Em- 
fim!  Deus  louvado!  eis  finda  essa  eterna  Torre  de 
Ramires !  Quatro  mezes,  quatro  penosos  mezes  desde 
Junho,  trabalhara  na  sombria  resurreição  dos  seus 
avós  bárbaros.  Com  uma  grossa  e  carregada  lettra, 
traçou  no  fundo  da  tira  Finis.  E  datou,  com  a  hora, 
que  era  do  meio-dia  e  quatorze  minutos. 

IMas  agora,  abandonada  a  banca  onde  tanto  la- 
butara, não  sentia  o  contentamento  esperado.  Até 
esse  supplicio  do  Bastardo  lhe  deixara  uma  aversão 
por  aquelle  remoto  mundo  Affonsino,  tão  bestial,  tão 
deshumano!  Se  ao  menos  o  consolasse  a  certeza  de 
que  reconstituirá,  com  luminosa  verdade,  o  ser  mo- 
ral d'esses  avós  bravios...  Mas  que!  bem  receava 


488  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


que  sob  desconcertadas  armaduras,  de  pouca  exacti- 
dão archeologica,  apenas  s'esfumassera  incertas  al- 
mas de  nenhuma  realidade  histórica!...  Até  duvidava 
que  sanguesugas  recobrissem,  trepando  d'um  charco, 
o  corpo  d'ura  homem,  e  o  sugassem  das  coxas  ás 
barbas,  em  quanto  uma  hoste  mastiga  a  ração!... 
Emfira,  o  Castanheiro  louvara  os  primeiros  Capitu- 
los.  A  Multidão  ama,  nas  Novellas,  os  grandes  furo- 
res, o  sangue  pingando:  e  em  breve  os  Annaes  es- 
palhariam, por  todo  o  Portugal,  a  fama  d"aquella  Casa 
illustre,  que  armara  mesnadas,  arrasara  castellos, 
saqueara  comarcas  por  orgulho  de  pendão,  e  aí- 
frontára  arrogantemente  os  Reis  na  cúria  e  nos  cam- 
pos de  lide.  O  seu  verão,  pois,  íôra  fecundo.  E  para 
o  coroar,  eis  agora  a  Eleição,  que  o  libertava  das 
melancolias  do  seu  buraco  rural... 

Para  não  retardar  as  visitas  ainda  devidas  aos 
Influentes,  e  também  para  espairecer,  logo  depois 
d'aImoço  montou  a  cavallo  -  apezar  do  calor,  que 
desde  a  véspera,  e  n'aquelle  meado  d"outubro,  es- 
magava a  aldeia  com  o  refulgente  peso  d' uma  ca- 
nicula  d'Agosto.  Na  volta  da  estrada  dos  Bravaes  um 
homem  gordo,  de  calça  branca  enxovalhada,  que 
s'apressava,  bufando,  sob  o  seu  guarda-sol  de  pan- 
ninho  vermelho,  deteve  o  Fidalgo  com  uma  corte- 
zia  iinraensa.  Era  o  Godinho,  amanuense  da  Admi- 
nistração. Levava  um  officio  urarentc  ao  Regedor  dos 


A   ILLUSTRE   CASA   DE   RAMIRES  489 


Bravaes,  e  agora  corria  á  Torre  de  mandado  do  Snr. 
Administrador... 

Gonçalo  recuou  a  egoa  para  a  sombra  d' uma 
carvalha: 

—  Então  que  temos,  amigo  Godinho? 

O  Snr.  Administrador  annunciava  a  S.  Ex.''  que  o 
maroto  do  Ernesto,  o  valentão  de  Nacejas,  em  tra- 
tamento no  Hospital  d'01iveira,  melhorara  conside- 
ravelmente. Já  lhe  repegára  a  orelha,  a  bocca  solda- 
va... E,  como  se  procedeu  á  querella,  o  patife  pas- 
sava da  enfermaria  para  a  cadeia  . . . 

Gonçalo  protestou  logo,  com  uma  palmada  no 
selim: 

— Não  senhor!  Faça  o  obsequio  de  dizer  ao  Snr. 
João  Gouveia  que  não  quero  que  se  prenda  o  ho- 
mem !  Foi  atrevido,  apanhou  uma  dose  tremenda, 
estamos  quites. 

—  Mas  Snr.  Gonçalo  Mendes..  . 

—  Pelo  amor  de  Deus,  amigo  Godinho!  Não  que- 
ro, e  não  quero...  Explique  bem  ao  Snr.  João  Gou- 
veia . . .  Detesto  vinganças.  Não  estão  nos  meus  há- 
bitos, nem  nos  hábitos  da  minha  íamilia.  Nunca 
houve  uin  Ramires  que  se  vingasse...  Quero  dizer, 
sim,  houve,  mas...  Emíim  explique  bem  ao  Snr.  João 
Gouveia.  De  resto  eu  logo  o  encontro,  na  Assem- 
bleia...  Bem   basta   ao  homem  ficar  desfeiado.  Não 


490  A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


consinto  que  o  apoquentem  mais!...  Detesto  íeroci- 
dades. 

—  Mas... 

—  Esta  é  a  minha  decisão,  Godinho. 

—  Lei,  darei  o  recado  de  V.  Ex.'"^ 

—  Obrigado.  E  adeus!...  Que  calor,  hein! 

—  De  rachar,  Snr.  Gonçalo  Mendes,  de  rachar! 
Gonçalo  seguiu,  revoltado   pela  ideia  de  que  o 

pobre  valentão  de  Nacejas,  ainda  moido,  com  a  ore- 
lha mal  soldada,  baixasse  á  sórdida  enxovia  de  Villa- 
Clara,  para  dormir  sobre  uma  taboa.  Pensou  mesmo 
em  galopar  para  Villa-Clara,  reter  o  zelo  legal  do 
.íoão  Gouveia.  Mas  perto,  adeante  do  lavadoiro,  era 
a  casa  d'uin  Influente,  o  João  Firmino,  carpinteiro  e 
seu  compadre.  E  para  lá  trotou,  apeando  ao  portal 
do  quinteiro.  O  compadre  Firmino  largara  cedo  para 
a  Arribada,  onde  trabalhava  nas  obras  do  lagar  do 
Snr.  Esteves.  E  foi  a  comadre  Pirmina  que  correu 
da  cosinha,  obesa  e  lusidia,  com  dous  pequenos  de- 
pendurados das  saias  e  mais  sujos  que  esíregões.  O 
Fidalgo  beijou  ternamente  as  duas  íaces  ramelosas: 
— E  que  rico  cheiro  a  pâò  iresco,  oh  comadre! 
Foi  a  fornada,  hein?  Pois  então  grande  abraço  ao  Fir- 
mino. E  que  se  não  esqueça!  A  Eleição  vem  para  o 
outro  Domingo.  Lá  conto  com  o  voto  d'elle.  E  olhe 
que  não  é  pelo  voto,  é  pela  amisade. 


A    ILUSTRE   CASA    DE   RAMIRES  491 


A  comadre  arreganhava  os  dentes  magníficos 
n'um  regalado  e  gordo  riso:  —  «Ai  o  Fidalgo  podia  fi- 
car seguro!  Hue  o  Firmino  já  jurara,  até  ao  Snr. 
Regedor,  que  para  o  Fidalgo  era  todo  o  sitio  a  vo- 
tar, e  quem  não  fosse  a  amor  ia  a  pau.»  O  Fidalgo 
apertou  a  mão  da  comadre  -  que  do  degrau  do  quin- 
teiro, com  os  dous  pequenos  enrodilhados  nas  saias, 
e  o  gordo  riso  mais  embevecido,  seguiu  a  poeira  da 
egoa  como  o  sulco  d' um  Rei  benéfico. 

E  depois  nas  outras  visitas,  ao  Cerejeira,  ao  Ven- 
tura da  Chiche,  encontrou  o  mesmo  fervor,  os  mes- 
mos sorrisos  luzindo  de  gosto.  «O  que!  para  o  Fi- 
dalgo! Isso  tudo!  Fi  nem  que  fosse  contra  o  Gover- 
no!»—Na  tasca  do  Manoel  da  Adega,  um  rancho  de 
trabalhadores  bebia,  já  ruidoso,  com  as  jaquetas  ati- 
radas para  cima  dos  bancos:  o  Fidalgo  bebeu  com 
elles,  galhofando,  gosando  sinceramente  a  pinga  ver- 
de e  o  barulho.  O  mais  velho,  um  avejâo  escuro, 
sem  dentes,  e  a  face  mais  engilhada  que  uma  ameixa 
secca,  esmurrou  com  euthusiasmo  o  balcão:  —  «Isto, 
rapazes,  é  fidalgo  que,  quando  um  pobre  de  Christo 
escala\  ra  a  perna,  lhe  empresta  a  egoa,  e  vae  elle  ao 
lado  mais  d'uma  légua  a  pé,  como  foi  com  o  Solha! 
Rapazes!  isto  é  Fidalgo  para  a  gente  ter  gosto!»  As 
sandes  atroaram  a  venda.  E  quando  Gonçalo  mon- 
tou, todos  o  cercavam  como  vassallos  ardentes,  que 
a  um  aceno  correriam  a  votar, —  ou  a  matar! 


492  A  ILLISTBE  CASA  DE  IlAMIRES 


Em  casa  do  Thomaz  Pedra,  a  avó  Anna  Pedra, 
uma  velha  entrevada,  muito  velha  e  tremula,  rom- 
peu a  choramigar  por  o  seu  Thomaz  andar  para  o 
Olival  quando  o  Fidalgo  o  visitava.  «Que  aquillo  era 
como  visita  de  santo!» 

.  — Ora  essa,  tia  Pedra!  Peccador,  grande  peccador! 

Dobrada  na  cadeirinha  baixa,  com  as  farripas 
brancas  descendo  do  lenço,  pela  face  toda  chupada  de 
gelhas  e  pelluda,  a  tia  Anna  bateu  no  joelho  agudo : 

—  Não  senhor!  não  senhor!  que  quem  mostrou 
aquella  caridade  pelo  filho  do  Casco,  merece  estar  em 
altar ! 

O  Fidalgo  ria,  beijocava  pequenadas  encardidas, 
apertava  mãos  ásperas  e  rugosas  como  raizes,  accen- 
dia  o  cigarro  á  braza  das  lareiras,  conversando,  com 
intimidade,  das  moléstias  e  dos  derriços.  Depois,  no 
calor  e  pó  da  estrada,  pensava:  —  «É  curioso!  parece 
haver  amisade,  n'esta  gente!» 

Ás  quatro  horas,  derreado,  decidiu  cessar  o  giro. 
recolher  á  Torre  pela  estrada  mais  fresca  da  Bica 
Santa.  E  passara  o  Ioga  rejo  do  Cerdal,  quando  na  volta 
aguda  do  Caminho,  rente  ao  souto  de  azinheiros, 
quasi  esbarrou  com  o  Dr.  Júlio,  também  a  cavallo, 
lambem  no  seu  giro,  de  quinzena  d'alpaca,  alagado 
em  suor,  debaixo  d' um  guarda-sol  de  seda  verde. 
Ambos  detiveram  as  egoas,  se  saudaram  amavel- 
mente. 


A  ILLUSTP.E  CASA  DE  RAMIRES  493 


—  Muito  gosto  em  o  vêr,  Snr.  Dr,  Júlio... 

—  Egualmente,  com  muita  hom^a,  Snr.  Gonçalo 
Ka  mires... 

—  Então  também  na  tarefa? . . . 

O  Dr.  Júlio  encolheu  os  hombros: 

—  Que  quer  V.  Ex.''?  Se  me  metteram  n"estal 
E  sabe  V.  Ex.**  como  isto  acaba?...  Acaba  em  eu 
mesmo,  no*  outro  Domingo,  votar  em  V.  Ex.*. 

O  Fidalgo  riu.  Ambos  se  debruçaram,  para  se 
apertarem  as  mãos  com  alegria,  com  estima. 

—  Oue  calor  este,  Snr.  Dr.  Júlio! 

—  Horroroso,  Snr.  Gonçalo  Ramires...  E  que 
massada ! 

Assim  o  Fidalgo  empregou  essa  semana  nas  visi- 
tas aos  Eleitores  —  «os  grandes  e  os  miúdos.»  E  dois 
dias  antes  da  Eleição,  n'uma  sexta-íeira  á  tarde,  cora 
um  tempo  já  macio  e  íresco,  partiu  para  Oliveira  — 
onde  chegara,  na  véspera,  o  André  Cavalleiro,  depois 
da  sua  tão  longa,  tão  fallada  demora  em  Lisboa. 

Nos  Cunhaes,  apenas  saltara  da  caleche,  logo  se 
enfureceu  ao  saber,  pelo  bom  João  da  Porta— «que 
as  Snr.'^'  Louzadas  estavam  em  cima,  de  visita,  com 
a  Snr.**  D.  Graça ...» 

—  Ha  muito? 

—  .Já  lá  estão  pegadas  ha  meia  hora  boa,  meu 
senhor. 

Gonçalo  enfiou  surrateiramente  para  o  seu  quar- 


49i  A  ÍLLUSTRK  CASA  DE  ItAMIiíKS 


to,  pensando:  —  «Que  desavergonhadas!  Chegou  o 
André,  vêem  logo  cocar!»  E  já  se  lavara,  mudara  o 
íato  cinzento, —  quando  o  Barrôlo  appareceu,  esbafo- 
rido, desusadamente  radiante,  de  sobrecasaca,  de 
chapéu  alto,  com  as  bochechas  accesas,  alvoroçada- 
mente radiantes: 

—  Eh,  seu  Barrôlo,  que  janota! 

---Parece  bruxedo!  gritou  o  Barrôlo,  depois  d*um 
abraço,  que  repetiu,  com  desacostumado  fervor.  Es- 
tava agora  mesmo  para  te  mandar  um  telegramma, 
que  viesses . . . 

—  Para  quê? 

O  Barrôlo  gaguejou,  com  um  riso  reprimido  que 
o  illuminava,  o  inchava: 

—  Para  quê?  P'ra  nada...  Quero  dizer,  para  a 
Eleição!  Pois  a  Eleição  é  além  d"ámanhã,  menino!  O. 
Cavalleiro  chegou  hontem.  Agora  volto  eu  do  Go- 
verno Civil.  Estive  no  Paço  com  o  Snr.  Bispo,  de- 
pois passei  pelo  Governo  Civil...  Óptimo,  o  André! 
Aparou  o  bigode,  parece  mais  moço.  E  traz  novida- 
des... Traz  grandes  novidades! 

E  o  Barrôlo  esfregava  as  mãos,  n'um  tão  fais- 
cante alvoroço,  com  tanto  riso  escapando  dos  olhos 
e  da  face  relusente,  que  o  Fidalgo  o  encarou  curio- 
so, impressionado: 

—  Ouve  lá,  Barrolinho!  Tu  tens  alguma  cousa 
boa  para  me  annunciar? 


A  ILUSTKR  l',ASA   DK  UAAllUES  4Í>5 


Barrôlo  recuou,  negou  com  estrondo,  como  quem 
bruscamente  íecha  uma  porta,  Elle?  Não!  Não  sabia 
nada!  Só  a  Eleição!  Na  Murtosa  votação  tremenda... 

—  Ah!  pensei,  murmurou  Gonçalo.  E  a  Gracinha? 

—  A  Gracinha  também  não! 

—  Também  não  qut\  homem?  Como  está?  Sim- 
plesmente como  está? 

— Ah!  está  com  as  Louzadas.  Ha  mais  de  meia 
hora,  aquellas  bêbedas!...  Naturalmente  por  causa 
do  Bazar  do  Asylo  Novo...  Esta  massada  dos  Baza- 
res... E  ouve  lá,  Gonçalinho!  Tu  ficas  até  Domingo? 

—  Não,  volto  amanhã  para  a  Torre. 

—  Oh!... 

—  Pois  dia  d'Eleiçâo,  homem!  devo  estar  em 
casa,  no  meu  centro,  no  meio  das  rainhas  fregue- 
zias . . . 

—  É  pena,  murmurou  o  Barrôlo.  Logo  se  sabia 
juntamente  com  a  Eleição...  Eu  dava  um  jantar  tre- 
mendo . . . 

—  Logo  se  sabia,  o  quê? 

O  Barrôlo  emmudeceu,  com  outro  riso  nas  bo- 
chechas, que  eram  duas  brazas  gloriosas.  Depois 
novamente  gaguejou,  gingando : 

—  Logo  se  sabia...  Nada!  O  resultado,  o  apura- 
mento. E  grande  bródio,  grande  foguetorio.  Eu,  na 
Murtosa,  abro  pipa  de  vinho. 


496  A  ILLrSTlíE  CASA  DE  RAMIRES 


Então  Gonçalo  risonhamente  prendeu  o  Barrôlo 
pelos  hombros: 

—  Uize  lá,  Barrolinho.  Dize  lá.  Tu  tens  uma 
cousa  boa  para  contar  ao  teu  cunhado. 

O  outro  escapou,  protestando  com  alarido:  Que 
teima,  que  tolice.  EUe  não  sabia  nada.  O  André  não 
lhe  contara  nada! 

—  Bem,  concluiu  o  Fidalgo,  certo  de  um  amável 
mysterio,  que  pairava.  Então  descemos.  E  se  essas 
carraças  das  Louzadas  ainda  estiverem  lá  pegadas, 
manda  dizer  pelo  escudeiro  á  sala,  bem  alto,  á  Gra- 
cinha, que  cheguei,  que  lhe  desejo  íallar  immedia- 
tamente  no  meu  quarto :  com  esses  monstros  não  ha 
considerações, 

O  Barrôlo  balbuciou,  hesitando: 

—  O  Snr.  Bispo  gosta  d'ellas...  Muito  amável 
commigo,  ainda  ha  pouco,  o  Snr.  Bispo. 

Mas,  logo  nas  escadas,  sentiram  o  piano,  Graci- 
nha cantarolando.  .Já  se  libertara  das  Louzadas.  Era 
uma  antiga  canção  patriótica  da  Vendeia,  que  ou- 
tr'ora  na  Torre,  ella  e  Gonçalo  entoavam  com  emoção, 
quando  os  inflammava  o  amor  fidalgo  e  romântico 
dos  Bourbons  o  dos  Stuarts : 

Monsieur  de  Charette  a  dit  ii  ceux  d'Ancene.s 

"  Mes  Amis ! . . . 
Monsieur  de  Charette  a  dit . . . 


A  ILLISTRE  CASA  DE  UAMIRES  497 


Gonçalo  franziu  vagarosamente  o  reposteiro  da 
sala,  rematando  a  estrophe,  com  o  braço  erguido  co- 
mo uma  bandeira: 

"  Mes  amis! 
Le  Roy  va  rammener  les  Fleurs  de  Lysl" 

Gracinha  saltou  do  mocho,  n"uma  surpresa. 
— Não  te  esperávamos!  imaginei  que  passavas  a 
Eleição  na  Torre...  E  por  lá? 

—  Na  Torre,  tudo  bem,  com  a  ajuda  de  Deus... 
Mas  eu  com  trabalho  immenso.  Acabei  o  meu  roman- 
ce; depois  visitas  aos  Eleitores. 

Barròlo,  que  não  socegava  pela  sala,  rompeu 
para  elles,  com  o  mesmo  riso  suílocado: 

—  Queres  tu  saber,  Gracinha?  Tem  estado  este 
homem,  desde  que  chegou,  n'uma  curiosidade,  a  fer- 
ver. Imagina  que  eu  tenho  uma  boa  nova,  uma 
grande  nova  para  lhe  contar ...  Eu  nÂo  sei  nada,  a 
não  ser  a  Eleição!  Pois  não  é  verdade,  Gracinha? 

Gonçalo,  muito  serio,  prendeu  o  queixo  da  irmã: 

—  Sabes  tu,  dize  lá. 

EUa  sorriu,  corada . . .  Não,  não  sabia  nada,  só  a 
Eleição. 

—  Dize  lá! 

—  Não  sei...  São  tolices  do  José. 

Mas  então,  ante  aquelle  sorriso  íraco,  rendido, 
•que  confessava  -o   Barròlo  não  se  conteve,  desafo- 

53 


498  A  ILLUSTRE  CASA  DE  HAMIRES 


gou  como  um  morteiro  estoira.— Pois  bem!  simí 
com  effeito! — Grande  novidade!  Mas  o  André,  que  a 
trouxera  de  Lisboa,  fresquinha  a  saltar,  queria  elle, 
só  elle,  causar  a  surpresa  a  Gonçalo . . . 

—  De  modo  que  eu  não  posso!  Jurei  ao  André. 
A  Gracinha  sabe,  que  eu  já  lhe  contei  hontem... 
Mas  lambem  não  pôde,  também  jurou.  Só  o  André. 
Elle  vem  logo  tomar  chá,  e  rebenta  a  bomba...  Que 
é  uma  bomba!  e  graúda! 

Gonçalo,  roido  de  curiosidade,  murmurou  sim- 
plesmente, encolhendo  os  hombros : 

—  Bem,  já  sei,  é  uma  herança!  Tens  quinze  tos- 
tões d'alviçaras,  Barrôlo. 

Mas  durante  o  jantar  e  depois  na  saia  tomando 
café,  emquanto  Gracinha  recomeçara  as  velhas 
canções  patrióticas,  agora  as  jacobitas,  em  louvor 
dos  Stuarts  —  Gonçalo  anciou  pela  appariçâo  do  Ca- 
valleiro.  Nem  receava  que  a  esse  encontro  se  mistu- 
rasse amargura,  despeito  sufíocado.  Todo  o  seu  furor 
contra  o  Cavalleiro,  acceso  na  dolorosa  tarde  do  Mi- 
rante, revolvido  na  Torre  durante  torturados  dias, 
logo  se  dissipara  lentamente  depois  da  sua  tocante 
conversa  com  a  irmã,  na  manhã  histórica  da  briga 
da  Grainha.  Gracinha  então,  com  grandes  lagrimas 
de  pureza  e  do  verdade,  jurara  reserva,  retrahi- 
mento.  Gonçalo,  abandonando  Oliveira,  mostrava  tam- 
bém uma  resistência  louvável  contra  o  sentimento  ou 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAAnRES  499 


a  vaidade  que  o  transviara.  Demais  elle  não  podia 
romper  novamente  com  o  Cavalleiro,  andando  ainda 
nos  mexericos  e  espantos  d'Oliveira  aquella  reconci- 
liação ruidosa  que  chamara  o  Cavalleiro  á  intimidade 
dos  Cunhaes.  E  por  fim  de  que  valiam  furores  ou 
magoas?  Nenhum  rugir  ou  gemer  seu  annuUariam 
o  mal  que  se  consummára  no  Mirante — se  porven- 
tura se  consummára.  E  assim  toda  a  cólera  contra 
o  André  se  dissipara  n'aquella  sua  leve  e  doce  alma, 
onde  os  sentimentos,  sobretudo  os  mais  escuros,  os 
mais  carregados,  sempre  facilmente  se  desfaziam  co- 
mo nuvens  em  ceu  de  estio . . . 

!Mas  quando,  perto  das  nove  horas,  o  Cavalleiro 
penetrou  na  sala,  vagaroso  e  magnifico,  com  o  bi- 
gode encurtado  mas  mais  retorcido,  uma  gravata 
vermelha  entufando  estridentemente  no  largo  peito 
que  entufava,  Gonçalo  sentiu  uma  renovada  aver- 
são por  toda  aquella  petulância  recheada  de  falsida- 
de—  e  apenas  poude  bater  mollemente,  desenxabi- 
damente,  nas  costas  do  velho  amigo,  que  o  apertava 
n"um  abraço  d'apparatosa  ternura.  E  em  quanto  An- 
dré, torcendo  as  luvas  claras,  languidamente  enter- 
rado na  poltrona  que  o  Barrôlo  lhe  achegou  com  ca- 
rinho, contava  de  Lisboa  e  de  Cascaes,  tão  alegre, 
e  partidas  de  hrkhje  e  da  Parada  e  d'El-Rei  —  Gonçalo 
revivia  a  tarde  do  Mirante,  o  seu  pobre  coração  a 
bater  contra  a  persiana  mal  fechada,  a  bruta  suppli- 


300  Ã  ILLUSTRE  CASA  DE  UAMIUES 


ca  murmurada  atravez  (i'aquelles  bigodes  atrevidos, 
e  emmudecera,  como  empedernido,  esmigalhando 
nerAOsamente  entre  os  dentes  o  charuto  apagado. 
Mas  (Gracinha  conservava  uma  serenidade  attenta, 
sem  nenhum  dos  seus  chammejantes  rubores,  dos 
seus  desgraçados  enleios  de  modo  e  gesto,  apenas 
levemente  secca,  d'uma  seccura  preparada  e  posta. 
Depois  André  alludira  muito  desprendidamente  ao 
seu  regresso  a  Lisboa,  depois  da  Eleição,  «porque 
o  tio  Reis  Gomes,  o  José  Ernesto,  esses  cruéis  ami- 
gos, lhe  andavam  atirando  para  os  hombros  todo  o 
trabalho  da  Nova  Reíorma  Administrativa.» 

Entre  elle  e  Gracinha,  separados  por  um  curto 
tapete,  parecia  cavada  uma  íunda  légua  de  fosso, 
onde  rolara,  se  afundara  todo  aquelle  romance  do 
verão,  sem  que  na  face  d'ambos  restasse  um  afo- 
gueado vestígio  do  seu  ardor.  E  Gonçalo,  insensivel- 
mente contente  pela  apparencia,  terminou  por  aban- 
donar a  cadeira  onde  se  impedernira,  accendeu  o 
charuto  na  vela  do  piano,  perguntou  pelos  amigos 
de  Lisboa.  Todos  (segundo  o  Cavalleiro)  anelavam 
pela  chegada  de  Gonçalo. 

—  Lá  encontrei  também  o  Castanheiro...  En- 
thusiasmado  com  o  teu  Romance.  Parece  que  nem 
no  Herculano,  nem  no  Rebello  existo  nada  tão  forte, 
como  reconstrucçâo  histórica.  O  Castanheiro  prefere 
mesmo  o  teu  realismo  épico  ao  do  Flaubert,  na  Sa- 


A   ILLISTHE  casa  de  RAMIHES  oOl 


Lammbò.   Emfim,  enthusiasmado!   E  nós,  está  claro, 
ardendo  por  que  appareça  a  sublime  obra. 

O  Fidalgo  corou  profundamente,  murmurando — 
«Que  tolice!»  Depois  roçou  pela  poltrona  em  que  se 
enterrava  o  André,  afagou  suavemente  o  largo  hom- 
bro  do  André : 

—  Pois,  tens  íeito  cá  muita  falta,  meu  velho!  Ha 
dias  passei  em  Corinde,  tive  saudades... 

Então  o  Barrôlo,  que  não  socegava,  vermelho,  a 
estoirar  rebolando  pela  sala,  espiando  ora  o  Cavai  - 
leiro,  ora  o  Gonçalo,  com  um  riso  mudo  e  ávido,  não 
se  conteve  mais,  gritou: 

—  Bem,  basta  de  prólogos...  Vamos  lá  agora  á 
grande  surpresa,  André!  Eu  tenho  estado  toda  a  tarde 
a  rebentar...  Mas  emfim,  jurei  e  calei!  Agora  não 
posso...  Vamos  lá.  E  tu,  Gonçalinho,  vae  preparando 
os  quinze  tostões. 

Gonçalo,  com  a  curiosidade  de  novo  refervendo, 
apenas  sorria,  desprendidamente: 

—  Com  effeito!  Parece  que  tens  uma  bella  no- 
vidade. 

O  Cavalleiro  alargou  lentamente  os  braços,  sem- 
pre enterrado  na  vasta  poltrona,  sem  pressa: 

—  Oh!  é  a  cousa  mais  simples,  mais  natural...  A 
Snr.''  D.  Graça  já  sabe,  não  é  verdade?...  Não  ha  mo- 
tivo para  surpresa...  Tão  legitima,  tão  natural! 

Gonçalo  exclamou,  já  impaciente : 


o02  A   ILUSTRE    CASA   DE  RAMIRES 


—  Mas  emfim,  venha  lá,  dize. 

O  Cavalleiro  insistia,  indolente.  Todo  o  espanto 
era  que  só  agora  se  pensasse  em  a  realisar,  cousa  tão 
devida,  tão  adequada.  Pois  não  lhe  parecia  á  Snr.** 
D.  Graça? 

Gonçalo,  n'uma  braza,  berrou: 

—  Mas  quê?  que  diabo? 

O  Cavalleiro,  que  se  despegara  vagarosamente  da 
poltrona,  puxou  os  punhos,  e  deante  de  Gonçalo,  no 
silencio  attento,  alteando  o  peito,  grave,  quasi  offi- 
cial,  começou: 

■  — Meu  tio  Reis  Gomes,  e  o  José  Ernesto,  tive- 
ram uma  ideia  muito  natural,  que  comraunicaram  a 
El-Rei,  e  que  El-Rei  approvou...  Oue  approvou  mes- 
mo ao  ponto  de  a  appetecer,  de  se  assenhorear  d'ella, 
de  desejar  que  íosse  só  sua.  E  hoje  é  só  d'El-Rei. 
El-Rei  pois  pensou,  como  nós  pensamos,  que  um  dos 
primeiros  fidalgos  de  Portugal,  decerto  mesmo  o  pri- 
meiro, devia  ter  um  titulo  que  consagrasse  bem  a 
antiguidade  illustre  da  Casa,  e  consagrasse  também 
o  mérito  superior  de  quem  hoje  a  representa...  Por 
isso,  meu  querido  Gonçalo,  jd  te  posso  annunciar,  e 
quasi  em  nome  d'El-Rei,  que  vaes  ser  Marquez  de 
Treixedo. 

—  Rravo!  bravo!  ])ramou  o  Barruio,  com  palmas 
delirantes.  Saltem  para  cá  os  quinze  tostões,  Snr. 
Marquez  de  Treixedo! 


A    ILLLÍSTRE    CASA    DE   RAMIRES  503 


Uma  onda  de  sangue  cobria  a  fina  íace  de  Gon- 
çalo. N'iim  relance  sentiu  que  o  Titulo  era  um  dom 
do  Cavalleiro,  não  ao  chefe  da  casa  de  Ramires,  mas 
ao  irmão  complacente  de  Gracinha  Ramires...  E  so- 
bre tudo  sentia  a  incoherencia  de  que,  ao  chefe 
d' uma  Casa  dez  vezes  secular,  mãe  de  Dynastias, 
edificadora  do  Pieino,  com  mais  de  trinta  dos  seus 
varões  mortos  sob  a  armadura,  se  atirasse  agora  um 
ouço  titulo,  atravez  do  Diário  do  Governo,  como  a 
um  tendeiro  enriquecido  que  subsidiou  eleições.  To- 
davia saudou  o  Cavalleiro,  que  esperava  a  effusão, 
os  abraços. —  Oh!  Marquez  de  Treixedo!  certamente 
muito  elegante,  muito  amável...  Depois,  esfregando 
as  mãos,  com  um  sorriso  de  graça  e  d'espanto... 
Mas,  meu  caro  André,  com  que  auctoridade  me  íaz 
El-Rei  Marquez  de  Treixedo? 

O  Cavalleiro  levantou  vivamente  a  cabeça  n'uma 
oífendida  surpresa : 

—  Com  que  auctoridade?  Simplesmente  com  a 
auctoridade  que  tem  sobre  nós  todos,  como  Piei  de 
Portugal  que  ainda  é,  Deus  louvado! 

E  Gonçalo,  muito  simplesmente,  sem  fumaça  ou 
pompa,  com  o  mesmo  sorriso  de  suave  gracejo: 

—  Perdão,  Andrésinho.  Ainda  não  havia  Reis  de 
Portugal,  nem  sequer  Portugal,  e  já  meus  avós  Ra- 
mires tinham  solar  em  Treixedo!  Eu  approvo  os 
grandes  dons  entre  os  grandes  fidalgos ;  mas  cum- 


í)04  A  ILLCSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


pre  aos  mais  antigos  começarem.  El-Rei  tem  uma. 
quinta  ao  pé  de  Beja,  creio  eu,  o  fíoncão.  Pois  dize 
tu  a  El-Rei,  que  eu  tenho  immenso  gosto  em  o  fa- 
zer, a  elle,  Marquez  do  Roncâo. 

O  Barròlo  embasbacara,  sem  comprehender,  com 
as  bochechas  descabidas  e  murchas.  Da  beira  do  ca- 
napé. Gracinha,  toda  corada,  faiscava  de  gosto,  por 
aquelle  lindo  orgulho  que  tão  bem  condizia  com  o 
seu,  mais  lhe  íundia  a  alma  com  a  alma  do  irmão 
amado.  E  André  Cavalleiro,  furioso,  mas  vergando  os 
hombros  com  irónica  submissão,  apenas  murmurou: 
—  a  Bem,  períeitamente!...  Cada  um  se  entende  a  seu 
modo ...» 

O  escudeiro  entrava  com  a  bandeja  do  chá. 


E  no  Domingo  íoi  a  Eleição. 

Ainda  com  uma  desconfiança,  uma  reserva  su- 
persticiosa, o  Fidalgo  desejou  atravessar  esse  dia 
muito  solitariamente,  quasi  escondido,  e  no  sabbado, 
em  quanto  todos  os  amigos  de  Villa-Clara,  mesmo  os 
d*01iveira,  o  consideravam  estabelecido  nos  Cunhaes, 
e  em  communicação  azaíamada  com  o  Governo  Ci- 
vil, montou  a  cavallo  ao  escurecer,  e  trotou  surra- 
teiramente  para  Santa  Ireneia. 

Mas  o  Barròlo  (ainda  abalado  com  «aquelle 
despauterio  do  Gonçalo,  que  era  uma  offensa  para  o 


A  ILLLSTllE  CASA   DE  lUMIUES  50*) 


Cavalleiro!  até  para  El-Rei!»)  ficara  com  a  missão 
de  telegraphar  para  a  Torre  as  noticias  successivas 
das  assembleias,  á  maneira  que  ellas  acudissem  ao 
Governo  Civil.  E,  com  ruidoso  zelo,  logo  depois  da 
missa,  estabeleceu  entre  os  Cunhaes  e  o  velho  Con- 
vento de  S.  Domingos  um  serviço  de  creados  for- 
migando sem  repouso.  Gracinha,  na  sala  de  jantar, 
ajudada  por  Padre  Sueiro,  copiava  com  amor,  n'uma 
lettra  muito  redonda,  os  telegrammas  mandados  pelo 
Cavalleiro,  que  ajuntava  a  lápis  alguma  nota  amável 
—  «  Tudo  optimamente ! »  —  Victoria  cresce.  —  Para- 
béns a   V.  Ex."'. 

Pela  estrada  de  Villa-Clara  á  Torre,  incessante- 
mente,  o  moço  do  Telegrapho  se  esbaforia  sobre  a 
perna  manca.  O  Bento  rompia  pela  livraria,  berran- 
do: aoutro  telegramma,  Snr.  Doutor».  Gonçalo,  ner- 
voso, com  um  immenso  bule  de  chá  sobre  a  banca, 
a  bandeja  já  alastrada  de  cigarros  meio  fumados, 
lia  o  telegramma  ao  Bento.  O  Bento,  com  vivas  pelo 
corredor,  corria  a  bramar  o  telegramma  á  Rosa. 

E  assim,  quando  cerca  das  oito  horas,  o  Fidalgo 
consentiu  em  jantar  — já  conhecia  o  seu  triumpho 
explendido.  E  o  que  o  impressionava,  relendo  os  te- 
legrammas, era  o  enthusiasmo  carinhoso  d'aquelles 
influentes,  povos  que  elle  mal  rogava,  e  que  conver- 
tiam o  acto  da  Eleição  quasi  n'um  acto  d' Amor.  Toda 
a  freguezia  dos  Bravaes  marchara  para  a    Egreja, 


506  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


cerrada  como  uma  hoste,  com  o  José  Casco  na  frente 
erguendo  uma  enorme  bandeira,  entre  dous  tambo- 
res que  estouravam.  O  Visconde  de  Rio-Manso  en- 
trara no  adro  da  Egreja  do  Ramilde  na  sua  victoria, 
cora  a  neta  toda  vestida  de  branco,  seguido  por  uma 
vistosa  fila  de  cimr-à-bancs,  onde  se  apinhavam  elei- 
tores sob  toldos  de  verdura.  Na  Finta  todos  os  casaes 
se  esvasiavam,  as  mulheres  carregadas  d'ouro,  os  ra- 
pazes de  flor  na  orelha,  correndo  á  Eleição  do  Fi- 
dalgo entre  o  repenicar  das  violas,  como  á  romaria 
d'um  Santo.  E  deante  da  taberna  do  Pintainho,  em 
íace  á  Egreja,  a  gente  da  Velleda,  da  Riosa,  do  Cer- 
cal, erguera  um  arco  de  buxo,  com  dístico  verme- 
lho, sobre  panninho:  —  «Viv^a  o  nosso  Ramires,  flor 
dos  homens!» 

Depois,  em  quanto  jantava,  um  moço  da  quinta 
voltou  de  Villa-Clara,  alvoroçado,  contando  o  delirio, 
as  philarmonicas  pelas  ruas,  a  Assembleia  toda  em- 
bandeirada, e  na  casa  da  Camará,  sobre  a  porta,  um 
transparente  com  o  retrato  de  Gonçalo,  que  uma 
multidão  acclamava. 

Gonçalo  apressou  o  café.  Por  timidez,  receoso 
dos  vivorios,  não  ousava  correr  a  Villa-Clara  —a  es- 
preitar. Mas  accendeu  o  charuto,  passou  á  varanda, 
para  respirar  a  doce  noite  de  festa,  que  andava  tão 
cheia  de  clarões  e  rumores  em  seu  louvor.  E  ao 
abrir  a  porta  envidraçada  quasi  recuou,  com  outro 


A   ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  507 


espanto.  A  Torre  illuminára!  Das  suas  fundas  fres- 
tas, atravez  das  negras  rexas  de  ferro,  sahia  um  cla- 
rão; e  muito  alta,  sobre  as' velhas  ameias,  refulgia 
uma  serena  coroa  de  lumes!  Era  uma  surpresa,  pre- 
parada, com  delicioso  mysterio,  pelo  Bento,  pela  Rosa, 
pelos  moços  da  quinta, —  que  agora,  todos,  no  escuro, 
por  baixo  da  varanda,  contemplavam  a  sua  obra,  al- 
lumiando  o  ceu  sereno.  Gonçalo  percebeu  os  passos 
abaíados,  o  pigarro  da  Rosa.  Gritou  alegremente  da 
borda  da  varanda: 

— Oh,  Bento!  Oh,  Rosa!...  Está  ahi  alguém? 

Um  risinho  estusiou.  A  jaqueta  branca  do  Bento 
surdio  da  sombra. 

—  O  Snr.  Doutor  queria  alguma  cousa? 

—  Não,  homem!  Queria  agradecer...  Foram  vo- 
cês, hein?  Está  linda  a  illuminaçâo!  Mas  linda.  Obri- 
gado, Bento.  Obrigado,  Rosa!  Obrigado,  rapazes!  De 
longe  deve  fazer  um  effeito  soberbo. 

Mas  o  Bento  ainda  se  não  contentava  com  aquel- 
las  lamparinas  frouxas.  A  Torre,  para  sobresahir, 
necessitava  chammas  fortes  de  gaz.  O  Snr.  Doutor 
nem  imaginava  a  altura,  depois  em  cima,  a  immen- 
sidão  do  eirado. 

Então,  de  repente,  Gonçalo  sentiu  um  desejo  de 
subir  a  esse  immenso  eirado  da  Torre.  Não  entrara 
na  Torre  desde  estudante  —  e  sempre  ella  lhe  des- 
agradara por  dentro,  tão  escura,  de  tão  duro  granito, 


508  A  ILLUSTIIE  CASA  DE  RAMIRES 


com  a  sua  nudez,  silencio  e  frialdade  de  jazigo,  e 
logo  no  pavimento  térreo  os  negros  alçapões  chapea- 
dos de  ferro  que  levavam  ás  masmorras.  Mas  agora 
as  luzes  nas  frestas  aqueciam,  reviviam  aquella  der- 
radeira ossada,  Honra  de  Ordonho  Mendes.  E  de  en- 
tre as  suas  ameias,  mais  alto  que  da  varanda,  lhe 
parecia  interessante  respirar  aqueila  rumorosa  sym- 
pathia  esparsa,  que  em  torno,  pelas  íreguezias  rolava, 
subindo  para  elle,  atravez  da  noite,  como  um  in- 
censo. Enfiou  um  paletot,  desceu  á  cosinha.  O  Bento, 
o  Joaquim  da  horta,  divertidos,  agarraram  grandes 
lanternas.  E  com  elles  atravessou  o  pom.ar,  penetrou 
pela  atarracada  poterna,  de  funda  hombreira,  co- 
meçou a  trepar  a  esguia  escadaria  de  pedra,  que 
tanta  sola  de  ferro  polira  e  poira. 

Já  desde  séculos  se  perdera  a  memoria  do  legar 
que  occupava  aquella  torre  nas  complicadas  fortifi- 
cações da  Honra  e  Senhorio  de  Santa  Ireneia.  Não 
era  de  certo  (segundo  padre  Sueiro)  a  nobre  torre 
albarran,  nem  a  do  Alcáçova,  onde  se  guardava  o 
thesouro,  o  cartório,  os  sacos  tão  preciosos  das  es- 
peciarias do  Oriente  — e  talvez,  obscura  e  sem  no- 
me, apenas  defendesse  algum  angulo  de  muralha, 
para  os  lados  em  que  o  Castello  enfrontava  com  as 
terras  semeadas  e  os  olmedos  da  Ribeira.  Mas,  so- 
brevivente ás  outras  mais  altivas,  comprehendida 
nas  construccões  do  Paço  formoso  que  se  erguera 


A   ILLUSTRE   CASA    DE    HAMIRES  o09 


dV.ntrc  o  sombrio  Castello  Affonsino,  e  que  dominava 
Santa  Ireneia  durante  a  dynastia  d'Aviz,  ligada  ainda 
por  claras  arcarias  d'um  terraço  ao  Palácio  de  gosto 
italiano,  em  que  Vicente  Ramires  converteu  o  Paço 
manuelino  depois  da  sua  campanha  de  Castella;  iso- 
lada no  pomar,  mas  sobranceando  o  casarão  que 
lentamente  se  edificara  depois  do  incêndio  do  Palá- 
cio em  tempo  d'El-Rei  D.  José,  e  a  derradeira  certa- 
mente onde  retiniram  armas  e  circularam  os  homens 
do  Terço  dos  Ramires  —  ella  ligava  as  edades  e  co- 
mo que  mantinha,  nas  suas  pedras  eternas,  a  uni- 
dade da  longa  linhagem.  Por  isso  o  povo  lhe  cha- 
mara vagamente  a  «Torre  de  D.  Ramires».  E  Gon- 
çalo, ainda  sob  a  impressão  dos  avós  e  dos  tempos 
que  resuscitára  na  sua  Novella,  admirou  com  um 
respeito  novo  a  sua  vastidão,  a  sua  força,  os  seus 
empinados  escalões,  os  seus  muros  tão  espessos,  que 
as  frestas  esguias  na  espessura  se  alongavam  como 
corredores,  escassamente  allumiadas  pelas  tigelinhas 
d'azeite,  com  que  o  Bento  as  despertara.  Em  cada 
um  dos  trez  sobrados  parou,  penetrando  curiosamen- 
te, quasi  com  uma  intimidade,  nas  salas  níias  e  so- 
noras, de  vasto  lagedo,  de  tenebrosa  abobada,  com 
os  assentos  de  pedra,  estranho  buraco  ao  meio,  re- 
dondo como  o  d' um  poço  e  ainda  pelas  paredes  ris- 
cadas de  sulcos  de  fumos,  os  anneis  dos  tocheiros. 
Depois  em  cima,  no  immenso  eirado  que  a  fieira  de 


olO  A  ILMSTllE  CASA  DE  RAMIRES 


lamparinas,  cingiado  as  ameias,  enchia  de  claridade, 
Gonçalo,  erguendo  a  gola  do  paletot  na  aragem  mais 
fina,  teve  a  dilatada  sensação  de  dominar  toda  a  Pro- 
víncia, e  de  possuir  sobre  ella  uma  supremacia  pa- 
ternal, só  pela  soberana  altura  e  velhice  da  sua  torre, 
mais  que  a  Província  e  que  o  Pieino.  Lentamente  ca- 
minhou em  roda  das  ameias,  até  ao  miradouro,  a  que 
um  candieiro  de  petróleo,  sobre  uma  cadeira  de  pa- 
lhinha posta  em  frente  ú  fresta,  estragava  o  entono 
feudal.  No  céo  macio,  mas  levemente  enevoado,  ra- 
ras estrellas  luziam,  sem  brilho.  Por  baixo  a  quinta, 
toda  a  largueza  dos  campos,  a  espessura  dos  arvo- 
redos se  fundiam  em  escuridão.  Mas  na  sombra  e 
silencio,  por  vezes  além,  para  o  lado  dos  Bravaes, 
lampejavam  foguetes  remotos.  Um  clarão  amarellado 
e  fumarenio,  caminhando  mais  longe,  entestando 
para  a  Finta,  era  de  certo  um  rancho  com  ar- 
chotes festivos.  Na  alta  Egreja  da  Velleda  tre- 
meluzia  uma  illuminaçâo  vaga,  rala.  Outras  luzes, 
incertas  através  do  arvoredo,  riscavam  o  velho 
arco  do  Mosteiro,  em  Santa  Maria  de  Craquêde.  Da 
terra  escura  subia,  por  vezes,  um  errante  som  de 
tambores.  E  lumes,  fachos,  abafados  rufos,  eram  dez 
freguezias  celebrando  amoravelmente  o  Fidalgo  da 
Torre,  que  lhes  recebia  o  amor  e  o  preito  no  eira- 
do da  sua  torre,  envolto  em  silencio  e  sombra. 

O  Bento  descera,  com  o  Joaquim,  para  reforçar 


A  ILLUSTHK  CASA  DE  RAMIRES  511 


as  lamparinas  nas  írestas  dos  muros,  onde  ellas  es- 
moreciam na  espessura.  E  Gonçalo  sósinho,  acaban- 
do o  charuto,  recomeçou  a  roída,  lento,  em  torno  ás 
ameias,  perdido  n'um  pensamento  que  já  o  agitara 
estranhamente,  atravez  d'aquelle  sobresaltado  Do- 
mingo... Era  pois  popular!  Por  todas  essas  aldeias, 
estendidas  á  sombra  longa  da  Torre,  o  Fidalgo  da 
Torre  era  pois  popular!  E  esta  certeza  não  o  pene- 
trava d'alegria,  nem  de  orgulho,  —  antes  o  enchia 
agora,  n'aquella  serenidade  da  noite,  de  confusão, 
d'arrependimento!  Ah!  se  adivinhasse— se  elle  adivi- 
nhasse!... Como  caminharia,  com  a  cabeça  bem  le- 
vantada, com  os  braços  bem  estendidos,  sósinho,  em 
confiança  risonha  para  todas  essas  sympathias  que  o 
esperavam,  tão  certas,  trio  dadas.  Mas  não!  Sempre 
se  julgara  cercado  da  indiíferença  d'aquellas  aldeias, 
onde  elle,  apesar  do  antiquíssimo  nome,  era  o  costu- 
mado moço,  que  volta  de  Coimbra  e  vive  silenciosa- 
mente da  sua  renda,  passeando  na  sua  egoa,  A  essas 
indifíerenças  tão  naturaes  nunca  elle  imaginara  ar- 
rancar o  punhado  de  votos,  o  punhado  de  papelinhos 
que  necessitava  para  entrar  na  Politica,  onde  elle 
conquistaria  pela  destreza  o  que  os  velhos  Ramires 
recebiam  por  herança — fortuna  e  poder.  Por  isso  se 
agarrara  tão  avidamente  á  mão  do  Cavalleiro,  á  mão 
do  Snr.  Governador  Civil  —  para  que  S.  Ex.%  o  bom 


ol2  A   ILLUSTRE   CASA   DE  RAMIRES 


amigo,  o  mostrasse,  o  impozesse  como  o  homem  ne- 
cessário, o  querido  'do  Governo,  o  melhor  entre  os 
bons,  a  quem  as  freguezias  deviam  offerecer  n"um 
Domingo  o  punhado  de  votos. 

E  na  impaciência  d*esse  favor  abafara  a  memo- 
ria de  amargos  aggravos ;  deante  d'01iveira  pasmada 
abraçara  o  homem  detestado  desde  annos,  que  an- 
dava chasqueando  e  demolindo,  pôr  praças  e  jornaes: 
facilitara  a  resurreiçâo  de  sentimentos  que  para  sem- 
pre deviam  jazer  enterrados;  e  envolvera  o  ser  que 
mais  amava,  a  sua  pobre  e  fraca  irmãsinha,  em 
confusão  e  miséria  moral...  Torpezas  e  damnos — e 
para  quê?  Para  surripiar  um  punhado  de  votos  que 
dez  freguezias  lhe  trariam  correndo,  gratuitamente, 
eífusi vãmente,  entre  vivas  e  íoguetes,  se  elle  ace- 
nasse e  lh"os  pedissse  . . . 

Ah!  eis  ahi...  Fora  a  desconfiança,  essa  encolhida 
desconfiança  de  si  mesmo,  —  que  desde  o  collegio, 
atravez  da  vida,  lhe  estragara  a  vida.  Era  a  mesma 
desgraçada  desconfiança,  que  ainda  semanas  antes, 
deante  de  uma  sombra,  um  pau  erguido,  uma  risa- 
da n"uma  taberna,  o  forçava  a  abalar,  a  tugir,  ar- 
ripiado  e  praguejando  contra  a  sua  fraqueza.  Por 
fim,  um  dia,  n'uma  volta  d'estrada,  avança,  ergue  o 
chicote  —  e  descobre  a  sua  força!  E  agora,  penetra 
por  entre  o  povo,  agarrado  timidamente  á  mão  po- 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  ol3 


derosa,  por  se  imaginar  impopular  —  e  descobre  a 
sua  popularidade  immensa.  Que  vida  enganada,  e 
tanto  a  sujara  —  por  não  saber  t 

O  Bento  não  apparecia,  ainda  azaíamado  em  il- 
luminar  condignamente  as  rexas  da  Torre.  Gonçalo 
atirou  a  ponta  do  charuto,  e  com  as  mãos  nas  algi- 
beiras do  paletó t,  parou  junto  do  miradouro,  olhou 
vagamente  para  as  estrellas.  A  névoa  adelgaçara 
quasi  sumida, — lumes  mais  vivos  palpitavam  no  ceu 
mais  profundo.  De  lumes  e  céus  descia  essa  sensa- 
ção de  infinidade,  d'eternidade,  que  penetra,  como 
uma  surpresa,  nas  almas  desacostumadas  da  sua 
contemplação.  Na  alma  de  Gonçalo  passou,  muito 
fugidiamente,  o  espanto  d'essas  eternas  immensida- 
des  sob  que  se  agita,  tão  vaidosa  da  sua  agitação,  a 
rasteira,  a  sombria  poeira  humana.  Longe,  algum 
derradeir.o  foguete  ainda  lampejava,  logo  apagado  na 
escuridão  serena.  As  luzinhas  sobre  a  capella  de  Vel- 
leda,  sobre  o  arco  de  Santa  Maria  de  Craquêde,  es- 
moreciam, já  ralas.  Todo  o  remoto  rumor  de  musi- 
catas  se  perdera,  na  mudez  mais  íunda  dos  campos 
adormecidos.  O  dia  de  triumpho  findava,  breve  co- 
mo os  luminares  e  os  foguetes. —  E  Gonçalo,  parado, 
rente  do  miradouro,  considerava  agora  o  valor  d'esse 
triumpho  por  que  tanto  almejara,  porque  tanto  sa- 
bujára.  Deputado!  Deputado  por  Villa-CIara,  como  o 
Sanches  Lucena.   E  ante  esse  resultado,  tão  miúdo, 

33 


T-JIl  A    ILUSTRE     CAPA    DE  RAMIRES 


tâo  trivial, — todo  o  seu  esforço  tão  desesperado,  tâa 
sem  escrúpulos,  lhe  parecia  ainda  menos  immoral 
que  risível.  Deputado!  Para  quê?  Para  almoçar  no 
Bragança,  galgar  de  tipóia  a  ladeira  de  S.  Bento,  e 
dentro  do  sujo  convento  escrevinhar  na  carteira  do 
Estado  alguma  carta  ao  seu  alfaiate,  bocejar  com  a 
inanidade  ambiente  dos  homens  e  das  ideias,  e  dis- 
trahidamente  acompanhar,  em  silencio  ou  balando,  o 
rebanho  do  S.  Fulgencio,  por  ter  desertado  o  reba- 
nho idêntico  do  Braz  Victorino.  Sim,  talvez  um  dia, 
com  rasteiras  intrigas  e  sabujices  a  um  chefe  e  á 
senhora  do  cheíe,  e  promessas  e  risos  atravez  do 
Redacções,  e  algum  Discurso  esbrazeadamente  ber- 
rado—  lograsse  ser  Ministro.  E  então?  Seria  ainda  a 
tipóia  pela  calçada  de  S.  Bento,  com  o  correio  atraz 
na  pileca  branca,  e  a  farda  mal-íeita,  nas  tardes  d'as- 
signatura,  e  os  recurvados  sorrisos  d'amanuenses 
pelos  escuros  corredores  da  Secretaria,  e  a  lama  es- 
correndo sobre  elle  do  cada  gazeta  d'opposiçâo . . . 
Ah!  que  peca,  desinteressante  vida,  em  comparação 
d"outras  cheias  o  soberbas  vidas,  que  tâo  magnifica- 
mente palpitavam  sob  o  tremcluzir  d'essas  mesmas 
estrellas!  Em  quanto  elle  se  encolhia  no  sou  paletot, 
deputado  por  Villa-Clara,  e  no  triumpho  d'essa  mi- 
séria—  Pensadores  completavam  a  explicação  do 
Universo;  Artistas  realisavam  oi)ras  de  belleza  eter- 
na; Reformadores  aperfeiçoavam  a  harmonia  social; 


A    1LLL'STRE    CASA    DF,    lUMIUES  ol" 


Sautos  melhoravam  santamente  as  almas;  Physiolo- 
gistas  diminuiam  o  velho  soffrer  humano;  Invento- 
res alargavam  a  riqueza  das  raças;  Aventureiros 
magnificos  arrancavam  mundos  de  sua  esterilidade 
e  mudez ...  Ah !  esses  eram  os  verdadeiramente  ho- 
mens, os  que  viviam  deliciosas  plenitudes  de  vida, 
modelando  com  as  suas  mãos  incançadas  íórmas 
sempre  mais  bellas  ou  mais  justas  da  humanidade. 
Ouem  fora  como  elles,  que  são  os  sobre-humanos ! 
Fi  tal  acção  tão  suprema  requeria  o  Génio,  o  dom 
que,  como  a  antiga  chamma,  desce  de  Deus  sobre 
um  eleito?  Não!  Apenas  o  claro  entendimento  das 
realidades  humanas  —  e  depois  o  íorte  querer. 

E  o  Fidalgo  da  Torre,  immovel  no  eirado  da 
Torre,  entre  o  ceu  todo  estrellado,  e  a  terra  toda 
escura,  longamente  revolveu  pensamentos  de  Vida 
superior — até  que  enlevado,  e  como  se  a  energia  da 
longa  raça,  que  pela  Torre  passara,  reíluisse  ao  seu 
coração,  imaginou  a  sua  própria  encaminhada  emfim 
para  uraá  acção  vasta  e  fecunda,  em  que  soberba- 
mente gozasse  o  goso  de  verdadairo  viver,  e  em  torno 
de  si  creasse  vida,  e  accrescentasse  um  lustre  novo 
ao  velho  lustre  de  seu  nome,  e  riquezas  puras  o  dou- 
rassem e  a  sua  terra  inteira  o  bem-louvasse  por  que 
elle  inteiro  e  n*um  esforço  pleno  bem  servira  a  sua 
terra ... 


o  IH  A  ILLISTRE  CASA  DE  RAMIRES 


O   Bento  surdiu  da  portinha  baixa   do   eirado, 
com  a  lanterna: 

—  O  Snr.  Doutor  ainda  se  demora? 

—  Não.  A  festa  acabou,  Bento. 


Nos  começos  de  Dezembro,  com  o  primeiro  nu- 
mero dos  Annaes,  appareceu  a  Torre  de  D.  Rami- 
res. E  todos  os  jornaes,  mesmo  os  da  opposiçâo,  lou- 
varam «esse  estudo  magistral  (como  affirmou  a  Tar- 
de) que,  revelando  um  erudito  e  um  artista,  conti- 
nuava, com  uma  arte  mais  moderna  e  colorida,  a 
obra  de  Herculano  e  de  Rebello,  a  reconstituição 
moral  e  social  do  velho  Portugal  heróico.»  Depois  das 
festas  de  Natal,  que  elle  passou  alegremente  nos  Cu- 
nhaes,  ajudando  Gracinha  a  cosinhar  bolos  de  baca- 
lhau por  uma  receita  sublime  do  padre  José  Vicente, 
da  Finta,  os  amigos  d'01iveira,  os  rapazes  do  Club  e 
da  Arcada  oíTereceram  ao  Deputado  por  Villa-Clara, 
na  sala  da  Camará,  adornada  de  buxos  e  bandeiras, 
um  banquete,  a  que  assistia  o  Cavalleiro,  de  gran- 
cruz,  e  em  que  o  Barão  das  Marges  (que  presidia) 
saudou  «o  prestigioso  moço  que,  talvez  em  breve, 
nas  cadeiras  do  Podey  levantasse  do  marasmo  este 
brioso  paiz,  com  a  pujança,  a  valentia,  que  são  pró- 
prias da  sua  raça  nobilíssima !» 


A  ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  ol' 


No  meado  de  Janeiro,  por  uma  agreste  noite  de 
chuva,  Gonçalo  partiu  para  Lisboa;  e  atravez  do  in- 
verno, em  Lisboa,  andou  sempre  nos  Caniet-Mon- 
dahi  e  High-Life  dos  jornaes,  nas  noticias  de  janta- 
res, da  raoufs,  de  tiros  aos  pombos,  de  Caçadas  d'El- 
Rei,  tão  notado  nos  movimentos  mais  simples  da  sua 
elegância,  que  os  Barrôlos  assignaram  o  Diário  II- 
lustrado  para  saber  quando  elle  passeava  na  Ave- 
nida. Em  Villa-Clara,  na  Assembleia,  o  José  Gouveia 
já  encolhia  os  hombros,  rosnando: — «Desandou  em 
janota!»  —  Mas  nos  íins  d'Abril  uma  noticia  de  re- 
pente alvoroçou  Villa-Clara,  espantou  na  quieta  Oli- 
veira os  rapazes  do  Club  e  da  Arcada,  perturbou 
tão  inesperadamente  Gracinha,  então  em  Amarante 
com  o  Barròlo,  que  n'essa  noite  ambos  abalaram  para 
Lisboa  —  e  na  Torre  atirou  a  Rosa  para  um  banco 
de  pedra  da  cosinha,  lavada  em  lagrimas,  sem  com- 
prehender,  gemendo : 

—  Ai  o  meu  rico  menino,  o  meu  rico  menino, 
que  o  não  torno  mais  a  ver! 

Gonçalo  Mendes  Ramires,  silenciosamente,  quasi 
mysteriosamente,  arranjara  a  concessão  d"um  vasto 
praso  de  Macheque,  na  Zambezia,  hypothecára  a  sua 
quinta  histórica  de  Treixedo,  e  embarcava  em  co- 
meços de  Junho  no  paquete  Portugal,  com  o  Bento, 
para  a  Africa. 


XII 


Quatro  annos  passaram  ligeiros  e  leves  sobre  a 
velha  Torre,  como  voos  d'ave. 

lN'Lima  doce  tarde  dos  fins  de  Septembro,  Gra- 
cinha, que  chegara  na  véspera  de  Oliveira  acom- 
panhadq  peio  bom  Padre  Sueiro,  descansava  na  va- 
randa da  sala  de  jantar,  estendida  sobre  o  canapé 
de  palhinha,  ainda  com  um  grande  avental  branco, 
tapando  o  vestido  até  ao  pescoço,  ura  velho  avental 
do  Bento.  Todo  o  dia,  d'avental,  atravez  do  casarão, 
ajudada  pela  Rosa  e  pela  filha  da  Crispola,  s'esfalfára, 
arrumando  e  limpando,  com  tanto  gosto  e  fervor  no 
trabalho,  que  ella  mesma  sacudira  o  pó  a  todos  os 
livros  da  livraria,  o  sou  socegado  pó  de  quatro  an- 
nos. O  Barròlo  também  se  occupára,  dando  senten- 
ças nas  obras  da  cavallariea,  que  a  valente  egoa  da 
briga   da   Grainha   em   breve  partilharia   com   uma 


520  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


egoa  ingleza,  de  meio  sangue,  comprada  em  Lon- 
dres. Também  Padre  Sueiro  remexera,  pelo  Archivo, 
zelosamente,  com  um  espanejador.  E  até  o  Pereira 
da  Riosa,  o  bom  rendeiro,  apressava  desde  madru- 
gada dois  moços  na  final  limpeza  da  horta,  agora 
muito  cuidada,  já  com  meloal,  já  com  morangal,  e 
duas  novas  ruas,  ambas  bordadas  de  roseiras  e  re- 
cobertas de  latada  que  a  parra  densa  já  recobria. 

Com  eíTeito  a  Torre,  entre  a  alvoroçada  alegria 
de  todos,  enfeitava  a  sua  velhice — por  que  no  Domin- 
go, depois  dos  seus  quatro  annos  d' Africa,  Gonçalo 
regressava  á  Torre. 

E  Gracinha,  estendida  no  canapé  com  o  seu  ve- 
lho avental  branco,  sorrindo  pensativamente  para  a 
quinta  silenciosa,  para  o  ceu  todo  corado  sobre  Val- 
verde, recordava  esses  quatro  annos,  desde  a  manhã 
em  que  abraçara  Gonçalo,  suííocada  e  a  tremer,  no 
beliche  do  Portugal...  Quatro  annos!  Assimx  passa- 
dos, e  nada  mudara  no  mundo,  no  seu  curto  mundo 
d'entre  os  Cunhaes  e  a  Torre,  e  a  vida  rolara,  e  tão 
sem  historia  como  rola  um  rio  lento  n"uma  solidão: 
—  Gonçalo  na  Africa,  na  vaga  Africa,  mandando  ra- 
ras cartas,  mas  alegres,  e  com  um  enthusiasmo  de 
fundador  de  Império;  ella  nos  Cunhaes,  e  o  seu  Bar- 
rôlo,  n"um  tão  quieto  e  costumado  viver,  que  eram. 
quasi  d" agitação  os  jantares  em  que  reuniam  os  INIeu- 
donças,  os  ^larges,  o  coronel  do  7,  outros  amigos,  e 


A  lUXSTRE  CASA  DE  RAMIRES  o21 


á  noite  na  sala  se  abriam  duas  mezas  de  panno  ver- 
de para  o  voltarete  e  para  o  boston. 

E  n'este  manso  correr  de  vida  se  desfizera  man- 
samente, qaasi  insensivelmente,  a  sombria  tormenta 
do  seu  coração.  Nem  ella  agora  comprehendia  como 
um  sentimento,  que  atravez  das  suas  anciedades  ella 
justificava,  quasi  secretamente  santificava  por  o  saber 
único,  e  o  desejar  eterno,  assim  se  sumira,  insensi- 
velmente, sem  dilacerações,  deixara  apenas  um  leve 
arrependimento,  alguma  esfumada  saudade,  também 
estranheza  e  confusão,  restos  de  tanto  que  ardera, 
formando  uma  cinza  fina...  A  successâo  das  cousas 
rolara,  como  o  vento  ás  lufadas  n'um  campo,  e  ella 
rolara,  íexada  com  a  inércia  d'uma  folha  secca. 

Logo  depois  do  derradeiro  Natal  passado  com 
Gonçalo,  André,  que  ainda  os  acompanhara  á  Missa 
do  Gallo  e  consoara  nos  Cunhaes,  voltou  para  Lisboa, 
para  essa  «Pieforma»,  de  que  se  lastimava...  No  si- 
lencio que  entre  ambos  então  se  alargou,  corria  já 
uma  frialdade  d'abandono...  E  quando  André  reco- 
lheu, a  Oliveira,  ao  seu  Governo  Civil,  partia  ella 
para  Amarante,  onde  a  santa  mãe  do  Barrôlo  adoe- 
cera, com  uma  vagarosa  doença  d"anemia  e  velhice, 
que  em  iMaio  a  levou  para  o  Senhor. 

Em  Junho  fura  o  com  movido  embarque  de  Gon- 
çalo para  a  Africa, —  e  no  tombadilho  do  paquete,  en- 
tre o  barulho  e  as  bagagens,  um  encontro  com  An- 


A  ÍLLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


dré,  que  chegara  d'01iveira,  dias  antes,  e  contou 
muito  alegremente  do  casamento  da  Mariquinhas 
Marges.  Todo  esse  verão,  como  o  Barrôlo  decidira  fa- 
zer obras  consideráveis  no  velho  palacete  do  Largo 
d'El-Rei,  o  passaram  na  quinta  da  Blurtosn,  que  ella 
escolhera  por  causa  da  linda  matta,  dos  altos  muros 
de  convento.  A  essa  solidão  attribuiu  logo  o  Barrôlo 
a  sua  melancolia,  a  sua  magreza,  aquelle  cansado 
scismar  a  que  se  abandonava,  pelos  bancos  musgo- 
sos da  matta,  com  um  romance  esquecido  no  regaço. 
Para  que  ella  se  distrahisse,  se  íortificasse  com  ba- 
nhos do  mar,  alugou  em  Setembro,  na  Costa,  o  vis- 
toso chalet  do  commendador  Barros.  Ella  não  tomou 
banhos,  nem  apparecia  na  praia,  á  fresca  hora  das 
barracas,  entre  as  senhoras  sentadas  em  cadeirinhas 
baixas:  —  e  só  á  tarde  passeava  pelo  comprido  areal, 
rente  á  vaga,  acompanhada  por  dous  enormes  gal- 
gos que  lhe  dera  Manoel  Duarte.  Uma  manhã,  ao  al- 
moço, ao  abrir  as  Novidades,  Barrôlo  pulou,  com 
um  berro,  um  espanto.  Era  a  queda  inesperada  do 
Ministério  do  S.  Fulgencio!  André  Cavalleiro  apre- 
sentava logo  a  sua  demissão  pelo  telegrapho.  E  ain- 
da pelas  Novidades  souberam  na  Costa  que  S.  Ex.'' 
partira  para  uma  «longa  e  pittoresca  viagem»,  a 
viagem  a  Constantinopla,  á  Ásia  Menor,  que  elle  an- 
nunciára  ao  jantar  nos  Cunhaes.  Ella  abrira  um 
Atlas:   com   o  dedo  lento  caminhou  desde  Oliveira 


A   ILLUSTHK  T.ASA  DK  HAMIUKS  323 


até  á  Syria,  por  sobre  fronteiras  o  montes:  já  An- 
dré lhe  parecia  desvanecido,  n'esses  horisontes  mais 
luminosos;  fechou  o  Atlas,  pensando  simplesmente 
«como  a  gente  umda!» 

Em  Novembro  voltaram  a  Oliveira,  n'um  sabba- 
do  de  chuva,  e  ella  na  carruagem  sentia  toda  a  me- 
lancolia e  a  Irialdade  do  ceu  penetrar  no  seu  coração. 
Mas  no  Domingo  acordou  com  um  lindo  sol  nas  vi- 
draças. Para  a  missa  das  onze  na  Sé,  ella  estreou 
um  chapéo  novo;  depois,  no  caminho  para  casa  da 
tia  Arminda,  levantou  os  olhos  para  o  casarão  do 
Governo  Civil:  agora  habitava  lá  outro  Governador 
Civil,  o  Snr.  Santos  Maldonado,  um  moço  louro  que 
tocava  piano. 

Na  outra  primavera  o  Barríjlo,  agora  escravi- 
sado  pela  paixão  d'obras,  imaginou  demolir  o  Mi- 
rante para  construir  outra  estufa,  mais  vasta,  com 
um  repuxo  entre  palmeiras,  que  formaria  «  um  jar- 
dim d"inverno  catita.» 

Os  trabalhadores  começaram  por  esvasiar  o  Mi- 
rante da  velha  mobilia  que  o  guarnecia  desde  o  tem- 
po do  tio  Melchior:  o  immenso  divan  jazeu  dois  dias 
no  jardim,  encalhado  contra  uma  sebe  de  buxo,  e  o 
Barrôlo,  impaciente,  com  aquelle  desusado  traste,  de 
molas  quebradas,  nem  o  consentiu  nas  arrecadações 
do  sótão,  mandou  (jue  o  queimassem  com  outras 
cadeiras  partidas,  n'uma  íogueira  de  festa,  na  nouto 


Uâi  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


dos  annos  de  Gracinha.  E  ella  andou  em  torno  da 
fogueira.  O  estofo  poido  ílammejou,  depois  o  mogno 
pesado  mais  lentamente,  com  um  leve  fumo,  até  que 
uma  braza  ficou  latejando,  e  a  braza  escureceu  em 
cinza. 

Logo  n'essa  semana  as  Lousadas,  mais  agudas, 
mais  escuras,  invadiram  uma  tarde  os  Cunhaes — e 
apenas  espetadas  no  sophá,  logo  lhe  contaram,  com 
um  riso  feroz  nos  olhinhos  íurantes,  do  grande  es- 
cândalo, o  Cavalleiro!  em  Lisboa!  sem  rebuço!  com 
a  mulher  do  Conde  de  S.  Piomâo!  um  fazendeiro  de 
Cabo  Verde! 

N'essa  noite,  ella  escreveu  a  Gonçalo  uma  carta 
muito  longa  que  começava:  —  «Por  cá  estamos  to- 
dos bem,  e  n'este  rame-ram  costumado...»  E  com 
effeito  a  vida  recomeçara,  no  seu  rame-ram,  simples, 
continua,  e  sem  historia,  como  corre  um  rio  claro 
n*uma  solidão. 

Á  porta  envidraçada  da  varanda  o  filho  da  Cris- 
pola  espreitou  —  o  filho  da  Crispola,  que  ficara  sem- 
pre na  Torre,  como  «andarilho»,  mas  crescera  muito 
para  fora  da  sua  antiga  jaqueta  de  botões  amarellos, 
usava  agora  jaquetões  velhos  do  Snr.  Doutor,  e  já 
repuxava  o  buço: 

—  É  que  está  lá  em  baixo  o  Snr.  António  Villa- 
lobos,  com  o  Snr.  Gouveia  e  outro  senhor,  o  Videi- 
rinha,  e  perguntam  se  podem  failar  á  senhora... 


A  ILLl'STKE  CASA  DE  RAMIRES  525 


—  O  Snr.  Villalobos!  Sim!  que  subam,  que  en- 
trem para  aqui,  para  a  varanda! 

Ao  atravessar  a  sala,  onde  dous  esteireiros  d'01i- 
veira  pregavam  uma  esteira  nova,  o  vozeirão  do  Tito 
já  ribombava,  notando  os  «preparativos  da  íesta...» 
E  quando  entrou  na  varanda  a  sua  íace  mais  bar- 
buda, mais  requeimada,  rebrilhava  com  a  alegria 
d'encontrar  emfim  a  Torre  despertando  d'aquella 
modorra,  em  que  tudo  dentro  parecia  tristemente 
apagado,  até  o  lume  das  caçarolas: 

—  Peço  desculpa  da  invasão,  prima  Graça.  Mas 
passamos,  de  volta  d'um  passeio  dos  Bravaes,  soube- 
mos que  a  prima  viera  com  o  Barrôlo... 

—  Oh!  gosto  immenso,  primo  António.  Eu  é  que 
peço  desculpa  d'esta  figura,  assim  despenteada,  de 
grande  avental...  Mas  todo  o  dia  em  arranjos,  a 
preparar  a  casa  . . .  E  o  Snr.  Gouveia,  como  tem  pas- 
sado? Não  o  vejo  desde  a  Paschoa. 

O  administrador,  que  não  mudara  n'esses  qua- 
tro annos,  escuro,  secco,  como  feito  de  madeira,  sem- 
pre esticado  na  sobrecasaca  preta,  apenas  com  o  bi- 
gode mais  amarellado  do  cigarro,  agradeceu  á  Snr.* 
D.  Graça . . .  E  passara  menos  mal,  desde  a  Paschoa. 
A  não  ser  a  desavergonhada  da  garganta . . . 

—  E  então  o  nosso  grande  homem?  quando  che- 
ga? quando  chega? 

—  No  Domingo.   Estamos  todos  em  alvoroço... 


o2G  A  ÍLLUSTRE  CASA   PR  lUMIUliS 


Então  não  se  senta,  Snr.  Videira?  Olhe,  puxe  aquella 
cadeira  de  vime.  A  varanda  por  ora  não  está  arran- 
jada. 

Videirinha,  logo  depois  da  Eleição,  recebera  de 
Gonçalo  o  logar  promettido,  fácil  e  com  vagares, 
para  não  esquecer  o  violão.  Era  amanuense  na  Ad- 
ministração do  Concelho  de  Vilía-Clara.  Mas  convi- 
via ainda  na  intimidade  do  seu  chefe,  que  o  utilisava 
para  todos  os  serviços,  mesmo  de  enfermeiro,  e  o 
mandava  sempre  com  uma  auctoridade  secca,  mes- 
mo ceando  ambos  no  Gago. 

Timidamente  arrastou  a  cadeira  de  vime,  que 
collocou,  com  respeito,  atraz  da  cadeira  do  seu 
Cheíe.  E  depois  de  tirar  as  luvas  pretas,  que  agora 
sempre  trazia  para  realçar  a  sua  posição,  lembrou 
que  o  comboio  chegava  ao  apeadeiro  de  Craquède 
ás  dez  e  quarenta,  não  trazendo  atrazo.  Mas  talvez 
o  Snr.  Doutor  apeasse  em  Corinde,  por  causa  das 
bagagens . . , 

—  Duvido,  murmurou  Gracinha.  Em  todo  o  caso 
o  José  está  com  tenção  de  partir  de  madrugada,  para 
o  encontrar  na  biturcação,  em  Lamello. 

—  Nós  não!  acudiu  o  Tito,  que  se  sentara  fami- 
liarmente no  rebordo  da  varanda.  Cá  o  nosso  rancho 
vae  simplesmente  a  Craquède.  Já  é  terra  da  familia, 
e  sitio  mais  socegado  para  o  vivorio...  ÍMas  então 
esse  homem  não  se  demorou  em  Lisboa,  prima  Graça? 


A    FLLLSTItE   CASA    DE   HA  MIRES  527 


—  Desde  Domingo,  primo  António.  Chegou  no 
Domingo,  de  Paris,  pelo  Sud-Express.  E  teve  ama 
chegada  brilhante...  Oh!  muito  brilhante!  Hontem 
recebi  eu  uma  carta  da  Maria  Mendonça,  uma  gran- 
de carta  em  que  conta... 

— O  que?  A  prima  Maria  Mendonça  está  era 
Lisboa  ? 

—  Sim,  desde  os  fins  d'Agosto,  n"uma  visita  a 
D.  Anna  Lucena... 

Vi\amente,  João  Gouveia  puxou  a  cadeira,  n'uma 
curiosidade  que  do  certo  o  remoera: 

—  É  verdade,  Snr."^  D.  Graça! — Então  parece  que 
a  D.  Anna  Lucena  couiprou  uma  casa  em  Lisboa, 
anda  em  arranjos  do  mobilia?.. .  ^^  Ex."  ouviu,  Snr.*^ 
D.  Graça? 

Não,  Gracinha  não  sabia.  Mas  era  natural,  agora 
que  tanto  se  demorava  em  Lisboa,  pouco  se  apro- 
veitava da  FeiloisQ,  tão  linda  quinta... 

—  Então  casa!  exclamou  o  Gouveia,  com  im- 
mensa  convicção.  Se  anda  em  arranjos  de  mobilia, 
então  casa.  É  naturai,  quer  posição.  Depois,  já  lá  vão 
quatro  annos  de  viuvez,  e... 

Gracinha  sorriu.  Mas  o  Tito,  que  coçava  lenta- 
mente a  barba,  voltou  á  carta  da  prima  Maria  Men- 
donça, contando  a  chegada. 

—  Sim!  acudiu  Gracinha,  conta,  esteve  na  Es- 
tação, no  Rocio.  Parece  que  o  Gonçalo  óptimo,  mais 


A  ILLUSTRE  CXSA  DE  RAMIRES 


íorte...  Olhe,  primo  António,  leia  a  carta.  Leia  alto! 
Não  tem  segredos.  É  toda  sobre  o  Gonçalo... 

Tirara  do  bolso  um  pesado  enveloppe,  com  si- 
nete d'armas  no  lacre.  Mas  a  prima  Maria  escrevia 
sempre  depressa,  n'uma  lettra  atabalhoada,  com  as 
linhas  crasadas.  Talvez  o  primo  António  não  com- 
prehendesse...— E  com  effeito,  deante  das  quatro  fo- 
lhas de  papel  erriçadas  de  negras  linhas,  parecendo 
uma  sebe  espinhosa,  o  Tito  recuou,  aterrado.  Mas  o 
João  Gouveia  immediatamente  se  offereceu,  com  a 
sua  pericia  em  decifrar  officios  de  regedores...  Não 
havendo  segredos. 

—  Não,  não  ha  segredos,  afiançou  Gracinha,  rin- 
do. É  unicamente  sobre  o  Gonçalo,  como  n'um  jor- 
nal. 

O  administrador  folheou  a  immensa  carta,  pas- 
sou os  dedos  sobre  o  bigode,  com  certa  solemnidade : 

«Minha  querida  Graça...  A  costureira  do  Silva 
«diz  que  o  vestido...» 

—  Não!  acudiu  Gracinha.  É  na  outra  pagina,  no 
alto.  Volte  a  pagina. 

Mas  o  Administrador  gracejou,  ruidosamente. 
Oh!  está  claro,  carta  de  senhora,  logo  os  trapos...  E 
a  Snr."  D.  Graça  a  assegurar  que  era  toda  sobre 
Gonçalo.  Pois  já  veriam  se  pelo  meio  se  não  fal- 
lava  ainda  em  vestidos...  Ah!  estas  senhoras,  com 


A  ILUSTRE-  CASA  DE  RAMIRES  o20 


OS  trapos!... —  Depois  recomeçou,  na  outra  pagina, 
com  lentidão  e  gravidade: 

«...  Deves  agora  estar  anciosa  por  saber  da 
«grande  chegada  do  primo  Gonçalo.  Foi  realmente 
«brilhante,  e  parecia  uma  recepção  de  pessoa  real. 
«Éramos  mais  de  trinta  amigos.  Está  claro,  appareceu 
«toda  a  roda  da  nossa  parentella;  e  se  rebentasse  de 
«repente  n'essa  manhã  uma  revolução,  os  Republica- 
«nos  apanhavam  alli  junta,  na  estação  do  Rocio,  toda 
«  a  flor  da  nobresa  de  Portugal,  da  velha,  da  boa.  De 
«senhoras,  era  a  prima  Chellas,  a  tia  Louredo,  as 
«duas  Esposendes  (com  o  tio  Esposende,  que  apesar 
«do  rheumatismo  e  da  vindima,  veiu  expressamente 
«da  quinta  de  Torres),  e  eu.  Homens,  todos.  E  co- 
«mo  estava  o  Conde  de  Arega,  que  é  secretario  d"El- 
«  Rei,  e  o  primo  Olhalvo,  que  é  o  seu  Mordomo-Mór, 
«e  o  Ministro  da  INIarinha  e  o  ^Ministro  das  Obras 
«Publicas,  ambos  condiscípulos  e  Íntimos  de  Gon- 
«çalo,  as  pessoas  na  estação  deviam  imaginar  que 
«chegava  El-Rei.  O  Sud-Express  trouxe  quarenta  mi- 
«nutos  de  demora.  De  modo  que  parecia  um  salão, 
«com  toda  aquella  gente  da  sociedade,  muito  ale- 
« gre,  e  o  primo  Arega,  sempre  tão  amável  e  engra- 
«çado,  e  fazendo  já  convites  para  um  jantar  (que 
«depois  deu)  ao  primo  Gonçalo.  Lá  fui  a  esse  jantar 
«com  o  meu  vestido  verde,  novo,  que  ficou  bem.  .. 

Gouveia  gritou  triumphando: 

34 


J.30  A  ILLLSTIiE  CAS.V  DE  UAMIUES 


—  Hein?  que  disse  eu?!  cá  está  vestido.  Vestido 
verde ! 

—  Lê  para  deante,  homem!  bramou  o  Tito. 

E  o  Administrador,  realmente  interessado,  reco- 
meçou, com  entono : 

a . . .  com  o  meu  vestido  verde  novo,  excepto 
«  a  saia,  um  pouco  pesadota.  Creio  que  fui  eu  a  pri- 
ameira  que  avistou  o  primo  Gonçalo,  na  platatorma 
«  do  Sud-Express.  Não  imaginas  como  vem . . .  opti- 
«rao!  Até  mais  bonito,  e  sobretudo  mais  homem.  A 
«Africa  nem  de  leve  lhe  tostou  a  pelle.  Sempre  a 
«mesma  brancura.  E  d' uma  elegância,  d"um  apuro! 
«Prova  de  como  se  adeanta  a  civilisaçâo  d'Africal 
«dizia  o  primo  Arega,  este  é  estylo  novo  de  tangas 
«em  Macheque!»...  Como  imaginas,  muito  abraço, 
«muita  beijoca.  A  tia  Louredo  choramigou.  Ah,  já 
«esquecia!  Estava  também  o  Visconde  de  Rio-Manso, 
«com  a  filha,  a  Rosinha.  Muito  linda  ella,  com  um 
«vestido  do  Redfern,  fez  sensação.  Todos  me  per- 
«guntavam  quem  era,  e  o  conde  d' Arega,  está  claro, 
«logo  com  appetite  de  ser  apresentado.  O  Rio-Manso 
«também  choramigou  ao  abraçar  o  primo  Gonçalo. 
oE  ali  viemos  todos,  em  nobre  séquito,  pela  estação 
«fora,  entre  o  pasmo  dos  povos.  Mas  immediatamente 
«uma  scena.  De  repente,  no  meio  de  toda  aquella 
«nata  de  brazões,  o  primo  Gonçalo  rompe  e  cabe 
«nos  braços  do  homcmzinho  de  bonet  agaloado  que 


A  ILÍASTUE  CASA  DE  RAMIRES  iÍ'M 


«recebia  á  porta  os  bilhetes.  Sempre  o  mesmo  Gon- 
«çalo!  Parece  que  o  conheceu  ao  chegar  a  Lourenço 
«Marques,  onde  o  homem  tratava  de  se  estabele- 
«cer  como  photographo.  Mas  já  esquecia  o  melhor 
a  —  o  Bento!  Não  imaginas  o  Bento...  Magnifico! 
«Deixou  crescer  um  bocado  de  suissa.  É  um  modelo, 
«vestido  em  Londres,  do  grande  casaco  de  viagem 
«de  panno  claro,  até  aos  pés,  luvas  amarelladas,  gra- 
«vidade  immensa.  Gostou  de  me  vêr  na  estação — 
«perguntou  logo,  com  o  olho  húmido,  pela  Snr.*'' 
«  D.  Graça,  e  pela  Rosa.  Á  noite,  o  José  e  eu  janta- 
«  mos  em  familia,  com  o  primo  Gonçalo,  no  Bragança, 
«para  conversar  da  Torre  e  dos  Cunhaes.  Elle  contou 
«muitas  cousas  interessantes  d"  A  trica.  Traz  notas 
«para  um  livro,  e  parece  que  o  praso  prospera.  N'es- 
«tes  poucos  annos  plantou  dois  mil  coqueiros.  Tem 
«também  muito  cacau,  muita  borracha.  Gallinhas 
«são  aos  milhares.  É  verdade  que  uma  gallinha  gor- 
«da  em  Macheque  vale  um  pataco.  Que  inveja!  Aqui 
«em  Lisboa  custa  sois  tostões,  só  com  ossos  —  por 
«que  tendo  também  alguma  carne  no  peito,  salta 
«para  cá  dez  tostões,  e  agradece!  No  praso  já  se 
«construiu  uma  grande  casa,  próximo  do  rio,  com 
«vinte  janellas  e  pintada  de  azul.  E  o  primo  Gou- 
«çalo  declara  que  já  não  vende  o  praso  nem  por  oi- 
« tenta  contos.  Para  felicidade  completa  até  achou 
«um  excellente   administrador.   Eu  todavia   duvido 


0.32  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


«que  elle  volte  para  a  Africa.  Tenho  agora  cá  a  mi- 
«nha  linda  ideia  sobre  o  futuro  do  primo  Gonçalo. 
«Talvez  te  rias.  E  não  adivinhas...  com  effeito,  eu 
«mesma  só  n'essa  noite  em  que  jantamos  no  Bra- 
« gança,  recebi  de  repente  a  inspiração.  O  Rio-i\lanso 
«está  também  no  Bragança.  Quando  descíamos  para 
«o  jantar,  para  um  gabinete,  encontramos  no  corre- 
«dor  o  velho  com  a  pequena,  O  homem  tornou  logo 
«a  abraçar  Gonçalo,  com  uma  ternura  de  pae.  E  a 
«Rosinha  tão  vermelha  se  tez,  que  até  Gonçalo,  ape- 
«sar  de  excitado  e  distrahido,  notou  e  corou  de  leve. 
«Parece  que  já  ha  entre  elles  um  conhecimento  an- 
«tigo,  por  causa  d'um  cesto  de  rosas,  e  que,  desde 
«  annos,  o  Destino  os  anda  surrateiramente  chegando. 
«EUa  é  realmente  uma  belleza.  E  tão  sympathica, 
«tão  bem  educada!...  Difíerença  d'edade,  apenas  onze 
«annos;  e  o  dote  tremendo.  Faliam  em  quinhentos 
«contos.  Ha  apenas  a  questão  de  sangue  e  o  d'ella, 
«  coitadinha  . . .  Emfim,  como  se  diz  em  heráldica, — 
«o  Rei  faz  a  pastora  Rainka.yy  E  os  Ramires,  não 
«só  vem  dos  Reis,  mas  os  Reis  vem  dos  Ramires.— 
«E  agora  passando  a  assumpto  menos  interessante...» 
Discretamente  João  Gouveia  dobrou  a  carta,  que 
entregou  a  Gracinha,  louvando  a  Snr.**  D.  Maria  Men- 
donça como  um  «repórter»  precioso.  Depois,  com 
um  cumprimento : 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  '}X\ 


—  E,  minha  senhora,  se  as  previsões  d'elia  se 
realisam . . . 

Mas  não!  Gracinha  nâo  acreditava!  Ora!  imagi- 
nações da  Maria  Mendonça. 

—  O  primo  António  bem  a  conhece,  sabe  como 
ella  é  casamenteira . . . 

—  Pois  se  até  a  mim  me  quiz  casar,  ribombou 
o  Tito  saltando  do  rebordo  da  varanda.  Imagine  a 
prima...  Até  a  mim!  Com  a  viuva  Pinho,  da  loja  de 
pannos. 

—  Credo! 

Mas  o  Gouveia  insistia,  com  superioridade,  um 
sentimento  verdadeiro  da  vida  positiva : 

—  Olhe,  Snr.*  D.  Graça,  acredite  V.  Ex.^,  sem- 
pre era  melhor  arranjo  para  o  Gonçalo  que  a  Afri- 
ca.. .  Eu  nâo  acredito  n"esses  prazos . . .  Nem  na 
Africa.  Tenho  horror  á  Africa.  Só  serve  para  nos  dar 
desgostos.  Boa  para  vender,  minha  senhora!  A  Africa 
é  como  essas  quintarolas,  meio  a  monte,  que  a  gente 
herda  d' uma  tia  velha,  n'uma  terra  muito  bruta, 
muito  distante,  onde  nâo  se  conhece  ninguém,  onde 
não  se  encontra  sequer  um  estanco;  só  habitada  por 
cabreiros,  e  com  sezões  todo  o  anno.  Boa  para  ven- 
der. 

Gracinha  enrolava  lentamente  nos  dedos  a  fita 
do  avental: 

—  O  quê!  vender  o  que  tanto  custou  a  ganhar. 


y3i  A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


com  tantos  trabalhos  no  mar,  tanta  perda  de  vida  e 
íazenda?! 

O  Administrador  protestou  logo,  com  calor,  j.l 
enristado  para  a  controvérsia: 

—  Quaes  trabalhos,  minha  senhora?  Era  desem- 
barcar alli  na  areia,  plantar  umas  cruzas  de  pau,  ati- 
rar uns  safanões  aos  pretos  . . .  Essas  glorias  d' Africa 
são  balelas.  Está  claro,  V.  Ex."*  falia  como  fidalga, 
neta  de  fidalgos.  Mas  eu  como  economista.  E  digo 
mais. . . 

O  seu  dedo  agudo  ameaçava  argumentos  agu- 
dos. 

Tito  acudiu,  salvou  Gracinha : 

—  Oh  Gouveia,  nós  estamos  a  tirar  o  tempo  á 
prima  Graça,  que  anda  nos  seus  arranjos.  Essas 
questões  d'Aírica  sâo  para  depois,  com  o  Gonçalo, 
á  sobremeza...  E  então,  minha  querida  prima,  até 
Domingo,  em  Craquède.  Lá  comparece  o  rancho  todo. 
E  quem  atira  os  íoguetes  sou  eu! 

Mas  Gouveia,  cofiando  o  coco  com  a  manga, 
ainda  esperava  converter  a  Snr."  D.  Graça  ás  ideias 
sãs,  sobre  Politica  Colonial. 

—  Era  vender,  minha  senhora,  era  vender!  Ella 
sorria,  já  consentia  —  tomando  a  mão  do  Videirinha, 
que  hesitava,  com  os  dedos  espetados: 

—  E  então,  Snr.  Videira,  tem  agora  algumas  qua- 
dras novas  para  o  Fadol 


A  ILLUSTRE  CASA  DE  RAMIRES  535 


Corando,  Videirinha  balbuciou  que  «arranjara 
uma  coisita,  também  n'um  fado,  para  a  volta  do  Snr. 
Doutor.»  Gracinba  prometteu  decorar,  para  cantar 
ao  piano. 

—  Muito  agradecido  a  V.  Ex.''...  Creado  de 
V.  Ex." . . . 

—  Então  até  Domingo,  primo  António...  Está 
uma  tarde  linda. 

—  Até  Domingo,  em  Craquède,  prima. 

Mas  á  porta  envidraçada,  João  Gouveia  parou 
mais  teso,  bateu  na  testa: 

—  Já  me  esquecia,  desculpe  V.  Ex." !  Recebi 
uma  carta  do  André  Cavalleiro,  da  Figueira  da  Foz. 
Manda  muitas  saudades  ao  Barrôlo.  E  quer  saber  se 
o  Barrôlo  lhe  poderia  ceder  d'aquelle  vinho  verde 
de  Vidainhos.  É  também  para  um  africanista,  para  o 
conde  de  S.  Romão . . .  Parece  que  a  Snr.^  condessa 
se  péla  por  vinho  verde! 

E  os  três  amigos,  em  fila,  atravessaram  a  sala 
de  jantar,  onde  o  vozeirão  do  Tito  ainda  ribombou, 
louvando  a  esteira  nova  de  cores.  No  corredor,  Vi- 
deirinha espreitou  para  a  Livraria,  notou  o  molho 
de  penas  de  pato  espetado  no  velho  tinteiro  de  la- 
tão, que  esperava,  rebrilhando  solitariamente  sobre 
a  mesa  nua  sem  papeis  nem  livros.  Depois  a  Rosa 
appareceu  á  porta  do  quarto  de  Gonçalo,  ajoujada 
de  roupa,  com  um  riso  em  cada  ruga  da  sua  lace 


o36  A  ILLLSTRE  CASA  DE  R.\MmES 


redonda  e  côr  de  tijolo,  que  o  íarto  lenço  de  cam- 
braia, muito  branco,  circumdava  como  um  nimbo.  O 
Tito  afíagou  carinhosamente  o  hombro  da  boa  cosi- 
nheira : 

—  Então,  tia  Rosa,  agora  recomeçam  essas  gran- 
des petisqueiras,  hein? 

—  Louvado  seja  Deus,  Snr.  D.  António  1  Que  ima- 
ginei que  não  tornava  a  vèr  o  meu  rico  senhor. 
Também  já  tinha  decidido ...  Se  me  enterrassem  o 
corpo  aqui  em  Santa  Ireneia,  antes  de  eu  vêr  o  me- 
nino, a  alma  com  certesa  ia  á  Africa  para  lhe  íazer 
uma  visita. 

Os  seus  miúdos  olhos  piscaram,  lagrimejando 
de  gosto  —  e  seguiu  pelo  corredor,  tesa  e  decidida, 
com  a  sua  trouxa  que  rescendia  a  maçã  camoeza.  O 
Gouveia  murmurara  com  uma  careta:  —  «Safa!»  E 
os  três  amigos  desceram  ao  pateo  onde,  por  curiosi- 
dade do  Tito,  visitaram  as  obras  da  cavallariça. 

—  Veja  você!  exclamou  elle  para  o  Gouveia,  que 
accendia  o  charuto.  Você  a  negar!...  Mobílias,  obras, 
egoa  ingleza...  Tudo  já  dinheiro  d'Aírica. 

O  Administrador  encolheu  os  hombros : 

—  Veremos  depois  como  elle  traz  o  fígado... 
Deante  do  portão   o  Tito  ainda  parou  a  colher, 

na  roseira  costumada,  uma  rosinha  para  florir  o  ja- 
quetão de  velludilho=  E  juntamente  entrava  o  Padre 
Sueiro,   recolhendo  d'uma  volta  pelos  Bravaes,  com 


A  ILLLSTRE  CASA  DE  RAMIRES  o37 


O  seu  grande  guarda-sol  de  panninho  e  o  seu  bre- 
viário. Todos  acolheram  com  carinho  o  santo  e  douto 
velho,  tão  raro  agora  na  Torre. 

—  E  então  no  Domingo,  cá  temos  o  nosso  ho- 
mem. Padre  Sueiro! 

O  capellâo  achatou  sobre  o  peito  a  mão  gorda, 
com  reverencia,  com  gratidão... 

—  Deus  ainda  me  quiz  conceder,  na  minha  ve- 
lhice, mais  esse  grande  íavor . . .  Pois  mal  o  esperava. 
Terras  tão  ásperas,  e  elle  tão  delicado... 

E  para  conversar  de  Gonçalo,  da  espera  em  Cra- 
quêde,  acompanhou  aquelles  senhores  até  á  ponte 
da  Portella.  João  Gouveia  manquejava,  aperreado  por 
umas  infames  botas  novas  que  n"essa  manhã  es- 
treara. E  descançaram  um  momento  no  bello  banco 
de  pedra  que  o  pae  de  Gonçalo  mandara  collocar. 
quando  Governador  Civil  d"01iveira.  Era  esse  o  doce 
sitio  d'onde  se  avista  Villa-Clara,  tão  aceada,  sempre 
tão  branca,  áquella  hora  toda  rosada,  d'esde  o  vasto 
convento  de  Santa  Theresa  até  ao  muro  novo  do 
cemitério  no  alto,  com  os  seus  finos  cyprestes. 

Para  além  dos  outeiros  de  Valverde,  longe,  so- 
bre a  Costa,  o  sol  descia,  vermelho  como  um  metal 
candente  que  arrefece,  entre  nuvens  vermelhas,  ac- 
cendendo  ainda,  em  ouro  coruscante,  as  janellas  da 
Villa. 

Ao   íundo   do  valle,   uma  claridade  nimbava  as 


o38  A   ILUSTRE  CASA  DE  RAMIRES 


altas  ruinas  de  Santa  Maria  de  Craquêde,  entre  o 
seu  denso  arvoredo.  Sob  o  arco,  o  rio  cheio  corria 
sem  unm  rumor,  já  dormente  na  sombra  dos  chou- 
pos finos,  onde  ainda  pássaros  cantavam.  E  na  volta 
da  estrada,  por  cima  dos  alamos  que  escondiam  o 
casarão,  a  velha  Torre,  mais  velha  que  a  Villa  e  que 
as  ruinas  do  Mosteiro,  e  que  todos  os  casaes  espa- 
lhados, erguia  o  seu  esguio  miradoiro,  envolto  no 
vôo  escuro  dos  morcegos,  espreitando  silenciosamente 
a  planicie  e  o  sol  sobre  o  mar,  como  em  cada  tarde 
d'esses  mil  annos,  desde  o  Conde  Ordonho  Mendes. 

Um  pequeno  com  uma  alta  aguilhada  passou, 
recolhendo  duas  vaccas  lentas.  Do  lado  da  Villa,  o 
padre  José  Vicente  da  Finta  trotou  na  sua  egoa 
branca,  saudou  o  Snr.  Administrador,  o  amigo  Suei- 
ro,  abençoando  também  a  chegada  do  Fidalgo  para 
quem  já  preparara  uma  bella  cesta  da  sua  uva  mos- 
catel. Trez  caçadores,  com  uma  matilha  de  coelhei- 
ras, atravessaram  a  estrada,  descendo  pelo  portello 
á  quelha  que  contorna  o  casal  do  Miranda. 

Um  silencio  ainda  claro,  de  immenso  repouso, 
tão  doce  como  se  descesse  do  céu,  cobria  a  largueza 
povoada  dos  campos,  onde  não  se  movia  uma  íolha, 
na  macia  transparência  do  ar  do  Setembro.  Os  fu- 
mos das  lareiras  accesas  já  se  escapavam,  lentos  o 
leves,  d"entre  a  telha  rala.  Na  loja  do  João  ferreiro, 
adeante  da  Portella,  o  clarão  da  íorja  avivou,  mais 


A    ILLlSTIiE    CASA    DE    RAMir.ES  539 


vermelho.  Um  bu/n-bion  de  tambor  bateu  festiva- 
mente para  o  lado  dos  Bravaes,  cresceu  apressado, 
marchando:  —  n'algum  cabeço,  depois  lentamente  se 
afastou,  esmoreceu,  logo  sumido,  em  arvoredos  ou 
no  valle  mais  íimdo. 

João  Gouveia,  que  se  recostara  no  canto  do  largo 
assento  de  pedra,  com  o  seu  coco  sobre  os  joelhos, 
acenou  para  o  lado  dos  Bravaes: 

—  Estou  a  lembrar  aquella  passagem  do  romance 
do  Gonçalo,  quando  os  Ramires  se  preparam  para 
soccorrer  as  Infantas,  andam  a  reunir  a  mesnada.  É 
assim,  a  estas  horas  da  tarde,  com  tambores:  e  por 
sitios...  «Na  frescura  do  valle...»  Não!  «Pelo  valle 
de  Craquêde. . .»  Também  não!  Esperem  vocês,  que 
eu  tenho  boa  memoria...  Ah!  «E  por  todo  o  fresco 
valle  até  Santa  Maria  de  Craquêde,  os  atambores 
mouriscos  abafados  no  arvoredo,  tararam!  tararam! 
ou  mais  vivos  nos  cerros  ralatam!  ralatam!  convo- 
cavam á  mesnada  dos  Piamires,  na  doçura  da  tar- 
de.. .»  E  lindo! 

Por  sobre  as  costas  do  Tito  que,  debruçado,  ris- 
cava pensativamente  com  o  bengalão  a  poeira  da  es- 
trada, Videirinha  adeantou  para  o  seu  chefe  a  face 
estendida,  com  um  sorriso  de  fmura: 

—  Oh  Snr.  Administrador,  olhe  que  talvez  seja 
ainda  mais  bonito,  quando  os  Ramires  largam  a  per- 
seguir o  Bastardo!   Cá  para  mim,  tem  mais  poesia. 


SVO  A   ILLUSTRE    CASA   DE  RAMIRES 


Quando  o  velho  faz  aquella  jura  com  a  espada  e  de- 
pois lá  na  Torre,  muito  devagar,  começa  a  tocar  a 
finados  . . .  É  d'appetite ! 

Á  borda  do  assento,  encolhido  contra  o  Tito, 
para  que  o  Snr.  Administrador  se  alastrasse  confor- 
tavelmente, Padre  Sueiro,  com  as  mãos  no  cabo  do 
seu  guarda-soi,  concordou: 

—  Com  certesa!  são  lances  interessantes ., .  Com 
certesa !  N'aquel]a  novella  ha  imaginação  rica,  muito 
rica:  e  ha  saber,  ha  verdade. 

O  Tito,  que  depois  de  S/mão  de  Nantua,  em  pe- 
queno, não  abrira  mais  as  folhas  d'um  livro,  e  não 
lera  a  Torre  de  D.  Ramires,  murmurou,  com  um 
risco  mais  largo  na  poeira: 

—  Extraordinário,  aquelle  Gonçalo! 

O  Videirinha  não  findara  o  seu  enlevado  sor- 
riso : 

—  Tem  muito  talento...  Ah!  o  Snr.  Doutor  tem 
muito  talento. 

—  Tem  muita  raça!  exclamou  o  Tito,  levantando 
a  cabeça.  Eco  que  o  salva  dos  defeitos...  Eu  sou 
um  amigo  de  Gonçalo,  e  dos  firmes.  Mas  não  o  es- 
condo, nem  a  ello...  Sobretudo  a  elle.  Muito  leviano, 
amito  incoherente...  Mas  tem  a  raça  que  o  salva. 

—  E  a  bondade,  Snr.  António  Villalobos!  atalhou 
docemente  Padre  Sueiro.  A  bondade,  sobretudo  co- 
mo a  do  Snr.  Gonçalo,  também  salva...  Olhe,  ás  ve- 


A    ILLUSTRE    CASA    DE   RAMIRES  541 


zes  ha  um  homem  muito  serio,  muito  puro,  muito 
austero,  um  Catão  que  nunca  cumpriu  senão  o  de- 
ver e  a  lei . . .  E  todavia  ninguém  gosta  d'elle,  nem 
o  procura.  Por  que?  Por  que  nunca  deu,  nunca  per- 
doou, nunca  acarinhou,  nunca  serviu.  E  ao  lado  ou- 
tro leviano,  descuidado,  que  tem  defeitos,  que  tem 
culpas,  que  esqueceu  mesmo  o  dever,  que  oífendeu 
mesmo  a  lei...  ^Mas  quê?  É  amoravel,  generoso,  de- 
dicado, serviçal,  sempre  com  uma  palavra  doce,  sem- 
pre com  um  rasgo  carinhoso...  E  por  isso  todos  o 
amam,  e  não  sei  mesmo,  Deus  me  perdoe,  se  Deus 
também  o  não  pretere . . . 

A  curta  mão  que  acenara  para  o  ceu,  recahiu  so- 
bre o  cabo  d'osso  do  guarda-sol.  Depois,  e  corado  com 
a  temeridade  de  pensamento  tão  espiritual,  acudiu 
cautelosamente : 

—  Que  esta  não  é  propriamente  doutrina  da 
Egreja!...  Mas  anda  nas  almas;  anda  já  em  muitas 
almas. 

Então  João  Gouveia  abandonou  o  recosto  do 
banco  de  pedra  e  teso  na  estrada,  com  o  coco  á 
banda,  reabotoaudo  a  sobrecasaca,  como  sempre  que 
estabelecia  um  resumo: 

—  Pois  eu  tenho  estudado  muito  o  nosso  amigo 
Gonçalo  Mendes.  E  sabem  vocês,  sabe  o  Snr.  Padre 
Sueiro  quem  elle  me  lembra? 

—  Quem? 


612  A  ILLUSTUE  CASA  DE  RAMIRES 


—  Talvez  se  riam.  Mas  eu  sustento  a  semelhança. 
Aquelle  todo  de  Gonçalo,  a  franqueza,  a  doçura,  a 
bondade,  a  immensa  bondade,  que  notou  o  Snr.  Padre 
Sueiro ...  Os  fogachos  e  enthusiasmos,  que  acabam 
logo  em  fumo,  e  juntamente  muita  persistência,  mui- 
to aferro  quando  se  fila  á  sua  ideia...  A  generosida- 
de, o  desleixo,  a  constante  trapalhada  nos  negócios, 
e  sentimentos  de  muita  honra,  uns  escrúpulos,  quasi 
pueris,  não  é  verdade?...  A  imaginação  que  o  leva 
sempre  a  exaggerar  até  á  mentira,  e  ao  mesmo  tempo 
um  espirito  pratico,  sempre  attento  á  realidade  útil. 
A  viveza,  a  facilidade  em  coraprehender,  em  apa- 
nhar ...  A  esperança  constante  n"algum-  milagre,  no 
velho  milagre  d'Ouriquc,  que  sanará  todas  as  difíi- 
culdades...  A  vaidade,  o  gosto  de  se  arrebicar,  de 
luzir,  e  uma  simplicidade  tão  grande,  que  dá  na  rua 
o  braço  a  um  mendigo...  Um  fundo  de  melancolia, 
apesar  de  tão  palrador,  tão  sociável.  A  desconfiança 
terrível  de  si  mesmo,  que  o  acobarda,  o  encolhe,  até 
que  um  dia  se  decide,  e  apparece  um  heroe,  que 
tudo  arrasa...  Até  aquella  antiguidade  de  raça,  aqui 
pegada  á  sua  velha  Torre,  ha  mil  annos...  Até  agora 
aquelle  arranque  para  a  Africa...  Assim  todo  com- 
pleto, com  o  bem,  com  o  mal,  sabem  vocês  quem  elle 
me  lembra? 

—  Ouem?. . . 

—  Portugal. 


A  ILLUSTHE  CASA  DE  UAMIRES  543 


Os  tres  amigos  retomaram  o  caminho  de  Villa- 
Clara.  No  ceu  branco  uma  estrellinha  tremeluzia 
sobre  Santa  Maria  de  Craquêde.  E  Padre  Sueiro, 
com  o  seu  guarda-sol  sob  o  braço,  recolheu  á  Torre 
vagarosamente,  no  silencio  e  doçura  da  tarde,  ro- 
sando as  suas  Avè-Marias,  e  pedindo  a  paz  de  Deus 
para  Gonçalo,  para  todos  os  homens,  para  campos  e 
casaes  adormecidos,  e  para  a  terra  formosa  de  Por- 
tugal, tão  cheia  de  graça  amoravel,  que  sempre  bem- 
dita  fosse  entre  as  terras. 


FLM 


A  revisão  das  provas  d'este  livro,  desde  paginas  417  até  á 
conclusão,  não  foi  feita  pelo  Auctor.  Entretanto  seguiu-se  á  ris- 
ca o  original. 


?^_  Eca  ae  i.<,ueiroz,   José  inaria  de 

;j26l  A  ilustre   cesa  de  Ramires 

1900 
cop.<£ 


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